
Gurake esperava do lado de fora do banheiro aquela manhã. Knuksi estava lá dentro há muito tempo, fazendo a barba com muito mais cuidado que o normal, se encarando no espelho demoradamente em seu ritual diário de cuidados recém-retomado. Puxando o cachecol para mais junto dele, andava de um lado para o outro da cozinha, impaciente pela abertura da porta, enquanto os outros tomavam café da manhã. Tinha passado os últimos dois dias acordado de noite vigiando o buraco quanto todos acampavam. Finalmente o desertor saiu, cabelo penteado com gel, franja milimetricamente ajeitada, e um uniforme militar incluindo gravata e luvas, surpreendendo todos. Madileni soltou uma interjeição e apoiou sua torrada no prato.
- E então, como ficou?
- Surpreendente – disse Masachiel – você sempre vai para o tema militar, mas tem um toque sério que você não costuma ter.
- Ficou bom – Gurake estava finalmente dentro do banheiro escovando os dentes – mas eu prefiro você normal.
- Horrível. – Todos se viram para Madileni – Esse uniforme ficou horrível em você. – Miyukashi fechou o punho e deu um soco no ombro dele – AW. Ficou horrível mesmo. É um uniforme de baixo nível, isso não é o que um Alpiniste nasceu pra vestir.
Knuksi cruzou os braços e se apoiou na parede.
- Madie, eu não posso simplesmente pegar meu uniforme antigo e pronto. O ponto disso é as pessoas não saberem que eu sou um Alpiniste.
- Ainda assim, deveria ser ilegal botar em você uma roupa dessa cor, está ridículo.
Masachiel bateu a xícara contra a mesa.
- É verde. Ele usa verde camuflado todos os dias. A camisa dele é verde. As cuecas dele são verdes...
- Não, não são!
- Mas não é a roupa dele – Madileni bateu na mesa – é um uniforme. Nossos uniformes são brancos como a neve dos Alpes.
Knuksi olhava seu reflexo de corpo inteiro na geladeira, inseguro quando Shiraiku passou pela porta da cozinha.
- Oh, muito bom Knuksi, Comet vai ficar feliz de saber que lhe serviu. Gurake vai ficar feliz em saber que o marceneiro pode vir essa tarde. – ele se dirigiu ao armário, tirou do lacre seus remédios e os engoliu com um copo de água. – Onde está Kiieth?
Masachiel respondeu.
- Volta do trabalho só na hora do almoço.
Shiraiku pareceu desconfortável e pegou sua caixa de remédios antes de sentar. A loja ainda não havia aberto, e ele empurrou seus óculos de volta para a posição no nariz. Todos o encararam enquanto ele abria um mapa digital na mesa. Gurake cuspiu a paste de dente e se juntou a eles sem limpar a boca.
- Bom... – sua voz tremia – Como todos sabem eu... Eu fechei um acordo com tudo aquilo que eu gostaria de evitar... Mas como uma boa intenção.
- Isso foi algo meio idiota de se fazer – Madileni roía a torrada com o lado da boca que estava com a dentição completa. – Meio não, muito.
Shiraiku não respondeu, apenas encarou o mapa e respirou fundo.
- A parte que interessa é que a partir de hoje podemos decidir por... Missões? Missões é um bom termo? -Knuksi acenou com a cabeça – Missões mais seguras... E isso é bom para todos, não? - Ele apontou para uma área contornada no mapa – Essa é a área da loja e... – ele arrastou tokens com as fotos deles – E esses são vocês. Se tiver alguém vigiando essa área contornada, ninguém mais precisa se arriscar, não é ótimo.
- Pela Aliança – Madileni se jogou para trás na cadeira – Você não entendeu nada.
Shiraiku fez uma cara confusa enquanto Knuksi puxava o mapa para si.
- As cores das bordas das fotos representam afiliação. Essas são hierarquia diretamente para a Comet ou Smile, essas parcial, e essas representam ligação apenas com a Loja. Em resumo, Você é o líder da Loja, você manda no Masachiel e no Kiieth, mas eles tem empregos relacionados com a estrutura da organização. Comet pode requisitar algo específico pra eles, e se você disser não, é bom justificar. Não abuse de dizer não. Gurake e Miyukashi não são oficialmente considerados membros locais. Eles não tem posto nem hierarquia. Mas são reconhecidos como pessoas autorizadas a trabalhar em tudo. Em um caso como antes, eles estavam sozinhos, respondendo diretamente para a Comet e por isso precisaram ir para as ruas reforçar o pessoal. Agora numa situação semelhante Comet vai determinar quanta ajuda precisa da Loja, a Loja designa pessoas. Gurake e Miyukashi podem ficar totalmente de fora por não estarem na hierarquia. E essa borda preta significa que eu e Madileni não respondemos à você. Nós somos membros honorários da organização como um todo, temporários. Comet está nos emprestando para a Loja enquanto estivermos aqui. Dito isso – Ele fez a cara de raposa que costumava irritar Ayan – prossiga, chefe, qual a missão atual?
Shiraiku engoliu duas pílulas, tomou um copo d’água e gaguejou um pouco. Os olhos se posicionaram sobre ele, ansiosos.
- Missão... Bom, precisamos de alguém Vigiando a área contornada e... Knuksi está comprometido com algo já, não é? Por isso que Comet te enviou o uniforme?
- Alguém por favor dê apoio a ele, ele está a beira de passar mal de nervoso. – Masachiel tinha um olhar legitimamente preocupado.
Gurake ergueu a mão.
- Eu vigio. Yan me ensinou a fazer isso.
- Guu... – Miyukashi tentou escolher um tom de voz educacional – Tem certeza que isso é uma boa idéia?
- Bom, alguém tem de fazer – Madileni ergueu os ombros. - Deixe ele. Duvido que a Comet não vá botar mais gente por aqui por garantia.
Knuksi deu uma nova olhada no seu reflexo na geladeira, e então se voltou para falar.
- E eu e Madileni estaremos do outro lado do rio, Madie está com a tarefa de buscar alguns dados que podem ter relação com as pessoas que atacaram Lienara. Comet disse que preferia um de nós resolvendo isso definitivamente.
- Achei que eles tivesse encerrado o caso já. – Masachiel disse, com Fliihew se enroscando em sua perna.
- Nunca. – o desertor foi enfático - Comet está... Confusa. E eu não sei direito o que Smile pensa nunca. Eu sei que estamos furiosos de termos levado Tolibar até ela e nada ter acontecido. Eu sei que muita coisa parece pendente, mas vamos tentar acreditar nela. Essa cidade liga muito para os que a servem.
- Não sabia que Madileni ia fazer isso, achei que você faria algo. – Shiraiku disse e apontou para o uniforme.
- Ah, isso. – Mais uma olhada insegura de Knuksi – Desculpe, eu não posso dar detalhes, isso é direto com o alto escalão. Tem um barco do Exército da Aliança atracado no cais do outro lado do rio. Não é nossa cidade oficialmente, eu não poderia agir lá, mas ... Bom, eu vou.
Shiraiku limpou a garganta.
- Bom... E Masachiel tem compromissos musicais e Kiieth tem o trabalho esquisito dele. Acho que isso é tudo. – Ele soltou um longo suspiro como se tivesse voltado a respirar.
Miyukashi inflou as bochechas.
- E eu?!
Gurake inclinou o pescoço.
- Você o que?
- Eu vou ficar sozinho aqui?! E se aquele maluco aparecer?!
Foi a vez de Madileni levantar a mão.
- Eu requisito que ele nos acompanhe para o outro lado do rio. Ele é pequeno, ninguém conhece ele e não vai chamar atenção. É o tipo de suporte que precisamos caso tudo dê errado.
Gurake pareceu indeciso por um minuto mas então abanou as mãos.
- Well, acho que você já fez coisa pior e talvez aqui seja mais perigoso você ficar sozinho mesmo...
Com o acordo coletivo e cada um sabendo seus papéis, Shiraiku abriu a loja para mais um dia de serviço. Todos subiram as escadas para o sótão onde um cobertor grampeado na estrutura de madeira tapava pobremente o buraco. Miyukashi fez uma cara de decepção.
- Quando isso vai ser arrumado mesmo?
- Well, espero que logo. Vocês estão dormindo confortavelmente e eu estou congelando aqui.
Knuksi prendeu a respiração para não responder, mas Madileni não aguentou.
- Estamos dormindo em uma barraca, seu animal. As temperaturas lá fora estão negativas. Onde que isso é confortável? O ex-militar puxou a bolsa dele de cima da cama, prosseguiu a colocar o casaco pesado habitual por cima do uniforme e começou a abotoar sem erguer os olhos, falando baixo para Masachiel:
- Eu gostaria de poder dizer que eu não fui o responsável pro educar ele, mas eu fui. Sem as barracas estaríamos pagando por uma noite de sono, e uma noite já me custou caro o bastante, obrigada por resolver isso para nós.
- Tudo bem – o violinista respondeu – Eu estou acostumado a não ser agradecido. Vou ficar aqui durante o dia hoje de toda forma, acho que o marceneiro pode vir e arrumar.
Knuksi deu tapinhas no ombro dele e se virou para os dois meninos.
- Ok, chega de enrolação, o caminho até o outro lado do rio é longo, vamos iniciar ele antes que alguns fantasmas assombrem a casa.
Miyukashi seguiu atrás dos dois primos o caminho até o Cais. De tempos em tempos, Madileni o puxava para junto da dupla. O menino com o tapa olho estava empolgado (nos limites do que Tolibar estava permitindo) nos últimos dias e Yuka sabia que era porque ele tinha voltado a participar das missões ao lado de Knuksi após ter sido excluído de tudo durante a crise.
