O Conto da Sweet and Dark Store

Capítulo I. Bem Vindo à Sweet & Dark Store

O sino de vento pendurado na porta tocou anunciando sua abertura e Shiraiku limpou as mãos no seu avental e encenou seu melhor sorriso mas não durou muito. Era apenas mais um dos esquisitos, não um cliente. Essa história de inquilinos ainda estava longe de agradar ele. Estava certo que ele que tinha colocado o anúncio originalmente, mas ainda não era tarde para se arrepender. Viu o cachecol vermelho quase se prender quando a porta fechou, aquele indivíduo era desajeitado demais, mas dessa vez parecia ter motivos. Gurake estava carregando uma coisa grande nos braços. Desagradavelmente grande, só podia ser problemas. Sempre eram problemas para Shiraiku.

Tomou uma decisão rápida: iria ignorar fosse o que fosse. Repetiu essa decisão como um mantra enquanto o destino tentava dizer que ele não poderia. Gurake atravessava esbaforido o hall até o balcão, em linha reta, mas ele ignoraria, era mais determinado do que isso. Não era um trajeto muito longo, e ele acelerou sua repetição mental. Shiraiku tinha 20 anos e ainda acreditava na ilusão de que ele era apenas um jovem empreendedor começando seu próprio negócio em uma cidadezinha pacata de um país comum, e que aquelas pessoas constituíam apenas uma fase ruim e, se o seu deus assim quisesse, passageira da sua vida.

No período de um ano desde que tinha aberto as portas da loja, os negócios não tinham sido muito bem sucedidos, e a decisão alugar o sótão para alguns inquilinos era apenas uma fase. Isso é claro se você ignorasse o fato de que quando as portas foram abertas já havia pessoas ocupando o sótão e que se recusaram a sair... Comparado à Ayan e Lienara, Gurake pelo menos só trazia inconveniências e pagava seu aluguel, não era um freeloader que ele tinha certeza que algum dia acabaria fazendo com que ele fosse preso. Era crime ocultar gente assim, não era? Shiraiku não tinha muita certeza exatamente de qual porte do que eles faziam devia ser ilegal, ele tinha escolhido não prestar atenção para o dia que fosse interrogado, poder dizer que não sabia de nada, mas certamente alguma violação. Realmente, o que ele tinha feito aos céus para merecer isso?

Não. Não ia pensar nisso, não era momento. Ia ser firme, forte e direto, no dia que quisesse ter sua loja de volta. No dia que os lucros subissem ele simplesmente olharia nos olhos de todos eles e mandaria eles sumirem do sótão, porque ele precisaria do sótão para abrigar todo o estoque dele. Seria um grande estoque para uma grande loja. O pensamento satisfazia muito ele.

Fingiu limpar as lentes redondas dos óculos e viu seu próprio reflexo. Estava com olheiras escuras sob os olhos castanhos, e o cabelo só não mostrava mais fios brancos porque tinha sido colorido de verde. Não por opção dele, havia sido um grande acidente. Verde limão. Alguém vendeu a ele o tonalizante errado, mas essas lojas nunca faliam. Essas coisas iam mata-lo pouco a pouco, definitivamente.

Gurake continuava avançando, podia ouvir o barulho da flauta de madeira pendurada no pescoço batendo contra o peito dele. Chegaria em breve. Parecia estar vendo tudo em câmera lenta, respirou fundo e seu coração disparou. Isso definitivamente era um sinal de que era algo ruim para acontecer, você só consegue pensar tanta coisa em tão pouco tempo quando algo ruim está acontecendo. Como quando você está caindo e tem tempo de pensar o quando isso vai doer antes da dor chegar. Será que não havia nada que ele pudesse fazer para impedir aquele avanço? E é isso, ele jogou o pacote sobre o balcão, não havia mais como ignorar, havia falhado.

-Gurake, o que você quer?... – Começou a reclamar quando o inesperado aconteceu. O pacote se moveu. Ele esticou os dedos longos, receoso, e afastou devagar o pano sujo que cobria o conteúdo. –Mas o que...

Gurake havia passado rapidamente para a parte de trás do balcão, aberto a porta da cozinha, voltado como se procurasse algo e agora esticava a mãe como se cogitasse puxar a escadaria para o sótão.

-Gurake, tem uma criança aqui!!! – Ele se virou abruptamente para o inquilino, com uma voz que beirava o choro. Toda a determinação tinha se esvaziado.

-Sim, eu sei, você viu o Ayan por aí? – Gurake tirou sua boina e jogou em uma chapeleira ao lado da base dos degraus, deixando seus cabelos brancos longos despenteados. Diferente de Shiraiku, seus cabelos eram naturalmente brancos.

-Gurake eu disse que tem uma CRIANÇA aqui. Você passa a noite toda fora no Porto e agora tem uma... Ele tem a sua cor de cabelo, não em diga que achou um filho perdido ou... Gurake, ele está coberto em sangue! – Nessa hora o sino tocou novamente e ele suou frio no milésimo de segundo que todas as possibilidades do que aconteceria caso um cliente entrasse e visse uma criança inconsciente jogada sobre o balcão da loja. Mas como de costume, não era um cliente.

