O Conto da Sweet and Dark Store

Capítulo VI. O músico

Ayan e Lienara se aproximaram pela Reserva Florestal para a porta do fundo das lojas. O sol ainda não havia nascido e uma luz fraca vinha do andar de cima, pela pequena janela circular, acompanhada de um som desafinado, Gurake e sua flauta.A garota deu uma risadinha.

- Ele ainda acha que vai aprender a tocar isso?

- Deixe ele... – Ayan se aproximou dela, a abraçou pela cintura e a pressionou contra a parede dos fundos, fazendo o revestimento de madeira ranger. – Isso mostra que ele deve estar sozinho com o Yuka lá... Se a metralhadora de palavrões estivesse lá já teria feito ele parar...

- Bom..

Os dois se viraram automaticamente assustados para o escuro entre as floretas. Knuksi apenas soltou a corda que estava trabalhando, suspirou e continuou.

-... Se você está falando de Madie, ele está mais pra dentro da Reserva.

Ayan parou um momento com o coração disparado como se tivesse sido atacado, percebendo que uma mão estava na empunhadura da espada e a outra puxava Lienara para trás dele. Knuksi estava casualmente sentado debaixo de uma das árvores dos fundos, dando nós em uma corda.

- O que você pensa que está fazendo!?

- Uhm... – Ele ergueu a corda – Uma rede.

- Você deve ter uma vontade muito grande de ter uma morte casual.

- Nem tanto... – Ele voltou a dar nós. Eu não queria atrapalhar e... Eu tenho um treinamento de furtividade bem intenso, é quase natural como respirar. Com o tempo as pessoas costumam se acostumar comigo e aprender a me ouvir.

Lienara se soltou do braço de Ayan e o acalmou.

- Não faça mais isso, Knuksi, Yan tem razão. Você sabe que estamos tendo uns casos estranhos, as pessoas estão mais paranoicas.

Ele ergueu as mãos e as agitou no ar em desculpas.

- Não vai se repetir, vou me esforçar pra ser mais barulhento.

Isso não convenceu Ayan.

- São cinco da manhã. Você estava na escala da patrulha hoje, deveria estar aproveitando para dormir, o que você faz aqui esse horário? Ele ergueu a rede que estava fazendo e apontou para uma pilha de madeiras cortadas próximo ao pé dele. - Aproveitando o tempo, a vida é curta. E fazendo um circuito de treino. Yan ergueu as sobrancelhas enquanto Lienara soltou um som de compreensão. -Circuito de treino, que circuito de treino? Quando isso foi aprovado? – A voz dele misturava indignação e um pouco de surpresa.

- Ahn... Hoje, umas horas atrás... Na janta?

- Não, isso não pode ter sido aprovado, eu e Lie não estávamos aqui para aprovar.

- Bom, não lembro do voto de você ter mais peso. Os outros estavam, Shiraiku votou contra, mas Eu, Madie, Gurake, Kiieth e o pequeno votamos a favor. Se você forem contra ainda são cinco votos contra três. Shiraiku só tomou os remédios dele e pediu para não fazermos muito perto da loja então estamos avançando em direção à Reserva Florestal. Sabia que a escritura da loja na verdade diz que o terreno avança uns bons 200 metros aqui para trás?

Ayan revirou os olhos e entrou batendo os pés, Lienara riu dele e se sentou em um banquinho ao lado do tanque de roupas, tímido e velho, preso na parede dos fundos logo ao lado da porta de entrada para a cozinha.

- Ignore ele, Knuksi, além de paranoico com alguma razão, ele anda rabugento, viemos para cá nos isolar e viver de forma discreta, e de repente tudo ficou muito agitado e cheio de gente. Fazem... Seis meses que o Miyukashi chegou? Ele não se adaptou.

- Seis meses... – Ele fez uma conta mental. - Sete. Fazem sete meses desde que nos conhecemos. O tempo passou rápido demais... Parece que foi mês passado que eu estava cruzando a fronteira da Aliança... Já deu tempo dele se acostumar.

- Sete meses desde Miyukashi, mas apenas três desde Kiieth, a estadia da Midnight, e a sua chegada e do Madileni, foi agitado.

- Justo... – Ele riu – Ele vai acostumar. Por bem ou por mal. – Uma brisa gelada soprou e os dois tremeram um pouco, fazendo Knuksi puxar mais perto seu tradicional casaco camuflado forrado. – E o tempo passa, o clima passa. Em breve estaremos no frio real. Neva aqui?

- Esse lugar é uma bagunça. – A menina tirou um cigarro da mesma marca que Ayan do bolso e acendeu - Temos dias aleatórios de sol intenso no inverno, mas as vezes chega a ter neve sim. Nada sério, nunca chega a paralisar nada. Só fica branco durante a noite e nos primeiros passos vira tudo uma lama feia – Ela encarou o céu por um tempo – Eu prefiro assim, sabe? - Knuksi apenas ergueu os olhos para ela – Com mais gente, mais bagunça. Dá menos medo do que vai acontecer a cada dia...

O Jovem desertor foi obrigado a concordar.

Sem ter calculado esses setes meses, o foco de Shiraiku eram os prejuízos do mês passado desde a chegada de Knuksi e Madileni, foi o suficiente para que aos poucos começasse a se arrepender de suas decisões. Seu cabelo agora estava finalmente perdendo as manchas esverdeadas, mas ele falava, parte brincando, parte não, que achava que o etsresse o deixaria branco em breve. Primeiro havia tentado dormir com eles no sótão, mas os dois primos dormiam com as mãos ao alcance de armas de fogo, o que já o assustava o suficiente sem que eles precisassem acordar aos pulos em qualquer ruído estranho, assim, mesmo com mobília nova, ele continuava a dormir em sua cama de armar, no salão. O dinheiro do aluguel do sótão era regular e mais lucrativo do que os das vendas, mas tornar o ambiente habitável o deixava com menos área para estoque de mercadorias, e o lugar cada vez mais barulhento e cheio de encaradas e desconfianças estava afastando os poucos clientes. De fato, nas semanas anteriores não tinha aberto o caixa sequer uma vez. Nenhuma venda. Nenhuma pessoa interessada.

Kiieth também tinha entregado a ele uma quantia de dinheiro quando cobrou o aluguel de Gurake e Knuksi. Longe de ficar feliz, ele passou a ter certeza de que ele pretendia ficar por tempo indeterminado. Cada vez mais o estrangeiro dominava a língua, e desde que tinha começado a trabalhar tinha trocado a calça branca de linho por roupas pretas de couro chamativas e o proprietário não tinha realmente vontade de perguntar o que ele estava fazendo. Ao menos o saariano parecia confortável com aquela situação.

Tinha visto Miyukashi questionar o tal emprego um dia e o resultado foi quase uma briga. Madileni tinha respondido num tom cínico que “com aquelas roupas e indicado pela Lienara, ele deveria estar vendendo informações... ou o corpo”, ou quase isso já que antes do fim da frase Kiieth tinha desferido um tapa sonoro no menino, de uma forma que não houve treinamento que o fizesse escapar. O clima de tensão tinha chegado ao ápice com uma troca ríspida de ameaças.

- Vai ter volta.- Madileni tinha dito de forma ríspida, esfregando sua bochecha.

