O Conto da Sweet and Dark Store

Capítulo IX. O Bobo da corte

Com o cabelo bagunçado e molhado, Knuksi se olhou no espelho e analisou as olheiras. O quarto estava aquecido confortavelmente e os vidros estavam embaçados de leve. Tirou o coldre da arma dos ombros e jogou no colchão, se convencendo de que depois de todas aquelas semanas de tensão e com aquele maluco pela loja, os pequenos deslizes na missão da noite mostravam que ele realmente precisava de uma noite de sono real. Abriu a bolsa de sempre, tirou um pote e aplicou o conteúdo sob os olhos com calma. Ele estava apenas de cuecas e uma camiseta justa, de gola alta, com o zíper vertical meio aberto, em um dos quartos do mezanino do Cassino, meio acordado, meio dormindo. Kiieth passou pela porta sem bater e deu um pequeno pulo ao ver o rosto do outro coberto em seja o que fosse aquele creme escuro espalhado sobre o rosto dele.

-/Mas que droga é essa na sua cara?/ -Ao menos sabia que com Knuksi ele podia resmungar em sua língua nativa.

-/É creme. Para a pele. Eu estou ficando péssimo, devo ter envelhecido uns 40 anos nesses dias./

Kiieth revirou os olhos.

-/Trouxe a ‘xicara de chá’ que você pediu./ – o mercenário se arrastou para se sentar na cama e pegar a bebida. Não era chá nem uma xícara e sim uma caneca grande de leite achocolatado morno. –/ E a madame Comet mandou dizer que se você não vai requisitar os serviços de ninguém, ou você sai do quarto ou ela vai cobrar o dobro por hora./

- /Que cobre, só não me encha./ – Ele virou a caneca e esfregou os olhos – /Eu poderia contratar os seus serviços se calasse ela.../- Parou para bocejar. - /Não me ofenda, não ofereço esses serviços. Sou apenas um acompanhante no salão. Mandaram que eu trouxesse sua bebida apenas para te dar o recado junto. As pessoas da cozinha riram um pouco do pedido./

- /Deveria reconsiderar isso. Você também não tem dormido muito desde que aquele louco chegou. É a sua melhor chance de recuperar o sono. Por minha conta, camaradagem./

Kiieth encarou os olhos em reprovação e pegou a xícara de volta. Knuksi se jogou encolhido no colchão.

-/Dê um tiro nele, acabe com isso./

-/Já pensei nisso. De perto não consigo, ele me para com aquela esquisitice./

-/De longe?/

-/Ainda não dei a sorte. Estou cogitando acampar em algum ponto que dê para acertar na janela da loja./

–/Aliás, você deveria mesmo dormir aqui? E o Madie?/

Enfiando a cara no travesseiro sem medo de o sujar, sua voz saiu abafada.

- /Ele vai ficar ótimo, acho... Depois que Smile soube do caso tem gente mais alerta nas ruas, pelo menos eu sei que nosso problema é da porta da loja pra dentro. Eu o chamei para vir. Ele também não tem dormido direito, mas ele finge que está bem. Vai passar o dia com o Miyukashi. Acho engraçado os dois juntos, ele se acha muito inteligente porque sabe mais do que o Yuka mas... Acho que em algum momento ele vai perceber que ele sabe muito sobre muitos temas, mas definitivamente não o suficiente para responder a lição de casa dele pra sempre sem estudar mais.

-/... Você pode ir embora da loja a qualquer momento, seu plano nunca foi ficar na cidade muito tempo, não é melhor?/

-/ Difícil explicar. Tudo que aconteceu por aqui é muito fora do que eu esperava. Eu não sinto que posso apenas ir. Ainda preciso conversar com a Comet sobre isso, pedir mais tempo por aqui./

Kiieth passou os olhos pelo quarto vagarosamente.

-/ Nunca te vi dormir desarmado, confia nesse lugar? Tem um monte de mercenários de todo tipo lá fora, bebendo e jogando./

-/Não, de verdade, não confio. Mas a essa altura estou apenas torcendo para que a pessoa que quiser me matar tenha a piedade de não me acordar antes./

Kiieth abanou a cabeça em reprovação novamente, e se dirigiu à porta para sair. Deu um passo para trás antes de deixar o mercenário em paz.

-/Comet recebeu uma carta de Ayan essa manhã. Achei que você ia gostar de saber./

Ele ergueu a cabeça de leve, interessado, mas em instantes ela tombou de volta, pesada. O saariano desistiu de conversar.




Madileni estava encolhido em sua capa esperando Miyukashi sair da escola, cansado depois de uma noite de ronda com Knuksi. Passava a língua entre os dentes, no vão do que faltava e sentia a ponta crescendo em sua gengiva. Estava em um processo de reflexão se não acompanhar o primo tinha sido uma boa ideia, mas enquanto ele pretendia dormir, Madie se sentia com muito na cabeça pra relaxar e não queria atrapalhar. Aproveitou o tempo sentado na praça do outro lado da rua para fazer um telefonema. Aquela voz o acalmou de toda a irritação que ele sentia.

Ele estava bravo porque apensar de Comet e Smile terem sido comunicados de tudo que envolvia Tolibar, eles tinham aceito a inocência dele nos crimes que era acusado. Manipulador por aquele sorriso doente como todos os outros. Não era como se tivessem dito que a loja mentia, Comet acreditava neles. Mas tudo que ela havia feito era dizer que isso não deveria voltar a acontecer nas ruas e pedir comunicados frequentes das Lojas. Era incoerente com a pessoa que tinha sentido tanto a perda de Lienara, era tudo culpa do cenário perfeito que Tolibar criava para se esgueirar por aí. Ele não estava disposto a perdoar. No fim, todo o problema estava nas mãos da Sweet and Dark, tanto lidar com aquele maluco quanto abrir os olhos dos outros sobre ele e quebrar o encanto.

Nesses dias, Tolibar tinha passado mais tempo e mais noites fora do lugar do que dentro da Sweet and Dark, mas a mera possibilidade de que ele surgisse do nada estava deixando todos aflitos. Era pior do que antes. Durante as semanas de investigação, a paranoia era coletiva e o medo estava nas ruas, voltar para caso era seguro. Agora todos estavam bem lá fora, dentro da loja o problema se iniciava.

De certa forma, o maior incomodo aos moradores da loja era um sentimento coletivo de que na presença dele, todas as suas vontades poderiam estar sendo manipuladas pelo hóspede indesejado, ninguém tinha dimensão exata de sua capacidade. Por fim, em vez de lutar contra seus próprios subconscientes, cada um tinha passado a inventar uma forma de se manter longe de casa o maior tempo possível, era uma paz para Shiraiku, mas não uma solução que duraria para sempre.

