O Conto da Sweet and Dark Store

Capítulo II. O menino da faixa no olho

-Não, não e não. Absolutamente não. - Shiraiku fez seu maior esforço para ser enfático, mas Gurake o olhava como um cachorro perdido. - Isso não é um abrigo, muito menos uma creche. Ele não pode ficar.

Gurake se ajoelhou e fez drama e Miyukashi começou a chorar. O lojista apontou para a televisão pequena e velha sobre o balcão enquanto o jornal noticiava a parte da notícia destinada ao público civil, e insistia que se havia abrigo para doze, havia para treze, largariam ele e pronto. Lienara lixava as unhas e se absteve de opinar, ela tinha sido contra antes, mas olhando o menino agora ela não achava que podiam haver problemas. Desde que ela não precisasse cuidar dele, claro. Ayan provavelmente ficou até mais tarde apenas para não ter de opinar. E foi assim que Miyukashi ficou.

Nos primeiros dias, acordava chorando sem motivo aparente, mas aos poucos foi se adaptando ao grupo e até mesmo Shiraiku passou a aceitar sua presença, ele era inegavelmente mais educado e agradável que todo aquele grupo. No fim, era um menino medroso e inseguro, que pedia perdões demais, permissões demais, e estava sempre escondido na barra do cachecol de Gurake. Quando as luzes se apagavam para todos dormirem amontoados na bagunça que era aquele lugar, ele tremia. Algumas noites se passaram e Lienara voltou com muitos arquivos e papéis de registro para Gurake. Horas após, naquela mesma noite, Ayan chegou de seu trabalho habitual e foi recebido pelo menino com um sorriso no rosto carregando um dos papéis.

- Senhor Yan! Olha! Guu disse que meu novo nome de registro vai ter o sobrenome dele! Somos irmãos agora! Eu tenho um irmão só meu agora!

A inocência arrancou um sorriso de Yan.

- Gurake tem outros irmãos, sabia?

Ele fechou a cara por um momento, mas em seguida os olhos se arregalaram brilhantes.

- Mas eu sou o único que ele escolheu ser irmão dele!

- Bom, isso é verdade! E onde está ele?

- Saiu com o resto dos papéis e com a Lienara.

- E não disseram onde iam? – O menino chacoalhou a cabeça negativamente – E você não perguntou? – Outra negativa – Por quê?

- ... Porque a Lienara disse que os monstros que moram no escuro dão nós nas línguas de crianças que fazem perguntas demais.

Ayan encarou Shiraiku atrás do balcão para saber se ela tinha dito aquilo mesmo, mas no ápice de seu cabelo verde ele continuou lendo seu jornal. O mercenário afagou os cabelos do menino e negou a existência de qualquer monstro que vive no escuro. Como alguma forma de compensar as bobagens de Lienara, ele levou o menino para tomar sorvete. Aquilo era algo que ele nunca tinha se imaginado fazendo, andar pela cidade carregando nas costas um pivete por livre e espontânea vontade, e ainda se sentindo satisfeito nisso. Miyukashi estava interessado nos furos das orelhas dele.

- Tem muitos furos e brincos na sua orelha, são bonitos. Não dói?

- Depende de para quem você perguntar. Eu nem senti, mas eu estou acostumado com furos maiores sendo feitos em mim. Eu já tive pontos atravessando as costas, de costela a costela, uma agulha não é nada. Mas acho que o Gurake iria chorar se soubesse que você acha eles bonitos, ele detesta essas coisas.

- Então eu não posso ter?

- Você pode ter o que quiser, ele é seu novo irmão, não seu novo dono. Está no estatuto dos irmãos fazer de propósito coisas que irritam eles de tempos em tempos.

- Está?!

- ... Era uma piada. Nâo existe um estatuto dos irmãos.

Os dois riram e Miyukashi brincou um pouco mais com os brincos enquanto eles caminhavam. A lua começava a subir no céu. Ayan escolheu a sorveteria da mesma forma que escolhia seus médicos, fora do circuito mais movimentado, mas Miyukashi não ligou para a portinha estreita já que eles conseguiram uma mesa a ar livre no terraço. O mais velho saiu para buscar os sorvetes rapidamente e o menino colocou os olhos naquela pessoa ao fundo. Era outro garoto, de idade próxima a ele, desacompanhado. Miyukashi ficou pensando sobre onde estaria o adulto responsável por aquela criança, embora tivesse certeza que não era um adulto tão responsável assim, ele estava com um lado do rosto coberto em bandagens desleixadas e o cabelo muito bagunçado. Gurake ou Ayan não deixariam ele sair assim. Sem cerimônias, ee terminou uma taça desproporcional de sorvete, foi até a beira do gradil de proteção no terraço, subiu nele e em um salto ágil alcançou o prédio ao lado, onde desapareceu do campo de vista de Miyukashi. Ele ainda estava pasmo quando Ayan chegou.

- Uhm? Ele pulou daqui?

- Sim! – Ele alternava entre falar e comer – Sem pensar em nada, foi super perigoso!