- Oh, Yan! Era exatamente você quem eu queria ver! – Gurake saltitou de leve de volta para a porta. – Eu estava mesmo procurando você. E não seja bobo Shira, eu não tenho idade... nem, ahn, experiência... para ter um filho desse tamanho.

O recém-chegado afastou do rosto a gola exageradamente alta de sua camisa, e abaixou o capuz da capa, movendo devagar os olhos para o balcão.

-Uhm, tem uma criança no balcão. – disse com calma.

Shiraiku não sabia mais como reagir. Talvez ele fosse o anormal. Por que todo mundo achava tão simples e natural todos os absurdos que aconteciam naquele lugar? Abriu a porta atrás do balcão que levava para a cozinha e se jogou e uma cadeira Apertou os olhos com os polegares e percebeu que era mais adequado virar a placa na porta da loja e fechar ela por enquanto. Gurake e Ayan se reuniam envolta da fonte do problema. O menino parecia mais baixo que a da irmã mais nova de Shiraiku, mas ele nunca tinha sido muito bom em determinar idades. Era muito magro e tinha cabelos brancos como os de Gurake. Sua respiração era pesada e vestia roupa em trapos.

Ayan afastou os trapos e pediu um pano úmido e lojista acompanhou com um olhar morto, e o fez chegar a uma conclusão: a parte boa era que o sangue podia ser simplesmente limpo, a parte complicada era que se aquele sangue não era do menino, era de outra pessoa. Seu comentário tirou de Yan uma expressão entre o desprezo e a repreensão, mas Gurake pareceu ter recebido o maior dos esclarecimentos. Barulhos de passos ecoaram vindo do sótão com assoalho de madeira e a escada retrátil despencou com um baque indelicado. Lienara começou a descer, mas parou no meio do caminho, encarando o balcão.

- Vejam só, onde vocês encontraram isso?

Gurake fez um floreio para a cumprimentar e fingiu tirar um chapéu.

- Nas docas, Li. Vagando sem rumo, tremendo, olhar perdido, coberto em sangue. Eu não podia deixar ele por lá, olha para ele, é um dos do meu povo. Acho. Well, tem muitos povos com cabelo branco, mas... Vocês entenderam. O Porto não é lugar para uma criança!

Ayan encarou.

- Não me disse que ele estava consciente quando encontrou ele.

- ... Bom, eu não sei direito quando ele parou de funcionar e eu não tenho certeza se, sei lá, fui eu quem fez isso. Mas se eu levasse ele para um hospital achei que fariam perguntas demais e... – ele corou – Bom, eu não sei responder perguntas demais... Quando eu vi estava correndo para cá.

Lienara suspirou e Ayan encarou.

-Uhm. –Ayan virou o rosto do menino lentamente e analisou. – Se eu tivesse de chutar, uma criança fugindo pelo Porto, eu diria que deve ser parte de tráfico de crianças. Escravidão. Talvez tráfico de órgãos. Não acontece muito nessa cidade, mas... – Ele encarou Lienara, sentada na escada com o rosto apoiado nas mãos – Mas eu acho que nossa garota sabe de algo.

Lienara sorriu e fez um gesto de tiro com o dedo apontando pra Ayan.

- Gotcha! Sinceramente, eu jogaria pra polícia comum, sem nem pensar duas vezes. Os nosso já fizeram bastante sobre o caso. Foi uma noite agitada do meu lado. – Ayan fechou o rosto – Oh, eu sei que eu prometi não fazer mais trabalhos de campo, mas eles precisavam de informantes extras e bom, dinheiro é sempre bem vindo.

- E então, o que eu deveria saber sobre o assunto?

- Oh, Yan... Você sabe como são as coisas, você só recebe a informação se pagar.

- ... Desde quando você cobra de mim?

- Não cobro. – Ela sorriu – Dele talvez... – Ela apontou para Gurake – E... – Ela apontou Shiraiku – Acho que ele prefere não saber. Mas eu acho melhor esperar um pouco e saber as versões oficiais. – Agitou entre os dedos um cartão de memória e soltou um beijo no ar – Te mando tudo que puder diretamente, ok? Mas sério, foi grande mesmo, vai dar na televisão e tudo o mais, não deu para manter fora do núcleo civil. Vão entregar a criança? Posso pedir para um dos que estavam lá comigo vir buscar , sem problema nenhum, tudo se resolve.

Shiraiku acenou a cabeça positivamente de forma indiscreta, mas Gurake torceu os lábios.

- Não podemos simplesmente entregar ele. Parece errado. Ele não acorda. Eu não vou me sentir bem de deixar ele ir sem saber se ele ficou bem.

Ayan encarou as listras estúpidas da roupa de Gurake, o menino e então Lienara.

- Eu vou esperar seus dados para tomar uma decisão final, mas por enquanto eu concordo com ele. Não é como se fôssemos envolver alguém inocente, se estava nas mãos dos nossos, ele esteve envolvido desde o começo. Considere erro seu e dos que estavam com você que alguma evidência escapou com as próprias pernas e veio parar aqui. Nós sempre nos responsabilizamos pelos nosso erros, não? Gurake, arranje algo para ele vestir, tem de ter algo lá no estoque. Vamos levar ele ao médico.

