O Conto da Sweet and Dark Store

Prólogo

Existe um ciclo natural para cada indivíduo. Para ele, as coisas sempre tinham sido simples: havia de um lado o Paraíso, perdido e enlouquecido, de outro o Inferno, cínico e dramático, e entre ambos, a humanidade, pobres seres passageiros sendo peões na batalha de egos. Ele sempre gostou de se considerar um mero observador, mais inteligente do que os que eram manipulados e menos tolo do que os que conheciam o jogo e, ainda assim, jogavam. Sua alma imortal trocava de corpos e continuava sendo ela mesma, e seu hobby favorito era atiçar o caos naquela disputa, ciclo após ciclo. Não se considerava mal, talvez até fosse, mas não tinha ninguém que já tinha se aproximado dele o suficiente para julgar.

Demorou um tempo para que aquela alma percebesse o que tinha acontecido. Na verdade aquele ciclo tinha começado totalmente normal. Ele tinha morrido em uma briga como muitas vezes e renascido de uma humana como sempre sua raça havia feito. Não foi uma vida longa, às vezes acontecia isso, morrer antes que sua alma pudesse transformar aquele corpo humano e antes que ele reassumisse sua posição na sociedade. Sua alma saiu do corpo humano e seguiu o caminho natural, involuntário, aguardando uma nova humana para ser sua mãe, era quase tedioso. Mas então ele esperou abrir os olhos de novo no seu corpo novo e nada aconteceu. Havia algo errado. Ele não havia reencarnado e sua consciência vagava em algum lugar além do ciclo natural que ele conhecia.

Demorou, mas um dia ele sentiu em sua existência incorpórea um ruído familiar, distante e imaterial, mas ao mesmo tempo, reconfortante. Sua consciência seguiu aquele ruído e pela primeira vez em um tempo não contabilizado ele teve certeza de que havia solucionado seu problema, ele via adiante de si o mundo físico novamente, aquele ruído de origem desconhecida o havia guiado de volta. Mesmo sem um corpo ou qualquer referência de onde sua existência se iniciava e onde acabava, ele devorou a fonte do ruído e a transformou na energia que precisava para reencarnar. Escolheu uma humana, subjulgou a alma que ela carregava no ventre e pos os pés na grama novamente. Caminhou procurando os iguais a ele. Precisava saber o que tinha acontecido naquela guerra celestial tola mas altamente viciante no tempo que havia sumido, precisava relatar o que havia acontecido consigo e encontrar respostas. Mas andou em vão. Não haviam outros, apenas vestígios caricatos por todo canto. Aquela humanidade não era a sua humanidade. Pela primeira vez em muitos ciclos, viveu uma vida normal e morreu sem nenhum fato excepcional.

E então ele estava de volta ao nada. Agora via o mundo físico, mas sabia que não era o que procurava. De todo o mundo que conhecia, não restava nada. Sua existência tornava aquele pedaço de mundo único e dissociado do grande ciclo. Ele vagou incorporeamente e aprendeu mais sobre aquele mundo. Outros ruídos apareceram, mas dessa vez ele não os devorou. Ele os seguiu e aprendeu sobre eles, os viu encarnar, nascer e morrer, mas principalmente os viu viver. Havia magia naquele mundo, ele que tinha gasto de forma tola sua encarnação buscando apenas o que ele já conhecia. Neles estava a resposta. Ele não estava no nada. Ele era o nada e essa era sua passagens de saída de volta ao seu mundo. A grande vantagem de ser uma alma imortal era poder se envolver com planos que não tinham meta para se cumprirem, desde que estivessem certos e funcionassem no final. Na verdade até soava divertido? Ele tinha poder de ser então um Deus ou um Demônio naquele lugar, fora dos dogmas do Paraíso, fora das regras do Inferno, uma tela em branco, só podia ser divertido. Demoraria muito tempo provavelmente, mas ele sempre tinha tido todo o tempo do mundo, e o mais importante, quando voltasse, seria mais poderoso do que qualquer um preso naquele ciclo efêmero, agora ele via além. Deus ou Demônio. Talvez ambos ao mesmo tempo. E então ele iniciou seu plano e passou a observar cuidadosamente aquela humanidade.

Aos poucos viu aquele mundo mudar, seguir caminhos que não teria tido a liberdade de seguir sob a tutela da guerra celestial. Mesmo sem os dele para atiçar o caos a humanidade continuava essencialmente a mesma porcaria de seu mundo, ele podia listar sem dificuldades uma lista de conhecidos que ficariam frustrados de saber que sem a influência da magia só se havia alternado a escala de seus feitos em conhecimento, em disputas de poder, guerra, territórios. Ele podia ver com clareza a ambição, as trapaças, as mentiras. Era a sociedade mais bonita e mais suja que ele tinha visto desde sua primeira encarnação, era de um entretenimento sinceramente maior, sustenta-se a ilusão, evitam-se conflitos, mantém-se tudo na sua ordem social, suas vidas boas e pacatas.

E foi baseado nessa mesma sociedade que ele traçou seu plano ao redor dos seus escolhidos, aqueles pequenos ruídos que andavam entre os humanos e pelos quais as vezes ele até mesmo desenvolvia simpatia. Era uma boa estratégia: fornecer um conforto psicológico tão grande a ponto que quem pudesse reclamar considerasse que as partes ruins fossem uma injustiça necessária para a manutenção da ordem, ficava até meio triste por não ter apenas copiado o plano dos próprios humanos, mas era ideal para se incorporar a longo prazo. Sem protestos, sem questionamentos, apenas ele e seu objetivo. Nunca mais tentou encarnar naquele mundo, assumindo seu papel de observador. A humanidade nunca falhava em entretê-lo.

Esse não é um conto sobre esse ser, mas talvez deveria ser. Naquele momento incerto de dia ou noite, a existência incorpórea sentiu um calafrio. Nesse momento seu plano começou a falhar.