Quando alcançaram o Porto Madileni já tinha devorado um pacote inteiro de marshmallows e agora mordiscava uma barra de chocolate. Os três pararam no local de embarque e se sentaram, próximos para conservar calor, em algumas caixas empilhadas para esperar. Knuksi apontou para a silhueta do maquinário do outro lado do rio.
- Portos em rios são comuns nesse país, Yuka. Mas essa cidade é um caso interessante. Estamos numa curva do rio, mas estamos isolados quase como uma ilha por causa da reserva florestal. Nenhuma estrada por ser aberta lá, mas... O rio tem um nível mais adequado nessa margem. Então eles tentaram trazer a ferrovia atravessando o rio até aqui, mas não deu certo. A solução final foi essa estupidez. Tudo vem para a nossa cidade, é acumulado na nossa cidade e transportado aos poucos em barcos menores pro outro lado, que escoa pra civilização.
- E é para lá que nós vamos. – Completou Madileni – Vai ser bom pra você ver um pouco de civilização fora desse vilarejo que vocês chamam de cidade.
Knuksi se levantou quando a balsa se aproximou e acenou para o condutor da balsa. A embarcação encostou com um barulho de pancada, desajeitada e dela pulou um jovem de cabelos cinzas encaracolados nas pontas.
- Hiparco, nosso bom navegador!
- Klaus, seu desgraçado, no que está me metendo hoje?
Os dois se abraçaram. E Miyukashi olhou confuso para Madileni.
- Hiparco também é um desertor da Aliança, mas ele não era de uma família relevante o suficiente ou de uma patente alta na nossa marinha pra isso causar problemas para ele.
Hiparco esticou a mão e ajudou Miyukashi a subir, sem se preocupar com Madie, que embarcou em um pulo e saiu correndo agitado entre as cargas do no barco. Knuksi riu.
- Acha que eu deveria controlar mais o açúcar dele? – Knuksi perguntou para Yuka.
- Se você me permitir dar minha opinião, eu acho que em breve ele terá um sério problema de cáries.
Knuksi riu até perder o fôlego e arrancou a bandana da cabeça de Yuka e bagunçou seu cabelo.
- Você é um bom menino, sabia? Um menino bom demais para estar metido nessas furadas da vida.
- Madie está metido em mais furadas que eu.
Ele fez uma expressão triste.
-É, talvez. Vá se sentar com Madie, aproveite o sol da manhã, eu e Hiparco precisamos acertar uns detalhes.
Ele entrou na cabine com Hiparco e se apoiou na parede. O condutor se preparava para poder partir novamente, encarando os meninos pelo vidro.
- Posso largar meu casaco no seu barco? Eu não podia cruzar a cidade em um uniforme militar, ia ser suspeito.
- Você sabe que ninguém ia reparar em você...
- Você correria o risco?
- Não. Como você está resolvendo isso no dia a dia?
- Smile tornou pessoalmente informação sigilosa. Não está na minha ficha, e é o tipo de coisa que quem descobre precisa reportar para a Comet. Obvio que alguns sabem, mas está sob controle. Comet não quer que achem que ela está metida com o exército nem correr o risco de que alguém venda a informação, ainda mais na situação atual. E é por isso que nosso acordo de estadia é para pouco tempo. Mas estamos tentando fazer amigos por aqui, para eles eu prefiro não omitir nada.
- Bom, pelos dois lá fora, você não parece estar de partida tão cedo.
- Madie vai sofrer em ir, mas ele sabia o que estava escolhendo. Ou pelo menos ele achava que sabia, porque eu sou mais velho que ele e não tenho certeza direito se tomei as decisões certas. Mas Madie está preso comigo, e eu sou um péssimo tutor.
- Ah, sim, você é. – Os olhos azuis de Hiparco estavam fixos nele e a resposta veio tão rápida e sem reflexão que Knuksi recuou um pouco.
- ... Que sinceridade cruel...
Knuksi olhou ao longe Madileni se pendurar e empoleirar nas barras de proteção da barca, que ainda não tinha zarpado.
- Mas você tem toda a razão. Não acho que seja porque eu sou um mal adulto responsável. Bem eu nem sou um adulto.
- Pode largar seu casaco aí a vontade, mas se você não estiver no ponto de encontro no horário combinado na volta, ele é meu. – Ele apontou para a tela no painel de controle – Qualquer dúvida sobre nosso tempo de viagem, acho que você pode ver você mesmo.
Knuksi fez um positivo com o dedo e se retirou da cabine. Os dois meninos estavam apoiados no parapeito do barco.
- Eu falei com o condutor e como o nível do rio não está muito alto hoje, para não ter problemas nós vamos pela rota longa, nada que importe pra valer. Não podemos ficar na rota dos navios, então não se surpreendam se o caminho parecer estúpido– Ele bocejou – Agora com a licença dos senhores eu adoraria me preparar para a missão com um cochilo aqui onde eu tenho certeza de que ninguém vai atirar em mim.
Knuksi sentou em paz num canto banhado pelo sol, abraçado em sua bolsa. Madileni enfiou a mão no bolso de Miyukashi e puxou o relógio.
- Já aprendeu a usar?
Miyukashi balançou a mão, indicando que não totalmente.
- Apenas a parte que você me ensinou.
- É o suficiente. Quando pisarmos do outro lado, não vai mais ser território do Smile ou da Família dele. Lá na verdade não é território de ninguém, aquele Porto é uma terra sem lei, é difícil de controlar. Qualquer coisa que acontecer, você me chama. Eu vou ir correndo, ok?
- Você estava dando uma dessas e salvando o mundo essa noite?
- Você me viu saindo da barraca?
- Nós estávamos deitados no mesmo saco de dormir.
- Bom, tinha mais espaço no seu do que no do Knuksi – as orelhas dele coraram – mas não, eu só estava levando uma bronca mesmo. Knuksi descobriu que eu telefonei pra Minna. Tudo bem, não me arrependo.
Os dois apenas ficaram quietos sentindo a brisa gelada e observaram a cidade se aproximar. Algo passou pelo céu e Miyukashi levou um susto.
- É legal, não é? – Madileni se pendurou no parapeito - É um dirigível. Muito mais rápido e melhor que um trem, e diferente de um carro não precisa de estradas. Eu queria pilotar um. Eu vi alguns arquivos sigilosos do exército da Aliança que diziam que estão desenvolvendo um meio melhor de voar, menor e mais eficiente. Eu não acredito sem ver, mas se for verdade eu vou me arrepender de não ter seguido a carreira militar.
Perto dos dois, Knuksi bocejou.
- Já chegamos? ... Madie, desça daí.
- Quase! – o menino pulou de volta para uma posição segura.
- Ok... Eu vou tirar meu casaco...
Madileni fez um rosto contrariado.
- Parece uma ideia idiota deixar ele aqui. E se algo der errado? O uniforme vai complicar para você se misturar.
- Madie, nada vai dar errado, você mesmo acessou a lista dos oficiais responsáveis, está tudo seguro.
- Eu acessei uma lista que pode ser falsa ou não estar atualizada, Knuksi.
- Se foque na sua tarefa. Eu vou ficar bem. Yuka? – Miyukashi virou assustado com seu nome sendo chamado, ainda concentrado no dirigível. Não haviam locais de pouso na Cidade do Porto e era a primeira vez que ele via um. Knuksi riu e agitou os dedos, o chamando para perto – Me deixe te mostrar um truque legal. Primeiro, aqui... – Knuksi abriu a bolsa e mostrou, presos na divisória interna, uma sequência de pins – Todos esses são recompensas por alguma coisa que eu fiz para aqueles bastardos e são uma patente. Eu não vou precisar de todos eles presos no meu uniforme agora, mas eles são legais, principalmente a parte em que eles foram ganhos de verdade, não são falsos. Mas não era isso que eu queria te mostrar, eu só quero que você fique com minha bolsa enquanto estivermos lá.
Knuksi pegou os broches prendeu no peito, retirou o rifle e montou habilidosamente, apoiando a tira de couro no ombro por onde já passava um dos habituais dois coldres, totalizando quatro pistolas. Ele jogou a bolsa para Yuka, pegou a mão do menino e apertou contra a parte inteira do seu braço.
- Você sente isso? – Miyukashi acenou que sim – É um microchip. Madie não tem um porque ele nunca entrou para a academia. Mas essa coisa me permite fazer isso...
Ele passou a região do braço sobre o urso de pelúcia pendurado na bolsa, seu Dispositivo Pessoal de sempre, e depois tirou do pescoço de Madie a dogtag do menino e repetiu o processo, mostrando orgulhoso sua página inicial mostrando na tela interna. Madileni protestou.
- Hei, se você vai ficar com isso o que eu vou usar?!
- Comet te emprestou um para pegar os arquivos. Use ele. Eu preciso de um desses oficial para me misturar, e precisa estar sincronizado com meu chip caso verifiquem.
Miyukashi, encantado, voltou a apertar o braço dele.
- Isso não deixa eles te rastrearem?
- Uhm... Deixa. E é por isso que todo dinheiro gasto com um bom informante de elite é um dinheiro bem gasto.
Com um ligeiro impacto, o barco atracou do outro lado do rio e Hiparco colocou a cabeça para fora da cabine.
- Klaus, eu vou descarregar as coisas do Smile, entregar as coisas do Smile, receber novas coisas do Smile e carregar novas coisas do Smile. Quando eu terminar isso, eu quero você de volta. Se você não estiver aqui, só vai ter uma chance nova amanhã.
Ele bateu continência e jogou o casaco para Hiparco e logo os três estavam em terra forme novamente.
