O Conto da Sweet and Dark Store

Capítulo IV. O Baile

As férias escolares não estavam sendo exatamente o que Shiraiku desejou. Sem dúvidas Midnight não levaria para casa uma boa impressão da loja, antes pouco visitada e agora com boatos de ‘tipos estranhos’ começando a correr a vizinhança. Só havia um poder maior do que o da rede de informantes em uma cidade: a fofoca, e ela podia destruir um estabelecimento. Agora ele simplesmente torcia para a irmã ir embora e de preferência com uma crise súbita de amnésia. Graças a sua presença, no entanto, havia alguém disposto a ensinar a língua local para Kiieth. Shiraiku nunca faria isso, Miyukashi não tinha confiança para isso e os outros três, estrangeiros, podiam ser fluentes, mas não imaginavam como transmitir a informação. A única coisa que faziam sobre era rir de Shiraiku e dizer que a irm!a dele tinha uma nova paixonite de infância.

E assim os dias de chuva passaram com Midnight com livros infantis apontando sílabas e fonemas para Kiieth, coisa que Miyukashi assistia de longe na sua parte da rotina que incluía ficar na loja. De toda forma, Kiieth estava fechado a aproximação dos mais velhos.

E assim Kiieth simplesmente passou a morar na loja, como todas as coisas provisórias por lá que eles logo aprenderiam que não eram tão provisórias assim. Primeiro ele relutara a ficar, não que houvesse oposição à sua ida, mas claramente havia um conflito entre permanecer naquele espaço e sair e buscar outra ajuda. E então notícias da terra dele chegaram na forma de um maço de jornais escritos em letras cheias de arabescos incompreensíveis. Largados na porta da loja em uma manhã qualquer e sem nenhum aviso, jornais impressos em uma era emque quase todos buscavam suas notícias na rede, alguns sujos com digitais de chocolate, um último esforço de Madileni de garantir sua palavra final na discussão. Aos que não falavam saariano, Lienara confirmava as notas vagas na sessão de notícias internacionais do jornal local falando sobre conflitos. Desde então ele simplesmente ficara.

Midnight foi embora após o fim do mês de descanso e deixou com eles os seus livros. Se questionassem Shiraiku, ele preferia sinceramente que ele pegasse as suas coisas (de forma figurativa) e sumisse, mas o proprietário se limitava a olhar desanimado através das lentes redondas, e se lembrar que tinha prometido à irmã que aceitaria ele até quando fosse necessário, porque é isso que bons homens fazem. ‘Homens bons’ para ele soava como senso de humor. Pensando bem, ele geralmente preferia um monte de coisas e nunca acontecia nada. E promessas à irmãs tinham algum tipo de poder. Mas não precisava de mais uma pessoa folgada morando no sótão sem pagar. Sua cabeça doía muito ultimamente quando pensava nesses assuntos e ele gostaria sinceramente que Miyukashi e Gurake parassem de discutir.

Com o fim das férias parecia óbvio e inevitável a todos que Miyukashi precisaria ir para a escola de alguma forma, menos para o próprio. Lienara tinha intermediado os papéis com seu novo nome de registro e novos dados e inventando para a instituição que ele tinha sido educado em casa até o momento, mas ainda era necessário que fizesse um teste de classificação. Miyukashi saiu da cozinha batendo os pés e subiu a escada para o sótão, e Gurake saiu logo atrás com o papel nas mãos.

-Well, well. Acho que a idade difícil chegou cedo.

Shiraiku revirou os olhos sem humor nenhum para isso.

-Pode jogar ele num orfanato se quiser, você que escolheu ficar com ele.

-Waaaah, Shira-Shi está de mal humor.

-Só minha irmã me chama assim, ok. Mais respeito pequeno parasita.

Lienara riu na cozinha.

-Ele paga o aluguel dele, Shira-shi!

Enquanto Gurake recebia de Shiraiku as delicadezas de uma lixa de parede, Miyukashi escalava, longe da maestria, as caixas de estoque no sótão. Atrás de todas elas, em um nicho minúsculo entre a pilha e a parede, estava Kiieth, sentado, olhando fixamente em uma direção ao lado da pilha de livros de Midnight e papéis em que estavam rabiscadas palavras simples, desenhos e escritos na língua local e em sua língua nativa, sob eles, os jornais estavam sobrados e amarrotados. Pediu licença e se sentou de frente para Kiieth, os dois encolhidos abraçando joelhos naquele espaço minúsculo. Ele continuava com unhas pintadas de vermelho e agora usava maquiagem delineada preta intensa sob os olhos. Não era alto mas era forte, seus olhos amarelado e os hematomas começavam a desaparecer na pele bronzeada. Gurake com seu vocabulário avançado tinha conseguido descrevê-lo como uma pessoa de pele dourada, olhos dourados, cabelos dourados e pulseiras douradas. Gurake chamou o menino pelo nome e ele fez um sinal com a mão pedindo silêncio. Provavelmente ninguém o encontraria lá até a chegada de Ayan e Lienara, Gurake não era muito habilidoso com escalada apesar das tardes com Yan.

- Por favor, não diga nada. Eles querem me mandar para a escola, eu sei que deveria ir, mas se eu for, eu não vou poder mais passar tempo com eles, vou? – ele inflou as bochechas – E o Gurake também tem idade de ir para a escola, não é porque ele está em outro país que ele não tem, acho.

-Escola é preciosa.

Miyukashi fixou os olhos no outro, confuso e ele puxou um dos livros, abriu uma página que mostrava um caricato gato com óculos em frente a uma roda de filhotes de animais com roupas.

-Falei errado? Estudar é precioso. Assim. – seu dedo bateu na página.

-Ah. – Ele desviou os olhos. – Me desculpe, acho que eu e você nunca conversamos na verdade. Você está entendendo o que falamos?