Lienara balançou a cabeça em repreensão. Achava uma piada de mal gosto do destino fazer com que entre tantas crianças que ela tinha visto aquela noite justamente aquele pobre coitado fosse parar ali. Viu Yan e Gurake vestirem no menino uma camiseta grande demais para ele e tentarem limpar o máximo possível de sangue. Já não era cedo como no horário que ela supunha que que o menino e o idiota de estimação da loja tinham se encontrado, iam chamar alguma atenção na rua.

- Me façam um favor, pelo menos escolham um bom caminho para seguir. E mandem minhas lembranças ao doutor.

Ayan e Gurake fizeram um sinal positivo. Shiraiku apenas acenou com a cabeça, em sinal de derrota e viu ambos saírem pela porta.

Havia uma qualidade em Gurake que Ayan gostava: ele geralmente se deixava levar pelo fluxo e não tentava entender muito as coisas, evitava perguntas desnecessárias e desde que havia chegado na loja como inquilino nunca havia causado problemas diretamente a ele e Lienara. E foi assim que ele o guiou o caminho pelas vielas tortuosas onde pendiam gigantes lanternas de papel. Em breve aconteceria o festival e a cidade estava começando a se enfeitar. Sem perguntas, apenas carregando nas costas o menino e aceitando as instruções. Gurake particularmente não gostava de pegar aquele tipo de caminho, as janelas eram muito próximas do trajeto, era possível ver dentro das casas, e a relação de tamanho entre as alturas da casa e a largura das ruas fazia com que se sentisse esmagado. Preferia as ruas principais, largas, com seus canteiros centrais arborizados e seus pisos em blocos de paralelepípedos. Lembravam sua terra natal e também havia mais gente andando por elas. Isso era meio contraditório se ele pensasse que ele adorava estar no Porto da cidade, nas ruas estreitas entre os armazéns, depósitos e negócios locais. Bom, definitivamente ele podia argumentar que nas vielas não havia nenhum tipo de transporte público, e não estava confortável cruzas a cidade – de novo – carregando nas costas uma criança desacordada.

Mas Ayan havia argumentado que era melhor evitar a multidão, para ele era suficiente. Desde que ele tinha chego na loja e ficado sabendo que dividiria o sótão com outros dois companheiros, Gurake tinha depositado confiança em Yan, admirava sua confiança e a forma com que ele sempre parecia saber o que estava havendo. Lienara nunca havia sido muito amigável com ele, mas Gurake também não a via muito, saía para trabalhar em horários esquisitos e dormia muito em casa. Parando para pensar, ele não conhecia muito os horários de nenhum dos dois, ele apenas confiava bastante em Yan. Talvez fosse esse tipo de coisa que fazia o pai chama-lo de idiota, mas ele tinha pisado na loja, o quarto alugado mais barato de toda a região, e se apresentado dizendo que tinha viajado da antiga Britânia para o ocidente para se tornar um espadachim e então aquele jovem com roupas de ninja – nada tiraria da cabeça de Gurake de que ele era um ninja – tinha rido dele e oferecido ajuda. E assim os dois ficaram amigos, Gurake dizia tudo para Ayan, por sua vez esse nunca dizia nada para ele e estava tudo bem assim.

Apenas do peso nas costas, naquela cidade andar a pé ainda era o melhor dos hábitos, e as ruas principais eram sempre cheias de vida e de olhos curiosos. As pessoas das vielas aparentemente tinham aprendido a manter suas bocas fechadas. Nas ruas principais aqueles mais apressados costumavam usar bicicletas ou motos, e os mais ricos pagavam que conduzisse seus cavalos enquanto viajavam confortavelmente em suas carruagens. Pacato e ultrapassado, mas fazia parte da cultura local. Havia também o bonde, mas como a cidade era antiga e haviam poucas ruas realmente largas a ponto de se chamar de avenidas, ele mal conseguia atravessar a cidade nas direções Norte-Sul e Leste-Oeste. Diziam as lendas que o automóvel nunca chegaria naquela cidade, e que por isso a cidade que ficava do outro lado do rio era muito melhor. Para Gurake a questão era outra. A cidade ficava em uma ilha, era acessada apenas pelo Porto e balsas, e suas ruas não combinavam com essa modernização. Quem seria idiota de levar um veículo de balsa até aquele lugar? A circulação estava boa como era. Não perfeita, mas era o que cabia.

Saíram das vielas para acompanhar a margem do riacho por um tempo, passando por baixo das pontes de pedra e madeira, com correntes de papel colorido começando a ser penduradas. Haviam muitos desses riachos, entrecruzando desde o topo da cidade, onde ficava a área da reserva florestal, até o Porto, onde ajudavam a alimentar o rio principal. De tempos em tempos se escutava falar sobre algum tolo que caiu em um deles, mas em geral eram agradáveis com suas calçadas de pedestres emoldurando e em trechos mais tranquilos, crianças brincavam.