Miyukashi não sabia se algum dia já tinha conhecido uma cidade grande, mas ele nunca tinha considerado que a Cidade do Porto podia ser uma cidade pequena. Ele tinha visto cidades grandes em seus programas de televisão e nos livros da escola, ele sabia como era uma. Ou pelo menos ele imaginava que sabia. Diferente dos trilhos de bonde, das motos e carruagens que andavam organizadamente pelas ruas largas ou estreitas da Cidade do Porto, alí haviam trens passando pela ferrovia, fazendo barulho e apitando em alerta, dividindo espaço com caminhões que cruzavam os trilhos, com rodas maiores do que o menino podia imaginar que existiam. Em uma rua suspensa, que ele não sabia ao certo como se referir, passavam carros, muito menores que os caminhões, mas igualmente imponentes.
As correias transportavam material de um lado para o outro, cruzando entre os armazéns, de uma forma que ele esperava já conhecer, mas havia algo de diferente. Na cidade dele, as correias eram pequenas e curtas, os navios enormes. Aqui os navios eram pequenos, mas eram muitos, e as correias infinitas. Não haviam marinheiros e informantes disfarçados sorrindo enquanto trabalhavam, apenas um caos que fluía e se acertava. Madileni segurava sua mão firme para que ele não se perdesse nem fosse atropelado. No topo dos armazéns, painéis luminosos de propaganda e, na principal rua entre eles, uma infinidade de lojas.
Knuksi andava à frente, separado deles como se não fossem mais um grupo, Madileni disparava instruções que Miyukashi gostaria que tivessem sido dadas antes, mas isso nunca tinha passado pela cabeça do outro menino afinal era assim que ele trabalhava.
- Seu trabalho é fácil, você é apenas o suporte. Nós vamos seguir o Knuksi até ele se infiltrar em algum grupo e então nós vamos marcar um ponto de encontro. Meu local de ação fica a uma hora de caminhão daqui, eu vou pular numa traseira, pegar carona, ir, eu devo levar no máximo meia hora pra conseguir os dados, mais do que isso é perigoso, e então eu vou caminhar até a ferrovia e pegar o trem de volta. Vai demorar mais para voltar do que para ir, mas o trem tem horário, eu não vou ficar parado igual trouxa na estrada esperando um caminhão passar de volta. Se Knuksi sinalizar qualquer problema, sua tarefa é apenas registrar e correr para o barco do Hiparco. Se eu sinalizar qualquer problema, você não vai pro ponto de encontro e corre pro barco do Hiparco.
- Para que eu sirvo então?
- Para pedir ajuda.
- Vocês podem enviar um pedido de ajuda direto!
- Não existem informantes nossos desse lado. O que você ver ou não acontecendo pode ser a diferença para sermos resgatados ou não.
Os dois pararam por um momento e viram Knuksi se juntar a um grupo fardado como ele. Apenas ergueu a mão em cumprimento, recebendo uma resposta igual e logo após um deles tirou algo do bolso e ofereceu. Ele aceitou e colocou na boca.
- E lá vai ele. Ele odeia essa erva, mas é admirável como ele consegue não fazer careta mastigando aquilo, eu só consigo pensar em um sniper melhor do que ele, a minha mãe, mas para missões de infiltração? Ele é imbatível.
Miyukashi concordou com a cabeça.
- Bom, coelhinho – Madileni tirou do bolso um par de luvas e enfiou nas mãos de Miyukashi – Knuksi vai se virar. Nos encontramos naquela cafeteria, ok? – ele apontou – Passeie pelo lugar, o choque de realidade vai te fazer bem. Não vá pra nenhum lugar escuro ou apertado, você passa mal. Em três horas estarei naquele balcão e você também. Vamos esperar juntos pelo Knuksi. Se eu não estiver de volta em três horas, aguarde mais uma. Se eu não enviar mensagens nem aparecer, algo deu errado. Eu confio em você, coelhinho.
Miyukashi tentou argumentar mas Madileni apenas apertou fortemente seu ombro e se afastou. E assim o menino se viu sozinho no meio de um Porto desconhecido. Ele estalou a língua contra os dentes e resmungou.
- Madie, seu cretino, você fala do seu primo mas você também precisa decidir se você se preocupa comigo ou não.
Knuksi acenou para um grupo de patrulha numa travessa da rua principal e recebeu um aceno de volta. Um dos homens bocejou, apoiado num pilar metálico corroído pelo tempo e soltou baixo um bom dia em idioma gálico.
- /Eu odeio essas viagens longas, o fuso me mata./ - Ele tirou do bolso uma embalagem metálica e abriu a tampa - / Uma erva para mascar e oxigenar um pouco o cérebro?/
Alguns dos homens e mulheres alí reunídos aceitaram, entre eles Knuksi. Ele chorou por dentro ao mastigar aquilo, mas seu rosto permaneceu imutável. Mais dois homens se juntaram ao grupo. Era um bom momento para estar lá, o desertor celebrou, sincronizado com o retorno da patrulha da região. Um dos homens se coçou e abriu a dogtag e encarou o relógio.
- /Mais um monte de burocracia dentro do armazém, depois dessa patrulha chata, antes de poder pensar em almoçar. Pelo menos vocês são uns caras legais, eu teria arrebentado a cara de alguém se tivesse de viajar esse tempo todo com alguém do meu posto. Da onde vocês são?/
A medida que todos foram falando suas origens, Knuksi não se exaltou. Era uma pergunta a se evitar, certamente, mas não estava totalmente fora da expectativa. Quando os olhos chegaram nele, apenas ergueu os ombros de forma desanimada.
- /Central./
-/Ouch./- Deixou escapar um dos soldados - / Deve ser horrível ser um de nós na Central. Dizem que lá os únicos sobrenomes que importam são os das famílias fundadoras. Os almofadinhas todos vão para lá, o resto de nós eles nem se dão ao trabalho de saber./
-/É. É meio ridículo./- Knuksi concordou – /Os caras tem quartos reservados com banheiro próprio. Não é aquela palhaçada do lavatório coletivo./
-/Cara, eu não aguentaria./-Disse uma garota-/ Eu estaria todo dia na solitária por insubordinação, mas eu falaria umas verdades./
Com isso Knuksi podia se identificar. Ele nunca tinha ido para a solitária porque seu sobrenome estava acima de seu comportamento, mas ele sabia o que era ser punido por insubordinação após falar o que não devia. Com o relógio marcando agora uma hora exata, um deles, agachado contra a parede, se levantou e fez sinal para seguirem. - /É isso, quem chegou, chegou, quem não chegou que encontre o caminho sozinho, precisamos ir revezar logo com a próxima patrulha que vai escoltar carga./
Todos andavam, lado a lado, reclamando de onde estavam. Um deles estava perdendo a formatura do irmão. O outro o casamento do melhor amigo. Todos eles desejavam ter tido a opção de negar a viagem. Caminharam ordenadamente até a entrada de um armazém com a numeração descascando na tinta que o revestia e Knuksi aproveitou para, conforme os costumes que ele abominava, cuspir o que restou da erva. Os passos deles ecoaram barulhentos uma vez lá dentro; a porta do galpão conduzia diretamente para uma passarela metálica sobre o chão rebaixado em alguns metros. Na área inferior ele podia ver uma grande porta metálica. Knuksi não tinha reparado se o galpão estava em um desnível, mas parecia ser isso. Havia ainda mais um nível acima de passarelas metálicas, acessando transportadores para manutenção. Parte da passarela estava tomada por portas enferrujadas para áreas administrativas, que também podiam ser vistas no andar inferior.
Um barulho de pancada deixou todos em alerta, e uma oficial do grupo correu para a beirada da passarela metálica e gritou com os recrutas lá em baixo.
-/ Seus inúteis! Vocês tem noção de quanto isso custa?! Eu vou vender seus órgãos para repor isso se vocês quebrarem!/
Lá embaixo, os recrutas bateram continência e voltaram a carregar a carga, assustados. Ele se voltou e resmungou sobre como ele detestava recrutas incompetentes e achava que esse tipo de descuido digno de punição. Knuksi não deixou de notar que o garoto e a garota lá em baixo eram pouco mais velhos que Madileni, novatos recém inscritos na Academia, provavelmente inscritos numa tarefa dessas no desespero por se destacar e subir de ranking. Também não pode deixar de notar que a mesma pessoa que gritava era a que tinha achado injusta a existência de privilégios para as famílias fundadoras. Nessas horas ele não achava tão ruim a hierarquia de delegação de poderes e se lembrava porque odiava o exército.
O grupo seguiu até uma das portas metálicas e bateu antes de abrir a porta. No alojamento improvisado, um grupo se preparava para sair. Um dos membros do grupo que Knuksi estava acompanhando se exaltou:
-/Que folga é essa, vocês entendem o conceito de turno? A gente se reúne pra voltar, vocês já tem de estar na rua../
Um dos homens colocou a luva, devagar, e fez cara de poucos amigos.
-/Não me enche cara, a carga especial dos caras está toda recebida e ordenada, e ninguém vai roubar uma droga de uma turbina sendo transportada. Menos paranóia./
-/Mas vocês são uns folgados mesmo... O Coronel saiu daqui só pra arrumar os óculos dele, quero ver ele voltar e pegar vocês nessa, quem vai ser paranóico./
O grupo novo xingou e saiu em formação. O mesmo homem de antes sentou numa das beliches e resmungou para o grupo:
-/Como eu dizia, vocês são uns caras legais. Eles não./ - Ele ficou meio sentado meio deitado no colchão.