- Entender ... – Ele balançou a cabeça como quem indicava que parcialmente – Falar.... Não certo. – Deu com os combros – Escrever ... – Ele riu de si mesmo enquanto abanava um negativo.

Miyukashi riu junto.

- Você aprende rápido. Importante, acho que a palavra que você queria usar é importante. - Kiieth pronunciou a palavra nova baixo para si mesmo.- Desculpe. Eu não sou a Midnight, não sei fazer igual ela. Sendo honesto, quando Shiraiku disse que a irmã dele tinha a minha idade achei que íamos conversar mais, mas foi comos e não tivéssemos passado o mês na minha casa.

Kiieth esboçou um sorriso.

- Meninos e meninas... Diferentes. – Ele pausou um pouco e murmurou para si algumas frases em saariano - Estudar não me ajudou. Mudou coisas. Não ajudou no final. Mas é .... importante? Você precisa.

- Se eu for para a escola, não vou mais poder ir treinar todos os dias no templo com o Gurake, nem acompanhar ele nas coisas no dia a dia e aprender a ser útil, e ajudar o Shiraiku na loja.

- Não?

- Porque não vai dar tempo!

Kiieth suspirou e deu uma pancada leve na cabeça do garoto.

-Escravos sem tempo. Crianças sim.

Os dois ficaram em silêncio. O olhar de Kiieth era sério, e Yuka se sentiu levemente desconfortável com a intensidade dos olhos dourados que pareciam muito maiores com aquele contorno negro. Mesmo com as circunstâncias estranhas que ele mesmo havia sido encontrado, não escutava falar de escravos fora da história de Kiieth. Tinha ido pesquisar aquela palavra depois de ter escutado da boca de Madileni, inicialmente pensava ser um insulto partindo de quem partiu. Yan havia dito que isso era normal, que acontecia em muitos lugares, as coisas eram simplesmente assim e não se mudava o status quo do dia para a noite. Mas tinha ressaltado que ele estava na República Oriental e que não precisava se preocupar com isso.

- E você estudou então?

Ele fez um gesto que indicava muito. Miyukashi apontou para os jornais.

- Quer voltar para lá?

O silêncio prosseguiu e então Kiieth abaixou a cabeça entre os joelhos, derrotado.

- Não tem onde.

Miyukashi estendeu a mão e sorriu.

- Bom, Não é um grande problema. Somos dois sem para onde voltar então.

O saariano aceitou o aperto de mãos e voltou a apontar para o livro.

- Estudar então.

As caixas começaram a chacoalhar enquanto Gurake gritava que sabia que ele estava lá. Queria responder algo para Kiieth, mas foi agarrado pela gola da camisa e erguido sufocando por Ayan, sob risadinhas de Lienara.

- Pronto, Gurake, era esse ratinho que você estava procurando?

Ayan cumprimentou Kiieth com um aceno de rosto e puxou Miyukashi para cima e jogou para Gurake. Lienara esticou para ele o papel de classificação.

– Ok, agora você vai ser um bom menino como sempre é, sair daqui com seu irmão e fazer a matrícula. Semana que vem, aulas. E se ousar tirar notas baixas, arranco suas unhas com um alicate. Começando com as dos pés para o serviço social da escola não reparar.

Os olhos do menino se encheram de lágrimas e Yan e Gurake encararam a garota.

- Ok, ok, brincadeira. – Ela se aproximou da orelha de Miyukashi e sussurrou – Ou não.

Yan levou a palma da mão ao rosto e a repreendeu enquanto alcançava suas coisas na rede suspensa. Miyukashi sentou assustado e pegou o papel.

- Lie, pare de assustar o menino, por favor. Aliás, vocês dois, eu não posso ir ao templo com vocês essa tarde. Se virem sem mim, por favor.

Os dois acenaram com a cabeça e se concentraram no formulário. Lienara parou um pouco com sua risada indiscreta por Miyukashi e esticou o pescoço para as coisas que Ayan estava juntando.

- Você só tinha ronda hoje, para que tudo isso?

- Mudanças de última hora, recebi a mensagem pouco antes de passar pela porta. Comet quer que eu substitua alguém que não está em condições, lá do outro lado da cidade. Devemos muitas para ela, nem questionei.

- Uhm – Ela torceu o rosto – O outro lado da cidade fica fora do território do Smile. Não gosto dessa idéia.

Ele sinalizou que não podia ser nada e desceu da rede e passou a vestir uma camisa social. Gurake e Miyukashi pararam por um momento para absorver a primeira vez que o vinham sem as roupas pretas e as partes de armadura de couro que haviam feito Madileni debochar. Lienara se aproximou e o ajudou a dar o nó na gravata. Seus lábios se tocaram discretamente e ela lançou um olhar triste ao resto das coisas que ele havia separado.

- Se você vai por lentes e peruca, você sabe que estão te mandando para problemas.

- Ou não. Estamos em paz há algum tempo. Seja uma informante comportada hoje, eu não vou poder correr para te salvar.

- Ou sim. Você é um idiota, Yan. Não adianta ficar cheio de preocupações comigo e esquecer de cuidar de você.


Ayan estava entediado. Ele observava de longe seu contratante e revisava mentalmente seu cronograma. Não sabia direito qual o grau de parentesco daquele homem antipático com Comet ou Smile, mas sabia exatamente porque ele não tocava os negócios da família: com aquele humor, ninguém iria trabalhar para ele. Tudo estava sendo uma grande apresentação política. Entrevistas, formalidades, tudo a ser finalizado com uma festa em uma mansão, um grande baile. Não gostava daquela parte da cidade, destruía o clima aconchegante com suas casas imensas e terrenos amplos, ruas vazias e sem passagem de gente. Mesmo os canais pareciam controlados e ordenados. Não era o local para um agente de campo.