Ayan seguia calado, mas Gurake tinha aprendido sob algum custo a ler a atmosfera e saber quando ele não queria conversar. Estava concentrado. Eles cruzaram por necessidade uma barulhenta rua comercial, para então dar a volta em uma loja de armas de aparência respeitável e descer alguns degraus que levavam a uma porta ao porão nos fundos. Ayan bateu na porta de madeira pesada, e por um momento Gurake sentiu a criança se mover nas suas costas e se sentiu aliviado. Nâo estava totalmente quebrado ainda.

Um homem simpático, com furos demais na orelha para gosto de Gurake, e vestido de um branco incômodo e artificial abriu a porta e olhou os dois de cima a baixo.

-Oras, se não é um dos meus clientes favoritos... Trouxe um amigo hoje?

-Bom dia, Zollrien. – Ayan apontou com o polegar para o menino – Meu colega de casa achou um gatinho perdido na rua e acho que você pode me ajudar.

- Oh – Ele limpou os óculos. Entrem, entrem...

O lugar era inesperadamente parecido com o que devia ser uma clínica. Pelo menos para um porão. Por mais que fosse óbvio, já que procuravam um médico, e por mais que confiasse em Yan, Gurake não tinha muita certeza de para onde estavam indo desde o momento que tinha sobrado a rua no sentido oposto ao hospital geral. Deitou o menino onde lhe foi indicado. Zollrien Abriu os olhos dele e os examinou com um farolete de luz, balançou a cabeça e foi lavar as mãos.

- Ora, ora, o que está acontecendo ultimamente? É o segundo dessa idade que passa pro aqui essa semana. O primeiro... Bom, ele estava mais acordado que esse, tinha uma língua afiadíssima. Deve ser para compensar as partes que já estavam faltando tão jovem. Parece que é novo na cidade, é dos seus Ayan, vai acabar conhecendo ele, tinha um mais velho junto, parece o tipo que você vai detestar. Soube de algo?

- Não, ninguém me disse nada sobre gente nova.

- Pergunte pra sua garota então, agentes de campo não costumam saber muito uns sobre os outros mesmo, não é necessário, os informantes sabem mais, é o trabalho deles saber. Óbvio, também é meu trabalho saber, mas eu só preciso manter vocês vivos, é mais fácil ser amigo de todos assim.

Ayan deu uma encarada entre Zollrien e o menino e o médico ergueu as mãos como uma criança que diz não ter culpa de nada, e voltou a colocar o estetoscópio nos ouvidos. Realizou exames rápidos dos quais Gurake não entendia absolutamente nada, enquanto murmurava coisas.

Gurake girava os dedos e observava o ambiente pouco familiar. De tempos em tempos, o médico chamava Ayan e comentava algo. O menino agora tinha um soro no braço, e Gurake começou a acompanhar os pingos lentamente, sentindo os olhos pesarem. Tinha passado a noite acordado apostando e vendo a bolsa de moedas dele se esvaziar e reencher, talvez também tivesse bebido um pouco... Deveria estar dormindo naquela hora da manhã, mas não se arrependia em nada, ele sabia que precisava ajudar desde que tinha visto os olhos vermelhos daquela criança vindo em sua direção horas antes. Só era um pouco frustrante que naquele momento não pudesse fazer nada para ajudar.


Quando reabriu os olhos, não sabia quanto tempo havia passado. Afastou mechas dos cabelos brancos longos dos olhos e foi focando aos redor. Tudo parecia igual, mas o menino estava acordado e seu nariz escorria, e os olhos tinham marcas de quem tinha chorado. Ele gritava. Agora ele entendia que na verdade tinha sido despertado pelos gritos.

- Well, O que eu perdi...?

Ayan e Zollrien - que se esforçavam para conter o menino sem machuca-lo e agora estavam prendendo seus pulsos na cama - se viraram para ele, parecendo ter esquecido já que ele estava presente. O Médico sorriu.

- Bom, eu concertei ele. - O menino abaixou os olhos e tremeu ao ouvir isso. – A parte boa é que está vivo, a parte ruim é que eu peguei os parâmetros dele e ele não tem nenhum registro...

- O que significa?

- Significa... – Ayan fez uma pausa – que dependemos de Lienara enviar informações se quisermos saber algo... Oh, ele está voltando. – O menino tinha parado de se debater e parecia repentinamente tímido e assustado.

- Eu avisei que essa droga podia fazer isso. Mantenha ele preso por garantia...

Gurake se aproximou e se abaixou ao lado da cama para ficar na altura do menino. Seus olhos eram realmente vermelhos, porém rosados, não era apenas um reflexo de todo o choro. O cabelo era branco como de Gurake, mas tinha uma faixa cinza nas laterais. Definitivamente era de seu povo. Ergueu a mão para tentar tocar nele, mas o menino encolheu as pernas contra o peito e fechou os olhos. Ayan balançou a cabeça negativamente e Zollrien apontou para uma sala separada.

- Por aqui, por favor – Eles o seguiram e o médico fechou a porta de vidro espelhado. Eles viam o menino, não o contrário. – Pois bem... Ugh, acho que ele me mordeu enquanto segurávamos ele. Deixem ele sozinho um pouco. – Zollrien passou a mão sobre um painel na mesa e múltiplas telas se abriram no ar. Pela primeira vez ele encarou de verdade – Eu não conheço você, tem algum parentesco com o menino?