Knuksi seguiu os outros e se ajeitou no alojamento, com o cuidado de não ocupar o espaço específico de nenhum membro real do grupo. Ele recebeu de forma desleixada uma pilha de papeis para analisar. Ele olhou ao redor antes de começar a ler e refletiu cobre como independente do grau de instrução acadêmica o agente de campo médio era mais inteligente que o soldado médio.
Miyukashi refletiu sobre sua situação. Ele não sabia onde estava ou onde os outros estavam ou como voltar para casa. A última vez que isso tinha acontecido ele tinha sido repreendido, mas agora parecia exatamente o plano. Ele começou a caminhar pela calçada grudado nas vitrines, desconfortável com os carros e caminhões correndo pelo lugar.
Textos holográficos pulavam em diferentes línguas como mostruário de uma banca de jornal. Eles não tinham daqueles na Cidade do Porto. A rua principal daquele porto não parecia nada com o que ele conhecia. Haviam cidadões comuns em vários locais, se preparando para embarcar em trens e pequenos navios turísticos, isso não existia do lado. Como consequência quase todos os tipos de loja que Miyukashi conhecia do centro da cidade estavam lá, dispostos lado a lado. Ele marcou um alarme para o horário combinado no relógio de bolso e entrou numa livraria. Após circular o lugar ele seguiu para a loja ao lado e observou as miniaturas baratas da loja de lembranças.
Ele olhou ao relógio e sequer meia hora havia se passado e suspirou. O vento soprou frio e ele colocou as luvas que Madileni tinha entregue e procurou um lugar para se sentar. Cogitou uma lanchonete e logo depois a escadaria do movimentado edifício administrativo, mas então considerou que podia sentar quando Madileni voltasse e seguiu pela calçada. Ele atravessou a rua e encontrou uma loja de departamentos. Esquisito, deslocado de lugar. Armazém, armazém, loja de departamento, armazém. Ele deu risada e se aproximou. Os preços eram ridículos e os materiais na vitrine velhos, claramente focados em marinheiros ou viajantes desesperados que notaram a falta de um item de última hora. As portas estavam fechadas aquele domingo, então ele se contentou em seguir a vitrine.
Algumas sequencias estavam cobertas em pó. Entre os eletrônicos havia uma televisão do mesmo modelo do que eles tinham na loja, o cartaz amarelado de anúncio indicava que o modelo tinha sido lançado antes do menino nascer. Compreensíveis agora as reclamações de Madie. Continuou caminhando e virou a esquina, agora a vitrine mostrava um departamento de roupas de banho. Entre biquínis, sungas e calções, havia um manequim despido. Isso por si não era um fator de destaque na bagunça da vitrine, mas algo fez o menino parar. A pose do manequim não parecia correta em relação aos outros.
Um caminhão passou pela rua acelerado e buzinou alto atrás dele. Miyukashi saltou em sua posição e se apoiou no vidro, sentindo o coração saltar em seu peito. Bondes não faziam barulho dessa forma. Motos não eram enormes como aquilo. Ele preferia os caminhões em filmes. No susto ele enfiou o pé numa montanha de neve e sentiu seus sapatos gelarem, estava começando a não gostar daquela cidade. Sentindo que estava recomposto, ele puxou novamente o relógio. Agora já tinha conseguido se distrair por quase uma hora inteira, nada mal. Ele virou novamente para a vitrine, e piscou intensamente. O manequim despido estava muito longe dele, quase na esquina. Ele foi caminhando devagar junto ao vidro, de olhar fixo no manequim e então o pesadelo dele aconteceu: o manequim saiu correndo pela vitrine.
Ele deu um passo para trás e ficou imóvel por um instante, mas no fundo de sua cabeça a voz de Madileni ecoou e ele fez o que tinha de fazer, ele se certificou de que seus dardos estavam em seu bolso e correu atrás dele. A loja virava a esquina novamente, e ele assim o fez, até que uma cerca de arame quadriculado se colocou no seu caminho. Ele respirou fundo, penso no que tinha aprendido e pulou. Foi um obstáculo vencido quase perfeitamente, mas o chão congelado o fez escorregar e perder o equilíbrio no pouso. Ele soltou uma expressão que faria Gurake ficar em choque se ouvisse e se levantou, mas já era tarde demais. Ele examinou a vitrine até chegar no muro em que ela terminava, mas não o via em lugar nenhum. Se aproximou cautelosamente da porta de serviço aos fundos, refletindo se valia a pena invadir ou esperar Madileni voltar e então escutou um barulho na ruela atrás dele.
Ele pausou.
-Por que sempre tem de ser uma rua estreita e que eu não sei onde vai dar?!
O barulho se repetiu, e ele suspirou, puxou a alça da bolsa de Knuksi mais próxima ao corpo, e seguiu correndo atrás dele.
A escada metálica não fazia barulho enquanto Knuksi descia se ele pisasse normalmente então ele se obrigou a colocar um pouco mais de força nos pés e a bater os saltos das botas antes eu alguém achasse esquisito. Mascando e cuspindo a erva favorita do exército em um pote, um dos homens daquela unidade deu passagem para ele.
-/Descendo?/
Ele ergueu os papéis que tinha recebido para analisar.
-/Tem um monte de rasuras nessa porcaria, tenho de ir lá e conferir as numerações pra corrigir./
-/ E é por isso que essas merdas deveriam ser feitas todas computadorizadas, mas não, deixaram esses estagiários no controle. Eu estou falando, cara, esse Coronel que botaram no comando, muito frouxo. /
Knuksi acenou com o rosto e continuou descendo. Haviam pilhas baixas de caixas reforçadas identificadas como material frágil. Motores para dirigíveis, peças de trens, reposição para carros militares. Tudo parecia perfeitamente correto, exceto pelo excesso de pessoal para uma escolta desse tamanho. Ele continuou andando e lendo caixa por caixa até se deparar com algo fora do comum. O reforço de algumas caixas parecia estranho, como se estivesse lá apenas de forma decorativa. Seus olhos escanearam o lugar em busca de pessoas e câmeras, e por fim ele decidiu que era seguro se mover para aquela pilha.
Com precisão cirúrgica, ele abriu a primeira caixa. Ele gostaria de fazer uma cara de surpreso, mas no fundo ele só estava decepcionado. Ele recolheu parte do conteúdo em um saco plástico fechado hermeticamente e apenas fotografou rapidamente o resto. Era precipitado mas seguro dizer que aquele material era parte das pesquisas do exército com drogas. Aquilo alienava os soldados e as populações contra as quais investiam, ou causava caos que eles depois resolviam como salvadores da pátria. E isso explicava porque tinham evitado ao máximo atracar no lado deles do Porto. Smile nunca deixaria uma carga dessas chegar em um raio seguro do território dele e, claro, eles saberiam. Mesmo do outro lado do Porto agora eles iriam saber. Ele precisava agora encontrar os registros sobre o assunto, mas um passo por vez. No momento ele apenas recuou discreto e voltou para sua tarefa de conferir as numerações da papelada rasurada. Ainda haviam algumas horas em seu planejamento, sairia de lá no momento em que o grupo que usou para se infiltrar estivesse saindo para um novo turno de patrulha.
Ele se surpreendeu preenchendo de verdade os papéis, com uma caligrafia cuidadosamente calculada. Era como se ele nunca tivesse deixado de executar esse tipo de tarefa ingrata; os músculos lembravam. Suspirou baixinho e agradeceu a si mesmo por ter largado essa vida, enquanto escutava ao longe os soldados mais jovens serem repreendidos por outro motivo qualquer. De tempos em tempos alguém passava e ele só acenava e continuava. Ninguém sequer cogitou que ele não deveria estar lá.
Parou um momento com a caneta a meio caminho da prancheta. Um dos homens tinha dito que o Coronel tinha tido problemas com seus óculos. Ele não tinha motivos para estranhar isso, mas ainda assim, se sentiu desconfortável. Não lembrava de ter visto ninguém de óculos na lista de inscritos nessa operação. Problemas de visão geralmente causavam dispensa ou afastamento do campo, era raro ver alguém com óculos em campo no Exército da Aliança, salvo raras exceções bem-nascidas. Na verdade, não se lembrava de haver um Coronel na lista.
Abriu discretamente pela dog-tag de Madileni a ficha que tinha lido na noite anterior e buscou as informações da liderança da operação. Ao lado da foto do Capitão Wreith havia uma nota em vermelho, recém colocada.
“Substituído de última hora. ”
Não havia informações de quem o substituíra. Tentou fazer um exercício mental, mas não conhecia nenhum Coronel que se encaixasse na descrição, nem pensar em quem teria chegado ao cargo nos últimos dois anos. Ser oficial naquele exército era um clube para poucos então ele deveria conhecer. Abanou a cabeça e disse a si mesmo para fazer seu trabalho e sair de lá sem arranjar problemas.
Miyukashi correu. Em parte porque o chão estava coberto de gelo e ele apenas continuava indo para frente, em parte porque o barulho estava se movendo rapidamente para longe, mas, principalmente, porque correr o fazia se sentir menos sufocado entre as paredes apertadas e sem janelas.
De tempos em tempos a direção do barulho mudava, fazendo o menino virar à direita ou à esquerda. Em momento algum ele viu mais do que sombra do que estava perseguindo. Ele se lançou sobre todos os obstáculos do caminho e teve tempo de debochar de si mesmo. Quando Madie estava olhando ele não conseguia fazer aquelas coisas legais.
O ar condensava a sua frente e ele já estava convencido de que aquilo já não era mais imprudente e sim divertido. O barulho que ele perseguia começou a ser abafado por uma sirene ao longe e um motor se aproximando. Virou a rua e encontrou o trem cruzando. A barreira de madeira abaixada, com a luz de alerta piscando, os vagões passando rapidamente.