- ... Bom, é perigoso de fato, mas eu não me surpreendo. Não é comum, mas a maioria das pessoas que eu conheço é capaz de fazer isso. Posso te ensinar se você quiser. – Ele parou um instante – Mas só se você for melhor que o Gurake. Eu ensinei ele o básico e parei antes que ele se matasse por engano.

Miyukashi negou com a cabeça com certa ênfase.

- Não! É perigoso! Crianças não deveriam fazer isso.

Ayan pensou por um instante em como Lienara não podia estar mais errada em achar que ele seria fonte de problemas. Ele era tão certo que chegava a ser chato as vezes. De todas as crianças que podiam ter uma ficha passando pelas mãos de Comet, ele era o mais trivial possível.

- Senhor Ayan, como você machucou suas costas? – A pergunta tirou Yan do momento repentino de distração.

- Ah, isso. Nada demais. Trabalhando. Fui costurado pelo mesmo cara que trouxe você de volta quando estava dormindo.

- E o que você estava fazendo no trabalho para se machucar desse jeito?!

Ayan apontou para a parte da rua que podia ser vista do alto do terraço. Pessoas passeavam e um grupo de crianças brincava com uma bola mesmo sob a iluminação pública ruim e tremulante. A lua complementava o necessário para seu jogo dar certo.

- Está vendo aquelas pessoas? Essas e muitas outras podem ficar por aí tranquilas porque nós e outros estamos cuidando da cidade por elas.

Miyukashi riu e sorvete quase saiu pelo seu nariz.

- Fale a verdade! Você não é policial! Policiais usam uniformes azuis e gravatas!

- Policiais são chatos pra caramba, eu sou mais legal que um policial. Policiais resolvem só as coisas fáceis e ainda ficam pedindo um monte de créditos! Não, nós resolvemos os problemas de verdade antes que eles se tornam um transtorno. Lienara e os amigo delas garantem que nós fiquemos sabendo de tudo que acontece e eu e os outros garantimos que tudo fique dentro das regras. As pessoas pedem ajuda para a polícia porque elas não precisam saber o que fazemos. Nós acabamos com os perigos antes que elas precisem de ajuda, então elas não sabem nem do que teriam medo.

Miyukashi pensou um pouco e refletiu sobre o assunto.

- É por isso que vocês que me salvaram?

- Provavelmente.

- E Gurake me achou antes, então meu irmão deve ser muito bom nisso!

- Ele é definitvamente o peso de papel mais gracioso de todo o sistema. Interprete como quiser.


Não demorou muito para que Miyukashi se integrasse a rotina estranha da loja. Shiraiku era o único a acordar cedo, dormindo separado dos outros em uma cama de armar no salão da loja. Os outros todos moravam no sótão da loja, que era um grande improviso feito para ser o estoque. Em meio às caixas, Gurake e Miyukashi dormiam em um canto improvisado com um colchão simples; Ayan e Lienara tinham esticado há muito tempo uma rede de pesca entre as tesouras de madeira da estrutura e era onde dormiam. Para esses três o dia começava tarde, então Miyukashi passava tempo suficiente sentado observando Shiraiku atrás do balcão encarando a porta fixamente a espera de um cliente. Se ele não fizesse barulho ou incomodasse, podia deixar a televisão nos desenhos animados matinai, uma seleção de conteúdo velho e ultrapassado, mas tudo que era novo hoje em dia era transmitido diretamente por canais pagos nos Dispositivos Pessoais, e Miyukashi nem cogitava ganhar um desses.

Eventualmente alguém saía correndo sem explicações ou chegava fora do horário, mas via de regra no horário do almoço o lugar ficava realmente barulhento com todos acordando. Nesse tempo Shiraiku fechava a loja e todos faziam a refeição juntos na cozinha nos fundos. Era nos fundos que também ficava o único banheiro do lugar e o lojista ficava furioso de ter alguém displicentemente saindo do banho e travessando a loja de volta ao sótão em pleno horário comercial. Lienara saia pouco de casa durante o dia, Yan parecia estar sempre com uma agenda ocupada e Miyukashi acabava por passar o dia ao lado de Gurake as vezes assistindo ele tocar a flauta de madeira as vezes caminhando sem rumo pela cidade.

O lugar favorito de Gurake era um antigo templo na parte mais alta da cidade, onde Ayan os encontrava ao fim da tarde para treinar o que chamava de esgrima e artes marciais, mas era geralmente apenas Ayan gritando com a postura de Gurake e o pobre jovem se espatifando no chão consecutivamente. O templo em si já tinha perdido seu sentido religioso há muito tempo, mas ainda haviam cuidadores que mantinham as tradições e seus festivais vivos em nome da cultura local. Por ser um bom menino, não raramente Yuka ganhava doces dos sacerdotes e em pouco tempo tinha feito amizade com o gato listrado que morava por lá. As vezes Ayan o fazia treinar com Gurake, geralmente usando como argumento que um menino de oito anos conseguia cumprir as instruções e ele não. Miyukashi não o achava tão ruim, mas também não possuía muita referência.