- Ele não é um dos nossos, acho que você não deveria conhecer ele mesmo. Ele só encontrou o menino. Eu só trouxe ele.

- Bom, se eu receber no final, não é meu problema. – ele deu com os ombros – Pois bem, senhor “não um dos nossos” , enquanto você dormia nós fizemos algum avanço. Isso – ele apontou para a tela – É o exame de sangue dele. Isso aqui não é nenhum laboratório de análises, mas eu faço o que tenho de fazer, sabia? E isso – ele circundou um pedaço da tela – é um problema. Se você não é um dos nossos não convém muito saber o que é isso, mas pode ter certeza que isso é uma overdose de algo que não deveria estar aí, é uma droga para memória realmente forte, não quero nem saber o que aconteceu aí, é uma dosagem sobre humana de uma droga ilegal por aqui, ilegal o suficiente para eu não querer me envolver. Acho que quando o efeito se iniciou fez ele dormir, mas... Com essa quantidade, ele iria dormir por uns três dias.

- Ele parece acordado.

- ... Ayan, me diga depois onde você encontrou esse gênio, quero uns espécimes desses para estudo. Sim, ele está acordado, eu cortei parte do efeito. Isso aqui não é um hospital com leito de internação, não tenho três dias. Vocês me trazem problemas, eu resolvo eles, vocês vão embora rapidamente. Eu resolvi o problema, parte dele pelo menos...Não posso garantir que a longo prazo o choque não tenha torrado o cérebro dele.

A campainha tocou e ele virou mais uma tela. A câmera de segurança na entrada mostrava Lienara. O médico ameaçou se erguer para ir até a porta, mas não foi necessário, ela parecia saber que estava sendo vista. Fez um gesto om os dedos desenhando um retângulo no ar, ergueu os dedos, deu uma piscadela e saiu da câmera. Ayan apenas ficou sério e balançou a cabeça como se respondesse à câmera.


Na meia hora seguinte Gurake desobedeceu todas as instruções de deixar o menino se acalmar sozinho e insistiu em tentar contato. Para o menino, aquilo era um pesadelo. Estava com medo de falar ou perguntar. Ele queria chorar na verdade, mas não sabia ao certo se podia fazer isso. Por algum motivo, ele tinha medo de que o vissem chorando. Medo era a única coisa que ele conseguia sentir. Chorar estava começando a ficar difícil.

Gurake não desistiu. Sua mente tinha fixa a idéia de que se o menino havia corrido até ele antes podia confiar nele novamente. Ayan ficou sentado naquela sala, observando os dois, tomando um café silencioso com Zollrien e de olho no relógio de bolso que usava como um broche. Esperava o horário apontado por Lienara. O ponteiro digital chegou ao topo e a tela exibiu uma mensagem Zollrien apenas olhou por cima dos óculos enquanto ele clicava.

De um lado, uma reportagem de jornal. Era raro que trabalhos deles chegassem aos jornais, a equipe de censura fazia um bom trabalho. Esse texto ele podia simplesmente dar ao Gurake. A reportagem falava em uma dúzia de crianças resgatadas de um navio nas Docas. Isso certamente quebrava o status de paz da população, haveria uma comoção coletiva. O texto não dizia resgatadas de quem ou por que, apenas que elas passariam por cuidados médicos especializados e seriam caminhadas para abrigos e adoção. Elogiava a ação rápida da polícia. Baboseiras. O médico puxou dele o artigo digital e riu.

- Você não vai me trazer mais doze desses, vai?

- Não.

Ayan repassou os olhos pela reportagem e olhou o arquivo ao lado, um conjunto de fichas e dados. Uma ficha de informações podia custar uma fortuna naquele lugar. Primeiro uma pilha de fichas de crianças, pareciam as das reportagem. Idade, nome civil para a maioria, nome de registro para poucas, algumas fichas identificadas como ‘resgatadas – restauradas à população civil´ , outras como ‘ resgate fora de tempo hábil – descartado ‘.

- Descartado é uma palavra interessante, não é? – o médico ergueu sua xícara de café – eu sempre prefiro acreditar que significa que o resgate foi descartado porque não havia o que fazer, mas geralmente significa que eles mesmos descartaram a pessoa porque daria trabalho demais.

- Você não deveria ler essas fichas, sabia? E você não conhece muito os códigos de ética de um mercenário, mas não podemos simplesmente apagar alguém.

- Vocês não. Vocês tem de prestar conta aos informantes e eles escrevem a história. Agentes mistos são outra história. Quando você pode trabalhar no campo e escrever sua história, você nunca sabe.

