
Miyukashi corria pelo recém construído circuito do fundo enquanto Madileni estava setntado entre as raízes de uma árvore, com um dos livros sobre o colo, tomando notas. O menino alpino não tinha muita atividade desde que tinha sido proibido de ajudar, quase uma semana antes, mas ainda não tinha dito a Miyukashi qual seu plano. Apenas para garantir, ele dissera, continue treinando sua agilidade, podemos precisar. Isso deixava o mais novo num misto de curiosidade e frustração: se estava disposto a levar uma bronca, queria saber o porquê. Tentou pular de um ponto para o outro e se desequilibrou.
- Bom, acho que isso encerra por hoje antes que você se mate. – Madileni não tirou os olhos do livro para dizer isso.
O outro se levantou e limpou a grama da bermuda, e se juntou a Madie sob a árvore. Os dois esperavam o horário em que todos se juntariam na loja para uma atualização dos fatos. No peito de Madileni, sua dogtag piscava em vermelho, mostrando um protocolo iniciado por Knuksi para saber onde ele estava.
- O que está lendo hoje?
- Um relatório sobre excentricidades.
- Ainda insiste nisso? Knuksi disse que era bobagem.
- ... – Madie suspirou – O que é muito infantil da parte dele, os Alpinistes já resolveram casos com excentricidades muitas vezes antes.
- Oh.
- Ele acha que é bobagem porque ele não acredita que haveriam excentricidades não registradas na cidade. Eu particularmente discordo dele...
- Por que?
Madileni parou por um momento e puxou sua dogtag, abrindo uma foto digital que flutuou na frente dos dois.
- Esse é Papá. Ele é um pesquisador para o Exército da Aliança da Salvação. Papá discorda da classificação atual. Atualmente todas as excentricidades são consideradas endêmicas. São grupos de população com um poder específico e sempre igual, herdade de pai pra filho e assim em diante, mas ninguém sabe explicar porque, se eles são geneticamente humanos. São poucos e todos eles são registrados e suas migrações são verificadas, mas... Dá realmente para controlar como um ser humano se espalha pela Terra? Eu não acho que dê, senão eu e Knuksi já teríamos voltado presos. E por que aceitamos tão fácil que essas coisas são originadas de um lugar só? Por que não podemos ter uma excentricidade vinda de outro lugar? Um tipo novo? Papá vive questionando isso.
- ... Ele é especialista nisso?
- Papá? Ah, não, apenas um químico. Mas ele tem muitas horas vagas.
- E existem excentricidades com o poder de fazer essas coisas que estão acontecendo?
- Não que eu saiba. Por isso vamos pegar essa.
Miyukashi encarou a foto com cuidado. O pai de Madileni tinha olhos vermelhos e cabelo branco, como ele, outro britânico. Talvez fosse o que Knuksi quis dizer com genes que se perdem facilmente em qualquer mistura. Após um tempo, apontou para um ponto.
- Esse é você antes do tapa-olho?
- Ahn? – Madileni torceu o rosto – Esse é a Minna, minha irmã mais nova, não tem nada a ver!
O mais novo pediu autorização com as mãos, tirou o elástico que prendia só parte do cabelo de Madie e reajeitou o rabo de cavalo e a franja meio comprida, meio mal cortada, imitando o penteado da foto. Eram iguais, exceto pelo tapa-olho e talvez pelo comprimento dos cílios. - Viu? Nada a ver.
- Claro, claro... – Ele soltou o cabelo do outro. – Mil desculpas, vou pedir depois um exame de vista...
Os dois se levantaram subitamente e Madileni fechou a foto quando ouviram uma aproximação ao longe. Miyukashi estava começando a aprender e melhorar nisso. Entre as árvores Masachiel surgiu sorridente e ergueu uma pasta escura.
- Vejam só o que eu consegui de volta!
- Oh! Meus parabéns! – Miyukashi se levantou animado e Madileni apenas bateu palmas de leve.
- Vamos lá, crianças, acho que vocês vão querer saber como vão as coisas e quando vão poder voltar a andar por aí! Já estão todos na loja.
A volta rápida do violino para as mãos do dono não alterou o clima paranoico que vinha sondando a loja. Shiraiku evitava o assunto, mas inevitavelmente ouvia comentários pelos cantos, e estava quase se acostumando com sua cozinha sendo usada como um quartel general. Ao redor da mesa, todos os seus inquilinos sentavam-se sérios ao redor de um mapa da cidade fornecido por Knuksi, agora uma versão impressa, sem nenhum real motivo. Àquela altura, todos já haviam sido chamados individualmente e questionados. Nas palavras de Lienara, todos que tivessem uma ficha correndo no submundo estavam intimados a ajudar na investigação, de forma que mesmo Gurake e Kiieth tinham contribuído. Knuksi em sua roupa militar discorria sobre os pontos marcados com uma canetinha fluorescente.
- Esse foi o último ponto de ataque registrado. No território e horário de ronda do Yan...
- Bah – ele soltou o ar mais forte pelo nariz - você também não foi muito mais eficiente.
- ...E esse – ele abria agora a versão digital – É um mapa atualizado.
Todos pararam um momento para analisar a sequência de pontos sendo ligados.
- Estamos separando as coisas por tipo de incidente e cor.
- Tem muito mais do que antes! Well, estamos fazendo um trabalho tão ruim assim? – Gurake se preocupou.
- Não exatamente... – Lienara estava tomando uma caneca de chá fumegante – Estamos considerando mais casos em aberto como parte do caso, procurando mais pistas e padrões. Tem coisas correndo aí há meses. Provavelmente não relacionadas, mas não podemos deixar passar.
- O que nos preocupa – prosseguiu Knuksi – é isso...
Ele afastou a imagem aos poucos, ampliando a área que estava no mapa par comportar aos poucos a região metropolitana, estado, país e, finalmente, todo o macrocontinente. Madileni se ergueu e se debruçou na mesa.
- Aquilo é a Aliança! Tem pontos por ela e por muito mais do Império Oriental! Isso é ridículo, ainda acham que é alguém normal fazendo isso?!
- Bom... - Lienara estava de cabeça baixa– Não apenas nas cidades vizinhas, mas em outros polos de máfias ao redor do mundo. Estão oferecendo uma fortuna pro informante de informações que soltar a ficha do atacante, dos atacantes, ou sei lá. Tem gente querendo trabalhar ainda com a hipótese de uma só pessoa, mas é ridículo, não é? Tipo, como uma pessoa ataca uma noite em Alexandria e outra aqui? – Ela apontou para as datas- A pessoa sabe voar ou se teletransportar? Levaria dias de trem, de dirigível, de qualquer coisa.
- Todos os ataques são iguais? – Kiieth olhava com calma a imagem e percorria com o dedo o mapa físico.
- Não... – Knuksi ampliou uma legenda – Na Aliança tivemos apenas casos sem conflito físico, aqui no Império Oriental em algumas áreas não houve contato físico em outras houve morte. Todas as marcas dessa cor – ele apontou – são casos em que pessoas, das nossas ou civis, reportaram ataques por monstros ou coisas assim. Geralmente as vítimas foram até alvo de piada, disseram que surtaram de estresse com as tarefas que assumiram... São coisas que podem ser traçadas até anos atrás se quisermos, mas não acho que esteja relacionado ao caso atual. As marcas assim... – ele apontou novamente – São casos que resultaram em morte.
- Na sua maioria...– Lienara abriu o próprio Dispositivo Pessoal e soltou uma projeção de dados- ...as vítimas apenas surtaram. Não tem nada nas cenas de ataque, nem uma rota de chegada e de fuga. A descrição... Bom, os que conseguem falar e não estão em choque dizem apenas que eles estavam cumprindo suas tarefas normalmente e de repente a vida deles virou um pesadelo.
Masachiel ergueu a mão.
- Não entendo direito, os ataques foram contra apenas os nossos? Você falou em civis. A pessoa deu apenas sorte em atacar os nossos? Porque parece meio improvável, não é algo fácil.
- Atacar gente treinada é fácil. - Kiieth girou os olhos ao redor da mesa – Basta ser melhor. Vocês conseguir atacar outros se souber quem é. É apenas difícil saber quem. Mais provável que o acidente sejam os civis.