Sua tarefa era monótona. Precisava observar de longe e garantir a segurança daquele homem. Viu mais alguns como ele bocejando em posições estratégicas, mas não sabia direito quem eram ou se estavam trabalhando no mesmo lado. Torceu para ser apenas mais um dia normal e que viesse logo a tal festa. As chances de alguém realmente o atacar eram tão baixas que tudo só seria deprimente e chato. Ninguém iria querer gerar um precedente desse tipo. Olhou pela janela e se sentiu um pouco no interior. A Cidade do Porto era conhecida como uma ilha, mas a realidade é que ela tinha uma conexão terrestre com o continente seguindo adentro da reserva florestal. Se fosse uma ilha de verdade, quem se aproximasse da parte da cidade que ele estava acostumado acharia que estava chegando a uma cidade medieval. A essa parte, a pessoa acharia que estava em uma ilha particular de algum condomínio burguês.

Por algumas horas entediantes sob um sol fraco, mas em um dia úmido e quente, ele repetia para si mesmo que estava lá por solicitação de Comet. E pelo dinheiro, obviamente. O relógio com o dragão foi escaneado quando ele cruzou os portões para a festa, e foi só então que ele notou que, ao fim de tudo, o seu protegido era o anfitrião da noite. Preferiu não pensar em porque Smile precisava enviar gente de fora nesse caso, mas não se metia em negócios da família. Seu trabalho agora era se manter sóbrio em meio a bebida cisculando e aguentar a chatice enquanto os outros vomitavam no banheiro. Ele não era um convidado da festa e sim uma mera conveniência. Mantinha os olhos nos outros agentes de campo, também misturados aos convidados, e se perguntava se estavam lá como guarda costas de alguém também. Torcia para que alguns rostos com quem simpatizava tivessem sob sua vigilância e proteção alguém menos entediante do que seu contratante, sentado na mesma mesa há muito tempo, interessado em bajulações e trocas de cartões.

Bocejou. A música lhe parecia de muito mau gosto, e ele estava começando a crer que efetivamente nada aconteceria e de tempos em tempos era extremamente bem sucedido em sumir com uma bandeja de petiscos. Tinha encontrado um posto de observação conveniente no salão maior. Escondido mas sem maiores suspeitas, e na rota dos garçons. Após um período de piadas internas sobre aquele zoológico humano, ele decidiu que era hora de mudar de posto. Se espreguiçou e ia seguir direto em linha reta, mas seu olhar travou na mesa de bebidas mais próxima à varanda, e um olhar vermelho escuro respondeu sua encarada com um aceno debochado de mão, fazendo questão de afirmar que o tinha notado. Madileni. O que Madileni fazia ali? Seu primeiro instinto foi cogitar esganar o menino e o atirar da varanda antes que ele causasse problemas. Toda a irritação dele agora tinha encontrado um ponto de convergência. Deu uma olhada de canto de olho no anfitrião e decidiu que ele ainda ficaria um tempo naquela mesa.

Caminhou em passos firmes atrás daquele sorriso cínico, e sem pensar se moveu impulsivamente para a varanda. Em meio a algumas pessoas triviais fingindo se divertir e outras claramente bêbadas em diálogos insensatos, Madileni estava sentado sem constrangimento no parapeito de proteção, sozinho. Cogitou empurrar enquanto ele erguia em sua direção uma taça, em saudação.

-Yooooo! Belo começo de noite, não é?

- O que um pirralho como você está fazendo aqui.

- - Waaah, que insensível. Não está feliz em me ver? – soltou o ar pelo nariz - O mesmo que você, oras. Cumprindo ordens? - Com um tapa-olhos praticamente não visível atrás da franja penteada demais e o cabelo ligeiramente comprido preso na nuca, Madileni ajeitou sua gravata e deu um sorriso para Ayan.

- Quis te matar as últimas duas vezes, por que estaria? – Suas reclamações foram interrompidas por um sussurro e uma baforada quente em seu pescoço.

- Hei, Madie, não vai me apresentar ao seu amigo?

Yan gelou com a voz saindo da orelha dele. Não o tinha visto chegar ou se aproximar e agora um jovem falava a poucos centímetros de sua orelha. Seu primeiro instinto deveria ser contra atacar a quem invadisse seu espaço pessoal, mas o choque de não ter sentido a aproximação estava falando mais alto. Madileni pulou do parapeito e depois agarrou a manga do terno do um jovem enquanto Ayan se afastava com um pulo. O recém chegado tinha feições muito parecidas com as do menino, mas muito menos marcantes, um corte de cabelo totalmente trivial, e era desajeitadamente alto, embora não o suficiente para ser um ponto de referência na multidão.

- Amigo? Eh... Bom, esse é... Sendo sincero, ele e amigo da Lienara, eu não me lembro de ter aprendido seu nome. – Ele sorriu para Ayan e ergueu o dedo indicado pro recém chegado – Esse é meu primo.

Yan ergueu uma sobrancelha, desconfiado e o outro fez uma cara de surpresa e soltou uma exclamação e estendeu a mão direita enquanto fez um puxão de orelha de brincadeira em Madileni.

- Escutei histórias dos amigos de Lienara. Ótima informante, por sinal. É um prazer, meu nome é Knuksi, espero que sejamos amigos.

Ayan apertou a mão de Knuksi com desconfiança, encarando aqueles olhos castanhos e pensando me uma raposa. Madileni estava agarrado às pernas do primo, fazendo gracejos. Ele soltou a mão apontando para o menino.

-... Essa coisa está bêbada?

- Coisa? Meu vocabulário ainda não incorporou essas gírias, mas de toda forma... – Ele tirou a taça da mão do menino – Isso é meu.. É claro que comeu açúcar demais, como sempre, mas ele bêbado seria um grande problema. Gosto dos reflexos dele funcionando.