Ayan suspirou e seguiu as fichas. As duas últimas estavam parcialmente trancadas. Uma dizia ‘ confidencial, criminoso convicto, eliminado antes da chegada dos agentes de campo ‘, trazia uma foto desconfortável de uma pessoa desfigurada. A outra trazia uma foto do menino, todos os dados em branco exceto o nome civil. ‘ Miyukashi (?) ´ e a idade ‘ 8(?) ‘, sob as duas informações com questionamentos, uma nota de que o paradeiro estava em análise e que a ficha dele exigiria trabalho posterior. Um bilhete digital de Lienara finalizava o conjunto. ‘ Te conto dependendo do que voltar com vocês da clínica. Se quiser, peça o vídeo para alguém, eu tive de entregar. Jogo honesto, sem cópias. Só posso ter meu próprio trabalho após liberarem, mas pelo menos eles me deram mais dinheiro pela inconveniência.’

Zollrien fez uma cara de deboche.

- Sua garota já foi mais eficiente.

- Não enche. – Ele abriu a porta. Gurake tinha tido algum avanço com o menino, que agora acenava com a cabeça positivamente ou negativamente enquanto ele falava. Desacordado e sujo ele parecia um gato abandonado, mas agora ele parecia um coelho tímido. Respirou fundo. – Miyukashi!

Os dois de cabelo branco deram um pulo e olharam para ele.

- É o seu nome, não é?

-... – O menino revirou os pés e soltou uma voz fraca- ...yukas...?

- Oh – Gurake bateu palmas e o barulho fez ele encolher os ombros- Você fala! Yan, você é muito bom nisso.

Ayan revirou os olhos.

- Esse é o seu nome? – O menino olhos entre os dois e escolheu se encolher em Gurake.

Zollrien riu de dentro da sala.

- Pelo amor, Yan, eu esperava mais de um rato velho como você, com as doses do sangue dele o Exército da Aliança da Salvação apaga uma tropa inteira, que resposta você espera? Vai dar sorte se ele ainda souber falar nossa língua.

-Miyukashi. Se não reclama do nome vai ficar esse mesmo. – Ele tentou esconder que estava constrangido.

-Well, well. É o suficiente para mim. – Ele sorriu e afagou os cabelos do menino, que de imediato se retraiu assustado mas aos poucos se acalmou – Hei, acabamos de entrar em um acordo que você não tinha medo de mim porque eu não era mal, ok? – O menino fez que sim, timidamente - Miyukashi é um nome civil bonito. Você está péssimo, sabia?! Quase pior do que eu quando saio dos treinos com espada com esse aqui. – Ele apontou com o polegar para Ayan. – Esse carinha tem me treinado desde que eu cheguei nessa cidade, sabia? Meu nome é Gurake, eu sou ser o maior espadachim desse lugar.

Gurake tinha um sorriso bobo, e Miyukashi relaxou os ombros aos poucos e por fim também sorriu. Gurake esticou a mão convidando Miyukashi a sair andando com ele e apesar de hesitante, o menino segurou sua mão. Semanas depois, questionado, Miyukashi não se lembraria desse momento, demorando alguns dias para que sua memória se estabilizasse, então o que exatamente o acalmou e o fez confiar em Gurake permaneceu tão incerto quanto o que o guiou a princípio de tudo no Porto. Esse era o tipo de coisa que Ayan considerava apenas fatos.

O mercenário passou as mãos no cabelo ruivo e encarou o médico. Para ele ficou claro que se o problema estava resolvido ele os queria fora. Seguindo um ritual quase padrão, Zollrien puxou de uma impressora velha um pedaço de papel com medicamentos, dosagens e recomendações. Era onde a amizade e a hospitalidade acabava. Gurake não pediu autorização e soltou o pulso do menino preso à cabeceira da cama, voltou a esticar a mão para ele e Miyukashi ficou em pé com dificuldade e agarrou firme a mão do mais velho, com seus dedos se fechando com dificuldade ao redor da luva de couro grosso que ele usava naquele momento. Ayan indicou que deviam sair e ele decidiu apenas pegar o menino no colo como antes e voltou a jogar conversa fora para distraí-lo.

-A conta. – Ayana se voltou para Zollrien antes de sair - Pode colocar na minha.

-Como desejar, algum motivo em especial para a sua generosidade?

- Ele é um idiota. Vai esquecer de pagar você e eu não quero passar a noite patrulhando as ruas para ser acordado com um cobrador na minha porta.

- Justo, muito justo. E volte sempre, você sabe que eu estou sempre esperando por vocês...


Lá fora o sol, que antes tinha um tom agradável e leve já havia passado do ponto alto que fazia as pessoas reclamarem do verão, e, ainda ardente, começava de leve a traçar a outra metade do dia. Tinha dormido por tempo demais, definitivamente, Gurake disse para si mesmo.

-Well, E agora, o que fazemos?

Ayan parou de caminhar e olhou entre Gurake e Miyukashi, como se avaliasse a resposta que deveria dar, e suspirou.

- Por um lado eu acho que deveríamos ir direto para casa, dormir, e quem sabe quando acordarmos todos os nossos problemas vão ter se resolvido por mágica? Por outro eu acho que eu não quero dormir sob o mesmo teto que ele antes de saber mais.

-Well – Gurake olhou para Miyukashi – E isso quer dizer?

Ayan ficou em silêncio e apenas apontou a direção que eles tinham de ir.