Até o momento, Madileni tinha aprendido que Tolibar era um cara estranho e inconveniente. Ele surgia quando bem entendia, simplesmente passando pela porta, impossível de vigiar ou prever, e sumia da mesma forma. Ele passava tempo demais calado, apenas observando o que estava acontecendo, ou andando sem rumo com aquele tintilar baixo e irritante dos guizos de sua roupa. As roupas particularmente fazia estourar os nervos os moradores da loja. Mesmo com média do senso de moda do lugar, ficava difícil tolerar aquelas calças ligeiramente bufantes, a barriga de fora com a camiseta curta demais, as luvas de couro grosso combinando com a bolsa pendurada na cintura, a capa azul prússia com listras verde-limão nas bordas, o acabamento em pontinhas laranjas com guizos pendurados, e, claro, aquele chapéu de bobo da corte idiota, em cores combinando com a capa, com suas três pontas e uma corrente fina com um enfeite de borboleta pendurado.

Mas não acabava aí, se recordava o menino. Durante as poucas noites em que tinha ficado na loja, num colchão jogado sobre umas caixas e pallets de madeira num canto do sótão, ele estava lá, com as mesmas luvas, meias grossas de lã cobrindo a perna toda, e um camisolão de mangas longas, do mesmo azul da capa. A gola seguia o laranja das pontas, e as mangas e barra tinham três faixas verde limão. E, claro, outro chapéu, caricato, com outra borboleta. No mesmo esquema de cores, mas uma touca de uma ponta só. Completando toda a figura excêntrica, estava sempre a máscara na região dos olhos, e aquele sorriso imbecil. Madileni achava que Tolibar nunca parava de sorrir, como se a expressão estivesse presa no seu rosto. Ficava para ele uma dúvida de onde encerrava a pessoa e onde se iniciava um personagem. Mas isso não incomodava o menino tanto quando os olhos, tão negros que ele não diferenciava as pupilas, mas que ainda assim, por momentos ele tinha a impressão que ficavam desfocadas, dilatadas, contraídas sem razão.

Esses momentos geralmente vinham acompanhados de reações repentinas e sem propósito em que Tolibar começava a rir sozinho descontroladamente, por vezes caindo no chão e perdendo o ar, batendo as mãos e pés involuntariamente. Madileni, em suas observações sobre o inimigo, estava considerando seriamente que o invasor (afinal, ele nunca foi convidado para estar na loja, aquilo era uma invasão de espaço pura e direta) não tinha controle sobre isso, simplesmente acontecia quando ele recebia um estímulo sensorial forte demais de alguém que estava perto, sem estar preparado. Quando isso ocorria, só havia duas formas dele se acalmar. A primeira era as pessoas saírem do lugar, a outra no próprio Tolibar se arrastar para longe delas, mas dificilmente ele conseguia – ou queria – fazer isso. Independente do que estava havendo, Madileni sabia que ele só parava quando estava sozinho novamente e que isso era de alguma forma diferente de quando ele estava sendo deliberadamente cruel.

Começou a andar de um lado para o outro, com o cuidado de não escorregar no chão coberto por uma camada fina do gelo do inverno, tentando se aquecer e colocar para fora sua impaciência. O pé cedeu de leve e ele disfarçou, se recostando no muro. O sinal soou e o tirou de seu ciclo de reflexão sobre Tolibar. Procurou Miyukashi na multidão que saia, sempre sozinho.

- Você nem se dá ao trabalho de tentar fazer amigos na sua classe, não?

Miyukashi esfregou as mãos, sem luvas mais uma vez.

- Para que? Não é como se eu tivesse assunto para conversar com eles. Achei que você estaria com Knuksi hoje.

Madileni olhou os dedos do menino mais novo sofrendo com o frio e tirou uma de suas luvas e colocou em Miyukashi. Juntou as duas mãos sem luvas e enfiou no bolso de seu casaco. Como se nada estivesse acontecendo, apenas começou a andar e a responder.

- Ele precisa dormir, alugou um quarto, não quis atrapalhar. Eu duvido que ele realmente durma, Knuksi não dorme profundamente sem vigilância de alguém que ele confie, mas achei que ele precisava tentar. Ele provavelmente vai ficar algumas horas enrolado nas cobertas perto de algum aquecedor... E vamos concordar que a Sweet&Dark precisa de um aquecedor urgente, vamos congelar antes do meio do inverno. Então acho que já foi alguma vantagem pra ele.

Miyukashi estava andando desengonçado para manter sua mão no bolso no outro, mas não conseguia soltar da mão firme de Madileni. Ele não achava que o frio seria um problema para os dois primos, Knuksi parecia estar preparado para uma nevasca desde sempre, Madileni gostava muito de reclamar de tudo, mas ainda era orgulhoso demais para admitir que precisava de mais conforto.

- E em vez de passar pelo menos a manhã com ele você preferiu ficar sentado aqui sozinho?

- Eu aproveitei bem o tempo, dei uns telefonemas que Knuksi provavelmente não ia gostar que eu desse. – Madileni sentiu a curiosidade no olhar pesar nele. – Minna. Eu precisava tirar um pouco do peso do peito de tudo que tinha acontecido, ela me acalma.

-... E você pode simplesmente ligar para sua casa? – Ele estava surpreso.

- Bom, é por isso que Knuksi não gosta. A linha é segura, eu sei o que eu estou fazendo, mas isso não é garantia de nada. Discutimos isso uma vez, depois que eu o vi mandando uma mensagem para o meu tio. Foi rápido, quase apenas uma aviso de que estamos vivos mas eu achei injusto e questionei ele. Falar com meus pais está fora de cogitação, e ele acha que Minna pode contar para alguém mas... Ela não é burra, ela entende. Não é uma criança qualquer, é ...

- ... Uma Alpiniste?

Madileni e beliscou a mão dele dentro do bolso em uma agressão amigável em dúvida se aquilo era uma conclusão ou uma zombaria, mas no final concordou.

- É, uma Alpiniste.

- E funcionou....? A conversa com ela te acalmou?

Madileni parou um pouco na viela e refletiu sobre a conversa da manhã. Abanou a cabeça com um sinal de mais ou menos.

- É difícil explicar então é difícil que ela entenda, é difícil que qualquer um entenda sem ter passado por aquele maluco. Eu estou bem, mas ao mesmo tempo não estou. Mas eu não sei direito o por quê.

- Eu... Teria dividido com você aquilo se eu pudesse. Seria melhor do que você sozinho!