Gurake massageava sua testa, confuso, e encarava os mapas.
- Well... Mas ninguém morreu de propósito? Tudo parece um acidente.
- Os ataques com os civis ao longo do tempo e esses parecem seguir padrões diferentes. – Lienara respondeu.
Knuksi soltou o corpo na cadeira, exausto. Não dormia direito desde o início das investigações.
- Assassinos, sequestradores, ladrões, violadores, invasores. Não dá pra levantar nenhuma hipótese real. Nenhum desses ataca pelo menos 50 pessoas em 10 cidades e 2 continentes sem que gente dos nossos trace um perfil e ache o alvo. Não tem perfil. A verdade é essa, estamos totalmente no zero. Estamos patrulhando apenas para aumentar a segurança, mas estamos jogando com a sorte de que talvez se alguém for atacado, alguém vai ver e ajudar e resolver.
Madileni fez uma expressão contrariada e cutucou Miyukashi debaixo da mesa. Ele tinha um perfil, apenas estava sendo ignorado.
- Talvez... Talvez seja uma maldição caindo sobre todos que querem fazer justiça sobre os outros homens!!! – Masachiel exclamou.
Todos se voltaram com um olhar de repreensão para o músico, que se encolheu com a censura.
- Qual é o seu problema? – Ayan encarou.
- O povo ron é altamente supersticioso. – disse Lienara – Mas você passa do limite.
Ele corou e sus orelhas ficaram vermelhas. Knuksi enrolou os mapas e bocejou.
- Acho que todos nós preferiríamos dormir, mas temos o que fazer essa noite. Hora de irmos. Quanto antes resolvermos isso antes voltamos a nossa rotina e ao dinheiro. Madie...
O menino ergueu o olho vermelho e esperou.
- Se eu te pegar fora daqui novamente durante esse período de tempo, vamos ter uma conversa séria.
Devagar, Shiraiku abriu a porta.
- Já vão? Novamente? Alguns de vocês estão acordados há quase 72 horas.
Lienara suspirou.
- Temos nos alternado em cochilos em alguns pontos de encontro e reunião, obrigada pela preocupação.
A garota vestiu o capuz de seu bolero preto e mandou um beijinho ao sair pela porta dos fundos. Ayan saiu atrás correndo para acompanhar. Knuski fechou mais botões de seu casaco e ajeitou seu capacete, enquanto Kiieth pegava no sótão a capa branca que vestia quando foi encontrado, sua favorita. Queria estar confortável.
Masachiel protestou de leve.
- Queria saber de que ajuda eu estou sendo além de ajudar nos números. Acho que em breve vão me usar de isca viva... - Ele acariciou o gato antes de sair conformado.
Gurake abraçou Miyukashi antes de sair.
Aos poucos, saíram um a um, largando na cozinha apenas as duas crianças e um gato. Shiraiku ficou na porta discretamente eperando ter sua cozinha de volta e quase foi atropelado por Madileni. Miyukashi subiu as escadas através do outro, sem pressa, enquanto o gato Fliihew se enroscava entre suas pernas. O outro menino já tinha se atirado de volta nos livros.
- Ainda bravo por estar fora, Madie?
- Cada vez mais perto de ter de lembrar ao Knuksi que ele já teria morrido umas dez vezes sem mim.
- Ele já parece bravo com você, não quer mesmo desistir e deixar isso pros adultos resolverem?
Madileni riu.
- Coelhinho, eles não são adultos. O mais velho deles talvez seja um jovem adulto, mas acredite em mim, eles não sabem tanto mais do que nós, só parece por enquanto. Além do mais, o que ele vai fazer? Me botar numa caixa com furinhos e despachar de volta pros Alpes? O plano continua. Ele vai pedir desculpas a mim e a todo mundo que tiver sofrido por não ter me escutado antes.
Yuka interpretou isso como um sim e atravessou o quarto para pegar uma caixa com dardos. Madileni urrou de dor quando ele pisou, de sapatos, em seu pé descalço por acidente e revidou atirando uma das almofadas contra o mais novo que desviou do golpe. O mais novo tinha aprendido a atirar os dardos e descoberto que achava isso altamente relaxante. Por algum tempo de silêncio, Madie ficou observando Miyukashi acertar dardo após dardo no alvo recém pendurado, na parede oposta do quarto, próximo às almofadas de Kiieth.
- Você está ficando bom nisso, coelhinho.
- Que milagre, você me elogiar.
- Mamã me ensinou a ser honesto.
- Isso é novidade pra mim.
Madileni se levantou e arrancou dois dardos das mãos de Miyukashi.
- Está ficando abusado, coelhinho.
O primeiro dardo lançado por ele não podia ter errado mais, acertando a madeira da parede, mas surpreendentemente o segundo acertou sem nenhum desvio o centro do alvo.
- E é por isso que eu não uso armas de fogo. Se eu der um tiro de correção o alvo não vai ficar parado.
- Eu não acertei o centro assim, você é bem melhor que eu.
- Acertou perto o suficiente. Teria matado o alvo, é o que importa. Precisão para imobilizar ele, reduzir a velocidade, ferir sem acertar áreas vitais... Você aprende com o tempo. Embora eu não visualize um garotinho que tem medo de quando apagam as luzes matando ninguém... Não torça o rosto, eu escuto você resmungando de noite.
Miyukashi foi buscar os dardos fincados no alvo contrariado. - Knuksi disse que você estava fora da onde deveria. Eu não lembro de ter te visto saindo, o que você fez.
Madileni refletiu se deveria dizer.
- Você tem um sono pesado... - ele puxou um pacote de balas do bolso - Ele talvez esteja bravo eu ter saído pra tomar sorvete e não ter respondido as chamadas dele porque estava sem sinal. Não me leve a mal, eu teria te acordado, mas foi uma vontade bem súbita, você parecia estar dormindo bem e isso é raro. Ele devia estar orgulhoso, eu consegui um lugar que vendesse sorvete as duas da manhã...
Miyukashi esboçou um sorriso discreto de agradecimento pela preocupação.
- Sabe o que você vai ter muito em breve desse jeito, Madie?
- O que? – Madileni se colocou na defensiva.
- Cáries.
Já era o meio da madrugada quando Miyukashi acordou com vontade de usar o banheiro. Dentro do quarto, apenas Madileni dormindo. Era a segunda semana de estado de alerta, cada vez menos os outros voltavam para casa, todos pareciam exaustos e sonolentos. Com a privação de sono, as mudanças de rotina, e a frustração, os ânimos estavam cada vez piores e mais suscetíveis a provocação. A todo momento uma briga explodia em algum canto. A última tinha sido resultado do novo brinco brilhante na sua orelha, idéia de Madileni. Ele gostava dos piercings de Ayan e Madileni tinha vários, aceitou a idéia. Gurake ficou furioso e tentou braveja com Knuksi se ele achava certo aquilo em uma criança.
Knuksi só tirou os olhos de seu mapa para erguer o cabelo assimétrico de Madileni e apontar para duas peças prateadas enormes em cada orelha do menino, ele estava guardando as energias restantes para brigar com quem importasse. Gurake contorceu o rosto parecendo que explodiria. Kiieth apenas lamentou.
- Meu povo considera errado a violação dos nossos corpos...
- Meu povo acha isso totalmente normal - Masachiel não parecia impressionado enquanto afinava o violino.
- Seu povo não é referência - Madie estourou uma bola de chiclete - Papá me dizia que seu povo roubava crianças e escondia nos acampamentos.
- Seu pai é o tipo de coisa que é o motivo de vivermos em acampamentos.
Na mesma hora Knuksi soltou um alerta para que ele parasse. Minutos depois, ninguém sabia mais porque estavam todos gritando um com os outros. Foi o último café da manhã em que todos tinham estado na loja juntos, e Shiraiku estava em dúvida se preferia isso assim ou se estava começando a se preocupar de verdade.
O menino desceu as escadas com cuidado, sem acender a luz para não despertar Madileni ou Shiraiku, e abriu a porta da cozinha com cuidado. Um vulto se moveu no fundo e ele não conseguiu gritar, mas levou as duas mãos ao peito. Knuksi correu para acudir.
- Desculpe, desculpa, eu não queria assustar.