-Não, não vai. – Knuksi o tinha cortado, fora do padrão normal de acobertar o menino. – Kiieth agora é um homem livre, ele faz o que bem entende, Madie.

Desde aquele dia, todos simplesmente assumiram que Kiieth tinha um emprego e o resto não importava.

Apesar de Madileni ter pegado leve com Miyukashi nos dias seguintes de sua chegada, e apesar dele de fato estar ajudando o treinamento do mais novo entre provocações, as vezes ele se lembrava que precisava ser um saco e não perdia a oportunidade de ataca-lo fisicamente em momentos de distração, argumentando que ele tinha de aprender a ficar atento, aos risos. Uma coisa que rapidamente foi aprendida por todos é que Madileni era outra pessoa com Knuksi por perto. Não exatamente uma decente, mas, mais controlável e ele pensava um pouco mais antes de falar. De alguma forma, os dois meninos estavam começando a se tolerar.

Madileni ficava mais intragável quando Knuksi saía para trabalhar e o deixava na loja ou quando era submetido a tarefas menores. Miyukashi tinha percebido o padrão, mas sabia que não adiantava dizer nada aos outros, era mais fácil tentar aprender a lidar. Apenas alguns meses e os dois primos iriam embora e ele nunca mais veria aquele tapa-olho, ele repetia para si nos dias de mal humor do alpino. Encontrara Madileni um dia no meio do campus da escola, durante um intervalo, em cima de uma árvore, olhando fixamente para uma janela. Não era como se Yuka já tivesse conseguido fazer amigos entre os outros alunos. Ainda havia algo que faltava a ele e que fazia todas as tentativas de comunicação parecerem incômodos interrogatórios sobre o passado que não tinha, e isso fazia sua cabeça doer, então prestar atenção em Madileni acabava sendo natural.

- Eu consigo te ver, sabia? – Ele sorriu de debaixo da árvore.

- Parabéns, deve ser o que acontece quando você tem os dois olhos inteiros...

- Está trabalhando? – Ele subiu na árvore com menos habilidade do que poderia ser exigido, mas mais do que teria semanas antes.

- O que parece?

- ... Parece que você não tem mais o que fazer e está matando aula escalando árvores. É o que pareceria qualquer criança no meio da escola aqui em cima, e é o que vai parecer se algum inspetor te ver.

- ...Nenhum inspetor vai me ver... – Ele mordeu uma barra de chocolate e puxou para o olho bom um binóculo.

- Se você diz... E então, o que estamos fazendo?

- “Nós” não estamos fazendo nada. Eu estou fazendo uma tarefa idiota, mas pelo menos estou sendo pago para isso. Você só está sendo intrometido.

- Esse intrometido pode te ajudar e você vai estar liberado mais cedo... – Ele apontou para a cartucheira de couro presa na perna de Madie – Eu tenho certeza que os chocolates aí não vão durar muito mais...

Madileni hesitou, enfiou a mão pelo bolso e os dedos se movimentaram ao redor dos papéis, fazendo barulho, contando mentalmente. Se deixou ser derrotado essa vez.

- Tsc, estou coletando dados. O filho de um cara que interessa para Smile estuda naquela sala. Não me olhe com essa cara, eu não vou fazer nada, eu não sei o que querem com ele. Só preciso de umas fotos.

Miyukashi esticou as duas mãos .

- Me diga quem é e me dê a câmera.

- Por que eu faria isso?

- Porque as fotos de perto vão sair melhores e mais rápidas do que você tentando mirar por uma janela. – O sinal do fim do intervalo tocou ao fundo – É pegar ou largar.

Contrariado, ele entregou a câmera, mostrou o alvo para Miyukashi em sua dogtag e observou o mais novo pular de volta ao chão. Yuka estava começando a se afastar quando ele o interrompeu.

- Hei. Que horas você sai?

- Uhm... Tenho mais três aulas.

- Ok, eu vou avisar aos outros que eu te acompanho até em casa. Te espero no portão... Para garantir, você sabe, a câmera...

Apesar de essencialmente a rotina de Knuksi e Madie destoar do resto da loja, por vezes os dois tinham se cruzado dessa forma fora da Sweet and Dark, de forma natural. O menor tinha rido muito ao entrar no bar do Smile com Gurake um dia e encontrado o menino e seu tapa-olho destroçando um bolo, cercado de canecas vazia, enquanto urrava sua história para Comet e o bartender, meio de boca cheia.

- Um tapa!!! O loirinho viciado em lápis de olho teve a coragem de me dar um tapa!!! Depois de tudo que eu fiz por ele!!! E Knuksi ainda defendeu ele! Essas coisas não estão certas!!!

Comet parecia particularmente interessada na história, famosa por ser uma velha fofoqueira, mas no final teve de o deixar para resolver assuntos classificados como urgente. O agente misto ergueu as sobrancelhas e se ofereceu para ajudar, mas ela apenas riu, apertou sua bochecha, e declarou ser um problema para adultos. E foi entre cenas assim que aquele mês se passou sem que nada excepcional fosse documentado na Sweet&Dark. Os vizinhos aos poucos passaram a aceitar os gritos, vindos da loja, embora mais de uma vez Achix tivesse estado a alguns decibéis de incomodo de bater na porta histericamente mandando todos se calarem. Mas com mais gente haveria mais brigas e mais risadas e mais debates, era inevitável.

Lienara e Yan estavam passando mais tempo fora do que nunca, e , dentro da loja, amenina estava sempre desconfiada com fichas abertas ao seu redor. Ele, por sua vez, parecia cansado e irritado, mantendo sua rotina diária com Gurake, que parecia alheio a qualquer mudança ao seu redor, mas especialmente agressivo com Knuksi quando ele se oferecia para ajudar. Embora todos fossem estrangeiros, ele não considerava o alpino membro da comunidade local, repetindo sempre que se ele iria embora em poucos meses, não precisava se intrometer a fundo em nada. Knuksi apenas sorria de forma gentil.

Ao fim desse mês de relativa calmaria, Gurake chegou tarde de uma noite de apostas mal sucedida, entrou na ponta dos pés para não acordar Shiraiku e cumprimentou com a cabeça Kiieth, saindo do banho. Lienara e Ayan ainda não estavam lá, Miyukashi dormia na ponta oposta de sua cama e, sobre ele, Madileni abraçava o travesseiro. Desistindo de dormir, tinha finalmente conseguido dormir após se revirar na cama por muito tempo quando sentiu um peso sobre seu peito. Seu raciocínio foi rápido: era apenas Miyukashi. Por um momento isso pareceu óbvio, mas no instante seguinte ele percebeu que não fazia sentido. Podia sentir o menino dormindo, agora agarrado em sua perna na outra ponta da cama, e Yuka não era tão leve. Ergueu a mão sem abrir os olhos e tocou no que estava causando esse peso. Macio. Continuou deslizando a mão pelo objeto. Tinha algo comprido na ponta e algo que mordia na outra. Um gato, certamente um gato. Juntou rapidamente os pontos e chegou a sua segunda conclusão óbvia, o gato do templo tinha seguido ele. Abriu os olhos devagar para seu terceiro erro consecutivo desde que tinha lançado aqueles dados. Aquele não era o Biyako, e o felino em um movimento calculado ergueu uma pata, expos suas garras e atingiu seu rosto sem piedade.