Madileni agitou a cabeça em negação de forma intensa.

- Não, coelhinho. Você precisa ficar longe daquele cara. Muito longe, de verdade. Ele não te pegou e algum dia você talvez entenda o quanto isso é bom.

Os dois cruzaram a ponte sobre o riacho. Mesmo com o frio, crianças continuavam a brincar na beira do curso d’agua, algumas com lanternas de papel decoradas que viravam barcos improvisados.

- Hei, coelhinho, houve outro festival ou aquelas lanternas são de alguma loja?

- Não faço idéia, não vi nenhum cartaz no templo.

- Waaah. – Madileni espreguiçou o braço solto e suspirou. – Minna tem razão. Não estamos aproveitando em nada as coisas. Nadinha. Houve o festival de verão, o de outono e nós nem vimos nenhum. Não comemoramos nada nem temos fotos com Ayan e Lienara porque temos sempre medo de gerar provas de onde estamos. A paranoia é maior que a importância das pessoas. Acho que só estivemos todos juntos rindo um dia, quando Masachiel chegou e aí logo depois já perdemos eles. Não celebramos aniversários... Você já fez nove anos, não fez? – Miyukashi não sabia. – Deve ter feito, já passou tempo suficiente pra você fazer aniversário. Knuksi fez 18. Eu nem sei o aniversário dos outros patetas. Deveríamos comprar um bolo e comemorar tudo atrasado.

- Não parece o seu estilo querer celebrar essas coisas, você está bem?

- Pois é. Mas se eu não me preocupar em fazer lembranças mais felizes, vai ser difícil tirar da minha cabeça as ruins. Minna que disse. Ela é demais. – Havia um sorriso bobo em seu rosto e Miyukashi riu. Madileni fechou a cara. – Ë difícil tentar conversar com você a sério e você rir assim.

- Não, não... – Ele agitou a mão livre, tentando se explicar. – Eu só achei engraçada a forma com que você fala dela.

Madileni fez um som estendido com a garganta pensando sobre isso.

- Bem ela é demais. Vai fazer bem quando ela herdar a família porque, você sabe, não é como se um de nós dois ainda pudesse herdar a chefia da família. – Ele desviou o caminho e foi andando em direção à um café. – Um chocolate quente por minha conta como demonstração da minha bondade?

Miyukashi não tinha motivos para recusar; ele também sabia que Madileni queria estender o caminho. Todos queriam passar o maior tempo possível no caminho e não no destino.

O lugar era aconchegante, paredes revestidas em madeira até uma meia altura, o resto coberto com papel de parede, vigas expostas, ventiladores de teto desligados, mas com as luminárias emitindo uma luz amarela suave. Os dois se sentaram numa mesa de canto, próxima ao aquecedor, no mezanino. Madileni finalmente largou a mão de Miyukashi e pediu no balcão duas canecas grandes de chocolate quente e dois pedaços de bolo e teve ajuda da garçonete para levar tudo até a mesa. Soltou um som de alívio ao se sentar e enfiou o garfo no meio do bolo.

- Uhm, deveríamos vir aqui mais vezes, isso é ótimo! – Ele mastigava de lado por causa do dente.

- Quanto tempo isso vai demorar para crescer totalmente?

- Meu dente? Sei lá, acho que está demorando o normal, não está?

- Não sei, não lembro de dentes meus caírem. Zollrien disse que eu só tenho os de trás para cair.

- Isso não faz sentido nenhum, você deveria ter buracos frequentes na sua boca. As vezes eu acho que estamos chutando errado sua idade, você é só mirrado mas deve ter pelo menos a mesma idade que eu.

- Não sei se isso importa muito, não é como se desse pra resolver algo. Me diga, seu primo teve de procurar um lugar pra dormir relaxado, mas você e Knuksi podem sair da loja a qualquer momento, podem escolher onde estar. Por que continuam lá mesmo com tudo que está acontecendo? Você iam ficar na loja só até resolverem o tratamento do seu olho, não iam?

- Quer que a gente vá embora?

- ... Não, não foi o que eu quiser dizer.

-... Uhm... Em primeiro lugar, meu olho já era. O que estão fazendo é só para não piorar. Eu desisto. – Ele agitou o chantilly de sua caneca – Podíamos ir. E Masachiel pode seguir viagem... Kiieth pode pedir outro lugar onde está trabalhando... Gurake pode enfiar você debaixo do braço e ir pra um pensionato... Não sei direito qual o plano do Knuksi, eu sinto que talvez o dia que façamos as malas e partimos estrada afora de novo está chegando. Nunca ficamos mais de um mês num lugar antes, é quase como ter uma casa de novo. Mas acho que ele tem alguma coisa pessoa nisso. Passamos por essa juntos, começamos juntos, temos de acabar juntos, sabe? Pelo menos eu acho que Knuksi pensa assim... Ainda espero o desfecho com Knuksi dando um tiro nele, honestamente me surpreende não ter acontecido. Eu vou voltar a dormir direito nesse dia, e eu espero que os pesadelos parem também.

- Senhor Shiraiku vai ficar furioso se tiver de tirar um corpo da loja, espero que você não esteja falando sério.

-Pessoas morrem, é normal para nós. Essa noite foram três. – Ele viu desconforto no olhar de Yuka – Smile encomenda pessoalmente para Knuksi esse tipo de coisa, mas ele tem o direito de recusar se achar que é injusto, é questionável, mas existe um código de ética. Mas se ele resolver atirar, boom... Você pode apostar que Knuksi nunca brinca com um gatilho.

Os dois se sentaram em silêncio, cada um com uma luva na mão, aproveitando o calor do lugar e de suas bebidas. Depois de ter perdido duas companhias na loja, pensar que a estadia de Madie dependia da vontade de Knuksi o chateava. Ele abriu a mochila e puxou algumas apostilas e um lápis. Madileni esticou o olhar para a etiqueta e puxou dele.

- Estou para perguntar isso para você faz um tempo, quando eu perguntei pra madame Comet ela fez um sinal de dinheiro e eu achei que não valia a pena. Esse nome de registro não é o do Gurake, é? Gurake é britânico, esse nome não é britânico. Achei que você tinha sido registrado como irmão dele. - Ah, isso. Parece que quando a Lie pediu os documentos do Gurake ela disse algo do tipo ‘ com esse sobrenome não vai rolar, não vai passar sem notar’. E no fim das contas ela fez um registro falso para o Guu também.