Ao cair da noite Gurake se arrastava para o Porto onde passava horas eufórico vendo suas economias aumentarem em apostas com os marinheiros e carregadores cansados do expediente. Apostar era sua única fonte de renda e era a única coisa em que ninguém negava que ele era bom. Moedas íam, moedas vinham, tabuleiros eram preenchidos, cartas eram viradas. Quando era apenas o começo da tarde , Miyukashi podia acompanha-lo, mas normalmente antes da lua tomar completamente o céu Ayan o levava para casa e dizia ir trabalhar, saindo sério com Lienara agarrada em seu braço cheia de risadinhas. Ali Miyukashi voltava a se sentar com Shiraiku até o horário de dormir. O lojista ficava infinitamente mais simpático quando a loja estava fora de funcionamento, e depois de um tempo começou a passar as noites mostrando para ele em seu Dispositivo Pessoal fotos de sua irmã mais nova, empolgado que em poucas semanas iniciariam as férias escolares e que ela iria visita-lo.

Para Miyukashi aquilo parecia ótimo. Tinha ganhado um irmão mais velho admirável, que era um grande guerreiro que nunca descuidava de seu treino físico, e carregava consigo aquela espada tradicional de lâmina brilhante e punho bem acabado. Também era um irmão eximiamente habilidoso e com grande visão empreendedora, e ainda por cima muito culto. Um verdadeiro herói. Depois dessa definição, Lienara e Ayan concordavam que moravam sob o mesmo teto que uma dupla de idiotas, mas ainda tinham alguma esperança de que com o passar do tempo a ilusão do menino se espatifasse.

Para a criança, a rotina era particularmente agradável. Gostava da loja, uma construção simples em um terreno que justificava a rua ser sem saída, em madeira, com um pavimento térreo dividido em o salão principal da loja, com um balcão simples com tampo de madeira e base de vidro com produtos expostos. Nas laterais haviam prateleiras com itens a venda, etiquetados com cuidado.. Na parte de trás do balcão também havia uma porta de correr que fazia as vezes de divisão com a cozinha. Quando estava totalmente fechada, parte dela se abria como uma porta normal para das passagem. O sótão tinha um pé direito relativamente alto, em parte pelo madeiramento do telhado, sem forro, mas sua única abertura para o mundo exterior era uma janela redonda muito simples, há muito tempo era enferrujada. Miyukashi achava muito engraçado a forma com que tudo rangia quando ele caminhava.

Acompanhar Gurake até o templo também era uma experiência gratificante. O templo era apenas mais um dos muitos que se espalhavam por toda a cidade, herança de uma época de adorações a pequenos deuses. De certa forma, restavam poucos lugares no mundo em que ainda se acreditava nesse tipo de coisa. Em um mundo em que a ciência dava às pessoas mais respostas, já não havia muito tempo para se pensar nisso, era apenas mais mitologia para se juntar ao Hall dos antigos absurdos, hobby de crianças que gostavam de decorar nomes de deuses, anjos e demônios junto dos nomes de dinossauros.

A única coisa que Miyukashi não conseguia ainda achar divertido era acompanhar era para as noites de apostas no Porto. Ele nunca recusava porque se sentia legitimamente incluído quando era chamado, mas se sentia profundamente aliviado no momento em que Ayan dizia que tinham de ir. Aquele ambiente o incomodava de uma forma que ele não podia aturar, seu estomago virava, sua cabeça girava e ele se sentia sem foco. Isso acontecia sempre que estavam em alguma viela apertada demais, mas era intensificado pelo ambiente do Cais.

Ele nunca teve coragem de dizer o que sentia por medo de ser um incômodo e fazer alguém alterar sua rotina, mas as vezes Ayan o acompanhava apenas uma parte do caminho de volta para a loja antes de seguir o rumo de seus trabalhos. Ainda não tinha se acostumado a andar sozinho, mas ele considerava isso uma parte necessária da vida que estava levando, e não queria incomodar os outros mais que o necessário. Esperava Ayan se afastar, dava voltas e ia pelas ruas movimentadas.

Shiraiku gostava de se aproveitar desse tempo livre e da prestatividade do menino para fazer o menino acompanhá-lo em compras. A loja vendia apenas itens básicos de papelaria, escritório, armarinho e esse tipo de tralhas necessárias no dia-a-dia, fazendo ser necessário deslocamentos até as ruas principais para qualquer outro tipo de itens. E assim as semanas passaram. Miyukashi não se incomodava particularmente de carregar as sacolas, e gostava de estar nas ruas mais cheias e ver as pessoas correndo de um lado para o outro agitadas. Esse era apenas mais um daqueles dias, as comemorações já tinham se iniciado para um festival que ele não conseguia pronunciar o nome direito, e que durava vários dias, e todos acreditavam precisar de coisas demais, e por isso o comércio comemorava altas vendas. Exceto é claro pela Sweet & Dark, resmungava Shiraiku enquanto eles caminhavam.