-Vocês voltam para a Loja. Eu vou direto à fonte fazer perguntas. Possivelmente pagar pelas respostas, mas a gente sempre espera ter conquistado um pouquinho do coração deles e conseguir de graça.

Ele largou os dois e virou uma rua. Mas ao olhar para trás a dupla ainda o seguia.

- O que foi? Eu achei ele e certamente Miyukashi também quer as respostas. Vamos junto!

Ayan parou e disse alguns palavrões mentalmente.

- Gurake, por favor, você é um cara legal. Meio devagar, mas ainda assim um cara legal. Você não quer se envolver com essas coisas.

- O baixinho está envolvido com... essas coisas?

- Pode ser que sim, pode ser que ele só tenha dado muito azar.

- Mas pode ser que sim?

- Sempre pode.

- Então é isso, well, nós vamos.

Ayan estava contrariado, mas Gurake apesar de longe de ser um adulto tinha idade suficiente para assumir suas decisões. Foi chutando pedrinhas ao longo dos riachos. Aproveitou para comentar sobre a reportagem que leu. Gurake fez observações idiotas. Aos poucos o cenário foi mudando e a área residencial e comercial foi dando lugar a grandes armazéns envelhecidos, e as ruas tortuosas deram lugar a vias ortogonalmente ordenadas e numeradas Com essa mudança do cenário, Miyukashi se mostrou ansioso e se encolheu contra Gurake.

-Well... Eu conheço esse lugar....

-Claro que conhece, você passa toda santa noite aqui jogando dados e ganhando em cima de gente burra.

-Well. Sua fonte de informações é meio esquisita, mas tudo bem. Eu só estava dizendo que conhecia o lugar mesmo pra ele se acalmar. Nunca soube que você trabalhava pelo Porto, mas isso explica porque eu sempre te vejo por aqui.

Ayan parou uma segunda vez e encarou Gurake com seus olhos finos e azuis, embora arroxeados.

- Eu não trabalho exatamente por aqui, minhas área de atuação é mais para o centro, existe uma lógica nisso. Mas eu presto contas por aqui, todos prestam. Bom, precisamos de informações, então precisamos de informantes, alguma ideia melhor?

Gurake riu.

- Sinceramente eu nem sei para onde estamos indo.

- Para o bar do Smile, você sabe onde é, fica perto do seu canto.

-My, my...... isso explica muita coisa, como aqueles tipos estranhos que surgem do nada as vezes... Ou... Não, pensando bem, não explica, acho. – Gurake teve um estalo súbito e olhou para Miyukashi, que apertava seu cachecol e o encarava. – Well, eu não posso garantir, mas acho que vai ficar tudo bem, ok?


O Bar do Smile, como era conhecido o local pela expressão artificialmente feliz de seu dono, ficava próximo ao cais, com uma boa vista ao mar. Ninguém sabia o nome de Smile na verdade. Eles simplesmente precisavam chama-lo de alguma coisa, e a língua comum estava na moda para apelidos, e se o nome tinha ficado, ele gostava. Nada que ele não gostasse continuava. A luz interna era colorida pobremente colocando-se garrafas de vidro tingindo ao redor de lâmpadas e uma fita de led ao redor do balcão dava um ar exagerado. O salão em si era pequeno, e de dia as cortinas ficavam abertas para entrar luz solar. O dono gostava de repetir que ninguém lá tinha nada a esconder. Atrás do balcão, a cozinha, atrás da cozinha, a porta que dava acesso ao sobrado geminado ao bar. Daquele ponto só se passava com autorização.

Havia uma boa quantidade de pessoas que se amontoavam nas cadeirinhas redondas do balcão, coisa que não se via na cidade durante o horário comercial. Muitos cumprimentaram Ayan, que se sentou em um banco no balcão, pediu uma dose de bebida e fez um sinal ao barmen. Yan virou a bebida e Gurake se sentou ao seu lado, com Miyukashi no banco seguinte. Aos dezesseis anos, Gurake nunca tinha estado em um bar. Aos oito, Miyukashi não lembrava se já tinha estado em um bar. Os dois destoavam.

- Alguma chance de eu falar com a Comet?

O bartender encarou Yan.

- Esse horário? Eu vou verificar, mas você sabe que é difícil...

- Quero comprar uma informação, pelo menos tente.

- Mande um e-mail, uma mensagem no número dela, é mais fácil. Mas eu vou tentar. – Ele se virou para a cozinha.

- Me dê outro desses antes de ir!

- Como você quiser!


-Ayan, meu querido, bom saber que está tudo bem. Tarefa complicada a sua última, mas me disseram que você foi muito bem sucedido. Aprendizes seus? Vai trazer mais gente para as fileiras e trabalhar menos, é? Ficando folgado!

Shiny Comet era para os informantes o que Smile era para os mercenários daquela zona: a autoridade máxima. A diferença é que as pessoas evitariam falar com Smile se necessário, mas gostavam de conversar com aquela figura redonda e bonachona. Extremamente intrometida e inconveniente, mas provavelmente havia algum ponto na vida de um informante em que ele parava de achar que as pessoas tinham direito à privacidade. E diferente da sala de reunião de Smile, a sala favorita de Comet não fazia você sentir que a qualquer momento alguém apertaria um botão e acabaria com sua existência.