A cena seguinte se deu em um misto de instinto e extensão do azar pelo qual passava o espadachim. Em um pulo de susto e dor, ele lançou o gato para fora de seu colo e tentou levantar subitamente da beliche. Sua cabeça atingiu a cama de cima, fazendo Madileni levantar assustado e tateando seu redor em busca de uma arma para se defender, e então, com uma dor atordoante na cabeça, sem ainda ter se recuperado do ataque, ele caiu da cama, chutando Yuka no processo, e tentando se segurar no travesseiro, em um ato não apenas inútil, mas que também fez um objeto de madeira guardado sob ele ser lançado ao chão. E em seguida veio o som de crack e ele sentiu como se tudo tivesse ocorrido em câmera lenta e o mundo voltasse ao normal.

Virou os olhos para cima, aturdido, vendo Knuksi passar correndo para tirar das mãos de Madileni algo parecido com um explosivo caseiro enquanto tentava garantir para ele que estava tudo bem, bradando que não estavam sob ataque. Yuka agarrava seu estômago com lágrimas nos olhos após o impacto. E havia uma voz dando uma bronca em alguém. Uma pessoa loira desconhecida com uma bandana na cabeça erguendo o gato.

- Fliihew! Você não pode simplesmente bater nas pessoas aleatoriamente!

Gurake, piscando muito, mudou o foco entre Knuksi, Madileni, Miyukashi, o gato e o desconhecido. Em algum lugar ao fundo viu Kiieth apenas virar os olhos e voltar a ignorar a cena. Ainda sentia dor, e estava confuso, e havia algo que não se encaixava em tudo. O barulho de algo quebrando. E então o desconhecido olhou para o seu pé e soltou um “Ah...!”, o erguendo subitamente. O aspirante a espadachim respirou fundo e seguiu com os olhos devagar em direção ao chão.

- Isso era uma flauta?

Era. Era a flauta dele. Seu peito ardeu em chamas. O desconhecido jogou o gato de leve no chão, o empurrando para longe, e passou a juntar os pedaços de madeira, mas Gurake o empurrou de leve e fechou as mãos sobre as peças maiores.

- Ahn, bom, no meu povo temos um ditado de que boas amizades começam com grande caos, isso é um bom sinal, não é? O que eu posso fazer para compensar?

Gurake não queria saber e respirou fundo.

- Eu não sei quem é você, mas eu te odeio!!! Eu vou amaldiçoar todas as suas gerações de descendentes se não der para concertar isso.

Madileni, agora mais calmo, revirou os olhos.

- Ah, pela Aliança, o negócio está quebrado ao meio, não dá pra simplesmente colar um instrumento de sopro!

Gurake o encarou de forma fulminante e então se voltou ao loiro, soltando o ar pelo nariz. Passos se ouviram nas escadas.

- Masachiel eu ouvi um barulho, está tudo bem, Knuksi fez algo? - Knuksi soltou um som de indignação pela acusação enquanto Ayan chegou ao topo dos degraus seguido de Lienara, e fez uma análise rápida da cena. – Olha que só bonitinho, bem que o Gurake estava em paz demais com todo mundo...

Masachiel deu um pulo para trás e parecia que iria chorar.

- A-amaldiçoar?! Oh, não, Não, é uma palavra muito forte... E já disse que farei o que puder para ajudar e...

Se apoiando na proteção da escada, Lienara riu.

- É, ele tem o poder de amaldiçoar você, novato, para sempre.

Ayan lançou para ela um olhar de reprovação enquanto o novato com o gato tinha uma expressão de pânico.

- Não, ele não tem, não escute ela.

- Ah, eu tenho sim. – Gurake tentava juntar as peças da flauta artesanal em vão. Estava destruída.

- Pare de ser infantil, Guu. Está assustando o Masachiel. – Ayan fez um gesto de convite para que o recém-chegado descesse – Se já tiver deixado sua mala, vamos continuar o assunto no café da manhã?

Masachiel deu mais uma olhada para Gurake, com os olhos verdes furiosos, antes de o seguir, em passos curtos e rápidos. Se encolheu ao lado da cama, bufando, enquanto Knuksi bocejava, de pijamas também camuflados, cogitando descer para o café da manhã, e Kiieth se arrastava para fora das suas almofadas, procurando o que vestir. No fim, percebeu que nem Miyukashi estava dando a devida atenção à sua raiva, cedeu, e todos acabaram por descer para a mesa de café da manhã, que agora acaba por se externder pela loja. A parede com a porta camarão se mantinha aberta, a cama de Shiraiku ainda no salão, e alguns conseguiram se sentar a mesa, outros sobre o próprio balcão, e, finalmente, alguns eram condenados a ficar em pé. Havia certa lógica na bagunça.

Gurake desceu de pijamas, encarando o novato, e esperando uma oportunidade de levar suas reclamações para Shiraiku, que abria os armários e contava alguns comprimidos antes de toma-los metodicamente. Madileni gracejou e deu uma cutucada com o cotovelo em Miyukashi.

- Ayan implica com meu primo, seu irmão implica com o novato, tem alguma regra não falada aqui?

Shiraiku finalizou os comprimidos com um gole de café e sorriu.

- É bom que estejamos todos aqui reunidos, como sabem tínhamos duas vagas para hóspedes temporários, e eu estou feliz em anunciar que esse bom menino, Masachiel, sejam todos gentis com ele.

Kiieth concluiu que ainda haviam falhar em seu vocabulário e, sentado sobre o balcão, puxou a manga de Knuksi.

- Shiraiku está feliz em receber mais gente aqui?

- Bom... –Shiraiku limpou a garganta, sem graça – Ele tem uma profissão, pagou adiantado e nunca matou ninguém. Acho que é a pessoa mais decente que entou por esse teto nos últimos tempos!

Houve um murmúrio coletivo e Gurake bufou de leve. Masachiel se curvou em cumprimento e se apresentou formalmente.

- Meu nome é Masachiel, e esse pequeno aqui é o Fliihew, pedimos desculpas pelo início bagunçado. – o gato miou como se cumprimentasse a todos - Sou violinista, pertenço ao povo rom então eu não tenho uma terra para chamar de minha, mas venho do norte. Vagávamos por uma extensão de terra, mas na data de minha maioridade o acampamento foi destruído. Como todos sabem, isso é um sinal de má sorte, então eu fui ostracizado e agora eu sigo sozinho, não tenho mais o direito de viver com eles por... Bom, por muitos motivos.

Gurake levantou do seu canto no chão e deu um sorriso sarcástico.

- Já acabou? – Ele saiu da cozinha, ainda ofendido

Miyukashi cumprimentou educadamente e então saiu correndo atrás do irmão e Masachiel abaixou os olhos nitidamente constrangido.

- Eu... Eu não queria chatear ninguém... Aquilo era tão importante assim?

Knuksi ergueu os ombros como se dissesse que não sabia e Ayan se apoiou na parede com uma cara pensativa.

- Bem, ele era péssimo. – concluiu Madileni.

- Eu tenho quase certeza que é um souvenir no templo. – todos olharam para Lienara – Gurake vive falando sobre ser um samurai e anda com aquela espada para cima e para baixo... Tem aqueles livros sobre um samurai famoso e uma flauta. Eu não duvido que ele tenha visto e comprado por... Comprar.

Masachiel, cabisbaixo, ainda tentava julgar as consequências de sua ação, quando Shiraiku bateu palmas altas.