- É... – Ayan não sabia muito o que dizer - ...Os reflexos.

Os dois primos trocavam provocações simpáticas e amigáveis entre si em uma língua que Yan não falava. Knuksi fazia cócegas em Madileni. Por um momento o mercenário olhou ao redor desconcertado que eles pudessem estar chamado a atenção inadequada numa tarefa dessas, mas todos simplesmente ignoravam a existência da dupla. O mais velho se mesclava ao cenário como se não existisse e agora Ayan estava parado apenas encarando. Knuksi voltou a falar na língua local com Ayan.

- Espero que os modos do Madileni não tenham te incomodado. – Ele fez um tom de zombação com Madileni. - Vou ao banheiro e em segundos você está causando problemas, seu projeto de bomba atômica... – Esperou alguma resposta bem humorada de Yan, mas em vão. – Bom, eu não mordo, é bom termos um início melhor do que você teve com meu primo.

Ele levou a taça aos lábios e bebeu vagarosamente, se apoiando no guada-corpo da varanda. Ayan estudou sua figura e se repreendeu mentalmente, só agora percebia que Knuksi estava claramente armado. Teve calafrios. Madileni parecia outra pessoa naquele terno sob medida, sem vomitar malcriações por minuto. Knuksi esticou a taça vazia para ele e o menino saiu para se desfazer dele.

- Não temos a intenção de intervir no seu trabalho se você não intervir no nosso. – Knuksi encarou Ayan esperando um confirmação.

A troca de olhares foi interrompida por Madileni puxando a barra do terno do primo e apontando com o olhar para um garçom que passava com uma bandeja de licor, falando com uma voz inocente que não combinava.

- Pegue um para mim, Knuksi.

- Não, você já teve chocolate o suficiente.

- Esse é de cereja. Você sabe que é meu favorito.

- Sem mais açúcar, você já esta agitado o suficiente.

O garoto virou o rosto para o chão emburrado, e Ayan buscava com os olhos uma rota de escape para voltar ao seu plano original. Knuksi o puxou para perto.

- Como eu disse, não quero começar mal, então... - os olhos de Knuksi seguiram alguém brevemente e então ele balançou a cabeça tentando focar - Precisamos agir ainda hoje, sabe, dá trabalho fazer essas coisas. Seu contrato incluiu apenas proteger as pessoas e vigiar, não é?

Ayan voltou os olhos para o menino buscando explicações e ele fez cara de inocente. Knuksi se adiantou a ajeitar o nó da gravata de Ayan, um tipo de contato físico que ele repudiava, mas o outro sorria sem ligar.

- Proposta: você ganha um álibi, a culpa da falta de vigilância recai sobre os outros caras contratados, afinal, você fez seu trabalho, cumprimos ambos nossa missão, recebemos ambos, todos ficam felizes.

- Por que eu me envolveria com assuntos que eu não conheci em vez de simplesmente te denunciar e receber meu dinheiro? Eu não te conheço, e essa é a minha cidade. Eu não sigo ordens além dos meus próprios superiores.

- Porque eu podia ter te matado quando eu passei do seu lado enquanto você vinha para a varanda, e você nem me notou. Mas, principalmente - ele pausou - porque queremos ter um bom começo. Estamos do mesmo lado, confie em mim, porfavorzinho? - Seu olhar ficou sério por um instante e voltou para um modo irritantemente inocente. Deu um tapinha na cabeça de Madileni, mandou ele se comportar e saiu andando com uma saudação.

Pela primeira vez em muito tempo de trabalho, ele não sabia o que fazer. Mesmo acompanhando Knuksi com o olhar, já o tinha perdido de vista no momento em que tinha cruzado a porta da varanda de volta para o salão. Olhou para baixo e encontrou Madileni com uma expressão de satisfação revoltante, e uma taça de licor na mão. Em momento algum, tinha o visto se afastar para pegar aquilo.

- Mas o que...

- Te garanto que ele me viu pegar e não fez nada, então eu posso. - ele virou o conteúdo de um único gole. - O cara de bigodinho enrolado no salão menor, armado, está fora da lista. Não sabe direito o foco da festa, está aqui por vingança pessoal. Duvido que tenha coragem de agir, mas fique de olho, aborde ele antes dos outros, de preferência por volta das dez ou onze, ou quando todo mundo ainda não estiver bêbado o suficiente para esquecer.das coisas – Ele repreendeu Ayan erguendo a mão em direção ao seu dispositivo pessoal. Pode consultar Comet se quiser, mas isso vai deixar meu primo um pouco ofendido com a desconfiança às ofertas de paz dele. Vai dar tudo certo. Lembre-se, quando eu digo as coisas, eu realmente quero dizer elas.- Ele ergueu a taça vazia, como se brindasse - Por um começo melhor. - E então deu uma volta infantil e sumiu na multidão.

Ele tirou do bolso o relógio, excepcionalmente não sendo usando como broche em prol da discrição e abriu a tela. Começou a digitar para Lienara pedindo informações sobre Knuksi. Encarou a tela e percebeu que não sabia soletrar esse nome. Substituiu por apenas primo do Madileni. Acabou por não enviar a mensagem, incerto do que estava acontecendo ali. Ele não tinha confiança de Comet há tempo suficiente para conhecer todos os pormenores da cidade, era apenas um agente de campo, ele gostava de se considerar mais habilidoso que a média. Se fosse um informante como Lienara provavelmente saberia tudo que estava havendo alí. No fundo, escolhia não saber, não queria abrir nenhuma possibilidade que suspeitassem que a menina estivesse andando fora das regras. Seu protegido se levantou e o tirou desses pensamentos. Voltou a seguí-lo.