Com dificuldade de colocar atrito nos pés, ele parou. Entre ele e o trem, preso entre as paredes dos armazéns, lá estava o manequim. O menino sabia que deveria ter medo, mas àquela altura já estava começando a se sentir anestesiado desses absurdos. Deu um passo para frente e viu o manequim dar um passo para trás, para próximo do trem. Não tinha rosto nem roupas, apenas um boneco de plástico parado no meio da viela.
Miyukashi ergueu a mão no ar e acenou com os dedos cobertos pela luva. Não sabia direito o que estava fazendo e se sentia meio idiota. O manequim deu outro passo para trás, quase encostado no trem em movimento e o menino soltou um sinal de frustração pela falha.
O trem terminou seu caminho e antes mesmo das barreiras se levantarem e da sirena parar de apitar, o manequim disparou a correr novamente. Miyukashi se preparou para correr atrás, quando um grito disparado atrás dele o assustou.
- TE ENCONTREI.
Ele se virou e viu, em disparada, um jovem com um canivete aberto entre os dedos correr em sua direção. O capuz do moletom encobria parcialmente o seu rosto, mas Miyukashi gravou cada feição que viu. Se preparou para se proteger e desarmá-lo, mas foi ignorado, a pessoa passou direto por ele.
Foi rápido, mas foi suficiente para que ele entendesse. Aquela pessoa não estava atacando ele. Aquela pessoa estava atacando o manequim. Era dele que estava fugindo, não de Yuka. Ele rodou os olhos rapidamente, buscando ajuda, mas então ele entendeu o que Knuksi queria dizer sobre a diferença entre aquele lado do Porto e o deles. Não havia agente de campo ou informante ali como haveria de onde eles tinham vindo. Era uma terra de ninguém, sem vigilância.
Deslizou o pé para ir ao socorro do manequim, mas então, antes de começar a correr, parou e colocou as duas mãos sobre a cabeça. Respirou fundo e, no limite de sua habilidade, subiu as paredes do armazém mais próximo. Foi andando pelo todo da estrutura devagar, de cabeça baixa, fazendo o caminho de volta para onde tinha se separado de Madileni. Nada passava de concreto pela sua mente. Apenas foi, devagar.
Se surpreendeu com a distância que tinha percorrido.
Em um momento escorregou e caiu de costas sobre um dos telhados e se demorou encarando o céu antes de levantar e prosseguir.
Quando Madileni chegou, segurando um crepe que ainda soltava fumaça, o encontrou sentado em um banco na rua principal, olhando fixamente para a frente.
- Hei, coelhinho, sentiu minha falta? Adivinha quem volta de mais uma missão extremamente bem-sucedida? Comet vai adorar o que eu vou levar para ela. Eu tenho nomes e eu acho que teremos uma vingança adequada pelos últimos acontecimentos!
Yuka não olhou para ele, apenas soltou o ar dos pulmões lentamente.
- Madie, eu acho que eu enlouqueci.
Madileni afastou o crepe da boca.
- Aconteceu alguma coisa? – o tom de voz era de preocupação – Aquele maluco passou por aqui? O que...
Miyukashi acenou o rosto em negativa e bateu com a mão de leve no banco convidando Madie a se sentar.
- Primeiro você se senta, depois eu te conto o que eu vi.
O menino mais velho ergueu a sobrancelha atrás do tapa-olho.
- Vai por mim, é melhor sentar.
De toda a sua lista de tarefas, só restava a Knuksi ir embora. Ele estava sentado com as costas apoiadas em um pilar metálico, comendo junto dos outros no nível mais alto do galpão, contando os minutos para o horário de troca de turno. De tempos em tempos, ele ajeitava o rifle que começava a escorregar de seu ombro. Queria ir logo de volta, aquelas botas estavam destruindo os seus pés. Não estava mais acostumado com o modelo padrão do Exército.
A porta do galpão se abriu e se fechou com um estrondo, deixando todos em alerta, ele principalmente. Uma das mulheres se apoiou no parapeito metálico e olhou para baixo para ver quem chegava. Ela ergueu seu prato e gritou em direção à entrada.
/- Coronel Lac! Bem vindo de volta! Aceita o almoço?!/
Knuksi congelou. Os Lac eram uma família fundadora com um histórico longo de intriga com os Alpiniste. Todos os Lac o conheciam, não importa o quão bom ele fosse em infiltrações. E só havia um Lac que usava óculos. Mas era impossível. Ele teria de ter subido três postos em dois anos para ser Coronel. Nem com a influência e as promoções gratuitas que as famílias fundadoras tinham aquilo era plausível. Major? Aceitável. Mas Coronel? Ele nem tinha idade para isso.
Mas subindo a escadaria, a voz inconfundível respondeu não em idioma Galês como todos os outros estavam falando, mas na língua apenina, a principal de todos os Lac.
/ - Obrigada, Aspirante! Mas comi pela rua enquanto aguardava os reparos./
Knuksi manteve a expressão solene e calma enquanto colocava seu prato sobre a mesa de descarte do refeitório, se virava e caminhava calmamente ao banheiro. Antes de trancar a porta, ele teve o relance que faltava para a confirmação de sua situação. Lá estava ele. Cabelos pretos ligeiramente encaracolados, olhos castanhos bem escuros, óculos ligeiramente trapezoidais, ele não tinha mudado as armações nesse tempo. Vinha ajeitando as luvas de couro, mania antiga, e vestia o uniforme oficial completo, calça, camisa, gravata, terno, tudo preto com o símbolo dos Lac bordado em azul. Jogado nos ombros um sobretudo para o frio. Ele raramente vestia os casacos direito, era sempre assim, como uma capa. Completando tudo, o quepe sobre a cabeça.
O mercenário infiltrado abaixou a tampa do vaso sanitário, se sentou e soltou um palavrão sem deixar sair sua voz. De todos os militares dessa Terra, tinha de ser Virgil que estava alí? Que karma maldito ele estava pagando agora? E por que aquele maldito tinha de ficar tão bem de uniforme? Ele se repreendeu por esse pensamento e enfiou o rosto nas palmas das mãos juntas. Ele não poderia ficar trancado no banheiro para sempre, então só havia uma coisa a fazer. Ele telefonou para Madileni, aceitando que mais uma vez ele só sairia vivo com a ajuda dele.
Quando Miyukashi terminou de descrever o que viu – um maluco tentando assassinar um manequim vivo – Madileni não riu. Ele apenas mastigou o crepe lentamente e entrou num modo de reflexão. Certamente Yuka tinha endoidado. Agora a questão era se isso tinha sido alguma consequência latente das doses loucas de drogas para a memória que ele tinha injetado e que agora estavam afetando seu cérebro, alguma pegadinha idiota de Tolibar (parecia algo que ele podia fazer, considerando o que Madileni tinha passado por experiência própria), ou algum alucinógeno no ar da região.
- É, coelhinho. Me desculpa mas eu não acho que você esteja mentindo no que disse, mas eu também não consigo acreditar que nada disso seja real não.
Miyukashi suspirou fundo.
- Eu sabia. Eu ia continuar correndo atrás, mas então eu percebi que eu só podia estar maluco.
Madileni passou o braço forte ao redor dos ombros do menino.
- Eu vou continuar gostando de você mesmo você sendo totalmente pirado, coelhinho.
- ..... Eu realmente devo estar louco pra estar escutando você admitir que gosta de mim....
Madileni soltou ele e virou o rosto, escondendo na gola do poncho que vestia as bochechas coradas.
- Coelhinho idiota.
Os dois riram e isso os distraiu da história do manequim ambulante por um tempo, até que, na bolsa de Knuksi, os olhos do chaveiro de urso dele começaram a piscar. Madileni habilidosamente transferiu a ligação para o Dispositivo pessoal reserva que estava usando e ajeitou em seu ouvido o fone sem fio e atendeu.
- Siiiiiiiim? Oh, hei Knuksi. Achei que você ia demorar mais, quer saber onde estamos para nos encontrar? ... Não? .... Como assim, ajuda?
Miyukashi se sentiu tenso ao ver a expressão de Madileni mudar e ficar séria. O menino mais velho respondeu alguns ‘uhuns’ e ‘certos’ no telefone e então se calou. Suas orelhas ficaram vermelhas e ele começou a rir alto até perder o fôlego.
- NÃO!!!! NÃO ELE!!! SÉRIO?!?! HAHAHAHAHAHAHAHA!!!
Ele torceu o rosto e podia-se deduzir que estava levando uma bronca, e ele desligou dizendo que chegaria para salvar o dia imediatamente.
Haviam lágrimas nos olhos dele quando ele se virou para Miyukashi tentando se recompor e fez sinal de que deviam ir e correr.
- Você não é o único delirando aqui. Knuksi está preso escondido no banheiro. O ex dele está lá e ele não pode ser visto. Pior, o ex dele é o líder da operação que ele foi investigar. Vamos lá salvar ele desse fantasma de romances passados!
- ... AHN?!
Foram minutos estranhos. Knuksi estava dentro do banheiro, olhando pela fresta da porta o refeitório. Tinha analisado a possibilidade de sai pela janela, mas teria de arrancar fora o basculante minúsculo. Corria o risco de ficar preso.
Na rua, Madileni escolhia cuidadosamente onde colocar uma carga de explosivo suficiente para causar barulho e confusão, mas não o suficiente para resultar em alguma investigação por parte de seja quem fosse o dono da região. Enquanto isso, explicava para Yuka que Knuksi nunca tinha admitido o namoro, mas que ele tinha certeza disso.