- ... Mas que raio de sobrenome aquele idiota poderia ter que ia ser tão chamativo nos bancos de dado? – Miyukashi ergueu os ombros e Madileni apoiou a bochecha na mão, pensativo – Uhm. E afinal que base ela tirou para usar esse sobrenome então? Ela não incluiu um nome qualquer no banco de dados mundial, incluiu?

- Ah, isso. – Ele abaixou um pouco o tom de voz - ... Esse é o nome da família do senhor Ayan. Parece que ele era meio que o último da família e que não havia mais ninguém que fosse procurar por eles.

Madilieni disfarçou o constrangimento enfiando um pedaço do bolo na boca e mastigando devagar. Miyukashi abriu a apostila e passou a tentar preencher as respostas.

- Eu não pensei nisso. Tem muitos detalhes nas fichas dos outros que precisam ser pagos para obter, eu nunca pensei em pagar por esses detalhes, não era relevante. Pensando agora é meio ridículo eu não ter conversado o suficiente com eles nem para saber isso... – Ele suspirou. – Já te contaram por que os nomes civis e de registro existem em acordo mundial?

O mais novo pousou o lápis e acenou negativamente, puxando para si a caneca de chocolate quente. Madie interpretou como um sinal para prosseguir.

- Como muita coisa nesse mundo, tudo culpa da Aliança. Alguns países na Aliança tinham nomes hereditários. Nomes únicos e de identificação fácil, geralmente os nomes passavam de bisavô para bisneto e coisa assim, pulavam gerações mas ficavam na família. Geralmente as famílias mais nobres. Já os países centrais da Aliança tinham decidido há algumas gerações que os nomes estavam ficando ridículos e que era mais importante registrar a origem das pessoas por um sobrenome de família, era mais fácil reconhecer uma origem por um único nome do que sair decorando quem nomes eram de propriedade de qual família.

- Faz sentido.

- Faz. Mas quando todos se juntaram para formar a Aliança foi difícil excluir velhos hábitos... E quando houve o fórum de 64 instituindo o registro único mundial perceberam que se nem dentro da Aliança havia acordo, imagina no mundo todo. E então optou-se por existir um nome de registro, seguindo o padrão de nome e sobrenome e um nome civil. Muitos lugares hoje usam o mesmo nome como nome civil e de registro, lugares que já usavam nomes de família antes do fórum. Acho inclusive que o senhor Shiraiku tem o mesmo nome nos dois.... Mas ter dois nomes é praticamente a regra na Aliança. Tem países que preferem um ou outro claro. Mas dentro do Exército da Aliança praticamente só se usam nomes de família. – Ele deu uma risada - Acho que eu nunca tinha chamado o Klaus de Knuksi antes de sair da fronteira. É tão esquisito chamar o Klaus de Knuksi.

- ... É esquisito você chamar o Knuksi de Klaus.

- É porque você não cresceu naquela fazenda. Você estava lá tranquilamente e então vinha um grito do tipo ‘Klaus Victor quando eu te encontrar eu vou arrancar seus membros’.

- Ele não parece o tipo que fazia algo desse nível.

- ... Ele desertou e traiu a Aliança?!

- ... Faz sentido agora.

Os dois riram. Ao fundo da loja, a televisão começou a tocar uma música conhecida, com pequenos sinos ao fundo. Madileni se virou para ver por uns momento e então resmungou.

- Já estão tocando músicas de fim de ano. Isso mostra que na lista de coisas que eu nem vi passar esteve o dia das bruxas, e era minha data favorita... Eu sempre esperava o aniversário do Knuksi, isso significava que haveria bolo e que em breve seria o dia de sair e extorquir doces dos vizinhos... Não que tivéssemos muito vizinhos numa fazenda... Espero que fiquemos aqui até o fim de ano e mais um pouco. Não quero ter de viajar na neve.

- Se isso acontecer vai fazer praticamente um ano que vocês chegaram na cidade, não vai?

- ... Sim, quase metade do nosso tempo foi aqui. Nem parece... Eu gosto daqui. Knuksi está aprendendo o suficiente e eu me sinto fazendo a coisa certa trabalhando aqui. Quando formos embora, espero que voltemos pra visitar o lugar de tempos em tempos. - Ele deu um sorriso zombeteiro. – Até porque o que vai ser do coelhinho sem mim?

- Não vou mentir, eu vou sentir saudades.

Madileni não esperava essa resposta, ficou vermelho até as orelhas e se levantou desajeitado, dizendo que iria buscar mais um chocolate quente, e saiu meio correndo. Miyukashi não sabia ao certo o que tinha feito de errado. Ele voltou mudando de assunto.

- Hei, coelhinho. Não é algo que eu tenho muita chance de aplicar na cidade, mas você sabe, minha especialidade é explosivos. – Miyukashi acenou positivamente com a cabeça e soltou o lápis novamente, e ele prossegiu - Quando Papá me ensinou isso pela primeira vez ele não queria me treinar para explodir coisas. Pode não parecer, mas nem tudo entre os Alpinistes é feito para matar.

- Isso é realmente surpreendente. Achei que botam pólvora nas mamadeiras de vocês.

- ... Vou fingir que não escutei isso. Pela Aliança, você acabou com o clima. Bem, se eu estiver aqui no ano novo, vamos fazer fogos de artifício. Sem objeções.

- Fazer? Dá para fazer fogos de artifício?

- Sim, é isso que me ensinaram pela primeira vez naquele laboratório. Vamos misturar cores bonitas, e podemos fazer aqueles fogos simples de segurar ou se acharmos as coisas certas, os que fazem figuras no céu. E vamos soltar. E tirar fotos.

- Vai estar congelando lá fora, não vai?

- Eu nasci nos Alpes, o que é um ventinho gelado pra mim? Não gostou da proposta? Que coelhinho exigente...

- Eu gostei. Mas você vai ter de me dar fogos de artifício que compensem por todas essas datas e festivais que você disse que perdemos.

- Pode deixar. – E ele ergueu sua caneca em um brinde.




Os dois saíram da cafeteria muitos chocolates quentes depois, aproveitando um resquício de sol no sol acinzentado para caminhar de volta a loja. Desde que o frio tinha ficado um pouco pior e Gurake um pouco menos empolgado, estavam negligenciando o treino da tarde, embora não totalmente. Os dois seguraram as mãos firmemente, se preparando para seja o que estivessem na loja naquele dia.