- Não, não – seu coração pulava no peito – Eu... eu só não sabia que você estava em casa...
- Eu estava tentando não acordar ninguém, desculpe.
Knuksi estava com os cabelos molhados e uma toalha jogada no pescoço. Excepcionalmente estava vestindo apenas uma camiseta normal. Haviam manchas arroxeadas sob seus olhos. E ele tremia levemente ao colocar um copo de suco.
- Como estão os outros?
- Ahn? – Knuksi balançou o rosto, tentando acorda – Desculpe, eu... Eu acho que eu não fico num alerta desses desde que desertei. E ainda assim lá eu tinha uma pessoa que eu confiava, Madie não gostava muito dele, mas enfim, ele me dava cobertura para eu descansar nesses casos. Não sou bom sob privação de sono, é meu ponto fraco... Está sendo difícil. Os outros estão na ronda, eu tenho umas... três horas de sono calculadas antes de voltar. Estão em trapos também, mas estavam se virando como dava quando eu vi da última vez.
- Achei que vocês estavam trabalhando em equipes por segurança?
- Ah, sim , deveríamos estar trabalhando em no mínimo duplas. Gurake está com Ayan e Lienara, eu estava com Kiieth e Masachiel. – Ele se apoiou na pia e seus olhos pesaram novamente e ele quase derrubou o suco, assustado. – Eu realmente vou aproveitar esse tempo de sono. Madie ainda está muito bravo comigo?
- Um pouco.
- É para o bem dele. Algum dia ele vai entender. Espero. E tudo isso para nada. Estão dizendo que se houver um ataque a civil que não dê para encobrir, vamos ser obrigado a abrir tudo ao público e vai ser a primeira vez em décadas que as milícias perdem o controle absoluto sobre o governo, é um pesadelo. – Ele colocou silenciosamente o copo na pia e saiu bocejando, carregando sob o braço a pilha de roupas que tinha deixado no banheiro.
Em outro ponto da cidade, Gurake e e Ayan estavam do lado de fora da sala enquanto Lienara se atualizava na sala de Comet. Outros agentes de campo estavam desajeitados e com sinais claros de cansaço tentando se empoleirar nas paredes do corredor e na escadaria, também esperando informantes de seus grupos. Pouco mais de uma hora depois, homens e mulheres saíam de lá com rostos frustrados, indicando mais uma noite em que tudo reportado não havia levado a ponto algum. Adicionado a isso, mais ataques estavam sendo listados na região metropolitana do outro lado do rio. Comet pediu pra Lienara ficar e fechar a porta mais uma vez.
- Pois não?
Comet tirou os óculos e esfregou os olhos. Estava na mesma rotina dos seus subordinados.
- É apenas que... Eu sei que você era muito amiga de algumas das vítimas e... Eu queria te pedir desculpas. Eu quis te proteger de uma exposição excessiva e agora tem gente de outros grupos correndo pela minha cidade, você está muito mais exposta, eu sou uma tola. Só queria te dizer que se você quiser fazer uma solicitação de se afastar, pela sua segurança, eu vou aceitar. Você não precisa fazer isso.
- Comet, você é a melhor líder que poderíamos ter, eu te agradeço pela oferta, mas eu queria participar disso antes, não vou recuar. Precisamos encerrar isso logo. Os bórdeis reabrirão, os cassinos voltarão, as rodas de música e os bares vão estar lotados de novo... Quanto mais gente ajudando, mais rápido retornamos para isso que tanto lutamos pra manter.
Comet sorriu de forma triste.
- Os bordéis, principalmente esses. Aposto que parte do mal humor desses aí fora é o fechamento desses.
- Não é como se estivesse sobrando muito tempo para isso com todo o volume de rondas....
- Ah, esses jovens, cheios de necessidades... Hey, Lie, vamos abrir juntas uma bebida quando tudo voltar ao normal, ok?
- Aposto que prometeu isso pra muitos informantes.
- Nunca é demais abrir umas bebidas, é?
Lienara bocejou e riu enquanto pedia permissão para deixar a sala.
Progressivamente, as investigações foram tomando mais tempo do grupo. Cada vez mais situações como a e Knuksi surgiram enquanto eles se revezavam em turnos para descansar. A certo ponto, a exaustão coletiva se expandiu ao ponto que, por falta de opção, Madileni foi responsabilizado para a escolta de Miyukashi na volta da escola, apesar disso contrariar totalmente as medidas de segurança iniciais. Ninguém mais estava disposto a investir o precioso tempo fora de reuniões, rondas e debates em nada além de dormir.
- Você chama atenção demais, tem de ficar no portão? Não que eu ligue muito para o que as crianças de lá pensem, mas meus colegas de classe ficam te olhando pela janela e fazendo perguntas, é inconveniente. - O que? Kiieth ficava aqui com roupas dignas de um canal adulto, eu não posso ser pior.
- Você usa tapa-olho, uma capa quase saída de um filme de sobrevivência, e seu cabelo parece ter sido cortado por uma criança de dez anos, óbvio que eles querem saber da onde eu te conheço e por que você não está na escola também.
-... Hei! Eu corto meu próprio cabelo, com um canivete! Eu tenho dez anos. Não dá para fazer melhor, não tenho a paciência do Knuksi para ir a cabelereiros. Eles ficam puxando papo e encostando em você... Detesto. - Knuksi não chama atenção nenhuma, o que me surpreende dado como ele se veste, mas você chama.
- Isso é porque ele foi treinado para se infiltrar, ele não tem presença nenhuma. Ele podia estar aqui parado vestindo uma melancia como chapéu e uma cueca de elefantinho, e as pessoas iam esquecer minutos depois do rosto dele. Nunca aprendi isso.
Miyukashi ignorou as malcriações em resposta enquanto prosseguiu tirando o casaco do uniforme para colocar sua camisa e bandana de sempre enquanto andavam, seguindo lado a lado do outro, distraído. Seus dedos começavam a doer com o frio, e ele gostaria de ter consigo luvas. No peito de Madileni, a dogtag ainda piscava em vermelho.
- O que exatamente impede você de tirar isso do pescoço? Knuksi vai saber?
- Eu gostaria de dizer que umas três barreiras de confiança ou algo assim, mas na real o sensor de proximidade vai apitar e enviar mensagens pra ele se eu tirar por muito tempo.
- Não parece algo que estaria instalado por escolha sua, é padrão ou ele foi até o limite de instalar isso?
- Ah, a dogtag não é exatamente minha. É o padrão de Dispositivo Pessoal do Exército da Aliança. Foi reconfigurada pra mim apenas, ele não queria deixar pra trás, mas achou importante largar disso pra recomeçar. A função originalmente desse sensor é outra. Imagino, eu nunca li o manual ou o livro dos recrutas, montes de blablablas. Agora segure isso.
Ele esticou pra Miyukashi um saco plástico. O mais novo abriu e pegou um dos objetos, do tamanho de um grão de feijão. A embalagem estava cheia até o topo.
- São sensores. Eu estava trabalhando nisso esses dias enquanto você estava na escola.
- Onde você conseguiu o material? – Ele olhava encantado.
- Incrivelmente naquelas tralhas que o Shiraiku tem em estoque. Se funcionar eu pago para ele. Isso deve funcionar com a simulação que eu trabalhei. – Miyukashi ergueu os olhos para ele, curioso. – Uma simulação dos locais dos ataques e das posições de ronda de quem eu sabia que estava nas ruas, o software ficou bem eficiente.
- Você entende de computadores?
- Sim?
- ... Uau. Achei que você já teria se gabado de todas as suas habilidades a essa altura.
- Sempre tem algo que a gente esquece.
- Ninguém te viu fazendo isso?
- O software sim, mas Knuksi aceitou que eu estivesse fazendo isso, trabalho remoto não é perigoso, não é como se eu estivesse proibido de pensar. E ele tem acesso a tudo que eu uso virtualmente, então ele saberia de toda forma. Ë por isso que eu preferi pegar livros, é melhor que ele saiba que eu estou fazendo algo, mas ele não precisa saber o que.
- E o que fazemos com isso?
- Bom, nesse caminho de volta eu quero passar em alguns lugares e deixar os sensores. É dia, ninguém vai nos recriminar. Eu tenho algumas hipóteses. Vamos testar. Quero agir essa noite.