- Ok, todos apresentados, acelerem o café da manhã que eu preciso abrir a loja!

Foi um dia comum. No templo, Gurake e Ayan treinavam sob a condição de que não se falasse na tal flauta enquanto o gato do templo bocejava, deitado em um dos galhos da maior árvore do pátio. Enquanto Kiieth e Lienara trabalhavam, Knuksi tinha se oferecido de forma gentil a acompanhar o novato em trivialidades necessárias para seu estabelecimento na cidade.

- Ele não vai admitir, mas se sente responsável. – Madileni declarou para Myukashi enquanto comia um sanduíche recheado de creme de chocolate para o almoço. Os dois meninos estavam sentados em um canto isolado do templo. - Responsável?

- Masachiel é um rom, do norte, o acampamento dele foi destruído. Knuksi não é burro, esse tipo de coisa costuma ter o envolvimento do Exército da Aliança da Salvação. Não toleram muito a noção de um povo invadindo suas fronteiras e tentando se estabelecer.

- E o que ele tem a ver com isso?

- Espero que só o sentimento de culpa. Eu não sei direito quais missões ele se envolveu ou não antes de desertar. Mas ele sempre leva para o lado pessoal.

O frio avançava aos poucos, desestimulando qualquer atividade após o pôr-do-sol. Gurake ainda refletia se deveria voltar para a loja e se aquecer ou ir para o Cais apostar. Ayan vetou ambas as opções.

- Você vem comigo essa noite. Faz parte do processo de aprendizado, você escolheu isso para você.

Ele protestou e Masachiel zombou.

- Nos Alpes o padrão é ter um berço de neve te esperando ao acordar, isso não é frio sequer para vestir um casaco!

- Estranho ... – Ayan interrompeu - Seu primo usa um casaco forrado até nos dias de sol.

Madileni mastigou devagar seu chocolate, procurando uma resposta que não veio, e então decidiu apenas erguer o dedo médio. Gurake olhou repreensivamente como se ele estivesse ensinando algo errado para Miyukashi, mas ele não ligou, apenas se levantou e limpou as calças da grama grudada.

- Ok, os dois patetas vão patrulhar então eu suponho que eu fico com o coelhinho. – Ele ergue Miyukashi pelo braço – Ou você também é super sensível ao frio?

Gurake puxou a orelha de Madileni em uma brincadeira que ele não gostou muito.

- Se comporte com Yuka!

- Exato. Se comporte. – Ayan não estava brincando.




Os meninos se separaram dos dois e pouco tempo depois Madileni deu uma piscadela e perguntou se Miyukashi se importava com um desvio.

- Senhor Ayan e Guu não vão gostar disso.

Madileni fez uma voz debochada.

- Mimimi senhor Ayan e Gurake.... Não vou matar a gente. Vamos passar no consultório do Zollrien e confirmar umas datas.

- Pode fazer isso com sua Dogtag... – Ele revirou os olhou.

- ... Posso. Mas já faremos isso no caminho e aproveitamos para ir nos divertir um pouco.

- Sabia que tinha algo. Não vou levar broncas a toa.

- Tsc. Não tem nada de mais. Vamos até onde Knuksi está. Aproveito e pego os logs da minha próxima tarefa. Também poderia ser digital, mas eu gosto de fazer isso pessoalmente.

-... Nada de errado?

- Nadinha. – Ele abriu mais uma barra de chocolate e fez uma expressão séria tentando ganhar confiança de Miyukashi. – Vamos, certo?

Miyukashi desistiu e eles viraram na ruela e prosseguiram seu caminho. Era uma noite de lua nova e tudo estava mais escuro que o normal, incomodando o menino, mas Madileni não parava de falar e ele se sentia confortável com a sensação de companhia. Após meses, o caminho para a clínica de Zollrien já tinha se tornado parte natural da rotina dos dois meninos, tanto em trajeto quanto em pessoas. Aquela noite estava sendo especialmente movimentada. Madileni de tempos em tempos olhava discretamente para o topo dos edifícios, até que parou e verificou sua dogtag. Nenhuma nova mensagem.

-Algo errado? – Miyukashi esticou o pescoço sobre o ombro dele.

Madileni olhou para cima mais uma vez, se demorando mais.

- ... Não sei, tem muita gente por aqui hoje, isso é incomum. Mas eu não fui notificado de nada então acredito que seja paranoia...

Miyukashi o acompanhou olhando para cima.

- Bom, se não te notificaram não deve ter a ver com você, tem?

Ele abaixou um pouco os olhos e respirou fundo.

- Talvez. Bom, vamos prosseguir...

Eles desceram timidamente a escada de acesso ao escritório e a porta se abriu de repente antes que tocassem a campainha. As pessoas de saída cumprimentaram Madileni com um aceno de cabeça e ele apenas ergueu a mão em resposta. Ele e Miyukashi trocaram olhares como se estivessem confirmando entre si que a movimentação não era muito comum. Madileni olhou a dogtag novamente e entrou.

Pela primeira vez desde que o conheciam, Zollrien estava calado. Sem piadas, sem provocações. Mal tirou os olhos de sua prancheta enquanto entregava a Madileni alguns papéis e sincronizava rapidamente algumas informações na dogtag do menino e então agitou os dedos num sinal objetivo para que ambos saíssem e fechou a porta. Tudo aconteceu de forma muito breve. Madileni suspirou e encarou Miyukashi.

- Ok, agora isso foi estranho de verdade.

- Estão todos ocupados com alguma coisa.

- Não gosto de estar de fora, mas se for algo para nós o Knuksi vai saber.... Acho. Bom... Vamos!

Madileni fez uma reverência cheia de floreios indicando uma direção para Miyukashi, que abanou a cabeça em negação e começou a danr. Ele conhecia vagamente os caminhos dessa região apesar de todo esse tempo, estava acostumado a seguir sempre as mesmas ruas. Não se lembrava de já ter caminhado pelo trecho que percorriam agora. Madileni parou em um beco e apontou uma pequena passagem com uma chapa de metal enferrujado proibindo o prosseguimento. Miyukashi travou.

- Ahn.. Eu acho que não.

Madileni não zombou dele. pausou um momento e então segurou Miyukashi pela mão e sorriu confortavelmente.

- Eu imaginei. Mas alguma hora vamos ter de conseguir trabalhar isso, apenas... Não se concentre no lugar, se concentre em mim, vai ser rápido.

Madileni ignorou a placa de advertência e proibição de entrada e o puxou por uma escada que levava ao subsolo correndo, puxando o outro menino pela mão. A passagem era iluminada por lâmpadas pontuais e as paredes eram revestidas em pedra e o chão gradeado mostrava um filete dos canais correndo ao fundo.

- Madie.... Madie! – Ele tentava falar enquanto corria – Eu não gosto daqui eu....

Madileni apertou a mão dele mais forte.

- Aguente apenas um pouco, é o melhor caminho quando a maré está baixa, coelhinho.

Miyukashi revirava os olhos entre o teto baixo e as paredes. De tempos em tempos passavam por uma bifurcação ou uma saída lateral. Madileni se concentrava em fazer do trajeto o mais rápido possível. Quando saíram, em um ponto da cidade muito mais distante por terra do que o tempo gasto, mas que para Miyukashi parecia ter sido muito mais longo, o mais novo estava suando e com as pernas bambas. Sem Madileni não teria continuado a correr. Ele arregalou os olhos e agarrou os ombros da camiseta do mais velho. Não estava ofegante, achava que apenas não respirava mais.