Atrás deles, sem se deixar perceber, Tolibar mordia os lábios para não rir da cara deles. Os dois meninos sentiram um calafrio quando ele apressou o passo e os ultrapassou, passando lado a lado. Ele sabia que por todos os cantos havia olhares atentos observando a ele e aos dois meninos e repetiu para si mesmo que podia se divertir dentro da loja, não nas ruas. Não era bem-vindo nas ruas. Bom, também não era bem-vindo na loja, mas sobre isso não estava disposto a negociar. Mancava com o pé ferido por Knuksi, mas no fundo apreciava a sensação de tocar o chão, não era algo que o Espaço conseguia simular bem para ele. E pensar que já fazia um ano que ele tinha pensado que estava tudo terminado, o dia que achou que tinha morrido e a ilusão de que estava tudo bem quando o Espaço tinha aparecido. A promessa tinha sido de salvá-lo, mas Tolibar não queria ser salvo. Queria apenas que tudo parasse, e então ele tinha desejado pode me levar, mas faça parar de doer. E então parou. Todo aquele sofrimento e angústia tinha parado e sido preenchidos apenas com euforia. Alguma coisa talvez tivesse dado errado, mas ele se sentia ótimo quando não estava ocupado sofrendo com um excesso de informação sensorial. Na verdade ele se sentia ótimo até nesses momentos, antes estava muito pior, as pessoas não entenderiam. Mas um ano trancado naquele lugar tinha sido suficiente, ele queria se libertar, não virar um peão qualquer em algo pior que ele sentia se aproximando a cada dia lá dentro.

Ele tinha saído algumas vezes do Espaço no início, todas um desastre, não estava preparado para conviver com pessoas ainda. E aos poucos Zael foi o convencendo a ficar menos tempo lá fora, foi quando ele tinha começado a perder o jogo. Nessa época ele também costumava passar mais tempo na área Central do Espaço. Não que a área Central fosse um centro real, era apenas um nome conveniente para o local que reunia mais deles. Era onde tinha conhecido figuras como aquela garota insuportável, Lamech. Não eram boas lembranças, ele achava, sem conseguir processar direito esse tipo de coisa. Em pouco tempo e muito descontrole ele já tinha ganho o título de Demônio entre Demônios, e havia sido isolado no seu território, longe de todos. Ele, Zael e Bach. A forma com que todos se acostumavam rápido demais a qualquer condição no Espaço incomodava Tolibar. Como uma droga, o Espaço supria e suprimia essas vontades. Mas antes de aproveitar a nova liberdade ele tinha assuntos pendentes a resolver.

Caminhou por algum tempo, perdido em seus pensamentos, distraído eventualmente por alguma pessoa com o humor um pouco mais sensível afetando seus poderes. Ele checou o Dispositivo Pessoal para confirmar se estava no lugar certo e contou as janelas. Ele tinha roubado uma coleção de poderes menores no Espaço nos últimos meses, mas não acreditava que algum poderia servir para uma entrada épica pela janela. Teria de entrar pela frente, como uma pobre pessoa normal. Podia se esforçar a alterar as percepções de todos no caminho, mas ainda haviam as câmeras. Bom, era improvável que alguém resolvesse ver a filmagem se nada sério acontecesse por lá, não precisava se preocupar com isso. Quem nesse mundo fica reassistindo sistemas de segurança se não tiver nada errado? E ele era totalmente inocente, fim do caso. E então ele mancou determinado para a entrada mais próxima.

Tolibar respirou fundo e atravessou a porta, o relógio no hall tiquetaqueando segundo a segundo, e a figura desajeitadamente alta, alternando passo firme e passo mancando, atravessou o hall e pegou o elevador. Tinha conseguido a informação de que não havia porta principal para o Cassino quando entravam pela porta da frente mas não acreditava que tudo entrava e saia do lugar pela escada de incêndio, parecia ridículo pensar em abastecer a cozinha carregando caixas escada acima e tirar o lixo escada abaixo. Quando a porta do elevador se abriu, um grupo de mercenários (ele não ligava o suficiente pra se importar se eram agentes de campo, informantes, faxineiros) encarou aquela direção, fazendo a segurança. Ele se concentrou em convencê-los de que ele não existia, enquanto abria portas (fechadas com tijolos em sua maioria) até encontrar um depósito saindo para cozinha, se sentindo a pessoa mais inteligente do quarteirão.

Chegou ao salão, olhou ao redor e, de certa forma, ficou frustrado. Não havia lá nada além do que ele já tinha imaginado que veria. Os filmes de máfia tinham mais emoção do que aquilo. Era um salão amplo ocupando dois andares, podia ver claramente que as paredes e laje daquele andar haviam sido removidas para formar o ambiente, o que lhe parecia uma vergonha, uma organização daquele porte não tinha conseguido modificar o edifício ainda na construção? Se você é dono da cidade, deveria conseguir escolher esse tipo de coisa. As janelas pareciam desajeitadas e desordenadas daquela forma. Incomodo. Uma escada com parapeitos de vidro tinha sido instalada no meio do salão em direção ao que restava do andar de cima.

Em destaque no salão havia um bar e pequenas áreas mais reservadas fechadas com cortinas, subindo a escada ele deveria encontrar os quartos privativos. Podia ver mais ao fundo mesas com jogos de onde vinha muito barulho. Sofás lotados de gente em uma meia luz que lhe dava dor de cabeça só de pensar em ficar por tempo prolongado, muito álcool e música. Alguns cantavam em coro com o fundo. Mesmo sabendo que aquele lugar estava longe de ser uma verdadeira central para aquelas pessoas, no máximo um clube para reunião e descontração, queria ver lá algo de fascinante. Eram afinal as pessoas que puxavam os fios por trás das cortinas, a força que mantinha a sociedade nos eixos desejados. Nada mais que um monte de jovens desesperados por aproveitar intensamente cada momento porque (eles não sabiam que era isso, mas Tolibar sabia, podia ver dento de cada um) no fundo todos eles tinham medo de morrer. Bom, ele mesmo não podia culpar ninguém por isso, eles provavelmente morreriam cedo mesmo.

As pessoas o olhavam, mas não o viam, ele era insignificante para o ambiente. Parou por um momento para apreciar as ondas de caos que fluíam no ambiente e deixou escapar um pouco de ar pelo nariz, mas conteve o riso. Não, não tinha ido até lá para se divertir, tinha ido a negócios, para oficializar sua mudança para aquela cidade. Subiu as escadas com dificuldades. Era difícil apoiar o peso sobre o pé machucado. Em um momento de dor se distraiu da sua determinação de que ninguém percebesse que ele existia e teve a impressão de que um par de olhos cruzou com o dele. Ele tinha sorte de que nem todos que se diziam profissionais não eram tão profissionais quanto Knuksi, o alpino teria dado um tiro nele num momento desses. Precisava colocar na sua lista de tarefas primeiro recuperar a confiança dos seus novos melhores amigos, depois voltar a se divertir com eles.