- Então temos um plano?
- Não, absolutamente nenhum.
- ... Madie, com todo o respeito, eu não quero arriscar ser jogado na rua por um chute.
- Essa manhã enquanto você estava na escola, Gurake se feriu. Foi algo leve, apenas uns arranhões, mas provavelmente por cansaço. Masachiel, o coitado nem chegou na loja direito e já está nisso. Ayan e Lienara estão uma pilha de nervos, ele deve ter consumido uma caixa de cigarros nessa semana. Knuksi... Knuksi não dorme há dias. Ele deita e fecha os olhos, mas ele continua alerta, é pior do que quando estávamos dormindo na rua, ele odeia não estar com controle. Acha mesmo que dá pra esperar mais? Não vai ter mágica. Em breve vamos ter mais homens e mulheres morrendo por cansaço do que pelos ataques. Tudo falhou. Comet falhou, Smile falhou. Agora vamos, você pega um punhado, eu pego outro. Vamos espalhar pelo caminho e torcer pra estar funcionando.
Os dois seguiram o caminho de sempre, com alguns desvios maiores e menores. Dessa vez Madileni não tinha doces com ele. Já não tinha mais sensores para jogar por aí quando subiam a ladeira para a loja.
- ... Madie, por que você confiaria em mim para isso?
- Pura falta de opção, coelhinho.
- Simpático da sua parte.
Kiieth e Knuksi passaram rapidamente na loja pelo fim da tarde. Naquele horário, Yan e Lienara dormiam, sem ter tirado sequer os sapatos, abraçados na rede suspensa. Não era seu horário de descanso, mas a essa altura seus corpos já não continuavam. Os dois meninos estavam assistindo televisão juntos sob um cobertor, sentados na cama de baixo da beliche. Knuksi recarregava sua pistola com lentidão, bala a bala. Embora durante os dias ainda surgisse um sol tímido que ajudava todos a tolerar o frio, durante as noites estava gelado o suficiente para o jovem dos Alpes abotoar seu casaco forrado até o topo. Ele acompanhou o programa por um tempo e então se sentou ao colchão ao lado de Madileni.
- Vocês dois tem ficado bem sozinhos com o Shiraiku?
Miyukashi acenou que sim com a cabeça.
- Ótimo.
- Meio tarde para perguntar isso, não? – Madie tinha rancor na voz. Knuksi Não soube direito como responder.
- Vamos ficar fora mais essa noite. Gurake e Masachiel devem estar de volta pelas 4 e ficar até o café da manhã. Acho que estamos perto de resolver isso. Não existe mistério que dure tanto tempo.
Madileni soltou ar pelo nariz, zombando. Knuksi não se ofendeu, pelo contrário, ele abraçou forte o menino e então saiu.
Miyukashi cutucou diversas vezes Shiraiku desmaiado com medo que ele acordasse de repente, enquanto Madie se trocava e garantia que o sonífero seria suficiente para deixa-lo fora do assunto. Já fazia algum tempo que Lienara e Ayan também tinham deixado o local e a noite se estendia lá fora. Os mapas de Knuksi estavam abertos sobre a mesa, simulação de Madileni rodando sobre, centro projetando sobre ele os diversos pontos em que Madileni tinha espalhado seus sensores, em cores diferentes. O menino lamentava ter de deixar o Dispositivo para trás, mas desligar o rastreio estava fora de questão.
- Isso é bem, bem chato. Knuksi vai ser avisado se eu desligar o rastreio ou se eu me afastar demais do dispositivo. Mas ele vai demorar mais para dar esse aviso do que se eu simplesmente desligar. Primeiro ele vai dar um tempo de tolerância, depois vai cogitar um erro nas leituras dos sensores e recalcular. Talvez Knuksi cogite apenas que eu esteja no banho, não sei. Eu poderia confundir eles, mas...
- Não se sente bem tapeando ele?
Madileni acenou com a cabeça e deu com os ombros. Na verdade temia mais pela segurança dos dois. Se algo desse errado, era até mesmo positivo ter alguém atrás deles.
- Essas linhas aqui – explicava Madileni – são as pessoas da Sweet and Dark. São as rotas esperadas deles hoje. O mesmo para outras Lojas e gente solo. Infelizmente eu não tenho acesso a quantas pessoas de fora tem na cidade agora, mas...
- E o que os sensores que distribuímos indicam?
- Não sei ao certo, estamos trabalhando com uma ciência meio inexata.
- Você quer dizer chutando?
- Não, é uma metodologia perfeitamente válida de trabalho científico. Você pega os resultados e depois descobre como chegou neles. Mas essencialmente se algum deles for acionado fora do horário esperado de alguém passar por lá, bom, podemos checar. - E se for um civil?
- ... Bom, ninguém disse que não estamos procurando um alvo civil.
Madileni puxou forte o velcro de suas botas e as fechou justas nos pés. Miyukashi bocejou e Madie disse que enfiaria bombinhas nas narinas dele se ele dormisse, mas ele próprio estava mal acostumado com as últimas semanas sem precisar ficar acordado toda a madrugada, e também bocejava eventualmente. A princípio eles apenas sentaram e assistiram. O plano final era apenas esperar, se algo indicasse uma anomalia, eles verificariam, se não indicasse em um certo período de tempo, eles teriam de se arriscar às cegas como os outros. Mas Madileni estava confiante; ele era incapaz de explicar o padrão que esperava, ou como tinha escolhido as áreas para espalhar os sensores, mas ele estava certo de que havia um padrão tem ritmo e tempo nos ataques, mais frequentes na última semana. Em algumas horas nada aconteceu, mas então uma região do mapa mudou de cor e Madileni deu um pulo e cutucou Miyukashi. Pra o mais novo aquelas informações não significavam nada.
- Vamos, coelhinho. Hora de você confiar em mim. Mas lembre-se, se eu me afastar da dogtag o Knuksi vai saber, devemos ter... Uma hora no máximo entre ele perceber, procurar e nos encontrar. Ele deve estar do outro lado da cidade, mas você tem de ver como ele é rápido quando quer me estrangular.
Saíram pela porta da frente e cumprimentaram o vizinho. Dessa vez era o avô que estava lá, parado a noite. Ele tinha uma expressão preocupada.
- Não é uma boa noite para os meninos saírem. Tem algo estranho rondando o ar.
- Obrigado, vovô, mas nós precisamos! – Madileni foi direto.
A essa altura, Miyukashi estava se acostumando a ser arrastado pela mão por aí. Era difícil acompanhar o ritmo do garoto mais velho e experiente, mas Madileni estava se esforçando para chegar o mais rápido possível à localização antes que o alerta recebido acabasse. Não podia prever nem levar consigo a simulação sem seu Dispositivo Pessoal. Seu único ponto de partida era que havia toda uma categoria de ataques registrados em fins de rotas supostamente vigiadas. Becos sem saída. Locais que ninguém teria entrado ou fugido sem encontrar outro grupo de vigilantes. O reino deles eram as ruas, essa pessoa não estava na mesma lógica que eles. Quem estava fazendo isso não se importava com o caminho, o trajeto não existia. Mas era óbvio que todos achariam isso bobagem, para tudo no mundo existe um caminho. Ele suspeitava que uma vez dentro de uma zona confortável, a pessoa não iria trás de ninguém, iria sentar e esperar uma vítima. Nunca capturariam ele andando por aí, apenas se sujeitavam a caminhar para dentro da teia de aranha.
O mais novo apressava seu passo e apenas torcia para não haver nenhum túnel. Precisava fazer isso pelos outros, queria sua rotina de volta. Queria Gurake a salvo, chegando de madrugada e acordando ele sem querer ao deitar na cama e reclamando de forma apropriada dele ter deixado Madileni furar suas orelhas sozinho e sem supervisão. Queria jogar xadrez com Lienara e ter tempo de rir da pronúncia de Kiieth e conhecer direito o novato. Aquilo tinha de acabar. Se tudo desse errado, pelo menos teria companhia para os 6 anos de castigo que ele tinha calculado. Carregava consigo um set de dardos, o único tipo de arma que tinha manipulado até o momento. Podia ver as cartucheiras de Madileni estufadas com explosivo, mas sabia que por baixo da camiseta o mais novo tinha um coldre com uma das pistolas extras de Knuksi. Parte do cérebro dele emitia alertas constantes de que isso era loucura.