- Provavelmente porque ele sabe a vergonha que seria um Alpiniste namorando um Lac. Eu nunca fui com a cara daquele nerd de quatro olhos, sendo bem honesto. Uma vez eu grudei um chiclete no banco no carro dele e ele me prendeu com fita adesiva de ponta cabeça na cerca quando me pegou. Tão imaturo. Knuksi tinha o pressentimento de que Madie estava falando mal de Virgil e rindo da cara dele, mas não havia nada que ele podia fazer. Quando posicionou a última carga de explosivo, ele cruzou os braços e pensou por um momento.
- Acho que vai ser bom pro Knuksi encontrar o Lac nessa operação. Ninguém bom estaria envolvido nisso. Knuksi passou meses entrando no sistema e espiando os registros do Lac depois de desertar, era esquisito. Até que um dia ele parou. Eu fui ver por curiosidade e ele tinha sido nomeado o responsável pela nossa busca e captura. Acho que isso deu um choque de realidade pra ele, tudo ficou mais focado depois disso. Quem sabe agora ele supera de vez? Estou ficando de saco cheio dele flertando com tipos parecidos com ele toda vez que tem uma brecha na agenda.
Miyukashi abanou a cabeça.
- Eu sinceramente não entendo desses assuntos de adulto, mas Knuksi não podia simplesmente passar por ele e se for reconhecido sair de lá pela força?
- ... Com um Lac? É difícil admitir mas eu acho bem improvável que Knuksi consiga passar por um Lac num combate a curta distância. Os treinamentos dos dois dão vantagem pro quatro olhos. Além do mais, tirando a nossa localização atual, eu acho que não tenha nada sobre o Knuksi que o Virgil não saiba. Por isso, coelhinho. – Ele esticou o detonador para Miyukashi. – Conto com você. Não posso ficar na região. Posso ser reconhecido na bagunça, mesmo com um olho a menos do que ele lembra, aquele cara é um monstro.
Miyukashi esticou a mão e protestou mas Madileni saiu correndo acenando sem dar chance de resposta.
- Ele realmente deu um detonador de explosivos na mão de alguém que acaba de descobrir que é maluco? O que ele tem na cabeça?
Ele suspirou, se afastou para um lugar discreto e protegido e apertou o botão. Latas de lixo voaram e se chocaram contra passarelas metálicas, causando um barulho ensurdecedor. Uma correia se deslocou em seu transportador e grãos começaram a cair como uma cachoeira, fazendo pedestres e trabalhadores gritarem.
Dentro do galpão, todos os militares se ergueram subitamente ao barulho e esticaram as mãos para suas armas. O Coronel tirou do bolso um apito e deu ordens de comendo para que todos fossem verificar o que estava havendo. Knuksi saiu do banheiro e se misturou ao grupo, correndo para fora. Passou a centímetros de Virgil, mas não ergueu o rosto para ver onde o oficial estava olhando. Apenas foi reto e constantemente para fora. Se juntou a um grupo que estava ampliando a área de busca por um culpado para se afastar do galpão, localizou Miyukashi, se afastou na direção discretamente indicada por ele.
Meia hora depois, estavam os três reunidos novamente e sentados no topo de um edifício, entre pilhas de neve. Miyukashi tinha tentando ao menos três vezes discutir com Knuksi, o adulto responsável do lugar, seu medo de enlouquecer, mas desistiu rápido. Madileni estava sufocando tentando engolir a risada para não chamar atenção e Knuksi estava ocupado com o rosto enfiado na bolsa, apoiada sobre as pernas dobradas, falando nonsenses.
- Tanta gente, tantos oficiais, por que ele?!?!
Madie cutucava sua cintura.
- Ué, volta lá, negocia o perdão sua deserção com umas bitocas.
- E se ele me viu?!? Aaaaah, eu vou ter de ir até a Comet e pedir pra ser afastado desse caso. Eu não tenho condições pra vigiar essa operação até eles escoarem a carga.
- Pffff. Olha pra você sendo patético por causa de um Lac. De novo. Achei que não veria isso mais.
- O Hiparco só vai partir ao anoitecer... E agora eu vou ter de ficar aqui vestindo esse uniforme estúpido o dia todo evitando pisar na rua. Parabéns pra mim, eu mereço umas porradas pela grande capacidade de planejamento.
Knuksi respirou fundo e soltou o ar devagar antes de continuar.
- Isso foi bem frustrante. Ele mudou. Não fisicamente. Ele está um pouco mais alto, mas ele continua igual. Mas eu nem fiquei muito tempo lá e tem muita coisa errada. Nunca esperei encontrar ele numa operação dessas. Achei que ele era diferente, mas talvez ele seja só um Lac. Eu realmente espero que essa substituição de última hora não tenha sido voluntária. É bem triste pensar que ele apoiaria isso.
Miyukashi revirou os olhos e cruzou os braços, emburrado.
- Sinceramente eu não sei mais o que eu estou fazendo aqui e se vocês estão levando isso a sério ou não.
Quando Yuka declarou sua descrença com a situação, ele esperava uma resposta dos dois. Em vez disso ele ganhou algumas horas dos dois primos fazendo cena até que Madileni cansou de rir e Knuksi se limitou a ficar deprimido em um canto. Isso deu a ele tempo suficiente para refletir novamente sobre o que tinha visto mais cedo; também teve tempo suficiente para concluir que todos os membros da Sweet & Dark eram idiotas problemáticos, sem exceção. Também teve tempo de se entediar, se sentar próximo a Madileni para se aquecer, e passar um tempo jogando jogos gratuitos no seu recém-adquirido Dispositivo Pessoal.
A sensação era de que tinha se passado uma eternidade quando Knuksi se levantou e disse que era hora de voltar. Ele foi o primeiro a descer, olhando para os lados confirmando a segurança do local. Madileni riu mais um pouco antes de o seguir.
- E hoje aprendemos que o Knuksi tem uma fraqueza com nome e sobrenome que não consta na ficha dele, certo, coelhinho? Vamos voltar logo e ir para a loja e ele vai fingir que o dia de hoje nunca aconteceu.
- Sim. Vamos voltar logo para a loja e eu vou poder falar com um adulto que me diga se eu sou maluco.
- Acho que você já sabe a resposta, mas é, vamos.
A noite naquele lado do Porto não era muito diferente do dia. Não era o que se podia chamar de bem iluminado. Exceto pelos pontos comerciais, os postes de luz eram distantes e fracos. Isso não era problema com o céu ainda avermelhado e a luz tímida ao fundo. Os maquinários ainda funcionavam barulhentos e as ruas ainda estavam lotadas de trabalhadores – com o frio da noite não era atrativa para o cidadão comum andar por lá. Caixas e sacos eram passados de mãos em mãos.
Knuksi tinha reassumido sua postura de soldado e os dois meninos mantinham uma distância calculada dele, aguardando a confirmação de que o caminho estava liberado antes de virar cada esquina. Ao passar por um grupo de militares acompanhando a movimentação de uma caixa, ele apenas acenou com a cabeça e puxou o quepe mais para frente e foi ignorado. Era assim que deveria ter sido ao longo de todo o trabalho.
Viraram em uma rua paralela à avenida costeira. Não havia movimento nela, e o barulho quase não a alcançava. Knuksi gesticulou que seguiriam nela até o fim. O barco de Hiparco estava atracado em um lugar distante e isolado para recebe-los na volta, caminhariam mais do que ao chegar na cidade.
A descarga e transporte de pescado não era muito distante de onde estavam e um número significativo de gatos pulavam ao redor. Mais de uma vez Knuksi levou a mão à arma instintivamente pelo barulho e aproximação súbita de um deles, e respirou aliviado depois. A paranoia, no entanto, não se mostrou de todo infundada. Caminhando lentamente, virou uma esquina frente deles e veio passo a passo na direção do grupo. Knuksi parou de avançar e agora, a sério, segurou firmemente o punho da arma. Ele fez o mesmo. Nenhum dos dois a sacou. Os gatos correram com a tensão que subiu o ambiente e Madileni puxou Miyukashi pelo pulso, firme, e colocou os dois protegido atrás de uma lixeira metálica.
- Virgil. – Disse Knuksi na voz mais calma e controlada que pode.
O Coronel ergueu as sobrancelhas e suspirou antes de começar a falar em sua língua materna.
-/... Vamos nos chamar pelos nomes de registro agora? Isso é uma novidade para mim. Mas se você quer assim... Primeiro tenente Klaus..../- Sem tirar os olhos de Knuksi nem a mão da arma, ele fez uma leve reverência.
- /Então você me viu?.../
Madileni sussurrou para Miyukashi.
- Pela Aliança. Um vai falar em galês e o outro em apenino mesmo? A sincronia deles realmente morreu.
- Eu não entendendo nenhum dos dois, tano faz. – Ele sussurrou de volta.
O Coronel respondeu Kniksi sem pressa nenhuma.
- /Não, Kissy, meu esquilo, eu não te vi. Mas tinha alguma coisa muito estranha. Alguma coisa que me deixou inquieto. Depois que voltamos todos da confusão que teve na rua, muito bem armada por sinal, devo dar os créditos ao pirralho?/
-/SIM!/ - Madileni inflou o peito e gritou de trás da lata de lixo.
-/Imaginei./-Ele continuou.-/É o estilo de coisa que ele sabia fazer. Enfim, voltamos todos para dentro e... Eu estava desconfortável e você sabe que quando eu estou desconfortável eu procuro problemas onde não existem. E... Primeiro tinha relatórios muito bem preenchidos por lá./
-/Não era minha caligrafia, não tem como isso ter sido um problema./ - Knuksi protestou.