Recuperou imediatamente a compostura e decidiu que a partir daquele momento aquela pessoa ia se sentir embriagada. Definitivamente, seria uma vontade incontrolável de ir ao bar pedir algumas bebidas e depois passar vergonha, qualquer coisa vista nesse período seria só um delírio de bebado. Parou um momento para se certificar que tinha funcionado e seguiu a escadaria mais longa de sua vida. Olhou porta por porta dos quartos usando seus poderes para investigar rapidamente seu objetivo, e então encontrou a porta certa, ajeitou a roupa no corpo, alinhou a capa elegantemente e, com um sorriso cínico no rosto, bateu de leve.

Ayla abriu a porta, olhou para ele e instintivamente a empurrou de volta. Tolibar enfiou o braço para tentar impedir seu fechamento e segurou um urro de dor com o impacto. A porta se moveu para um segundo impacto. Com dificuldade ele conseguiu organizar seus pensamentos e a porta parou. Ayla caminhou para trás desorientada, as duas mãos na cabeça, enquanto ele delicadamente fechava a porta e arrastou o pé ferido até conseguiu se sentar na cama. Se demorou a analisar o braço, e então percebeu o estado da menina.

- Ah. Desculpe, desculpe, deselegante da minha parte. Medidas de desespero, não dá para controlar muito a intensidade das coisas quando você está com dor, acho que você sabe, esses poderes não são uma matemática exata.

Ayla se deixou escorregar até uma cadeira próxima. Queria explodir o intruso, mas novamente aquela maldita sensação era mais forte. Seu olhar era de ódio enquanto ela massageava a cabeça com a ponta dos dedos. Tolibar por sua vez continuava a sorrir.

- O que você quer? Definitivamente você não veio ser um cliente. Posso te oferecer ao grupo de tiro ao alvo se você tiver interesse.

- Cliente, bom, talvez eu... – ele captou com maior clareza o que ela emitia e ergueu as sobrancelhas com uma risadinha - Não, espera, não foi isso que você quis dizer. –Ele agitou as mãos no ar em recusa - Você quis dizer como nos outros quartos, devo confessar que eu fiquei constrangido com o que me foi transmitido de dentro de alguns deles, eu esqueci que vocês fazem mais de um tipo de trabalho... Bom, com a taxa de mortalidade desse negócio vocês precisam se divertir. Mas... Ah, não, obrigada pela pergunta mas eu tenho zero interesse nisso.

- Zero? Você prefere homens?

- Não, eu não prefiro nada, eu apenas não me interesso por...

- Você é impotente ou apenas um virgem assustado?

- Eu o quê? Eu vim ter uma conversa pacífica e você está sendo desagradável, Ayla. Não é assim que se trata um amigo do bom e velho Espaço.

A garota riu no limite do que sua recém-adquirida dor de cabeça permitiu.

- Nunca fomos amigos, e eu definitivamente não quero ser. Não tenho a intenção de me intimidar nem de ser agradável com você, você sabe um pouquinho do que as pessoas achavam de você antes de você ir se esconder no seu canto do Espaço e ir brincar de assustar criancinhas, e devo dizer que nas últimas semanas piorou por favor se retire do meu quarto ou eu vou dar um jeito de te tirar à força.

- Você não vai conseguir me tirar à força, Ayla, eu sei brincar de ter poderes estranhos melhor do que vocês sabem brincar de se livrar de corpos. Mas eu posso sentir em cada terminação nervosa minha o quanto você quer que eu suma, que tal irmos direto ao assunto?

- Não tenho assuntos a tratar com um maluco como você.. Qualquer diálogo com você se encerrou quando você decidiu o seu caminho no Espaço. Lamech diz que almas perdidas não duram muito, eu só preciso esperar e poof, você deixará de ser problema.

- Lamech – Tolibar engoliu em desgosto. Pegou sobre a mesa lateral da cama uma bola de gude e bateu contra a madeira de leve algumas vezes - sempre ela, a fadinha linda, o raio de luz na vida de todos que ficam na área Central.

- Ela e o rei das sombras sabem o que você fez e estão dispostos a te arrastar pessoalmente para uma punição.

Ele riu.

- Nossa, estou morrendo de medo. Depois eu posso enviar para eles o meu endereço novo na cidade.

- Você não vai se mudar para essa cidade se depender de mim...

- E que bom que não depende... Eu vou te dizer o que eu acho desse sistema todo, garota. Já jogou algum jogo com outras pessoas? Existem as regras do jogo, e então chegam os jogadores. Eles estabelecem uma hierarquia própria e regras próprias, os novados idolatram quem está lá há mais tempo, todo mundo acha que sabe o que está fazendo... Até que um dia os administradores chegam e riem do que os jogadores decidiram e falam que as regras são dele. É o que eu acho quando você fala com essa admiração dessas pessoas. Eles são jogadores, não administradores, não são regras reais.

- Pois continue achando isso. Lamech disse que você só está lá há um ano, você é novo. Você pode escolher por não ver as cadeias de comando, não obedecer, mas faz parte. Criar um território e defender ele já te coloca dentro de todo o esquema. Você pode ser poderoso, mas quando você chegou já havia gente poderosa por lá. Você só não quer aceitar.

Tolibar abriu a boca com um argumento pronto, mas sua voz não saiu. Tentou reformular, mas aconteceu de novo. Ayla achou que tinha ganho o debate, mas do outro lado o Demônio entre Demônios apenas correu os olhos entre a porta e o teto. Não que houvesse algo para ver, era apenas um instinto. Ele tinha entendido o recado. Não ia conseguir fazer uma referência direta a Zael ou qualquer outro Mestre do Espaço. Haviam forças maiores impedindo. Apesar de não entender totalmente por que, ele fez questão de mostrar satisfação para seja quem for que o estivesse vigiando, um agradecimento por esse cuidado que por si só já respondia muitas outras dúvidas e confirmava algumas incertezas. Disfarçou.

- Bom, se Lamech e... Eu sinceramente não sie o nome do cara das sombras, estamos falando do azulzinho que recentemente passou a andar com dois esquisitos, não é? Enfim. Esses todos estão errados. Achei que você era mais inteligente que isso. Não está disposta a aceitar uma oferta de amizade do novo morador da cidade. Aliás, eu estou disposto a provar que vocês pegaram a pessoa errada. Eu estive nessa cidade tipo... Duas, três vezes. Eu rodei o mundo procurando o lugar ideal, achei e testei melhor onde ficar, só. Espaço atrai o Espaço, Ayla. Não tem porque acreditar que eu vou ser o único ou você a única aqui.