Correram pelos caminhos mais rápidos. Vielas entre prédios comerciais vazios durante a noite, lugares de pessoas que não olhavam pelas janelas e não ligavam para os problemas dos outros. Madileni parou um instante e olhou ao redor confirmando que estavam no local certo. Não era longe da loja, mal tinham cruzado o riacho. Os dois se entreolharam e ele orientou uma aproximação discreta ao beco.
Estava vazio.
Madileni, socou a parede com raiva e deixou uma respiração longa sair. Knuksi ia despachar ele de volta para os Alpes. Em uma caixa. Sem furos. Talvez com um laço cor de rosa amordaçando ele. E ele ainda nem ia poder dizer que estava certo. Abanou a cabeça em decepção e, deixando notável que ele Não queria palavras de consolo, os dois começaram a andar para fora do beco.
- Fufufu, procurando por mim?
Os dois se viraram novamente para dentro do beco. A voz vinda do meio da escuridão fez um arrepio percorrer espinhas e estômagos gelarem. A silhueta estava atrás deles, mas isso era virtualmente impossível. Não havia tempo, e não tinha tido movimentação nenhuma. Ele teria percebido, ele tinha crescido com Knuksi, ele sabia essas coisas. Mas lá estava, havia alguém sentado de pernas cruzadas e tronco meio inclinado para frente, no chão do beco. Miyukashi recuou um passo para trás de Madileni, que procurava com o olhar uma passagem. Era muito alto para alguém pular de uma vez. As janelas todas eram esquadrias, alguém não conseguiria passar. Ao fundo do beco uma porta de metal pesado não poderia ter sido aberta.
- Bwahahahahaha!!! - a gargalhada ecoou. - Adoro quando vocês ficam confusos assim!!! É delicioso!!! – palmas afobadas abafaram parte da fala.
Ele se levantou sem cerimônia e sem pressa e, assim, no caminho que eles tinham acabado de passar, estava uma figura alta demais, e magra demais. Suas calças bufantes não cobriam os tornozelos finos enfiados em coturnos de cano médio, a camiseta preta colada deixava a mostra a cintura e o cinto que prendia uma bolsa lateral parecia largo demais. Os braços terminavam em luvas de couro grossas, que apareciam com a brisa leve balançando a capa longa com forro laranja cheia de pequenos guizos, que combinavam com seu chapéu de bobo da corte de três pontas. Agora ele fazia barulho ao se mover. O rosto pálido com cabelos pretos longos estava coberto com uma máscara ao redor dos olhos sem brilho. Estava parado sob uma luz tremulante presa a um fio elétrico com mal contato na rede, sem constrangimento em ser visto.
Os corações dos dois meninos palpitavam. Madileni sacou seu canivete em preparação, mas, na janela de tempo desse ato, o inimigo já não estava mais lá. Com o tintilar dos guizos, sentiram a respiração em seus pescoços.
- BOO?
Com o pulo instintivo para tirar o rival do ponto cego de seu olho direito, não visualizou o movimento de Miyukashi, presenciando apenas o impacto do inimigo contra a parede, dardos atravessando a capa exagerada e imobilizando seu braço direito junto à parede. Seus pensamentos se sobrepuseram. Queria saber quando Miyukashi tinha melhorado a esse ponto, embora apostasse num golpe de sorte. Também sentia algo de errado consigo mesmo. Não conseguia acalmar sua respiração, e tentou desviar toda a sua mente para se preparar ao contra-ataque que parecia óbvio. Um movimento brusco de braço e ele se soltaria, não era possível fincar dardos muito profundamente em uma parede de alvenaria. Mas o outro sequer tentou e estourou em um riso que quase o deixou sem ar, engasgando de tempos em tempos. Ele ria como um maníaco.
- Bwahahahaha!!! Muito bom!!! Muito bom!!! Divertido!!! – Em vez de soltar o braço direito, ele moveu o braço livre contra a parede, improvisando palmas -Achei que pequenos como vocês sairiam correndo de um monstro!!! Bwahahahaha!!! Muito, muito bom!!! Melhor que alguns dos outros!!!
- Não existem monstros. - Madileni ergueu a voz juntando confiança - Os grandes monstros são apenas humanos, e se é humano eu posso matar.
O inimigo parou de rir para encher o rosto com uma expressão cínica.
- Oh. Quero ver você tentar.
Miyukashi assustado moveu a mão de leve em direção à Madileni. Queria instruções. Não sabia com que reflexo tinha atingido o estranho, mas duvidava que conseguiria repetir o feito. Não sabia até onde deveria entrar em pânico, mas confiava que estava tudo bem. Madie tinha experiência. Seus dedos tocaram o ombro do menino mais velho, e subitamente ele percebeu que tinha algo de errado. Estava frio.
- Madie...?
Madileni caiu sobre seus joelhos e fechou os braços sobre o peito. Lágrimas grossas escorriam em seu rosto e pingavam de seu queixo. Miyukashi se ajoelhou ao lado dele e agarrou seus ombros. O pequeno mercenário tremia e tinha espasmos. E sua respiração estava difícil. Preso na parede, o outro ainda não se esforçava para se soltar. O riso doente ecoava.
Madileni olhou ao redor. Tudo era escuro e frio. A sua frente algo tremulava como uma barreira translúcidas.
Lá estava ele, cerca de três anos antes, sentado no balcão do laboratório que o pai tinha em casa. Em um vestido cheio de babados, Miina corria ao seu redor pedindo para ajudar e ele a empurrava de leve com o pé, que não chegava ao chão, a cada tentativa. Minna começou a ficar brava e a tentar escalar a banqueta, seu peso desequilibrou os dois e um tubo de ensaio voou. Ele a protegeu, seu olho queimou em dor. Seus pais discutiam no corredor do hospital enquanto luzes muito brancas o deixavam cego durante a avaliação. Minna chorava.
Um clique. Ele estava ajoelhado com Knuksi sob uma passarela de metal. Os dois apoiados em uma treliça, sob eles um abismo até as corredeiras. Seus dedos doíam de se segurar, Knuksi estava tenso.Tinha passado a noite em claro tentado descobrir como enviar o menino de volta sem comprometer sua deserção mas agora era tarde demais, as tropas estavam procurando por ele desde o momento em que o sinal de seu Dispositivo Pessoal tinha saído do padrão. Por enquanto ainda estavam enviando equipes de resgate, cogitando um acidente, mas logo perceberiam que não era o caso. O menino nunca deveria ter seguido ele, não podia voltar, tinham discutido durante a noite. Madileni tinha medo de cair e medo de prejudicar o primo. Não tinha pensado que nunca mais veria sua família. Ele engoliu o choro mas lágrimas ainda escorreram de seus olhos.
Clique. Ele e Knuksi estavam correndo para fora do subterrâneo de um prédio comercial. Muitos passos atrás deles ressoavam alto. Uma curva brusca e os dois se separaram sem querer, ele tinha sido empurrado para uma reentrância, Knuksi foi alcançado. Um dos perseguidores se virou para Madileni e o mais velho deu um grito, jogando no chão uma pistola e chutando ela em sua direção. Não sabia ao certo quando a pegou e destravou, mas atirou. Errou o centro da mira, mas ainda acertou a cabeça do homem, que parou como um eletrônico desligado, simples, sem mais nada nele para rebater. O corpo tombou para cima do menino que gritava e tentava se livrar do peso, desesperado. Horas depois ele tremia nos braços de Knuksi, ainda em choque.
- Ora, ora, bwahahahahahaha!!! Você não ia me matar?!?! Apenas começamos a brincar!!! Vamos, levante!
Madileni se encolheu no chão, sem forças sequer para se manter ajoelhado e começou a apertar mais o peito. As lágrimas não cessavam, e ele começou a cravar as unhas em si mesmo, como se tentasse arrancar algo de dentro dele. A respiração ofegante se tornou aos poucos gemidos de dor que se converteram em gritos de desespero. Tudo pesava sobre ele. Estava sendo esmagado contra o chão.