As horas seguintes se passaram com Ayan indeciso sobre aceitar a sugestão. Só conhecia Madielni. Não gostava de Madileni e não tinha motivos para gostar do primo. O que sabia sobre ele além de que a pouco tempo estava nas terras de Kiieth? Aquele diálogo tinha sido rápido e suspeito demais para confiar. Varria com o olhar a multidão em busca da dupla. Como podia perder de vista uma criança arrogante com um tapa-olho? Ao mesmo tempo, já tinha localizado a pessoa que eles tinham indicado e averiguado. Estavam certos. Aquele rosto não estava na lista de convidados. Mas isso não dizia muito. Havia uma chance daquele cara estar lá, armado, de proposito como ele, não havia sido confiado ao jovem uma lista oficial de agentes de campo infiltrados, nem seria. Mais uma vez, ele não era um informante, ele apenas executava.

Os ponteiros do relógio corriam devagar. O homem sob sua vigilância estava próximo ao suspeito no salão. Procurou com os olhos os outros conhecidos na festa. Alguém, qualquer um, se algo estranho ocorrer, pare isso antes que eu esteja envolvido. Esperou para ver se seu pedido era realizado e logo lembrou de por que Shiraiku era uma exceção em sua fé. Respirou fundo e mandou todos se danarem em sua mente. Se fosse o caso de ser mais um deles, ainda estaria cumprindo seu trabalho de estar alerta, pediria desculpas e tudo se resolveria. Aguardou até o último momento de um movimento suspeito. Pediu mentalmente que ele parasse, mas a mão dele entrou dentro do terno, segurou a empunhadura da pistola e a puxou em direção ao anfitrião.

Se jogou para impedir. Puxou o cara de meia idade para um canto, abrupto, mas discreto, nenhum som emitido, o desarmou. Ele enviou o sinal para os seguranças segundo o protocolo, não havia um engano isso o deu um grande alívio. Ver um homem crescido chorar o irritava. Houve uma pequena comoção entre os convidados, uma grande comoção entre os agentes de campo espalhados, mas habilidosamente o entretenimento da festa distraiu o público. Ayan tinha quase certeza que Comet também tinha agentes nesse ramo especialmente preparados, mas era especulação dele. Ele sumiu com o anfitrião e alguns seguranças e mercenários por um corredor lateral. Knuksi conhecia aqueles dois, tinham trabalhado um tempo para Comet. Jurava que tinham deixado a cidade, mas nunca se podia ter controle de tudo.

Uma portinha se abriu, e o homem foi jogado lá dentro. Ayan se virou respeitosamente, não cabia a ele participar do interrogatório. Não estava no protocolo. Havia uma câmera na sala. Se havia uma câmera naquela cidade, Smile tinha alguém que podia acessar para ele. Esse pensamento lhe deu alguma segurança, estava cumprindo seu papel. Já passavam das onze, seja o que for que aqueles dois estivessem planejando, ele estava registradamente não relacionado. Ele só reparou depois nisso, mas então as palavras de Madileni viraram profecia cumprida. Um alarme discreto no relógio de pulso do contratante e o rosto gordo de um dos mercenários empalideceu. Antes de sair da sala a passos largos, o homem esquisito finalmente se dirigiu a ele. Enquanto apertava alguns botões no próprio relógio de pulso.

- Um agradecimento pela minha vida é válido. Seu dinheiro está sendo transferido pode verificar. Um pouco a mais, considere um agradecimento por ter salvo minha vida. Espero que isso seja um sinal de que Smile e Comet estão realmente se dedicando a renegociar com a família e deixando velhos rancores de lado.

- Devo me livrar dele?

- Seria cortês, mas eles – Ele apontou aos seguranças- sabem melhor o que fazer nessa região. Não temos tantos pontos seguros quanto naquele labirinto do outro lado... Eu vou me ausentar um minuto, pode retornar ao salão primeiro.

-Tem certeza, senhor?

- Acho que eu tenho certeza de quando quero ficar sozinho na minha própria casa - Acompanhado de alguns dos seguranças ele sumiu por uma direção que não era o salão.

Fez um sinal para os seguranças antes de sair e o interrogatório foi cancelado, o julgamento foi aplicado com o puxão de um gatilho. O rosto de Yan se contorceu um pouco, parte dele nunca se acostumava com a naturalidade da morte por uma arma de fogo.

Ayan não se sentia dispensado da obrigação, apesar do pagamento ter sido feito, uma intercorrência evitada, tinha uma sensação ruim. Seus olhos voltaram para a câmera antes dele retornar ao salão, disposto a cumprir todo o turno que lhe foi designado e evitar dever qualquer coisa – que fosse tempo de trabalho – para Comet. A música continuava, os convidados bebiam, ele repetia mantras para se manter firme. Acompanhou a uma distância educada o anfitrião, que adentrava o salão em busca de um atalho rápido pela casa, com os seguranças da casa logo atrás dele. No meio do salão, o improvável aconteceu. A pessoa que ele tinha acabado de salvar tombou para o lado junto de um dos mercenários e caiu no chão. O segundo mercenário ergueu a cabeça para ver o que tinha acabado de ocorrer e então caiu também.

Pessoas gritaram quando perceberam o sangue escorrendo pelo salão. Os outros agentes de campo se reagitaram, agora com mais motivo, procurando um atirador. Estavam no segundo andar e, da janela mais próxima, não havia ninguém nem local que pudesse esconder alguém. Ayan também correu para a varanda. A casa mais próxima parecia pequena à vista. Olhou para o sistema de segurança. Haviam as câmeras. Ele tinha o álibi prometido. Aqueles dois deviam ser culpados, por mais irracional que fosse. Pulou pela varanda mesmo, correndo pelas ruas, seguindo seu instinto.