No meio da multidão da rotina, no entanto, surgiu aos olhos de Miyukashi aquela imagem diferente. Não era incomum ver estrangeiros na cidade, o garoto sabia que ele, Gurake, o próprio Shiraku e todos que moravam com ele eram de outras etnias, mas aqueles dois estavam se destacando por motivos que Miyukashi não podia explicar. Sentados no banco da praça, estavam muito mais calmos e conversavam entre si tranquilamente, um deles alto demais para a idade que demonstrava em seu rosto, usando um capacete e um sobretudo em estilo militar, com capuz forrado em pelúcia macia. No verão aquilo só podia ser uma insanidade. O outro parecia ser tão jovem quanto Miyukashi, mas vestia uma capa surrada que escondia sua roupa. Os dois conversavam, o mais velho com uma expressão exagerada e gesticulando muito, enquanto o mais novo devorava uma barra de chocolate. Quando ele se virou, o curativo no olho o fez lembrar imediatamente da sorveteria.

-Miyukashi?

O chamado de Shiraiku tirou o menino de sua hipnose momentânea com a dupla, e ele percebeu que já havia algum tempo que o dono da loja o esticava um saco de papel com hortaliças para que carregasse. Ele olhou para trás tentando ver a dupla por uma última vez, mas logo apressou o passo para acompanhar o mais velho e preferiu ignorar. Horas depois, a pequena tv com sua antena ultrapassada anunciou, durante a janta, que uma pequena explosão havia ocorrido perto daquela venda que tinham acabado de visitar. Um vazamento de gás de cozinha, eles declaravam, mas infelizmente o dono da casa estava em estado grave. A cena seguinte mostrava um jovem no cenário da explosão que declarava algo a todos pulmões, enquanto a polícia fazia seu trabalho ao fundo. O som estava ruim. Ayan tinha acabado de acordar para o almoço e deu um tapa na televisão tentando escutar mais.

- Lie, sabe alguma coisa disso? Foi do nosso lado da cidade?

Lienara deu um bocejo longo enquanto gesticulava que sim e que diria assim que acabasse. Se sentou, puxou uma xícara e jogou café.

- Comet deve ter acordado todo mundo com uma mensagem dizendo que não queria ninguém no lugar se intrometendo. Negócios particulares do Smile, ninguém precisa saber. Óbvio que e umas duas horas vai todo mundo estar sabendo o que é porque ela adora uma boa história, mas sinto muito, mon amour, o que corre entre os informantes fica entre os informantes.


Na manhã seguinte, Gurake demorou demais para voltar à loja. Começou com Miyukashi acordando sozinho, geralmente ele enrolava até que Gurake chegasse, sentado no sótão encolhido sob o cobertor observando as sombras no teto se moverem e o barulho de farfalhar de árvores lá fora, com medo mas vergonha de pedir para Shiraiku ficar com ele ou desejando que algum dos outros três fossem ficar lá. Dessa vez tinha dormido de cansaço em algum momento, acontecia as vezes mas o normal era na manhã seguinte ele ter Gurake dormindo com ele Lienara era indiferente à situação, estava exausta do trabalho que lhe ocupava a noite toda e foi direto dormir, respondendo algo genérico como ‘se houvesse algo eu saberia’; Shiraiku na verdade agradeceria se todos seus inquilinos desaparecessem.

Miyukashi se sentou no salão da loja e olhou o relógio por muito tempo pacientemente. Ele sabia que Gurake não carregava com ele um Dispositivo Pessoal, parte porque era algo caro e fora do orçamento dele, parte porque ele preferia não ter gente atrás dele, então não havia nenhuma forma de saber se estava bem. Ele pensou bastante tentando se convencer de que estava tudo bem, Gurake andava sempre com aquela katana e Ayan dava aulas para ele todo dia, então ele sabia usar, não é? Ayan também estava se demorando a chegar, mas isso era mais normal do que Gurake sumir. Yan sabia subir por prédios e tinha amigos por todos os cantos, ou pelo menos assim que o menino o via.

Já era metade da manhã. Apesar de tudo que Ayan e Lienara diziam, as últimas semanas o tinham mostrado uma cidade limpa e pacífica, com uma população feliz e satisfeita. Não havia violência nos jornais, apenas acidentes inevitáveis. Como a explosão do outro dia. Mas Gurake era atrapalhado e já era muito tempo atrasado. Ficou esperando um momento para falar com Shiraiku, mas dessa vez haviam clientes na loja. Com o festival muitas pessoas queriam fogos de artifício e artigos para decorar suas casas.

Perigos eram exceções, mas ele estava preocupado com Gurake e iria procura-lo. Achou sensato deixar uma nota e saiu. Shiraiku mal viu sob seus óculos redondos quando a porta se abriu por um momento, e não prestou atenção quando o sino da porta tocou.

Iniciou seu caminho passando pelo templo de sempre, cumprimentou o herdeiro da família que cuidava do lugar ao passar em frente as escadas e o questionou sobre Gurake. Nada. Encontrou dormindo em um muro pouco a frente o gato branco rajado de preto. O espadachim em treinamento dizia que o felino era um Biyako em miniatura, e que traria bons ventos. Tinha dado a Yuka um livro com essas lendas fazia pouco tempo. Pensou em acordá-lo, mas resistiu ao impulso. Precisava de foco, aquilo era uma missão de resgate.