Clique. Knuksi chorava. Estavam há três dias andando para contornar uma fronteira. O mais velho estava à beira de um surto. Madileni sentia medo. Seu olho estava inflamado e doía, seus dedos estavam cortados de afastar os galhos cheios de espinhos, as luvas já tinham se rasgado. Não sabia mais se tinham água, mas não juntava coragem para perguntar. Começava a acreditar que morreriam para a natureza, não para outra pessoa. Ao fundo, lobos uivavam. Clique. Estava nevando, dormiriam na rua aquela noite. Fez uma piada tentando parecer forte, por dentro, só queria chorar e voltar para casa. Não se importava em ser punido, passar por um reformatório, queria a cama dele e os pais dele. Adormeceu vendo fotos de família, abraçando Knuksi enquanto se encolhia dentro do casaco do primo para se aquecer.
Clique. Estava olhando o rio, sentado entre estruturas metálicas no Porto. Ainda faltava um m6es para o retorno de Knuksi, nunca tinha ficado sozinho desde a saída dos Alpes. Brincava com a dogtag entre os dedos quando o relógio acusou a mudança do dia. Ele tirou da mochila um pedaço de bolo embrulhado em papel alumínio. ‘Parabéns para mim’, ele cantou baixinho.
- Bwahahahahahaha!!! Venha me matar, venha!!! - mesmo preso, parecia descontrolado, os dedos soltos agitados.
Miyukashi estava assustado agarrando a camiseta de Madileni. Seus instintos gritavam que ele precisava sair daquele lugar, mas ele não podia deixar para trás o menino, gritando, fora de si. Ele chacoalhava seus ombros e chamava por seu nome.
- Bwahaha, preocupado com seu amigo?!?! Por que não atira um desses seus dardos bem no meio do meu peito, hein? Isso não ajudaria?!?! Não, não, você não faria isso. Nunca matou ninguém? Está apavorado!!! Isso é lindo!!!
- Madie! Madie, por favor! – Seus olhos se encheram de lágrimas.
A voz de Miyukashi soou ao fundo e quebrou a sequência de cliques. Madileni recobrou a consciência o suficiente para se lembrar que não estava sozinho. Yuka estava lá. Yuka...
Clique. Lienara e ele se esgueiraram para dentro do barco aportado. Fora dele havia um caos cheio de informantes de alto nível e policiais civis tentando conter um grupo de crianças desesperadas. Dentro do navio havia uma trilha de sangue. Lienara fez uma expressão de nojo ao abrir uma porta e se deparar com uma sequência de celas sujas. Fez algum comentário sobre o tipo de pessoa que aprovaria aquilo, Madileni respondeu comum gracejo. Os dois prosseguiram pelas celas, Lienara gravava tudo no caminho. Abriram uma porta e encontraram um salão impecavelmente branco, desde piso, paredes até mobília. Atrás de um balcão com banquetas um homem jazia morto, uma garrafa de vidro quebrada e transpassada em seu pescoço, muitos objetos jogados pelo ambiente, dois pratos de comida incompletos sobre o tampo. Seu cabelo era branco, não de idade, e seus olhos vermelhos estavam arregalados. Lienara soltou um palavrão. Madileni, agora mais anestesiado com essas cenas, se sentou calmamente na escrivaninha e abriu o computador. Começou a trabalhar enquanto Lienara cuidava do resto. Acessou o sistema de câmeras e foi passado de uma em uma, histórico por histórico. Chato. Chato. Chato. Bem estranho. Nojento. Chato. Colocou um cartão de memória e iniciou a cópia dos dados do disco rígido. Voltou a olhar as câmeras. Uma câmera em especial chamou atenção dele, abriu um dia aleatório. O cadáver parecia bem vivo, torturando uma criança. Um menino gritava atrás de um vidro, batendo e pedindo para ele parar. Tarde demais, estava morta. Mudou de dia. A cena era semelhante, mas os métodos diferiam. Foi a vez agora de Madileni soltar um palavrão. Outro dia. O menino agora parecia se recusar a comer. Como punição ele estava sendo arrastado para a sala das celas. Ele se debatia, mas o homem colocou em suas mãos uma pistola e, segurando junto do menino, o forçou a mirar e atirar. Ele urrava de sofrimento. No vídeo do dia seguinte, apático, ele comia. Ele clicava em outros vídeos. Não entendia que tipo de doente registraria em câmera os próprios crimes. Em alguns vídeos o menino aparecia sentado no mesmo ambiente que o homem. Ele tremia e se encolhia de medo mas o homem agia com naturalidade e tranquilidade. Falava com ele como se fossem trivialidades. O menino respondia com sorrisos falsos, uma máscara de quem teme o resultado de não responder. Outras câmeras mostravam a constante do menino preso num quarto. A julgar pelo tipo da imagem, no escuro total e completo. Mal havia espaço para se levantar. Tentava achar um vídeo em que pudesse ver o rosto dele, saber qual deles era entre os lá fora, mas era difícil. Adiantou para o dia de hoje, procurou a câmera daquela sala. Os dois jantavam, o homem tirou do mini bar uma garrafa de vinho. Disse algo. O menino largou os talheres. Entrou em estado de fúria e quebrou a garrafa pulou sobre o homem. Começou a chorar. Estava coberto em sangue. Ficou sem ação por muito tempo e então andou devagar até a sala das celas. Demorou a descobrir como soltar a todos, o grupo correu, tentou o arrastar junto, mas ele ficou. Chorava e ria. No fim levantou e voltou ao quarto branco. Começou a revirar gavetas e armários. Achou um frasco. Uma seringa. Enfiou desajeitadamente no braço e apertou. Madileni levantou e foi até o ponto visto em vídeo. Conhecia aquela droga, era um químico pesado para a memória. Soldados usavam aquilo em situações pós-trauma, ele tinha aprendido bem quando o pai explicara, mas nunca usavam tanto. Era o suficiente para matar um adulto. Correu de volta ao computador, adiantou o vídeo. Em algum tempo o menino teve espasmos, tremeu, caiu no chão. Ficou caído algumas horas e então acordou. Estava atordoado. Se arrastou para fora carregando com ele a trilha de sangue. Olhou o horário do vídeo. Era recente. Devia estar perto.
O peso de repente se aliviou das costas de Madileni. Era como se olhos focados nele se levantassem de repente e procurassem outro alvo. A voz de Miyukashi ficou mais alta. Yuka. Ele estava olhando para Yuka. Madileni juntou todas as forças que tinha para resistir e gritar.
- Yuka, fuja!!!
Como se tivesse levado um golpe, seus gritos preencheram o lugar, mais audíveis e claros que antes. Mais imagens passavam na sua cabeça, havia acabado a fase de brincadeiras, ele estava indo a sério. Ele queria acabar com ele e ter o caminho limpo para a mente de Miyukashi. Não podia deixar. Não podia se deixar imergir naquilo.
Era a primeira vez que Miyukashi via Madileni com dor. Já tinha visto ele chegar com cortes, lacerações, hematomas, mas ele sempre estava forte. Nunca tinha visto Madileni gritar de desespero. E então sentiu seus olhos molhados, mas ainda não tinha sido atacado. Estava apenas com o medo mais sincero que poderia estar. Seu peito ficou vazio, sua mente ficou vazia, imagens começaram a correr pelos seus olhos. Suas pernas fraquejaram e sua respiração ofegou. Ele estava apenas com medo. Muito medo. Com ou sem Madileni, ele queria correr. Suas pernas não respondiam.
O inimigo tinha parado de gargalhar, ele apenas sorria de forma que podiam escutar seus dentes ranger. Estava em um êxtase enorme. Seus olhos estavam fixos agora em Miyukashi.
- Ora, calma... Eu ainda nem, comecei com você... - de alguma forma, ele não conseguia ver, mas sabia que as pupilas daqueles olhos negros sem vida se contraíram, sentindo algo que motivou o grito. - BACH!!!
Miyukashi viu surgir na frente do inimigo uma figura infantil de idade semelhante à dele. Sangue voou, e no instante em que moveu os olhos para tentar entender a situação, já não havia ninguém preso lá, ou rastro de seus dardos, sequer sangue. Como um passe de mágica, havia começado e havia acabado.