Atravessou os cruzamentos com sua sombra projetada pela iluminação de rua. Sentia que a silhueta estava realmente ridícula sem suas roupas de sempre. Já tinha se afastado o suficiente da festa, se sentindo ridículo e um tanto fracassado em sua tarefa, quando outra sombra cruzou a sua. Puxou de dentro do terno a espada curta por instinto. E virou o rosto já com a lâmina em mãos. Lá estava Knuksi, carregando em suas costas Madileni adormecido. O menor tinha o rosto vermelho e movia os lábios falando dormindo, ainda com as roupas da festa, mas Knuksi vestia, jogado por cima do terno, um sobretudo camuflado e um capacete militar. Na transversal, uma bolsa discreta, mas com chaveiros de ursinhos incoerentes pendurados. Abaixou a lâmina.

-Por que e o que aconteceu?

Knuksi apenas levou um dedo aos lábios, em sinal de silêncio e sorriu.

-Teremos muito tempo para conversar. Eu disse que daria certo. Um bom início, um ótimo início. - E desapareceu de volta às sombras.

Ayan se sentiu cair de joelhos no chão. Deia ser mais ou menos assim que Shiraiku se sentia sem controle nenhum sobre as coisas. Já de madrugada, em passos lentos, e sem muita certeza se devia pegar o bonde ou passar na loja e tirar aquele terno, lentes e tinta de cabelo ridículos, ele cruzou a porta do bar, decidido a falar com Comet ainda aquela noite. No fundo queria voltar imediatamente para a Sweet and Dark e dormir, mas algum tipo de karma o estava perseguindo, e aquele sorriso traiçoeiro estava lá, sentado em uma mesa do lado da janela, vestindo o mesmo capacete descontextualizado, o mesmo casaco longo verde-exército com capuz de pelúcia, arrematado por duas fileiras de botões alinhados, agora sem o terno. Madileni vestia a mesma capa em trapos de antes sobre um conjunto de roupas bem comuns, e estava dormindo sobre a mesa, com o rosto escondido entre os braços cruzados. Tentou fingiu que não viu, mas Knuksi começou a acenar com a mão exageradamente o convidando para se sentar, oferecendo a ele seu copo erguido no ar e instintivamente a oferta foi ignorada, sem álcool nas próximas horas, talvez dias. Ele queria estar sóbrio para entender. Virou as costas e bateu os pés escada acima. Comet foi simpática ao abrir a porta, Smile com uma tristeza fingida enquanto ele adentrava, estendeu os braços.

- Oh, Yan, meu bom agente de campo, as notícias chegaram até mim, é um infortúnio! - Ayan abaixou a cabeça. Sabia debater com Comet, tinha prudência com Smile. - Mas está tudo bem, não está? Me disseram que você estava cumprindo muito bem seu papel, era realmente inevitável.

- Meu senhor, Smile, apenas me diga, foi um dos nossos? Eu deveria estar atrás de alguém?

- Oh, eu temo que Comet seja muito flexível com vocês, mas até um informante teria dificuldade de averiguar isso... – Ele suspirou forçosamente – Era um dos meus primos distantes favoritos, sabia?

Comet soltou uma risada pelo nariz.

- Pois é, Yan, me diga, é verdade que alguns fantasmas se teletransportaram milagrosamente de volta pra cidade, depois de receberem uma dispensa comovente, e acabaram envolvidos?

Ayan apenas acenou a cabeça.

- Yan, Yan... Me diga – Smile alançu os gelos dentro de seu copo de bebida – Você acreita que somos justos? Você sabe, para os padrões da grande Aliança, toda a Ásia é controlada e manipulada por bandidos. O que você acha?

- Eu não tenho o direito de julgar, senhor. Vocês acolheram Lienara e a mim quando precisamos e garantiram proteção, nos permitiram trabalhar e a cada noite que eu saio para patrulhar as ruas eu sinto que as essoas podem dormir melhor.

- Nesse caso, menino, acho que você já tem a sua resposta. Você Não precisa que eu a coloque em palavras.

Houve um silêncio significativo enquanto os dois trocaram olhares. Ayan teve certeza que deveria ter voltado à loja e se sentiu um idiota. Se lembrou daquele idiota acenando no salão logo abaixo deles.

- Senhor Smile, senhora Comet. Apenas uma pergunta a mais, estou disposto a pagar por ela, eu prezo pela minha segurança mais do que por dinheiro. Quando o saariano chegou na cidade, um menino foi enviado como tradutor. Em seus planos, eu estou do mesmo lado que eles, ou eu tenho o direito de me sentir intimidado. Eu posso reagir à provocações.

- Oh... Eles... – Comet se afundou na cadeira- É meio complicado de te explicar, eu ficaria muito feliz se vocês fossem amigos. Mas eu posso afirmar que ele é leal a mim e à Smile. Ele é leal a essa cidade. Eu não posso garantir que ele seja leal a pessoas. É uma figura bem particular, não temos um desses todos os dias.

- Foi ele quem atirou, não foi? Eu não sei como, mas...

- Ora, nenhum de nós sabe como, não é mesmo, Comet? – Smile fez jus ao codinome – afinal de contas, coisas impossíveis não põem ser registradas em fichamentos. Um tiro impossível, deve ser a justiça divina que os textos antigos falavam. Agora eu acho que você deveria ir descansar, não deveria? Eu cogito cobrar mais caro por respostas nessa hora da noite.

Ele saiu pelos fundos para não cruzar com aquela raposa inconveniente e a reencarnação da falta de educação. Telefonou pra Lienara pedindo a ficha deles, violando todos os seus ideais de que não podia fazer ela quebrar os sigilos de um informante, e foi surpreendido pela resposta. Ela mostraria os dados pessoalmente. Não agora. Não enviando pela rede. Comet tinha colocado uma sigilo sobre aquela pessoa. Madileni não estava sob sigilo, mas a ficha dele era vaga e imprecisa. Apenas mais uma criança iniciando uma carreira errada. Caminhou até o ponto em que Gurake costumava apostar, mas só encontrou o gato listrado do templo dormindo num canto.