Tolibar se serviu do licor sobre a cômoda sem perguntar e sentou desleixado em uma poltrona, cruzando as pernas para aliviar a pressão sobre o pé machucado.

- Sabe quem é muito inteligente, Ayla? Os dois pirralhos da loja. Muito, muito espertos. Eu rodei meio mundo onde eu pudesse falar a língua local procurando gente assim, e no fim foram duas crianças... Eu gosto das pessoas daquela loja... Não me olhe com esses olhos, nem um maluco como eu iria longe e perderia a chance que construiu... Eu não farei nada lá... Nada sério... Mas aquele menino teve a sua teoria melhor até que você, profissional, com todas as informações. Ele imaginou que eu fosse uma excentricidade, bom todos somos, mas não como ele pensou. Mas ele conseguiu me achar, os dois juntos me enfrentaram, resistiram, e estão muito melhor que os supostos profissionais que eu achei antes.

- Por quê? Por que eles?

- Não é óbvio? Gente como a gente ou finge muito bem ou fica do lado da sociedade que não precisa responder perguntas. E eu acho que todos nós concordamos que eu não sei fingir. Você não acredita nisso, mas... Não conheço esse seu rei das sombras, não conheço os outros informantes como você no Espaço, já acho até coincidência demais você ser dessa cidade. Mas eu conheço agora você, escondida da parte visível da sociedade, e conheço a anjinha amada por todos, em destaque, sob holofotes, e eu te garanto, ela mente muito para isso.

- Não fale mal da Lamech...

- Eu só digo a verdade. Mas eu vou ficar na loja. Eu não consigo explicar por que, mas eu procurei muito um lugar fora daquele infinito encantador e sedutor, e eu te garanto que eu achei... Pense o que você quiser, podemos nos enfrentar se você me acha uma ameaça, mas não vai mudar em nada. Boooooom.... Hehehe... Ok, Ayla, deixando de lado esse meu fã clube de admiradores secretos, vamos aos negócios e aos serviços que pode me oferecer.

- Achei que você não tinha interesse nos meus serviços.

- Outros serviços, outros serviços... – Ele deu um tapa no colchão de indignação com a zombaria.- Desde quando você decidiu ser engraçada, Ayla? Porque eu posso te ensinar a ser bem melhor nisso. Enfim, você é uma informante, trabalha por dinheiro, apenas diga os valores que eu preciso desembolsar para ter uma lista das pessoas do Espaço na região. Já decidi me mudar, e depois de encarar você percebi que preciso entender o território que estou e sinceramente, fazer isso do zero parece perda de tempo. Eu tenho o dinheiro, vamos, é só dizer.

Ayla riu. Tolibar não gostou por ser a segunda vez em poucos minutos em que ela ria dele, mas de resto, ele apenas sentiu um grande vazio. Sabia que aquele riso vinha acompanhado de escárnio e desprezo contra sua figura, mas esse tipo de coisa ele era incapaz de sentir. Era um fluxo de sentimentos que não o atingia, insensível. - Então... Você acha mesmo que esse tipo de lista existe? Assim, como mágica?

- Sério mesmo que vamos discutir mágica?

- Não, não é isso... Você realmente deve ter se fechado em uma bolha... Sinto te decepcionar, mas... Não temos como saber onde estão outros de nós a não ser que alguém diga isso. E eu estou nessa cidade desde que nasci, não há outros de nós.

- Isso é inesperado. - Tolibar riu. – Achei que saber coisas era seu trabalho. Mas eu vou te compartilhar uma coisa. Nem todas as portas dão no Espaço, porque uma pessoa experiente pode trancar as portas. – Ele viu um desconforto nela – E alguém tem me recepcionado trancando elas. Eu devo palpitar que seja a mesma pessoa que vocês não sabem que vocês querem.

- Não fazia nenhuma ideia, mas se for isso acho que você entende que não é bem vindo.

Sem perder o sorriso nos lábios, Tolibar levou a mão coberta pela luva de couro até a testa. A parte mais frustrante de seus poderes as vezes era receber respostas que não queria ouvir e saber que a pessoa estava dizendo a verdade.

- Ou seja, eu manquei até aqui para nada, vocês preferem uma pessoas potencialmente mais perigosa do que eu mas que ficou quieta quando me pegaram para abaixar a poeira. Genial. Assim que você pretende proteger a cidade? Eu vou indo.

- Já vai tarde. Vamos encerrar essa visita desagradável de forma civilizada. – Ela tirou o copo de licor da mão dele e indicou a porta.

Ele parou com a mão na maçaneta da porta.

- Ah, uma dica. Uma mensagem para selar nossa promissora amizade agora que dividiremos as mesmas ruas... Pense um pouco no que eu falei sobre as regras do Espaço. Pode te salvar a vida no futuro.

- Aproveite que estamos trocando conselho e me escute: deixe em paz aquela pobre loja, nem todos por lá tem pecados tão grandes que precisam aturar você.

- Uhm. Não. Eu realmente não tenho culpa de nada por lá. Eu só criei uma circunstância, acho que meu debate com eles sobre isso já acabou. Estou vivo, eu passei pelo julgamento, mesmo que eles ainda estejam se remoendo e rejeitando os fatos. Não tenho dever nenhum de nada, e eu preciso daquele lugar.

Ele atravessou a porta. Passo, manca, passo, manca. O salão pareceu menor na volta. Já do lado de fora, ele parou na porta do edifício se demorando um pouco para olhar o céu cinzento. Enfiou as mãos no bolso da calça e saiu caminhando.

- ... Bach? – Ele apareceu num estalar. – Bach, me faça um favor. Sim, mais um, sem olhar com essa cara. Siga quantas pessoas no Espaço precisar, aproveite que você não tem presença, dê umas voltas. Se enfie nos buracos que forem necessários, tire as pessoas de suas tocas. Deise elas saberem que Tolibar está por aqui e que ele será bem recebido por bem ou por mal. – Ele e Bach pararam um momento na calçada e olharam par ao outro lado da rua. Tolibar entortou o sorriso – Quando eu faço entradas furtivas é dramático e chamativo, quando outra pessoa faz, é desagradável. Bach, vá, eu tenho assuntos para resolver com a senhorita alí. Bach latiu e sumiu, sem que ninguém na rua se atentasse do fato. Do outro lado da rua, a garota de cabelos brancos com mechas roxas atravessou acenando decepcionada com o rosto. Seus olhos eram de um azul claro e límpido, suas roupas em tons pastéis. Com o semblante tranquilo, ela pronunciava as palavras com calma, desviando das pessoas até ficar frente a frente com ele na outra calçada.