Apenas Knuksi com uma pistola empunhada correndo em direção à Madileni. Ele gritava coisas em uma língua que Miyukashi não era capaz de compreender, e, em uma postura fora do normal, Madileni apenas se agarrou a ele chorando descontroladamente, e pedindo desculpas em qualquer língua em que conseguia raciocinar, sem conseguir parar de tremer. Knuksi tentou se erguer para procurar o atacante, mas o menino agarrado a ele o impediu. Seus braços se fecharam ao redor de Madileni no mesmo momento em que Miyukashi via Gurake correndo em sua direção, em um abraço apertado de desespero. Os dois choravam. Madileni soluçava sem parar.
E poucos minutos o lugar estava lotado de informantes e agentes de campo. Lienara e Ayan chegaram e logo após Kiieth. Todos da Sweet&Dark gritavam que dariam respostas depois, se esforçando para se livrar do grupo e sair. Knuksi carregada Madileni no colo, ainda tremendo e ofegante, sem nenhuma energia para reagir. Ergueu o rosto e encontrou Miyukashi no colo de Gurake. Sentia que estavam correndo, mas era como se ele não estivesse lá. Mas Miyukashi parecia bem. Ele tinha conseguido garantir isso. Voltou a chorar e enfiou o rosto no ombro de Knuksi.
A volta para a loja foi descoordenada e corrida. Eles queriam investigar o lugar, correr atrás da região, procurar aquele rosto eles mesmos. Mas agora haviam prioridades. Knuksi ergueu Madileni para a cama de cima do beliche, se esforçando para soltá-lo de si. O menino chorava e pedia desculpas. Knuksi não conseguia se sentir bravo com ele e o segurou forte.
- Está tudo bem agora. Calma, eu estou aqui.
Miyukashi se esforçou ora se desvencilhar de Gurake. Ele estava bem. Assustado, certamente, mas, bem. Subiu para a cama de cima e, inesperadamente, Madileni desgrudou do primo e o abraçou. Ele não parava de tremer e soluçar. - Você está bem, ele não te pegou. – Ele parava entre as palavras para conseguir fôlego.
- Sim, estou. Estou aqui e estou bem. – Ele abraçou de volta, fortemente.
Shiraiku sob o efeito das drogas soníferas não conseguia distinguir o que era real e o que era delírio. Em pouco tempo, Zollrien cruzada a porta de entrada, apressado. Madileni não queria ser tocado, estava colocando todas as suas energias em tentar manter a mente no lugar.
- Ele vai ficar bem. – dizia o médico para Knuksi – Os que eu recebi na clínica foram encontrados tarde demais, vocês chegaram a tempo. Madie, eu vou te dar um remédio, é apenas um sonífero, vai te ajudar a descansar e você vai acordar mais tranquilo, ok?
Madileni soluçou e balançou a cabeça negativamente. Miyukashi segurou sua mão e acenou positivamente com a cabeça. Ele se jogou de costas na cama e se encolheu, aceitando, sem largar a mão de Yuka, que entendeu o recado. Engoliu o remédio com esforço.
- Você também, pequeno. – Zollrien se voltou para Miyukashi – Deveria tomar algo para dormir.
- Não. Eu quero ficar acordado.
Os olhos do menino e de Gurake se encontraram e ele acenou aceitando a decisão de Yuka, apenas se aproximando para jogar sobre os dois um cobertor. Foi quando o mais novo percebeu que estava congelando do frio lá fora. Madileni lutou para manter os olhos abertos e, aos poucos, entre pulos repentinos de susto, acabou por adormecer. Knuksi ficou em pé ao lado da cama durante todo esse tempo, com o olhar fixo, esquecendo todo o seu cansaço. Kiieth estava parado na beira da escada esperando por ele, todos estavam lá embaixo esperando para discutir. Olhou para trás antes de descer.
- Eu vou cuidar dele.- Miyukahsi estava firme e acordado. – Prometo. Pode ir.
Knuksi deu um sorriso triste.
A cozinha estava uma bagunça. Comet estava em contato com eles por ligação e Zollrien ainda não tinha ido embora. Todos fizeram silêncio e olharam para ele.
- Você chegou primeiro. – Disse Ayan ao ex-militar – Diga o que você viu.
Knuksi sentou sobre a pia, derrubando para dentro da cuba alguns copos que por pouco não se quebraram. Ele falou sobre como ouviu os gritos de Madileni e correu naquela direção, sobre a figura que viu, ao longe, descrevendo cada detalhe de sua roupa e expressão. Sentiu seu sangue ferver novamente enquanto lembrava. Havia mirado e atirado, e tinha certeza de que tinha acertado. Mas então não havia mais nada, nada além de Madileni e Miyukashi. - É um demônio. - interrompeu Masachiel - Um demônio que mexe com a cabeça das pessoas. Apenas um demônio leva um tiro e não sobra sangue.
Kiieth encarou Knuksi e apontou dedos.
- Tem certeza que acertou ele?
Knuksi se ofendeu.
- Sim. Isso não é algo a se questionar.
Comet suspirou pelo telefone.
- As pessoas por lá encontraram o cartucho, mas não há marcas de sangue ou nada. Mas também não há nenhuma marca de bala indicando onde você possa ter acertado, vamos manter isso uma questão em aberto. Avise quando os dois estiverem em condições de conversar. Precisamos das testemunhas. Vocês descansem hoje.
Um silêncio percorreu a cozinha após ela desligar. Lienara se levantou abruptamente.
- Eu vou sair. Não posso ficar aqui sem fazer nada. Ele ainda pode estar por perto.
Ayan segurou o seu pulso.
- Não. Houve muita gente lá, não sabemos quem.
Ela puxou o pulso e torceu o rosto.
- Desculpe. Não dá.
Ayan abaixou a cabeça e a viu sair. Pouco tempo depois estalou os dentes e pegou sua espada.
- Não posso deixar ela sozinha.
O relógio na parede tiquetaqueava, mas nenhum deles saiu da sua posição na cozinha por um longo tempo. O desertor queria voltar a campo, mas não podia, precisava estar lá por Madileni, não podia falhar com ele de novo. Shiraiku se levantou após um tempo e foi fazer chá, apesar de querer sua loja andando nos trilhos, não queria de verdade mal a nenhum deles. Não era isso que ele desejava. Um a um, eles se recolheram para o sótão, ainda sem a intenção de descansar.
Miyukashi e Madileni dormiam juntos um sono agitado, vigiados pelos os olhares de Gurake e Knuksi. A dogtag de Madileni ainda estava jogada sobre a mesa de centro do quarto, ao lado da televisão, os livros empilhados ao lado do gaveteiro.
Kiieth se ajeitou sobre uma pilha de caixas, olhando pela janela circular. O sol começava a entrar, fraco, quando ele se ergueu.
- É a Lienara? – Masachiel perguntou sem energia.
- ... Não - Kiieth se aproximara para olhar pela janela. – É... a Ayla? - O jovem de cabelos dourados desceu rapidamente -Tem algo errado.
Knuksi prendeu a respiração por um momento, ouvindo os passos dele em direção a porta. O soar do sino de vento bateu como se ele sentisse uma profecia ruim a se cumprir. Zollrien, de plantão no local, tirou os fones de ouvido.
Lienara se sentia impaciente com isso tudo. Agora sabia que o inimigo era apenas uma pessoa, não havia mais fator surpresa ao lado dele, podia fazer isso. Saltou de uma cobertura de prédio para outra e parou um único instante sentindo o vento gelado em suas bochechas. Seu Dispositivo Pessoal começou a soar, Yan. Não tinha muita certeza, mas achava que ele iria pedir para ela voltar. Não voltaria. Atravessou o rio e começou a andar pelas ruas. O inimigo estava no nível do solo, ela sentia que deveria estar também.
Ayan seguia seus passos de perto, mas ainda não a tinha encontrado. Ela não o atendia, e ele precisava deduzir par aonde ela iria. A cidade parecia maior naquele momento, mesmo que ele conhecesse as duas, ruas e garota, muito bem.
Lienara ouviu outros vigilantes passarem por ela pelo topo dos edifícios. Não olhou, não tinha tempo para cumprimentos e, provavelmente, perguntas. Nenhum deles queria ajudar de verdade, eles só queriam as recompensas do caso. Ouviu um deles descer pelas paredes. Parou de correr e se virou, irritada.