- /Não, não era. Mas isso não me surpreende, já vi você até falsificar documentos pra ser dispensado de treinos que não queria ir. Mas depois disso eu reparei que nós tínhamos mais pratos do que pessoas lá./
-/... Você é meio doente, não é?/
-/...Provavelmente, mas é útil, eu acho. Então eu fui perguntar quem tinha preenchido os documentos. E me responderam que... Um dos caras lá. Eu perguntei quem, e não souberam me apontar. Tudo bem, a pessoa podia estar na rua, então eu perguntei como a pessoa era e me responderam apenas ‘normal’. Ninguém soube me dar nenhuma informação realmente relevante sobre você./
-/... E então você concluiu que era eu apenas porque seus soldados não são bons fisionomistas? /
- / Não. Eu apenas achei isso curioso. Sabe, eu sou responsável por levar você de volta pra Aliança. Você não pode me criticar por desconfiar de você a cada passo. É meu trabalho. Mas certamente não era informação o suficiente, você tem razão. Eu tive de fazer perguntas que podiam ser respondidas.... Então eu perguntei se a pessoa tinha sotaque. E me responderam que sim./
As orelhas de Knuksi ficaram vermelhas.
-/ Eu não tenho sotaque!!! /
-/ Em galês? Sim, tem./
-/Não, não tenho./
De trás da lata de lixo, Miyukashi viu Madileni revirar os olhos em desgosto.
- /Somos Alpinistes criados numa fazenda, seu animal. Nós dois temos sotaque./
Virgil fez um movimento galante com a mão livre da arma no ar, mostrando que o garoto provava seu ponto e continuou a falar.
- /Você tem esse sotaque fofo. Você pode ser perfeito em todas as outras línguas, mas nunca vai perder esse ruído bonitinho com algumas consoantes./- Ele vi Knuksi soltar o ar pelo nariz, bravo. -/ Quando me responderam que você tinha sotaque, e então eu olhei aqueles relatórios e pensei naquela confusão momentânea, pensei nas informações que eu recebi de que alguém com sua descrição tinha sido visto meses atrás fuçando em uma operação no Oriente Médio... Bom, eu arrisquei e vim dar uma volta pela cidade. Meu faro é bom. Aqui estamos. /
-/... Isso não parece crível, mas sendo você, não vou discutir./
-/ Confesso que estou surpreso também, Kissy./
-/ Pare de me chamar assim./
-/Ok. Klaus. /- Ele balançou a cabeça em repreensão.- / Não soa tão bem. Esse uniforme também. Verde fica bem em você, eu achei que tudo fiava bem em você, mas não esse uniforme. Tem algo pobre nele, apaga você. Você nasceu para usar o uniforme da nobreza. Os bordados e o uniforme branco emolduram muito melhor esse seu rosto delicado. /
-/Eu sabia que ele tinha ficado péssimo na minha bunda. Esse corte não me valoriza. Mas acho que nós dois concordamos que eu não podia simplesmente vestir meu uniforme velho. Não precisaria acontecer o azar de ter você aqui para saber que eu não era de lá se eu estivesse com ele./
-/ De fato. E acho que ele já não te serve mais, estou certo? Você deve ter crescido uns dez centímetros desde que eu te vi pela última vez. Se for como seu pai ainda tem muito a crescer./
-/ Bom, eu ainda devo crescer por mais um três anos. Você não pode falar muito sobre isso. Você também está mais alto. E subiu de patente. Coronel, é?/
-/ Gostou? Ganhei uma patente ao assumir sua captura, eu precisava de um cargo mais alto para estar na operação. Mais uma por serviços prestados durante uma emergência no Mar Mediterrâneo. E essa última é nova em folha, eu ganhei ontem pela manhã ao aceitar vir para cá quando ninguém queria vir. Do jeito que são as coisas eu talvez ganhe uma promoção nova agora ao te levar de volta./
Knuksi fez uma expressão de pena.
-/Ah, Vutty... Acho que sua promoção vai ter de esperar. Eu não vou ir a lugar algum.../
-/Não faça isso, eu não quero ser obrigado a machucar você./
Knuksi fez uma expressão debochada ao ouvir isso.
-/Você não tem a mínima chance de atirar antes de mim. Você sabe disso./
-/Você não sabe o quanto eu posso ter melhorado. Além do mais, você vai atirar Kissy? Vai atirar para me imobilizar ou para me matar? Você não atiraria para matar. Se não for por um respeito mínimo comigo, você no mínimo não iria quere atrair para você o problema de um oficial morto em um território de milícia... E você sabe que se você não me parar de uma vez e eu chegar perto o suficiente, você não tem nenhuma chance numa luta corpo a corpo./
-/Talvez eu queira arriscar./
Vurture virou o olhar discretamente para a lixeira atrás de Knuksi.
-/E os dois? Quer arriscar também?/
Knuksi sentiu um aperto no peito e esbravejou.
-/Você realmente mudou muito. Eu nunca esperei isso de você. Se enfiando em operações como as que você sempre criticou para mim... Usando crianças como ameaça. Onde fica a sua moral nisso?/
-/O que um desertor pode ensinar sobre moral, Klaus? Você não sabe os meus motivos, você não sabe o que eu tenho feito. Você fugiu, deixou tudo para trás, você foi covarde. Você não pode falar de moral. E eu ainda fui tolo... Eu tinha esperanças de encontrar você casualmente, inocente... Eu levaria você de volta, você ia perder os direitos militares, levar uma bronca, talvez uns meses de reclusão... Mas ia ser só um Alpiniste causando problemas com insubordinação, ninguém ia pedir mais do que isso. Claro que ainda tem o problema de sequestro de menor, mas acho que isso vocês resolvem em família. Mas metido escondido em operações nossas? O que você está fazendo, trabalhando para uma milícia? Isso que é moral, Kissy?/
-/Cem porcento de moral. Eu tenho total liberdade de recusar aquilo que eu considero errado ou antiético. E você, o que faz? Abaixa a cabeça e abana o rabo pros superiores? Seu pai deve estar tão orgulhoso de ver o filho caçando um Alpiniste... /
-/... Meu esquilinho... A última vez que nos vimos pessoalmente você passou a noite enfiado no meu colo... Eu estava enchendo seu rosto de beijos... Eu sinceramente não quero resolver isso com violência. Aceite que sua aventura acabou. Eu posso fingir que te encontrei em outra situação e vai ficar tudo bem. Vamos retornar em paz./ Madileni apertou firme o braço de Miyukashi e enfiou o rosto no ombro dele por um momento. - Yuka. Knuksi vai perder. Knuksi não vai enfrentar ele disposto a matar e ele não é bom quando não pode matar. – Ele tirou do bolso um cartão de memória e colocou no bolso do casaco de Yuka e fechou o velcro com firmeza. – Isso é o que eu consegui de informações hoje. Quando Knuksi perder eu vou ser obrigado a ir ajudar ele. Você lembra de por que está aqui? Quando eu estiver ajudando, eu quero que você corra. Corra até chegar no Hiparco. Passe adiante o que houve.
- E se eu não quiser correr?
- Será tolice. Mas se decidir ser tolo, seja tolo igual o dia que enfrentamos o Tolibar. Firme e preciso. Ele não vai ter medo de revidar. Mas eu ainda recomendo correr.
Knuksi balançou a cabeça devagar, negando a proposta do outro.
-/Desculpa. Eu não posso voltar. Eu ainda tenho muito a fazer./
Virgil fez uma expressão triste.
-/É uma pena ter de ser assim./
O pé dele se moveu e Knuksi já tinha sacão a pistola, destravado e mirado, mas o desertor hesitou em atirar o suficiente para que sua bala não o acertasse. E então ele se preparou para se defender, mas Virgil estava falando a verdade. Knuksi nunca teve chance no passado numa luta física contra ele, e agora, especializado em trabalhos furtivos e em tiro com precisão, tinha menos ainda. O Coronel não sacou a arma, apenas jogou todo o peso do corpo contra Knuksi. Com uma mão, ele o desarmou, a outra impediu Knuksi de pegar uma das outras armas. O rifle foi jogado do ombro dele e os dois bateram contra a parede de tijolos do armazém com as duas mãos do mercenário já imobilizadas atrás de seu corpo, prensado entre o edifício e o militar.
-Madie! – Ele gritou.
Madileni se moveu para ajudar, mas o Coronel gritou ao perceber.
-/ Nem tente! Eu consigo segurar ele com uma mão e atirar com a outra. Quebro os dois braços dele se for necessário para parar você também. Eu não quero machucar ninguém, mas eu vou se for para me defender./
Isso fez Madielni parar e recuar, pensando num plano melhor. Miyukashi segurou a manga dele, incerto do que fazer.
Knuksi tentou se projetar para frente, mas segurando as duas mãos dele com uma mão só, Virgil pisou em um dos seus pé para fixa-lo no chão e impedir o chute e com o outro braço travou o peito dele.
-/Vou te algemar rapidamente e então cuidar do seu primo, ok? Vai ficar tudo bem./
Knuksi reagiu tentando morder.
-/Não se debata assim, por favor, eu me sinto desconfortável, é como se eu estivesse fazendo algo errado com você e eu nunca faria isso./
Perto de lá, uma gritaria se iniciou. Madileni e Miyukashi se contraíram no seu canto escondido. Uma pessoa alternada gemidos de dor e desespero enquanto um cachorro latia alto, pancadas em metal ressoavam em conjunto. Era próximo e barulhento. Virgil olhou ao redor por cima da armação dos óculos, sem relaxar o aperto.
-/Tem mais de vocês? Não vai funcionar duas vezes./
Knuksi, restringido, estava atento ao barulho, sem foco no agressor naquele momento.