- Não faça mais isso.

- Não farei mais isso quando você apender a ir por cima. – Ele apontou para o topo dos prédios – O lugar dos nosso não é nas ruas.

- Caminhamos todas as outras vezes!

- Não até aqui.

Miyukashi olhou ao redor. Não havia outra entrada para o lugar, uma abertura como uma clareira no meio da cidade. Os prédios que a ladeavam se uniam sequencialmente em uma parede contínua, a maioria deles sem janelas voltadas para lá. Ele não soltou a camiseta do outro menino enquanto aos poucos foi encaminhado para a porta dos fundos de um dos edifícios. Quando cruzaram a porta, foram recepcionados por som alto e animado.

A entrada ficava no nível de um mezanino de madeira que rodeava todo o andar. Esse se estendia de tempos em tempos formado docks com mobília e em distâncias regulares escadas de metal levavam ao andar de baixo. Pessoas andavam despreocupadas com armas em suas cinturas, relaxadas carregando copos de bebida. Grupos riam em sofás ao redor de vídeos holográficos no Dispositivo Pessoal de alguém.

- Bem vindo a um dos cantos favoritos dos informantes da região, coelhinho. Eu te disse que existem muitos lugares para relaxar. Alguns são casas de jogos de azar. Outras são casas de assuntos ade adultos. Alguns são bares. E então tem lugares assim, onde as pessoas só querem ter um momento de descanso... A maioria aqui está de folga, eu suponho, você vai encontrar gente trabalhando de fato em outro tipo de ambiente, com mais privacidade. Miyukashi soltou aos poucos a camiseta de Madileni, se aproximou do parapeito do mezanino e olhou para baixo. Havia um único grande salão, diferente do bar de Smile com a passagem pro edifício anexo ou dos armazéns que tinha conhecido cheio de suas divisões e salas particulares. Alguns dos rostos lá embaixo eram conhecidos de dias com Lienara, Ayan e Gurake, outros pareciam intimidadores e estranhos. Haviam sofás mesas e espaços amplos com pessoas em pé, rindo e dançando. Ninguém parecia ligar para o conflito de ruídos.

Em um canto, um bar com balcão grande em madeira se destacava em luzes piscantes discretas e amareladas ao fundo. Lienara estava sentada em um dos bancos ao lado de Kiieth enquanto Knuksi ria sentado no próprio balcão, batendo palmas ao ritmo da música, rindo descompromissado. No palco improvisado ao lado do bar, o novato Masachiel tocava violino animadamente em conjunto com outros músicos.

Madileni deu um empurrão de leve nas costas de Miyukashi.

- Você desce e vai ficar com os outros, eu já vou!

Ele acenou para alguém que o cumprimentou de volta e apontou um assento vazio. Miyukashi o deixou e desceu timidamente as escadas. Alí ele não se sentia mal. Havia algo de acolhedor no excesso de pessoas e no caos. Apressou o passo vagarosamente pelo salão e viu Knuksi abrir espaço para que ele também se sentasse no balcão. Lienara o ergueu pelos braços para ajudar.

- Hey, Ayla!!! – Uma garota com olhos finos e puxados e sardas discretas estava atrás do balcão e se virou quando Lienara chamou – Já que você não termina esse drink nunca, acrescente um suco pro pequeno parasita do nosso grupo!!!

A menina riu.

- Vou cobrar o dobro de você, Lie!

- Ah, por favor me poupe, as bebidas nem são suas!

Knuksi não parou de bater palmas mas cutucou Miyukashi com o cotovelo.

- Ela fala isso porque aqui não temos um dono, o lugar é meio que público. As pessoas se revezam para servir. Ainda temos de pagar a bebida, Smile pode fornecer um espaço como recompensa pelos nossos serviços, mas nunca vai deixar de lucrar.

Miyukashi agitava os pés no ar.

- E como sabem quanto devem se não tem uma pessoa fixa?

Ayla chegou com os copos e enfiou um na mão do menino, tocando nele com suas unhas compridas pintadas em cores chamativas.

- Confiança. – Ela disse com uma psicadela e se debruçou no balcão entre os dois - Os agentes de campo raramente vem aqui, eles desconfiam muito de informantes porque sabemos demais e vedemos informação demais, os que não nos conhecem agem como se não tivéssemos um código de ética. Tem umas aberrações de agentes mistos... – Ela cutucou a cintura de Knuksi com os dois indicadores e ele deu um pulo de leve –... tipo esse cara aqui, que sabem mais como somos. Informantes confiam um no outro. Sabemos demais de verdade, e é por isso que sabemos proteger o grupo. Se uma coisa é colocada sob sigilo, ela não pode ser vendida e fim.

Lienara suspirou.

- Bom, isso não é verdade em todos os lugares, mas essa cidade é ótima nisso. Comet é a melhor líder que poderíamos ter.

Outras pessoas se aproximaram do balcão e começaram a fazer pedidos, e Ayla resmungou mas voltou em pequenos saltos ao trabalho. Kiieth puxou seu canudo confuso.

-Decidir se gosta ou não disso – Ele tragou a bebida e fez uma careta de que não gostou.

- Ah, ela adora isso. – Lienara puxou a bebida de Kiieth e provou, torcendo o rosto também. – Ela também é péssima...

A música chegou ao ápice e se encerrou com uma rodada de urros e aplausos. Masachiel tinha as bochechas cor de rosas sob seus olhos arroxeados. Pessoas pediram mais uma música, mas ele ergueu a mão indicando que precisava de fôlego, então alguém simplesmente ligou o rádio enquanto ele e os outros músicos que o acompanhavam se separaram animadamente e o novato se dirigiu para o balcão, arrastando consigo uma cadeira e com as moedas presas em seu lenço tintilando enquanto ele andava.

Lienara esticou para ele o drink de Kiieth e ele bebeu um gole grande, inocente, e lágrimas desceram de seus olhos.

-Isso é uma bebida local?

- Bom, quando é a Ayla no balcão, sim, é. – Lienara zombou.

Miyukashi provou seu suco com cautela, mas não havia nada de errado com ele. O músico apoiou delicadamente o violino entre Knuksi e Miyukashi e o menino encarou a peça.

- Pode pegar se quiser. Não ligo de ter de reafinar, Fliihew destrói as cordas de tempos em tempos, já virou rotina.

Miyukashi corou mas aceitou a oferta.

- Você disse para o Shiraiku que você é músico, mas não disse que estava envolvido com esse tipo de trabalho.

Masachiel riu do menino.

- Sou apenas um músico mesmo. Mas meu azar sempre me faz ser envolvido. Eu só queria uma vida de paz...

Miyukashi encarou Knuksi.

-Ah, sim. Quando eu disse que esse é um lugar de informantes, eu quis dizer apenas majoritariamente informantes. Todos os nossos lugares são braços abertos para quem não tem um lugar.

- Meu povo não tem para onde ir geralmente, então, bom, estamos sempre por essas laterais da sociedade. Não é como se eu tivesse chegado aqui com um passaporte real. – A voz dele era sempre mansa e calma.