- O que foi? Não tenho tempo para isso agora!
Mas não era um dos deles, nem estava sozinho.
- Vejam só, eu realmente achei que tinha visto uma gatinha fujona por aqui... É ela, não é?
Outro deles abriu uma foto no seu Dispositivo Pessoal e confirmou.
- Esqueçam essa bobagem toda dos ataques, vamos fazer nosso lucro aqui.
Lienara prendeu a respiração e se virou para correr.
Ayan sentiu um calafrio percorrer sua espinha e parou por um momento. Na outra direção, era para lá que deveria ir. Escorregou de leve entre os edifícios e quase caiu. Seu corpo e sua mente não estavam mais no mesmo ritmo. Continuou a seguir com esforço. Em algum ponto lá embaixo, localizou uma comoção. Seu coração se apertou. Desejava que não fosse tarde demais. Puxou a gola da roupa para esconder o rosto e colocou o capuz da capa. Naquele momento ele pedia apenas que fosse só mais um ataque, alguém que ele não conhecesse, não Lienara. Se equilibrou no topo da platibanda e olhou para baixo.
E então tudo que ele tinha prometido que não aconteceria estava em sua frente, como em um pesadelo.
Seus olhos ainda estavam abertos, ele tinha certeza de que ainda havia vida nela quando a viu, mas não havia nada no mundo que pudesse reverter aquele estado naquele momento. Uma faca de atirar atravessava seu peito. Prateada, elegante, vinda de alguém que gostava de suas armas. Uma outra estava fincada em sua garganta. Não havia sinais de luta, havia sido rápido. O sangue que escorria lentamente e manchava as paredes era de uma pura e simples execução. Sabia que ainda havia vida naquele corpo, uma vida sem chances de salvação e que ia se apagando a cada gota que escorria.
Ao seu redor, o grupo tirava fotos e parecia estar preparando telefonemas. Recompensa, sempre a droga do dinheiro.
Seu primeiro instinto foi gritar e se jogar lá embaixo, mas um choque percorreu seu corpo e ele foi puxado para trás. Ayla o jogou contra o chão e usou toda sua força corporal para prender o jovem muito mais alto do que ela, tapou a boca dele com as duas mãos.
- É tarde demais. Você corre, eles devem estar atrás de você também. Se você correr podemos tentar fazer com que achem que você não estava acompanhando ela esse tempo todo. Livrar você da lista deles.
Ele balançou a cabeça de um lado para o outro, se recusando, não conseguia colocar em palavras. Sentiu algo quente escorrendo por suas bochechas, e levou um tapa.
- Não seja idiota. Você é bom, mas não pode simplesmente descer lá e matar eles todos. Eu também não posso. Não sei como isso vai ser julgado, mas até chegar para Comet pode ser tarde demais. Corra. Fuja. Estaremos do seu lado até o final dessa loucura. Vá. Já perdemos gente demais.
Ela o jogou na direção contrária, sinalizando por silêncio. Ele começou a recuar para trás passo a passo, e então gradativamente a caminhar e correr. Não estava raciocinando direito. Quis voltar para a loja, mas sabia que também já não podia. E se comprometesse os outros? Não sabia mais o que fazia sentido. Tinha acabado. Olhou para o relógio de bolso, mordeu o lábio e o desligou.
Madileni acordou pela manhã com o ruído de uma moto se aproximando e a porta se abrindo. Ergueu uma mão à frente de seu olho bom. Tremia de leve. Miyukashi estava pesado abraçado a ele e era preferível não admitir o quão reconfortante isso era. Cutucou de leve o brinco do menino, lembrando como ele não tinha reclamado nem chorado. Era um coelhinho mais forte do que parecia, e ele estava aliviado de que estava bem. Levou uma mão ao peito. Talvez ainda fosse efeito do remédio, talvez fosse natural, mas se sentia flutuando no próprio corpo. Os relatórios diziam que ele deveria estar completamente insano. Esboçou um sorriso de indignação se questionando se isso era porque tinha sido resgatado a tempo ou se aquele maluco tinha olhado para uma criança e pegado leve.
Sua movimentação na cama acordou Miyukashi.
- Hei, coelhinho. Bom dia. Péssima noite. – Sua voz saiu mais fraca do que ele esperava.
Miyukashi olhou ao redor.
- Onde estão todos?
Madileni acenou que não sabia e os dois ficaram em silencio, prestando atenção no andar e baixo. Sem um forro entre o andar de baixo e o assoalho do sótão, era possível escutar a conversa lá embaixo, mas eles ainda não tinham conseguido captar as palavras com clareza. A voz de Comet se sobressaiu as outras e Madileni se sentou de repente, indicando silêncio para Miyukashi. Aos poucos começou a compreender.
- Estávamos som uma zona neutra! Um acordo de paz e ajuda em buscas! – Knuksi bradou.
- Eu sei, idiota! – Comet estava furiosa – Você acha que eu não sei os termos do que eu assumi?!
- Diga que eles vão ser punidos! Isso não pode acontecer e ficar assim! – Nunca tinham escutado Masachiel se posicionar tão alto.
-Ah, Chiel, meu bom menino. Eu deveria ter recusado sua entrada e te enviado para um lugar seguro. Para o que eu arrasto todos vocês?
- Eles estão argumentando que sob essa situação a confundiram. – Era a voz de Ayla – Isso é ridículo. Eles já devem estar até com o dinheiro em mãos, eu vi.
- Vai ser uma disputa entre nós e seja quem estiver assinando o código de ética deles.
- Podemos pedir as cabeças deles? – Era Kiieth.
- Talvez.- A senhora respondeu – Mas apenas Smile pode fazer isso. Por que tudo tem de ser tão complicado?
- E o Senhor Ayan? O que haverá com ele? – A pergunta de Gurake foi respondida apenas com silêncio.
Madileni soletrou o nome de Lienara sem vocalizar enquanto ele e Miyukashi pularam da cama. Suas pernas ainda estavam bambas, mas ele seguiu junto, escada abaixo. Quando pisaram no térreo, todos se viraram. Ele tinha lágrimas nos olhos, ainda inchados pela noite anterior. Se perceber, ele segurava com as unhas a manga de Miyukashi.
- Digam que eu entendi errado.
Comet se levantou e todos abriram passagem para ela, que andou até o menino, se abaixou e o abraçou.
- Você é um menino inteligente. Eu gostaria de dizer que você está errado.
Miyukashi escondeu o rosto entre as mãos para chorar. Comet se se ergueu, os olhos também vermelhos, uma expressão derrotada e se virou a todos.
- Eu acho que esse lugar já passou por coisas demais nas últimas horas. Eu vou deixar vocês em paz. Ayla... – A garota se levantou para segui-la. – Tenham certeza de que faremos o possível e o impossível.
Shiraiku as olhou saindo, sentado encolhido atrás do balcão. Quando Knuksi passou por ele após fechar a porta, foi parado.
- Se esse lugar fosse... Um braço de verdade de vocês e não apenas um ponto de retorno... Se como vocês disseram antes todos aqui fossem um grupo real e tudo o mais, e não apenas gente independente... Essa noite teria acontecido igual? Ou se alguém estivesse no intermédio, poderia ter sido impedido.
- Não sei. Talvez. Mas talvez é algo que não vai alterar o passado.
Ao longo da semana seguinte, os acordos que garantiram livre passagem entre os diversos vigilantes de muitos locais foram suspenso e Comet voltou a investigação a um grupo seleto, a Sweet&Dark inclusa, confiando de que agora eles sabiam ao menos com o que estavam lutando. Aos que questionavam, Comet dava respostas mal educadas e os mandava de volta ao trabalho. Um a um os estabelecimentos gerenciados pela Família voltaram a ter sua população normal. Boatos se espalhavam de que tudo havia sido um golpe desonesto, uma armação de outro grupo para poder investigar o território deles. Muitos se ofereciam para ajudar com uma sede de vingança.
Madileni não conseguia ficar sozinho muito tempo, mas aos poucos se sentia voltando a si. Não havia notícia nenhuma de Ayan e o menino se sentia culpado por tudo. Quando em frente de um inimigo, você não conversa, você não negocia. Você atira.