- Não sei dizer se são meus aprendizes ou não, está tudo bem confuso. Queremos comprar uma informação.

-Uhm... Uma informação pode ser cara... – O sorriso cresceu e se tornou ligeiramente maligno.

-Eu sei muito bem disso, mas não me restou muita opção, sabe como é. – ele tocou no seu relógio preso ao peito e exibiu para ela o recado de Lienara. Comet riu.

-Eu gosto desses dias em que tudo se encaixa como uma luva, eu estava trabalhando nessas fichas agora, teve muita gente no lugar. Uma equipe só de informantes não deu conta, pedi reforços.

Ela andou até Miyukashi que se encolheu e escondeu o rosto em Gurake. Ele soltou um grito quando ela o virou e segurou suas bochechas e o forçou a olhá-la nos olhos.

- Lienara quer que você veja o vídeo, ok eu mostro o vídeo. Dessa vez até na faixa, é só me dizer o que faltava do quebra cabeças dele. Não gosto de histórias incompletas. Mas não para os dois – Ela apontou para Gurake e Miyukashi. – Os dois esperam aqui. Você decide depois de ver e responder umas perguntas.

Ayan concordou e os dois ficaram esperando na sala de Comet enquanto ele sumiu com ela pelo corredor. O menino estava visivelmente confuso e nervoso, provavelmente com medo de ser devolvido para algo que ele não conseguia saber o que era. Gurake perdeu um bom tempo apenas encarando ele com olhar vazio sem pensar em nada. Por fim o sentou em um dos sofás e ajoelhou para ficar mais próximo em altura.

- Garoto. Da onde eu venho me disseram que a gente tem de cuidar do que a gente acha. Relaxa. Vamos ser nós dois, ok? – Ele se encolheu – Bom, confiar em mim é sua única opção no momento, eu vou fingir que não estou ofendido com a desconfiança, já faz tipo... Umas cinco horas inteiras que a gente se conhece, é bastante! – Ele não riu. - ...Well, você é difícil de agradar.

Ayan e Comet não voltaram muito depois. O ruivo estava pálido.

- Gurake, você não vai ver aquilo.

- Eeeeeh? Mas por que? Eu quero.

- Porque eu estou dizendo e eu sou mais velho do que você.

- Desde quando isso é um argumento?

- Eu escutaria ele, – Comet relaxou em sua poltrona favorita – escutaria mesmo. – Ela encarou Miyukashi – Amnésia é conveniente para você e eu te desejo que continue assim. Eu vou até fazer um favor e manter parte da sua ficha restrita, assim ninguém te faz esse desfavor.

Gurake se levantou indignado.

- Eu acho que temos algum direito de saber as coisas aqui, afinal, é sobre ele e eu encontrei ele então é sobre mim.

- É? Então vamos fazer um acordo, você sai daqui um de nós e o dia que estiver bom o suficiente para poder comprar as informações dessa fica igual o Ayan, você compra. E aí vem para mim pedir desculpas e dizer que eu estava certa. - Yan levantou a mão para tentar impedir, mas Gurake declarou enfaticamente que concordava, fazendo o mercenário levar a mão ao rosto.

Depois disso Comet fez declarações exageradas para ele não se arrepender depois e Ayan fez os dois saírem, ordenando que voltassem para a loja sem discussões, passou direto pela líder dos informantes e se jogou no carpete dela. Comet ria enquanto servia em copos minúsculos uma dose de uma bebida sem rótulo e oferecia para Ayan. Ele bebeu sem se levantar e de alguma forma sem engasgar, basicamente apenas abrindo aboca e jogando o conteúdo dentro.

- Que desperdício, isso deveria ser saboreado. Ele tem alguma noção do que ele aceitou?

- Absolutamente nenhuma, Milady.

- Você sabe que as paredes tem ouvidos. Treine ele, ensine ele, vai ser divertido.

- É nessas diversões que as pessoas morrem jovens. Eu já tenho uma pessoa para tomar conta.

- Tinha. Agora tem mais. O que achou do vídeo?

- Aquilo sinceramente é de mal gosto. Aquele cara teve muita sorte de já estar morto quando chegaram nele, todas as formas de morrer são ruins, mas tem piores. Ele merecia piores. Bom, dá pra entender o que o pivetinho queria esquecer.

- Já está esquecido, não faz mais diferença; Vão ficar com ele?

- Não é um cachorrinho abandonado para ficarmos com ele ou não.

- É sim. Se não tem informações de registro, nome de registro, número de registro, precisa passar a ter. Lienara sabe arranjar essas coisas, claro. É para isso que um informante serve. Mas o procedimento todo não é muito diferente de adotar um cachorrinho abandonado no final das contas. – Ela ergueu a garrafa – Quer mais uma dose? Juro que não estou cobrando.

- Você gosta dessas histórias, não é?

- Eu gosto de todas as histórias. Se eu não gostasse, estaria comandando um prostíbulo qualquer.

- Você faz isso também.

- É, mas porque dá dinheiro e porque você não imagina as histórias que rende.