Kiieth balançou a cabeça em decepção.

- Shiriaku vai surtar.

- Bom, ele não tem de saber. – Lienara cutucava os cubos de gelo na bebida intragável, e então ergueu o copo – Deixemos ele no mundinho simplista dele, um brinde para o nosso novo amigo.

Knuksi e Kiieth brindaram junto, fazendo Masachiel corar. Ele pegou o violino de volta das mãos do menino e pediu licença para voltar a tocar. Novamente o salão se agitou.

Madileni voltava agora para o grupo e se jogou na cadeira que Masachiel tinha trazido. Encarou Knuksi e Miyukashi.

- Porque vocês estão sentados no balcão? - Os dois ergueram os ombros sem saber direito o motivo. Estavam apenas aproveitando. – Vocês todos são um monte de esquisitos.

Kiieth olhou com o canto de olho.

- Quem fala...

Madileni o ignorou.

- Knuksi, tem algo acontecendo?

- Uhm, não? – Ele tinha voltado a acompanhar a música, sem dar atenção ao primo. – Por quê?

- Tinha muita gente nas ruas quando eu e o coelhinho aí estávamos andando para cá. Gente dos nossos, agitada, o Zollrien também estava estranho.

Lienara estava jogando no seu dispositivo pessoal e também não deu atenção ao responder.

- Ele é sempre estranho, parecia estranho para você, Yuka?

- Tudo parece estranho pra mim.

- Viu? – Knuksi deu o veredito. Nada estranho aqui.

Madileni sentou emburrado e contrariado. Abriu uma das cartucheiras de couro presas à sua perna e tirou alguns chocolates e mastigou lentamente. Knuksi trocou olhares com outro informante, flertando, Lienara o puxou pela manga e sussurrou algo e Knuksi pareceu satisfeito enquanto os dois davam risadinhas. Kiieth se comunicava com Ayla entre os pedidos, num misto da língua local, mímica e apontar, mas num processo avançado de aprendizagem. Miyukashi estava feliz e relaxado agora, e definitivamente aliviado de Madileni ter dito a verdade. Ele sentia um pouco de sono e sabia que precisava acordar a tempo para a aula no dia seguinte, mas estava aproveitando.

O menino não tinha um Dispositivo Pessoal e o lugar não tinha um relógio de parede então já não sabia há quanto tempo estavam lá, mas parecia muito pela quantidade de músicas que Masachiel e seus novos amigos músicos já tinham colocado no repertório. Uma luz vermelha se acendeu em um dos pilares do mezanino durante uma música mais lenta. Alguns olharam e ignoraram, Madileni esticou o pescoço atento. E então outra luz se acendeu, fazendo Ayla parar um momento com os drinks no balcão. E outra, até que todas as luzes dos pilares tinham se tornado vermelhas.

Os músicos pararam entre burburinhos. Alguns perguntavam se estava quebrado quando uma miscelânea de sons de alerta de mensagem vindos dos mais variados modelos de Dispositivo Pessoal começou a apitar. Lienara desligou seu jogo, Knuksi puxou de sua bolsa lateral o chaveiro de ursinho e Madileni pegou a sua dogtag com uma expressão de triunfo que nenhum dos mais velhos viu porque estavam ocupados lendo. Miyukashi tentava estiar o pescoço para ler também, mas era em vão. Tantas pessoas sussurravam em conjunto que isso se tornou um barulho real.

Knuksi e os outros se ergueram bruscamente enquanto Masachiel se juntava ao grupo, também com um alerta em mãos. Madileni exclamou que tinha avisado, mas Knuksi fez um sinal de silêncio para ele enquanto o excluía junto de Miyukashi de uma roda de conversa entre os quatro mais velhos. Uma troca rápida de palavras e ele comandou:

- Você leva o Miyukashi para casa e nos espera lá, podemos conversar quando chegarmos.

- O que?! Eu sou um membro qualificado para estar presente em qualquer reunião necessária e....

- ... Mas Miyukashi não é e eu sei que eu já te coloquei em risco muitas vezes, mas ainda sou responsável por sua segurança e estou dizendo para você ir.

Miyukashi se encolheu enquanto Madileni o puxou pela gola e saiu batendo os pés.

- Injusto, isso é injusto! – Ele resmungou durante a saída até chegar na entrada da passagem subterrânea. Revirou os olhos e se voltou para Miyukashi – Não sou eu quem faz as regras, apenas ature isso .... Se você desmaiar eu te arrasto até o outro lado.




Madileni arrastou Miyukashi até a loja, descontando sua frustração nele, sem tentar responder ou amenizar nada. Uma vez que passaram pela porta, ele soltou com agressividade a manga da camiseta do outro, subiu para o sótão e enfiou o rosto num travesseiro. Shiraiku pediu explicações para Miyukashi mas ele não sabia ao certo o que dizer. Subiu com calma, com medo de provocar mais o menino e se sentou no chão ao lado da beliche.

- .... Desculpe por atrapalhar?

Madileni bufou, abriu a dogtag mais uma vez e se sentou na beira da beliche.

- Ele teria arranjado outra desculpa. Ele ainda não se decidiu se eu sou o melhor parceiro da vida dele, pra encarar tudo no mundo, ou se eu sou só conveniente para algumas situações.

- ... E se ele estiver preocupado? Gurake não me leva junto sempre por preocupação.

- ... Que tipo de preocupação é essa? Se isso tivesse acontecido quando ele estava nos desertos ele não estaria aqui para impedir. Ou ele controla tudo, ou ele aceita que se eu estive em um nível de trabalho uma vez, posso estar sempre.

- Posso perguntar agora sobre o que é o alerta ou você vai me ignorar de novo. – Ele esticou um caramelo como oferta de paz.

Madileni abanou a cabeça e desceu da cama para pegar o doce.

- Não sei ao certo. – Ele abriu a mensagem de forma que Miyukashi pudesse ler também e apontou o texto – Um pedido para todas as Lojas e todos os evolvidos na Família da região se coloquem em alerta e se dirijam para se informar... Lembra o Cassino do outro dia? Eles tem uma sala de conferência bem, bem, bem grande... É como um teatro normalmente, mas quase nunca é usada. Eu nunca vi nesses dois anos, em lugar nenhum, um chamado assim.

- Tem relação com as pessoas hoje?

- É o que mais faz senti...

Lá em baixo o sino de vento tocou indicando que a porta se abriu e os dois se levantaram correndo para ver o que estava havendo. Gurake e Ayan haviam se juntado aos outros e agora todos irrompiam loja adentro, fechado a divisória entre o salão da loja e a cozinha, ignorando Shiraiku.

Madileni correu para se unir a eles e Knuksi fez menção de impedir, mas Ayan o segurou.

- Acho melhor todos estarem aqui. Isso inclui você, Shiraiku.

O lojista ficou confuso, mas se uniu a eles.

Knuksi buscou uma tela maior que seu dispositivo pessoal e projetou um mapa cheio de marcações. O rio que quase circundava a cidade estava como referência, mas a área das marcações incluía toda a região ferroviária e as cidades mais próximas.

- Bom, esse é o mapa que a Comet forneceu a todos. – Knuksi pausou e encarou Madileni – Cada marcação é a posição de um ataque.

- Ataque? – Shiraiku piscou os olhos – Ataque no sentido de um dos trabalhos de vocês?