Aquela noite já tinha sido encerrada. Puxou um caixote de madeira, sentou e acendeu um cigarro, ele fumava raramente, ter um rastro de odor para rastreá-lo era uma péssima estratégia, mas aquele o relaxava, e ele precisava. Se sentia tenso como no dia que chegou à cidade. Talvez estivesse apenas mal-acostumado, os últimos meses tinham sido de imensa paz. Tinha ocorrido a história de Miyukashi. E Kiieth. Mas ele não tinha estado envolvido de verdade. Apenas sabia, lidava com as consequências. Ele mesmo não matava ninguém havia meses. Nem ninguém morria no seu turno.

Soltou a fumaça devagar e fechou os olhos. Sem que tivesse escutado o ranger das escadas metálicas ou qualquer sinal de passos, ele sentiu suas costas pesarem. Em uma situação normal ele teria pulado, reagido e se sentido atacado. Naquela noite se sentia anestesiado demais, e no fundo, já esperava isso. Esticou um cigarro para o recém-chegado, sentado costas com costas e viu a mão se agitar em negação.

- Isso faz mal, sabia? Da onde eu venho é banido consumir isso dessa forma.

- Vocês mascam a erva?

- Alguns sim.

- Parece um hábito nojento.

Knuksi riu.

- E então? Boa noite de lucro, não acha? Eu disse que tudo daria certo.... Não pense que eu me ofendi de ter sido ignorado lá no bar, você tem bastante direito a desconfiança, mesmo eu já tendo provado que sou amigo.

- E o pirralho?

- Pus ele pra dormir em um lugar seguro... Pode não parecer, mas eu me preocupei muito no tempo que ele estava sozinho. E se acontecesse algo? Já tenho problemas o suficiente com o olho dele...

Ayan teve um pouco de dúvida sobre isso.

-Se você se preocupa tanto com ele, eduque ele melhor. Alguém ainda vai arrancar a cabeça dele em resposta às provocações, não vá chorar depois.

- Ah, eu duvido muito que alguém consiga. Gostaria de ver tentar, mas não dá para subestimar ele. Ele é inteligente, ele é bem treinado e ele é bom no que faz... Mas tudo bem, eu imagino que vocês não tenham se dado bem, e eu sei que ele está errado em muitos pontos. No que ele te insultou? Te chamou de ultrapassado pelo uso de espada? Porque isso parece algo que ele faria... Ele é jovem, ainda não sabe a diferença de um canivete e uma espada de verdade. Eu fui treinado em esgrima militar, não é meu forte, mas eu sei que uma boa lâmina causa estragos. É mais honesta que uma arma de fogo, mas eu prefiro minha segurança do que a honestidade. Que tal deixarmos de lado sua primeira impressão com ele e começar do zero. – Ele se levantou e foi para a frente de Ayan.- Muito prazer, meu nome é Knuksi. E você ainda não me disse o seu. Não quero perguntar por aí, é rude.

- Ayan. Meu nome civil é Ayan.

- Um nome bem simples para um nome civil. Você também é estrangeiro, esse é seu nome real ou você mudou de nome civil quando veio para cá?

- Preciso te responder? Pelo menos meu nome é pronunciável. Não vai encontrar muita gente por aqui que consegue por para fora esses fonemas.

- Sendo bem honesto, da onde eu venho também não. - Puxou um caixote de madeira e se sentou puxando a bolsa transversal para o colo. - Lá nos valorizamos o nome de registro, não é apenas algo que vai no seu documento. O sobrenome herdade de família diz muito. E me deram um nome de registro muito mais amigável, Klaus. Mas ficou para trás, acho que faz parte se adaptar aos valores desses lados.

- Então você é da Aliança. O que um desertor do Exército Aliança da Salvação faz aqui?

- E o que te indica qu eu sou um desertor do exército? – Ayan torceu a cara e ele entendeu isso como uma resposta – Ok, ok, você não é tonto, compreendi. Mas desertor é uma palavra errada. Eu não sei se existe outra, na verdade. Elo menos não nesse idioma, deve haver na língua universal ou em alguma daquelas línguas nórdicas da aliança... Desertor soa como se eu tivesse fugido da minha obrigação. Meus ideais eram diferentes dos deles, e eu não podia sentar lá e tentar me convencer de que as coisas iam mudar.

- E porque essa cidade seria diferente?

- Porque aqui os ideais de justiça e certo estão compatíveis com os meus. E porque é um lugar adequado para o Madileni. Enquanto formos bem-vindos, abraçaremos essa cidade.

Ayan não gostava da forma com que ele sorria com os olhos e tinha dentro de si uma inerente desconfiança de tudo que vinha da Aliança. Desertores e traidores eram caçados firmemente. Se ele tinha ido tão longe, ou tinha sido permitido, ou ele era mais perigoso do que ele queria ter amizade. Sabia grás ao caso de Kiieth que ele tinha, de forma aberta pra Comet, ido e voltado para o oriente médio na última crise. Se Comet apoiava isso, provavelmente era a segunda opção.

- Como eu poso saber que você não é um agente da Aliança ainda? Alguém com sua discrição é facilmente um espião treinado.

- Sou apenas uma pessoa discreta, eu digo isso, mas ninguém acredita.... Eu já fui um agente de infiltração. Mais do que isso, se você está duvidando de minha lealdade, não está também duvidando de Smile e Comet? Como pode trabalhar aqui sem essa confiança?

- ... Um agente de infiltração e um sniper?

Knuksi fez uma expressão dissimulada.