- Sinto muito. Acho que há muito perdi a cortesia para viajar essas longas distâncias. Bom saber que falamos a mesma língua, eu temia que fora do Espaço me comunicar com você seria difícil.

- Sou um pouco mais fino e educado do que a imagem doente que vocês tem de mim, Lamech. – Ele tentava manter a compostura, mas a mera existência daquela garota o deixava desconfortável de uma forma que Knuksi com uma arma nunca conseguiria.

- Ayla me telefonou.

- Incrível saber que essa tecnologia está disponível.

- Tolibar, sabe que eu só quero te ajudar. – Ela fingiu não ver ele revirar os olhos – Estamos relevando suas ações, mas o Espaço não pode simplesmente perturbar as pessoas normais, muito menos fazer o que você tem feito. Que tal você se acalmar e aceitar a nossa oferta de ajuda. Nenhuma punição, apenas compreensão.

Ela esticou a mão e Tolibar riu sem deixar sair som, apenas com o peito agitado.

- Garota, para começar a nossa conversa, eu não apertaria sua mão nem que isso realmente salvasse minha vida, coisa que não vai. – Ele andou para próximo dela e a olhou de cima, conforma a diferença de altura dos dois permitia. – Agora se me permitir te lembrar que seus poderes e os meus são semelhantes, você deve ser capaz de saber quando alguém mente. Acompanhe cada palavra minha. Eu fiz muita coisa, mas não fiz tudo que você acha que eu fiz. Vocês todos são uns idiotas, passar bem. O dia em que eu estiver realmente louco eu me junto a vocês. Eu posso ser o bobo da corte na brincadeira de vocês, vai combinar com o meu chapéu.

Mancando, ele deixou a garota sozinha, que suspirou longamente e, pela mesma porta que veio, ignorando as pessoas, voltou para o Espaço.




Knuksi acordou com uma sensação ruim de que não deveria ter dormido desarmado, e primeiro puxou para si o coldre da arma, depois tirou do rosto o creme para a pele e se trocou. Enquanto recolocava as luvas, pretas, sem dedos, repetiu para si mesmo que nunca mais ia chegar ao ponto de ter de optar entre exaustão e vulnerabilidade. Aquelas horas de sono lhe tinham devolvido a confiança de que precisava para aturar o novo hóspede incômodo – ou atirar dele, preferencialmente. Abriu a porta do quarto bocejando e repassando mentalmente o relatório da noite para passar para Comet. Uma missão bem sucedida, mas que claramente teria sido mais eficiente se ela estivesse descansado e isso o incomodava. Desceu as escadas e Kiieth acenou para ele do salão.

- Aceita uma bebida?

- Acabei de acordar, dispenso.

- Espero que tenha dormido bem, não vai ser uma boa noite na loja.

Knuksi empalideceu por um momento.

- Me diga que não aconteceu nada de sério por lá. Você deveria ter me acordado.

Kiieth negou com a cabeça.

- Nosso idiota de estimação acha que aprendeu parkour, pousou no telhado ...

- Gurake pulou no nosso telhado? Nosso telhado é só telha sobre as madeiras. Não aguenta uma pessoa.

Kiieth apenas fez uma expressão de descrença.

- Pois é. Masachiel montou barracas no nosso jardim.

- Tem previsão de neve para essa semana, vamos congelar.

- Confio mais num nômade com uma barraca do que em um remendo de emergência no nosso telhado.

Knuksi deu um tapa de leve no balcão antes de se retirar. Na loja, Shiraiku, visivelmente irritado, e Masachiel, com seu semblante calmo de sempre, acenaram para ele sem parar de discutir planos para o reparo do telhado. Madileni estava sozinho na mesa da cozinha. Knuksi puxou uma cadeira ao lado dele.

- Onde está seu sidekick favorito?

- Lá fora, com o Gurake, conversando em privado. Já viu nosso telhado?

- Entendendo. Isso explica sua cara de tédio. Não quero nem me envolver sobre o nosso telhado. Kiieth já me disse o que eu precisava.

- Conseguiu dormir?

- Muitíssimo melhor do que eu esperava. E o mais surpreendente é que eu estava vivo ao acordar.

- Ainda bem que eu não estive lá para atrapalhar, então.

Knuksi abriu um sorriso discreto.

- Nós dois sabemos que não foi por isso que você não foi. Você não queria deixar ele sozinho.

- Absurdo.

- Madie, você só tem dormido quando está na cama com ele. Não sei se porque você se sente bem, ou porque você tem certeza de que ele está bem.

- Pare com isso. Eu vou ficar bravo de verdade.

Knuksi bagunçou o cabelo do menino rindo, e ele afastou a mão, bravo, e puxou o capuz sobre o rosto, escondendo a cara na mesa entre os braços.

- Ok, parei. Não vou contar pra ninguém. Mas tente não criar esperanças, não acho que ele vai seguir esse lado.

Madileni ergueu o dedo do meio, mas não o rosto, escondendo suas bochechas vermelhas.

Do lado de fora da loja, sentados no topo do circuito de treino, Gurake enxugava as lágrimas de Miyukashi. O mais velho tinha curativos nas escoriações da queda no telhado; nas mãos do menino havia um pacote.

- Isso deveria ficar com você.

Gurake soltou uma negativa fraca.

- Não. Comigo fica a responsabilidade de cuidar das coisas que ele cuidava nas ruas. Você fica com isso.

Miyukashi ergueu o relógio de bolso com o dragão e limpou o nariz na manga da roupa.

- Não sei usar isso. Você vai ser melhor.

- Madileni vai te ensinar. Ele é melhor do que eu em muitas coisas.

Miyukashi afastou o conteúdo da caixa com a ponta dos dedos, sem luvas novamente. Os brincos que eram de Ayan tintilaram.

- Não faça isso. – Gurake disse enfaticamente e Miyukashi virou o rosto para ele, assustado. – Por favor. Não faça furos o suficiente para isso. Você pode trocar os que você já furou por esses, mas não faça isso, por mim.

Entre as lágrimas, Yuka riu.

De dentro da reserva florestal aos fundos da loja, Tolibar apenas deixava fluir. Raiva, angústia, negação. Muito vinha para ele de dentro da loja. Tentou segurar a euforia, mas o riso saía entre os seus lábios serrados. Tudo culpa da garota. Resistir à influência de Lamech custava muito de sua pouca sanidade mental. Não ia dar, se chegasse perto da loja não ia conseguir nem seus impulsos de atacar suas mentes nem conseguir garantir sua proteção. Hoje Tolibar ia permitir a eles uma noite de paz.