- Não. Ataque no sentido de que um dos nossos foi atacado, mas ninguém sabe porque. Nós tivemos um número significativo de mortes, Comet não quis informar desde quando...

- Mas provavelmente desde a época que Kiieth chegou – Lienara acrescentou. – Ela não vai oficializar a informação para ninguém questionar por que não se tomou atitudes antes, mas é... Todos esse tempo.

- Obrigado – Knuksi continuou - As mortes parecem ter sido consequência, não o foco dos ataques. Os sobreviventes estão bem atordoados e não falam coisa com coisa. Alguns falam em monstros, outros em vozes na cabeça deles. Tem alguma coisa errada no padrão, ele não fecha.

Gurake ergueu a mão.

- Well, mas isso não é só na cidade, certo? Então não é problema só nosso. Eu não entendo como pode acontecer, quando eu e Ayan saímos tem tanta gente patrulhando as ruas que ninguém mija numa árvore sem ser visto. - O sistema não é tão perfeito assim... – Ayan discordou – Mas funciona. Não faz sentido mesmo.

- O que fazer? – Kiieth batia os dedos alternadamente na pia da cozinha.

- Primeiro, descobrir a causa – Lienara suspirou.- Estão achando que o Exército da Aliança da Salvação está envolvido.

- Isso é ridículo – exclamou Knuksi.

- Vai defender eles?

- Nesse caso? Sim! A Aliança não é nem de perto capaz de se infiltrar tão cirurgicamente em tantos pontos, e agir tão coordenadamente. Não dá. Os alvos são muito fora de propósito, as pessoas com essa competência estão em trabalhos mais específicos...

Masachiel se encolheu na cadeira.

- Eu disse, eu disse que eu trazia azar por onde ia...

- Uma excentricidade! – Masachiel se ergueu. – Isso pode ser uma excentricidade!

- Madie, estamos falando de coisa séria! – Knuksi se irritou.

- Eu sei! Eu também!- Ele bateu na mesa e tudo balançou.

- Opa, opa!– Masachiel se esticou para agarrar abruptamente o saleiro que Madileni tinha quase derrubado– Derrubar sal na mesa dá azar, garoto.

Houve um momento de burburinho que foi interrompido por Shiraiku.

- Ei, ei, ei. Me deixem entender. Pessoas morreram e pessoas surtaram e nenhum dos seus sabem porquê. Ótimo, isso eu entendo, eu não sei como vocês trabalham, mas parece ser um ponto fora da curva. E o que vai ser feito?

- Bom... – Ayan puxou de Knuksi a tela e abriu outro arquivo, um documento de ordens. – Todos têm suas folgas automaticamente suspensas aqui, porque se torna obrigatório que todas as Lojas tenham uma porcentagem de membros trabalhando nas ruas. Geralmente os turnos são feitos por Lojas, que são como associações. Mas aqui não é uma Loja então não tem ninguém que assuma o risco por todos e distribua as tarefas, consequentemente cada um de nós é um núcleo de trabalho por si só.

- Devíamos corrigir isso – Lienara protestou.

- Para que? – Kiieth interveio – Knuksi e Madie são temporários. Não sermos equipe forte para isso.

- ... “Somos” – Corrigiu Ayan- De toda forma não é algo que conseguiríamos fazer agora, todos vão para as ruas... – Ele encarou Lienara com tristeza. - Com cuidado por favor. Os limites de território estão suspensos para que todas as cidades envolvidas possam investigar. Ë perigoso, é tornar todos os lugares terra de ninguém.

- A solução de vocês é colocar mais alvos na rua? – Shiraiku perguntou.

- Mais gente, mas em grupo e...

Alguém bateu à porta e todos pararam. Gurake saiu da cozinha e se colocou de prontidão para atender.

- Well, pois não.

Todos encaravam enquanto um grupo de informantes e agentes de campo estavam parados à porta.

- Boa noite a todos. O jovem Masachiel se encontra? – Ao ouvir isso, Masachiel se levantou – Ótimo, por medidas preventivas todos os recém chegados estão sendo requisitados a ir a um questionamento dado o novo estado de alerta.

- Espere, espere. – Gurake se posicionou entre eles e a porta. – Esse idiota é músico, o que ele poderia ter feito? Tocado notas até os ouvidos deles explodirem?!

- Nós não fazemos as regras...

Gurake olhou para dentro da cozinha pedindo ajuda. Ele não era uma pessoa de se preocupar com dois assuntos ao mesmo tempo, e a gravidade da situação atual tinha totalmente sobreposto em urgência à sua implicância.

- Não entendi – Masachiel olhou ao redor – Fiz algo de errado?

- Não podem levar ele – Knuksi se colocou a frente. – Justamente por ele ter chegado hoje, isso é fora do tempo de início dos ataques. Teriam de levar quase todos daqui! E ele passou o dia todo comigo.

- Estão se responsabilizando por essa pessoa? Esse lugar não tem um líder individual então eu necessito que todos assumam a responsabilidade e a punição em potencial.

Houve uma troca de olhares. Tinham acabado de conhece-lo. Era um assunto sério a se lidar.

- Eu assumo. – Kiieth ergueu a mão e disse baixinho – As pessoas aqui assumiram minha pessoa antes. Retribuo.

Gurake suspirou e também ergueu a mão.

- Well, eu assumo também. Se vocês levarem ele não posso fazer ele pagar o que quebrou.

Um a um todos ergueram a mão, até que sobrou apenas Shiraiku. Todos os encararam.

- Prefiro sinceramente não me envolver com isso.

- Já está envolvido. – Madileni apontou.

- Não, não estou envolvido em nada. Não sei de nada e assim que a loja começar a dar retorno financeiro, essa história de alugar espaço acaba e todos vão par a rua, entenderam?

- Ah, Shira-shi! – Miyukashi protestou – Disse que ele era bem vindo!

Sob resmungos e olhares julgadores, ele ergueu a mão.

- Nesse caso – disse o agente à porta – eu vou exigir apenas uma garantia de permanência. Tem algo que possa entregar?

Masachiel olhou para o violino sobre o balcão da loja.

- Ah, não por favor... Eu só tenho esse.

- Com sua licença. – O agente pegou a mala de transporte e ergueu levemente sua boina em um cumprimento antes de se retirar com o seu grupo.

Quando a porta se fechou Lienara cuspiu palavras entre os dentes.

- Eu odeio esses caras.

- A Loja deles é uma das mais antigas daqui, Comet confia muito. – pontuou Ayan.

Masachiel se deixou cair na cadeira.

- Ah, isso é insanidade.

O relógio de parede da cozinha marcou as três da manhã.

- Bom, vamos.... Vamos encerrar por hoje? Amanhã vai ser um dia longo, e sabe-se lá até quando essa loucura vai durar... Madie, quero uma palavra individual com você.

Ele puxou o menino para os fundos da loja e foi possível escutar os dois discutindo na língua nativa deles. Madileni não parecia feliz. Voltou para dentro e fez sinal para Miyukashi de que conversaria com ele depois e seguiu de volta ao quarto, para ficar emburrado na cama.




Quando Miyukashi saiu da aula no dia seguinte, Kiieth estava parado nos portões com as roupas pretas de couro absorvendo toda a radiação solar disponível nesse começo do inverno. Fez um sinal com o queixo para que o menino o acompanhasse e foi rapidamente obedecido.