Cruzou a ponte sobre o rio chutando em seus passos um cascalho que achou simpático e seguiu para a avenida principal daquele lado da cidade. Suas duas vias largas de paralelepípedo, canteiro central arborizado cheio de bancos. Naquele horário havia uma vida doméstica por lá, em poucas horas os trabalhadores da região estariam almoçando e os restaurantes nos térreos dos prédios estariam o caos. Cruzou o local da explosão em um dos largos da grande avenida, cercado de faixas de isolamento e parou por um momento, sentado no mesmo banco que tinha visto a dupla antes. Em sua mente, ele refletia por onde Gurake poderia estar. Um grupo de crianças uniformizadas de idade parecida com a dele estava amontoada na frente de uma loja de jogos eletrônicos, provavelmente matando aula, ele pensou. Ou sem aula naquela manhã, Shiraiku tinha dito que as férias se aproximavam.

Na lista de lugares que frequentava com Gurake não havia mais muitos a olhar. Na verdade estava começando a pensar que apesar de ser perfeitamente de dia e sem problemas, ele não deveria estar na rua sozinho sem um adulto. Não era diferente daquele menino sozinho antes. Ou era, já que era de dia, haviam outras crianças como ele andando por aí por lugares pouco suspeitos e ele não estava se atirando de prédios.

Sobre sua cabeça, penduradas entre as árvores, cordões coloridos com bandeiras, tiras de tecido tingidas tremulantes e lanternas de papel. Nas lojas havia decoração comemorativa e vitrines exibiam doces temáticos para a época. Não havia movimento como aquele na loja em que ele morava. Todos tinham de passar pelo centro, ninguém tinha de passar por uma loja num fim de uma rua sem saída, subindo o morro quase até o limite da reserva florestal.

Hesitou. Ainda havia um lugar a se olhar. Ficou em pé sobre o banco por um momento e olhou ao longe os guindastes se erguendo no fundo, contrastando com o céu. Esperou o bonde passar e saltou para dentro desajeitado. Saltou algum tempo depois, e ficou olhando a cerca gradeada com placas de avisos que separava a área do Cais do resto da cidade. Como Ayan e Gurake, atravessou. Primeiro haviam as construções quase fabris e as ruas largas para carga e descarga dos produtos, entrecruzadas pelos riachos canalizados que agora se juntavam para correr para fora da ilha e suas pontes de concreto sem parapeitos para passar por eles. As paredes dos armazéns iam crescendo e as ruas diminuindo, dividindo espaço com trilhos de composições que faziam transporte entre os edifícios, virando em becos sem saída, surgindo pequenas docas em locais que ele não imaginava que o mar avançava a cidade.

Passarelas e trilhos metálicos transportavam pessoas e mercadorias e bloqueavam o sol sobre ele. Era um lugar limpo como todo o resto da cidade, em que o lixo era coletado por redes de tubos à vácuo. Havia gente andando e trabalhando por todo lado. Ainda assim, ele se sentia apertado, sujo e sozinho, tudo era velho e meio decadente. As pessoas não olhavam para ele, apenas desviavam e seguiam com seu trabalho. Uma sirene alta indicou que uma composição passaria pelos trilhos daquela rua. Ele se afastou e por alguns momentos, ficou preso entre os containers que se deslocavam e a reentrância na parede, lotada de caixotes de madeira. Aqueles segundos fizeram seu mundo girar. Aquele lugar revirava seu estômago, e a medida que se aventurava e o medo aumentava começava a se achar um idiota. Gurake provavelmente voltaria bem, tinha sido egoísta e infantil ao sair para procurá-lo. Precisava sair daquele canto, se virou procurando como subir pelos containers. Tudo que podia haver errado cruzou sua mente e ele não conseguia entender direito; Ia causar problemas e era a ultima coisa que queria. Seu coração estava disparado e ele caiu de joelhos quando o trem terminou de cruzar seu caminho. Pessoas continuavam trabalhando como se nada tivesse acontecido. Apressou-se a sair de lá, abraçando o peito com os braços. Ia começar a chorar quando algo chamou a atenção.

Uma construção, muito distinta dos armazéns ao redor, embora claramente adaptada a partir de um. Havia uma placa na porta, muito semelhante a do bar que tinham estado no dia de sua chegada, e lanternas vermelhas bonitas pendendo de cada lateral. Emoldurando a porta, de forma exagerada, uma cortina de veludo vermelho pendia. Já tinha visto aquele lugar nas noites que tinha acompanhado Gurake. Ele sempre puxava a boina para mais perto dos olhos constrangido, quando passavam pelo lugar com as luzes vermelhas acesas e sempre havia alguém na porta que o chamava pelo nome e o provocava. Era um lugar conhecido afinal de contas, um lugar em que podia pedir informações. Iam lhe dizer que Gurake tinha ido para casa e ele colocaria um fim naquela expedição e nunca mais sairia de casa sozinho. Nunca. As pequenas mãos afastaram o tecido pesado com empolgação.

- Heeeeeeei, alguém aqui?