- Que acusação forte, acha que eu atirei naquelas pessoas? Você me viu com uma sniper por acaso? Essas coisas são grandes, Eu estava carregando o Madileni. A não ser que você ache que eu tenho uma pistola mágica que atira a longas distâncias. – Ele abriu o casaco e apontou pro coldre. Ayan ficou confuso e começou a organizar uma resposta quando ele riu e deu alguns tapas de leve na bolsa que estava em seu colo – Brincadeira... Rifle desmontável, customizado. Dede a geração do meu avô na família, ainda não sei se minha tia tem mais raiva de eu ter trazido ele ou Madileni comigo. Espero nunca descobrir, eu não acho que eu sairia vivo de um reencontro. Meu recorde é pouco mais de 2 quilômetros, e tem quase 3. Mas eu sou melhor em situações adversas e com tiro complicado. Óbvio, isso não está na ficha da Lienara. Nem vai estar.

- Porque está me dizendo isso então? Por que insistir tanto em ficar em bons termos comigo?

Knuksi se curvou um pouco para trás e fez uma expressão pensativa, o capacete militar quase tombou de sua cabeça. O outro considerou isso muito teatral e se irritou, mas permaneceu imóvel, de olhos fixos.

- ... Estou em um cidade nova. Partes da minha prioridade é manter o Madileni seguro, parte é investir nos meus próprios ideias e descobrir como mudar o sistema que a Aliança impõe por aí. Acho que eu vou precisar de amigos. Lienara é uma boa pessoa, você é uma boa pessoa, Madileni me relatou sobre o outro menino com vocês eo refugiado. Por que não? Você poderia sair e me trair e quebrar esse sigilo, mas por que faria isso? Colocaria Lienara em risco? – Ayan ficou mais sério – Oras, Comet me disse que Lienara está sob proteção, fique brava com ela. Mas ela é a chefe dos informantes, ela sabe pra quem passar uma informação. Eu não preciso que você me conte sobre você. Você é uma página aberta pra mim, eu sou recém-chegado, mas eu acho que nós dois percebemos que eu tenho outro nível de relação com os superiores. Oferecer a você um privilégio de informação em nome de uma nova amizade não parece bom?

Ayan franziu a sobrancelha e abaixou o cigarro.

- Eu não disse que quero uma amizade com você. Eu quero trabalhar em paz.

- Não existe paz nesse trabalho. Existem uma ordem a seguir, uma sociedade a manter funcionando. Se eles tem paz, nós não podemos ter. Alguém lida com os problemas, e você escolheu estar desse lado. Está desconfiado por essa noite? Eu te mostro os protocolos da minha tarefa, Comet não vai ficar brava, acho. Não fiz nada errado moralmente. Há um esforço muito grande no Posto para que esse lugar não seja como a Aliança. Vocês têm drogas recreativas. Você tem na verdade muitas drogas recreativas e umas casas noturnas que fariam alguns puritanos se arrepiarem. Mas vocês não têm drogas que causam vício, dependência. Drogas para controlar uns aos outros. Não é a forma com que Smile quer controlar a cidade. Não se pode dizer o mesmo das pessoas do outro lado. As vezes recados são compreendidos apenas de sua forma mais dramática.

- Isso... Isso vai causar brigas, a morte de alguém na família, seja com ou sem razão....

- Com toda a educação, mas não é seu problema. Você cumpriu seu papel. Eu cumpri o meu. A diferença é que embora nem eu nem você tenhamos direito a mudar a decisão de ordem de Smile, eu tinha o direito moral de aceitar ou não. Vai haver uma investigação e eu te garanto que vamos ficar limpos nisso. No fundo, não importa quem apertou o gatilho, eles vão resolver dentro do jogo deles o motivo.

- ... Não confio em você. Não tenho motivos para mentir. Lienara confia em você?

- Por que não pergunta para ela?

- Eu vou. Mas é bom poder ter uma referência de comparação. Vai me ajudar a medir você.

- Lienara confia em mim. Lienara confia em Madileni. Mas no limite do que é necessário, é claro. Ela sabe mais do que os outros que talvez nunca terão acesso total à minha ficha, ela fez a ficha, se não confiasse eu não teria conseguido o trabalho. Ninguém como nós simplesmente pisa nessa cidade sem ser abordado por um informante, e eu particularmente não queria de outra forma. Eu precisava logo de autorizações e acordos para trabalhar. Ela me abordou. Você sabe, o trabalho de troca de informações acaba envolvendo muito álcool e muitas vezes acaba na cama ... – Ayan rangeu os dentes - ... é uma coisa bem natural entre os informantes, você já deveria ter perdido esse ciúme... Mas, sabe, eu particularmente não tenho muita disposição com garotas.... Acho que Comet até sabia disso, mas achou mais divertido deixar duas pessoas com circunstâncias confusas de passado como primeiro contato meu nessa cidade do que necessário criar uma intimidade e extrair mais informações. Aconteceu um caso excepcional, eu ofereci Madileni para ajudar, acho que você sabe o que aconteceu. Eu precisava mais que confiassem nele do que em mim, ele precisava ficar aqui cuidando do olho dele e eu precisava tirar da minha cabeça algumas dúvidas e ir ver pessoalmente o que estava havendo no deserto. Foi um sucesso, senão eu não estaria aqui agora. Podemos dizer que essa noite foi meu último teste.

O sol ainda não estava nascendo, mas o céu já começava a mudar de cor. Ayan jogou o resto do seu segundo ou terceiro cigarro no chão e pisou nele Knuksi mantinha uma expressão imparcial, com um sorriso discreto. Depois de um tempo, puxou o urso de pelúcia pendurado em sua bolsa e um holograma se projetou no ar.

- Veja só o horário, melhor eu voltar para junto do Madie. Nos veremos em breve, mais em breve do que você deseja. Gostei realmente de você, senhor Ayan. Mande meus cumprimentos para Lienara.

Enquanto ele se afastava, Ayan desejou mentalmente que um raio o atingisse e o partisse ao meio antes disso.