- Vão precisar me buscar todos os dias agora? Eu estava acostumando já a encontrar o Madie.

- Vamos buscar ele também.

- E por que Madileni precisaria de escolta?

Kiieth deu um sorriso torto e bagunçou o cabelo do menino.

- Ele não precisa. Pedir ajuda para buscar livros na biblioteca. Ele pode ser exibido, mas bracinhos de uma criança.

Havia algum tom de satisfação nessas palavras. Miyukashi não tinha exatamente certeza de porque Madileni poderia precisar de livros físico se tinha um Dispositivo Pessoal e todo o resto, mas compreendeu que descobriria depois de toda forma.. Avançaram por ruas estreitas até chegar no edifício discreto da biblioteca, onde Madileni, seu tapa-olho e a capa rota e esburacada acompanhavam uma pilha de livros quase da altura do menino sentado na escadaria. Aquilo incomodou Miyukashi.

- Madie, acho que aí tem mais livros que o limite permitido em um registro da biblioteca.

- Ah, sim, blablabla. Ninguém liga.

Kiieth analisou a pilha de livros e protestou por dentro, mas Miyukashi colocou em palavras seus pensamentos antes que ele conseguisse juntar o vocabulário certo.

- Para que você precisa de tantos?

- Bom, na verdade eu queria um só, mas eles não tinham. Precisei juntar todos esses para ter o mesmo conteúdo. – Ele se levantou e bocejou jogando alguns nos braços de Yuka e erguendo outros– Bom, Kiieth... O adulto responsável leva os livros maiores, não é?!

Enquanto se questionava sobre bons motivos para não esmagar o crânio do menino com os livros, Kiieth respirou fundo para o desafio de atravessar metade da cidade equilibrando aquela pilha desconfortável que escorregava e se desequilibrava, além de garantir que não perdesse de vista os dois, que falavam demais, corriam repentinamente empolgados e, de um modo geral, faziam ele concluir que, por mais que não tivesse motivo legítimo para implicar com Miyukashi e tivesse sido salvo pela interferência de Midnight, ele realmente não gostava de lidar com crianças.

Durante o trajeto, Madileni lançava a ele olhares discretos, procurando uma janela de conversa sozinho com Miyukashi, mas sabendo que provavelmente teria de esperar até a noite.

- Hei, saariano, como estão os turnos?

- Não interessa, você não vai. Knuksi disse.

Miyukashi se surpreendeu, mas Madileni parecia tranquilo naquele momento.

- Sou menor de idade e tenho de obedecer ele, não é? Certo, certo. Nesse caso, já que eu vou ficar em casa e estão todos ocupados, não tem problema eu me oupar de treinar o coelhinho, certo?

Tanto Miyukashi quanto Kiieth exclamaram em surpresa.

- O que planejando?

- Nada. Eu só acho que parece mais prático?

Os olhos de Kiieth se estreitaram, ele tentou encarar o menino, mas era difícil fazer isso naquela posição de pessoas, o tapa-olhos estava virado em sua direção.

- E Lienara, está em casa?

Kiieth abanou a cabeça.

-Trabalhando. Ayan preocupado.

- Mais que o normal? – Miyukashi perguntou.

- Mais. – Kiieth parou para pensar em palavras de como explicar.

- Estamos numa situação excepcional, qualquer informante ou agente de campo pode circular pela região toda que está mobilizada. Isso reduz muito o sigilo de informações. Ela tem uns problemas, um dos nossos nunca venderia informações dela, mas alguém de fora pode fazer isso. – Madileni foi mais rápido.

- Estará protegida. – Kiieth foi direto.

Caminharam com calma para a loja. Os dias ainda eram mais tranquilos que a noite, mesmo em uma situação de alerta. Quando cruzaram a porta, Madileni sorriu simpaticamente e agradeceu a Kiieth pelos livros, carregando tudo para o andar de cima. Miyukashi movimentou os lábios par afazer perguntas, o seguindo, mas Madileni o puxou para trás das caixas do estoque, empurrando ele contra a parede enquanto fechava a boca de Yuka com uma mão.

- Escute, uma vez só. Eu não vou ficar sentado sem fazer nada. Eu ainda não sei o que farei, mas você está junto nessa. – Ele soltou a mão do rosto do outro devagar e questionou se ele tinha entendido.

- ... Por que você me prendeu para falar isso?

- Porque... Hábito?

- E se eu não quiser te ajudar?

- Ah, sério, você prefere todo mundo paranoico? Já teve um perdendo o violino ontem. Não escutou que tem até gente de nós correndo risco? Acha que seu irmão querido tem condições de ficar pelas ruas patrulhando contra uma cosia desconhecida? Eu vi você treinando. Treine mais. Vamos dar um jeito quando eu tiver idéia do que está havendo.

Miyukashi virou os olhos para a passagem da escada, como se verificasse que não havia ninguém por lá.

- E o que a senhorita Lienara fez?

Madileni se atirou em uma caixa e puxou um pirulito do bolso.

- Bom, é meio ridículo, mas apenas o trabalho dela.

- E por que em especial ela está em perigo?

- Nem todas as regiões tem códigos de ética fortes entre os informantes. Ela fez o trabalho dela, alguém no grupo rival morreu, houve retaliação, o grupo pra quem ela trabalhava sumiu. Identificaram que ela também estava envolvida e tinha passado informações, ela foi meio que condenada a sumir com o grupo. Certamente alguém de dentro gostava mais de dinheiro do que dos companheiros. Aqui não tem disso, ela pediu abrigo e fugiu para cá. - Se informações podem ser vendidas, eles não simplesmente sabem que ela está aqui com o senhor Yan?

- As pessoas sabem as informações que se vendem, coelhinho. E um outro informante daqui não vai denunciar o rosto ou paradeiro dela. É trair sangue do próprio sangue. Esse povo é pior que assassinos de aluguel. Ela escolheu um bom lugar pra pedir abrigo, Mama Comet adota todos que a ela se submetem. Mas ela ainda precisa ficar escondida, ela participa de menos coisas até a poeira baixar de verdade.

A escada rangeu de repente e Gurake atravessou a porta puxando mais sua boina de sempre para cima dos cabelos brancos longos. Os dois meninos mudaram de assunto imediatamente.

- O que vocês dois fazem atrás das caixas?!

Madileni sorriu de forma simpática e falsa.

- Vamos fazer uma base secreta para nós, já que vocês vão nos excluir da diversão.

Gurake riu.

-Well, eu não tenho uma flauta, o novato não tem violino. Acho que Lienara tem razão, minha maldição funcionou. Mas ele parece péssimo, não me sinto bem... Espero que tudo se resolva logo para eu poder ter razão em estar bravo. Madileni foi pra pilha de livros, abriu um e folheou.

- Vocês dois vão acabar melhores amigos do mundo e vão rir dessa história.

Gurake olhou pra ele e para Miyukashi e riu mais.

- Experiência própria?

Madileni fechou o livro abruptamente e soltou um som de indignação.

- Não?!?! Eu... Eu nunca...

Gurake riu ainda mais, quase gargalhando. Quando ele virou as costas, Madileni encarou o mais novo e movimentou os lábios sem soltar som.

Eu. Você. Juntos.

Miyukashi deu com os ombros mas acenou que sim com a cabeça.