O interior lembrava muito o bar de Smile, mas muito mais elegante. Os vidros eram coloridos e o sol passava dando um clima etéreo. Havia um balcão com bebidas nos fundos mas em vez das pequenas mesas ao longo do salão, haviam nichos nas laterais, com sofás e cortinas presas nas laterais que podia ser fechadas. Ladeando o balcão, duas escadas de mármore levavam a um mezanino com mais mesas e uma porta de madeira pesada para casa lado. No centro, um palco elevado com iluminação direcionada a ele. Quando ele gritou, muitos pares de olhos se voltaram para ele. Alguns dos sofás, outros apoiados no parapeito do mezanino, outros sentados ao redor do balcão. Ele se sentiu extremamente desconfortável e, apesar de mal ter dado alguns passos adentro, era como se estivesse no meio do palco com todos os holofotes ligados.

Havia mais homens do que mulheres por lá, suas posturas lembravam a Miyukashi levemente de Lienara e Ayan, mas ele não tinha certeza do motivo. Não havia ninguém no balcão ou em posição de trabalho, todos pareciam relaxados em seus lugares. Alguns vestiam roupa demais cobrindo seus rostos, outros vestiam roupas de menos, como nos programas que Lienara desligava a televisão quando ele estava por perto. Nenhum meio termo. Uma das meninas soltou um gritinho e apressou passos em sua direção.

-Ah, olha o que temos aqui, que coisinha fofa! Está perdido, fofurinha?!

-Aw, ele deve estar tão assustado...

Estava. O arrependimento foi imediato enquanto ele foi conduzido pela mão até um sofá em um dos cantos. Via alguns no mezanino cochicharem entre si e sacarem seus Dispositivos Pessoais. No sofá a frente, um jovem adulto mascava algumas folhas e estendeu para ele, oferecendo, ele balançou a cabeça negativamente. Se viu cercado em tempo rápido demais por pessoas que falavam ao mesmo tempo, algumas apertando suas bochechas, outas questionando se ele procurava diversão, e algumas dizendo que seriam irmãs mais velhas que cuidariam dele com carinho. Ele não entendia nada e tentou dizer que já tinha um irmão, e começou a se debater no meio de abraços e beijos no rosto até que um deles bateu palmas alto e mandou todo mundo se afastar.

- Por favor, parece que nunca viram uma criança na vida, o que vocês são? Animais? O que você quer, gracinha?

- Meu...irm...

Ele o ergueu do chão pela cintura antes que pudesse terminar de falar.

- Ora, ora, você lembra o peste do Madie com esses olhos vermelhos. Talvez esteja na moda agora?

Um deles acenou a cabeça.

-Não, os olhos dele são vermelhos, ele é da etnia do Reino Unido, do velho Império marítimo. Madie é do centro da Aliança, ele é dos Alpes, os olhos dele são cereja. Você não sabe porque enquanto você se diverte com o mais velho eu que banco a babá.

Do fundo do grupo, alguém gritou.

- Você acha mesmo que ele sabe a diferença entre vermelho e cereja?!

-Nah, ele não precisa de babá, ele é um de nós, não tem problemas, afinal, as crianças como ele aprendem essas coisas rápido mesmo. Aposto que ele sabe mais do que você. Ele está aí, não está? Mande ele vir aqui, pivetes que não tem altura nem para andar na rosa gigante devem ser departamento dele.

Outro o cutucou nas costelas.

- Nah, Madie tem algum conteúdo, esse aqui parecesse que esqueceram de alimentar por uns tempos.

Todos riram e ele começou a se sentir um animalzinho cercado e agitou os braços e pernas até que fosse solto ao chão. A pergunta que ele precisava fazer não saía. Um deles passou o Dispositivo Pessoal pra pessoa ao lado enquanto apontava para ele e balançava a cabeça. Estavam pesquisando sobre ele. Iam contar para Gurake ou para Ayan ou pior para Lienara. Não sabia direito o que iam contar, mas não devia ser bom porque ele agora tinha certeza que estar alí era errado.

Conseguiu empurrar as pessoas e se atirou na porta, se esgueirando por entre as cortinas da entrada como conseguiu, e correndo desesperado sem pensar na direção. Ouviu ao longe algumas risadas em meio a alguma voz preocupada mandando ele voltar que iam ajudar ele enquanto tentava acelerar ao máximo que podia. Seu coração palpitava e ele suava frio. Não eram pessoas ruins, mas ele não conseguia falar com elas. Primeira lição do seu primeiro dia sozinho: ele não desejava nunca essa tal independência que ele via adolescentes reclamando na televisão, ele preferia mil vezes um bom adulto cuidado dele. Segunda lição: falar com adultos desconhecidos exigia muito mais energia do que ele tinha e talvez um roteiro prévio. Tinha certeza que quando Ayan e Gurake soubessem do que ele fez ficariam frustrados porque além de um péssimo menino que sai por aí sozinho, ele era um covarde.

Não sabia exatamente o quanto tinha corrido nem muito ao certo para que lado, quando tropeçou em algo. Um bêbado, jogado, que abriu os olhos subitamente e deu um salto.

-Quer comprar briga, pirralho?

-Ah, não, me desculpe, eu...

-Eu vou acabar com você.

Ele ensaiou um soco e Miyukashi cruzou os braços sobre o rosto instintivamente, fechou os olhos e cerrou os dentes. Definitivamente, se sobrevivesse a essa ideia idiota nunca mais sairia de casa. Aquele lugar era mais perigoso de dia do que de noite e ele era uma criança idiota que agora iria apanhar. Mas o soco não veio, apenas um som seco. Abriu os olhos para encontrar o bêbado jogado um pouco adiante e uma figura de altura parecida com a sua e silhueta infantil, coberta por uma capa com capuz, parada entre os dois, ele pousou o pé no chão teatralmente após o chute bem sucedido, seu sorriso de satisfação mostrava que estava claramente se exibindo. Em sua mão havia um canivete armado, mas parecia não ter sido necessário. Pegou Miyukashi pelo pulso e foi puxando ele grosseiramente no caminho que tinha vindo. - Er...Obrigado...? – Não sabia exatamente o que dizer.

O outro fez uma cara de desgosto profundo estudando Miyukashi. Tênis, shorts, camiseta de manga curta sobre camiseta de manga longa. Uma bandana na cabeça que tinha sido presente de Gurake. Yuka aproveitou para estudar ele de volta. Suas botas de cano médio tinham fechos de velcro, suas calças remendos e a camiseta estava um pouco grande. Sob a capa pendia de um colar uma dogtag como nas propagandas do Exército da Aliança da Salvação que passavam na televisão de tempos em tempos com um jingle repetitivo cantado na língua comum. Ayan sempre cantava sobre ele uma paródia mal educada. O salvador revirou os olhos e abanou a mão.

-Me faça um favor, não faça coisas idiotas.

-Eh? – Miyukashi ficou confuso com essa resposta, e com a expressão vinda da abertura do capuz de seu salvador, que parecia cortar seus músculos apenas com o olhar avermelhado. Parabéns, Yuka, ele pensou, até desconhecidos estavam bravos com você. Nunca mais pise na loja, não vão te querer de volta.

-Exatamente o que você ouviu. Está vendo aquilo? – ele apontou com o polegar para o bêbado – Aquilo é um nada. Um civil idiota. Se deixar espalhar os boatos de que um qualquer feriu alguém desse tamanho facilmente vai arranjar problemas de gente arrogante achando que pode brigar comigo. Não tem muitos do meu tamanho andando por aqui e eu estou tentando ter um nome por aqui, sabia. Até o mal entendido ser desfeito... Argh, você não imagina como os boatos correm, as pessoas fazem deduções erradas. Me poupe dos erros de outros.

Miyukashi ficou pasmo por um instante.

-...Me salvou apenas para não te trazer problemas?

-Não. – Ele esticou três dedos em uma mão, um deles com um curativo, e foi abaixando um para cada tópico que falava- Para não me trazer problemas, porque eu estava dormindo de graça e me pediram para correr atrás de um coelhinho sem dono... e pareceu ok fazer isso, sabe, dormir por aí é um saco. E claro, porque acho que é sempre bom ter gente me devendo uma em uma cidade nova. Me ensinaram isso.

Miyukashi encheu o peito para falar.

- Você é uma pessoa errada! Pois meu irmão me ensinou que você tem de ajudar os outros porque é certo!!!

O salvador de Yuka riu. Ele murmurou para si mesmo frases com tom de desdém em um idioma que o menino de cabelos brancos desconhecia mas logo voltou a se dirigir para ele.

-Ah, aposto que também foi ele que te ensinou a ficar andando pelo Porto sozinho. ‘Ah, que dia lindo, o sol nasceu e os passarinhos cantam, nossa, deve ser ótimo ir brincar no Porto’. –Havia um irritante tom de deboche na voz dele- Criança burra. Não gosto de crianças burras. O irmão deve ser tão burro quanto.

-Não fale assim do meu irmão! – Ele tentou fazer uma pose de ameaça, mas só conseguiu parecer ridículo diante da situação. Tentou encarar com firmeza.

- ‘Não fale assim do meu irmão´mimimi. Me dê o cartão dele depois, talvez meu primo possa ensinar umas lições para ele.

Miyukashi soltou o ar pelo nariz, furioso. O outro menino tirou capuz o capuz e abriu o peito desafiando ele a tentar avançar. Seu cabelo estava uma bagunça castanha presa de qualquer jeito com uma presilha, o olho direito tinha um curativo. Parecia familiar.

– Ah!

-‘Ah’ o que? Percebeu que eu estou certo e que seu irmão é idiota mesmo?! Não precisa agradecer. Eu soube desde que pisei aqui que eu ia ajudar a subir o Q.I. médio desse lugar.

-Você é o garoto das bandagens no olho de ontem e da sorveteria.

O menino fechou o rosto. Todo o deboche desapareceu e ele girou o punho com o canivete para uma posição de ataque.

-Não sei o que você sabe, mas eu detesto gente que sabe demais. Caçar o coelhinho acaba de parar de ser divertido... Esqueça a parte em que você me deve uma, testemunhas desaparecem, foi o que me ensinaram.

- O quê?! Você vem, em salva, me provoca e aí me ameaça, você não faz sentido nenhum! Perdeu parte da cabeça quando fez esse machucado na sua cara?

Naquele momento ele descobriu uma terceira lição: ele conseguia falar sem problemas com crianças mesmo sem planejamento. Isso não necessariamente era algo bom naquele caso.

- Vou fazer você comer a sua língua com caldo de chocolate ante de cortar seu pescoço.

-Longe dele. - A voz veio do topo do armazém mais próximo e ambos viraram o rosto juntos. Ayan estava parado no topo dele, com a espada curta preparada para ser tirada da cintura. O menino com as bandagens no olho não se intimidou, sua voz continuava confiante e cínica.

- Tsc. Cara, eu acabei de protagonizar um resgate e me arrependi, você devia deixar eu resolver as coisas. Sabe como é, um não interfere nas brigas dos outros e fica todo mundo de boa, amigo?

Ayan apenas deslizou parte da espada para fora da bainha, em uma cena impressionante para Miyukashi.

-Eu falei sério sobre largar ele. Eu não sei direito quem é você ou da onde veio, mas se você é um dos nossos, sabe como é, amigo – ele imitou a voz do menino nessas últimas palavras – não vai querer estar a toa dando explicações depois.

Rindo, ele apontou para a cintura de Ayan.

-Sério? Sério mesmo? Em que ano estamos? Quase anos 2000 e você acha que essa sua faquinha de decoração de casa de tia é uma arma? Achei que isso era um negócio de gente grande.

Yan não moveu um músculo.

-Sério.

O outro menino analisou bem a situação, e para Miyukashi que estava sob a mira do canivete pareceu uma eternidade os segundos em que ele ficou observando Ayan de cima abaixo e fazendo cálculos mentais. Os olhos dele se demoraram no broche circular que representava um dragão que o mais velho carregava visível no peito, passaram pela espada curta. No fim ele pareceu calcular que não queria aquela briga e deu com os ombros sem perder o deboche, fechando o canivete com um giro entre os dedos.

-Uhm. Entendi. Se é assim... Pode vir buscar seu bichinho de estimação. Talvez você queria colocar uma coleira nele também, assim ele não entra na casa dos outros a toa. Você sabe, nem todo mundo gosta de animaizinhos. E as vezes outro coloca uma coleira nele.

Ayan riu.

- E onde está seu dono, vira-latinha? Se preocupe mais com a sua própria coleira do que a dos outros.

Ele guardou o canivete estalando a língua nos dentes, cobriu o rosto, e com uma boa agilidade se impulsionou entre as paredes dos armazéns para atingir o topo em instantes. Desapareceu nos mesmos caminhos de onde tinha surgido, ainda sob o acompanhamento do olhar de Ayan, mas não sem antes fazer um gesto obsceno com os dedos que o mais velho preferiu não explicar o que significava quando questionado depois.

Foi a primeira vez que Miyukashi levou uma bronca por preocupação, e o caminho de volta pareceu muito maior que o de ida.

- Já não me basta o mais velho resolver beber mais que o normal e ter de ser carregado até em casa, o que era óbvio que ia acontece... Ele nem tem idade para consumir álcool legalmente nesse país, não é? Isso explica tudo, você coloca confiança na pessoa uma vez e o que ele faz? Quase desmaiou naquela droga de bar. Um tolo, simplesmente um tolo. E então Shiraiku diz que se distraiu um instante e você tinha largado um papel no balcão. O que vocês acham que eu sou? A babá de vocês? Deve ser o karma por tudo que eu fiz na vida, estou compensando cada gota de sangue com as idiotices de vocês. Deveria ficar do lado do Shiraiku nessa, a loja não é uma hospedaria, nós não somos o serviço de quarto, não está em lugar nenhum incluso no preço o serviço de resgate!

- Vocês saíram para beber? Mas Gurake não tem idade para beber, você mesmo disse isso.

- Não, eu convidei ele para me acompanhar na ronda essa noite e para fechar a volta bem sucedida eu achei que podia levar ele para se divertir um pouco, divertir de verdade, aliás, o que o senhorzinho está perguntando? Você por acaso acha que tem idade para sair pelo Porto sozinho? Eu só não vou botar uma coleira com um localizador em você para não dar a razão para aquele pivete. Devia ser disso que o Zollrien estava falando, ele disse que eu detestaria, e eu detestei. Me lembre depois de perguntar pra Lie quem diabos é ele. Achei que o Smile não contratava no jardim de infância.

Ayan continuou a resmungar, mas Miyukashi não deu muita atenção. Estava envergonhado pelo que tinha feito, mas, principalmente, estava feliz porque Gurake estava bem. No fim das contas, Lienara e Shiraiku levariam mais broncas por não ter ficado de olho nele do que o próprio menino por ter saído. Yan fez Lienara dar um telefonema pedindo desculpas para as pessoas que Miyukashi tinha incomodado no Porto.

Depois daquela noite, o hábito de Gurake sair com Ayan pelas noites se intensificou. O ruivo dizia que precisava transformar o irmão dele em gente grande quando ele perguntava porque não podia ir junto, mas sempre escutava no final que ele ainda era muito jovem. Deitado sozinho sobre as caixas do estoque enquanto escutava Shiraiku mover coisas na loja, as vezes cantarolando e riscando dias em um calendário improvisado, ele pensava se aquele menino mal educado sozinho. O primo dele também devia estar ocupado.