-/... Não somos nós. Me solte eu não sei o que é, precisamos sair daqui e.../
Ele parou. De trás da lata de lixo Madileni puxou Miyukashi para mais perto dele. Tolibar estava exatamente atrás de Virgil, no campo de visão de Knuksi. Vestindo um cachecol listrado entre azul royal, laranja e verde claro e um moletom no mesmo azul e com punhos nas cores complementares. Tinha dispensado a capa, mas não o chapéu.
-Precisam de ajuda? É obrigatório falar em línguas ocidentais aqui?
Knuksi percebeu que, mesmo ainda estando preso, Virgil tinha parado de avançar. Ele tinha um olhar sereno e distante, fixo em Knuksi; falava baixinho.
-/Kissy... Você está muito magro e tem olheiras... Está comendo direito? E dormindo? Você não dorme direito sem mim.../
O desertor arregalou os olhos.
- O que você fez com ele?!
Tolibar fingiu se surpreender com a pergunta, literalmente, mas não totalmente ofendido pela falta de gratidão.
- Fiz menos do que poderia, é só perguntar para o seu menor de idade de estimação.
O cachorro uivou ao longe e a pessoa gritou novamente. Mais barulhos altos e desconexos ecoaram na rua vazia. Tolibar ergueu os ombros conformado.
- Eu preciso ir ver o meu cachorro, não posso perder muito tempo. Você diz que quer ajuda e eu resolvo isso. Não vai passar de um sonho. Você pode até beijar ele se quiser, quanto mais absurdo mais fácil de acreditar que é um sonho. Você diz que não precisa de ajuda e que consegue se virar, e eu vou resolver meus assuntos antes que o barulho atraia gente.
Knuksi se sentiu mal em pedir aquela ajuda, mas acenou com a cabeça. Tolibar fez uma graça com a mão e ele sentiu os dedos de Virgil afrouxarem. Ele o empurrou e o militar andou bambo alguns passos e então parou em pé, apoiado na parede. Madileni correu junto de Miyukashi para junto do primo, que por instinto pegava de volta a arma que tinha sido tirada dele. Tolibar manteve a expressão sarcástica de sempre.
- Ele é forte o amigo de vocês. Influenciar ele está me dando um bom cansaço. – Ele ergueu as sobrancelhas e Bach irrompeu pela rua, rosnando e latindo alto. Tolibar soltou uma exclamação baixa – Eu não precisei ir até lá afinal. Bom menino, Bach.
Knuksi puxou Madileni e Miyukashi para trás dele. Por trás do tapa olho, ele balbuciou um pedido de desculpas.
- Eu não tinha como atacar a distância. Eu não tenho bolsos infinitos. Eu gastei o que eu tinha para te tirar do galpão.
- Tudo bem. – Ele passou a mão pela cabeça do menino – Eu sei que você ia dar um jeito. Você sempre dá. – Seus olhos estavam fixos em Bach.
Ele vinha com o capuz abaixado, deixando suas orelhas de cachorro a mostra. Eram longas, com o interior preto, caídas mas estruturadas, e saíam da altura que orelhas humanas sairiam. O rabo também estava erguido no ar. Ele foi jogado para a rua em que estavam, correu de volta para a perpendicular e então reapareceu. Meio correndo em pé, meio usando as mãos como apoio também, ele arrastava com os dentes uma pessoa, preso a sua perna. A pessoa gritava e puxava a perna.
- Ah. – Miyukashi o reconheceu. – É o cara do canivete correndo atrás do manequim.
A calça jeans dele estava manchada de sangue das mordidas. Era apenas um adolescente de cabelo tingido metade vermelho, metade amarelo. Bach soltou a perna do indivíduo sem aviso e se lançou no ar, rosnando alto. Ele bateu em algo e se debatia como se lutasse com alguém, mas não havia nada lá. Quando fez isso, daquela rua emergiu o manequim, correndo na direção do grupo, e Knuksi em um susto apenas saiu do caminho puxando os meninos junto. Tolibar seguiu com o olhar mas não se moveu.
- E lá vai o Sr. Manequim. – Apontou Miyukashi.
Com a perna feriada pelos dentes de Bach, o jovem gritou desesperadamente ao ver o manequim fugindo e tentou correr atrás, mas não conseguiu ficar em pé. Bach foi atirado em alguns metros e então o adolescente começou a ser arrastado no chão para trás.
- Não, Leonied! – Ele pedia com uma voz de choro – Eu consigo. Eu vou pegar ele dessa vez!
A porta de um armazém se abriu em uma pancada. Da mesma forma que viam com Tolibar, dentro dela o lugar era outro. Negro, ligeiramente hipnotizante. Gritando, ele foi arrastado para dentro e então a porta se fechou. O cadeado dela bateu pesado contra o metal como se nunca tivesse sido aberto.
Tolibar finalmente se moveu e começou a bater palmas e rir ao chegar na porta.
- Muito bem, agora eu sei quem está trancando as portas pro Espaço contra mim.
Knuksi enfiou a arma de volta no coldre com força.
- Mas o que acaba de acontecer aqui?!
Bach latiu e correu para perto de Tolibar e foi recebido com afagos no cabelo.
- Antes de fazer perguntas, você não deveria resolver seus problemas? – Tolibar apontou para Knuksi e para Virgil.
Knuksi abriu os olhos no limite do que podia, puxou do pescoço a dogtag de Madileni e olhou o horário.
- O barco. Temos de pegar o barco. – Ele olhou para os meninos – Vocês dois, corram, segurem o Hiparco. Eu já vou.
Madileni ficou em dúvida se seguiria a ordem, mas Miyukashi apenas concordou com a cabeça e numa estranha inversão de papéis, puxou Madie pela mão junto dele. Knuksi ficou parado por uns instantes, olhando para Tolibar e para Virgil, ainda apoiado na parede, olhando a cena de algum ponto distante. Tolibar soltou uma risada nasalada.
- Eu disse que ele só vai ter um longo e estranho sonho. Você vai ter de acreditar. Não tem muito o que você possa fazer. E acredite que eu estou usando tanto auto-controle que eu estou surpreso comigo mesmo. Daqui a pouco ele vai andar de volta para a base dele, vai agir normalmente e quando acordar amanhã o dia dele vai ser normal.
Knuksi não disse nada, mas Tolibar não precisava de palavras para saber o quando ele era descrente das suas palavras. O desertor se reaproximou de Virgil e esticou a mão devagar até a dogtag no pescoço do militar, idêntica à que ele estava usando. Tirou a luva, respirou fundo e tocou nela de leve. A tela desbloqueou.
- Oh. – Tolibar debochou ao fundo. – Ele não apagou sua digital da senha? O que vai fazer? Deixar seu contato novo?
Ele sentiu a onda de irritação de Knuksi bater nele.
- Vou copiar os dados da tarefa que ele está executando e anexar a meu relatório. Só isso.
Tolibar lançou as mãos ao ar.
- Seja rápido. Eu e Bach vamos andando. Vamos pegar o tal barco também.
Knuksi se virou com a mão no punho da arma, tão rápido que o rifle escorregou novamente de seu ombro.
- Mas você não ouse!
Tolibar riu mais.
- Eu posso pegar o barco e vamos para a loja... Ou eu posso abrir uma porta, atravessar o Espaço e ir parar na loja. Sua escolha. Na segunda escolha você perde muitas explicações que eu sei que você quer.
Knuksi rangeu os dentes e Tolibar saiu andando rindo com Bach caminhando ao seu lado enquanto abanava o rabo. Vendo os dois se afastarem, ele ergueu a dogtag de Madileni – sua antiga dogtag da época da Academia – e aproximou da do Coronel. Não houve nenhuma barreira para copiar os arquivos. Quando a transferência terminou ele ficou parado encarando ele por um momento. Virgil ainda era mais alto do que ele. Ele encostou o rosto de leve no ombro dele e sussurrou em sua orelha.
-/Vutty. Eu não sei o que você anda fazendo, você tem razão. Mas a operação que está acontecendo aqui tem tudo que você jurou que não faria se assumisse sua família. Se você ainda gosta de mim, nem que seja só um pouquinho, não faça isso. Não importa o motivo. Não faça aquilo que nós dois tanto odiávamos. Por mim. Pelo tempo que estávamos juntos. Não me decepcione. /
Ele se ergueu de leve com os pés, sentindo um pouco de dor com a bota que tanto estava odiando e encostou os lábios de leve nos dele. Se arrependeu imediatamente após isso, travou a dogtag de Virgil novamente e se afastou meio caminhando meio correndo de volta para o barco.
Hiparco parecia simplesmente não reparar que Tolibar estava sentado de pernas cruzadas sobre a cabine de controle do barco. Apenas entregou o casaco de Knuksi sorrindo enquanto o ajudava a subir de volta. Madileni encarava com tensão o indivíduo, escondendo o mais novo atrás de si enquanto fazia uma expressão de desafio. Miyukashi por sua vez não estava com medo como achou que estaria; havia uma ligeira satisfação no rosto dele em saber que afinal não estava maluco.
Knuksi pisou firme e pesado na embarcação e encarou Tolibar. Ele esperou Hiparco sair, fazendo brincadeiras de que ia os deixar para trás, e recusou o convite de ficar na cabine com ele.
- Não está tanto frio assim, e eu preciso esfriar a cabeça. Obrigado, eu irei se começar a incomodar durante o trajeto. Mas os meninos podem entrar. Eu não quero ninguém doente.
Os dois compreenderam o recado e entraram na cabine sem questionar, encarando o lado de fora pelo vidro. Hiparco fez um positivo com o polegar e foi cantarolando para seu posto. Quando a porta se fechou, ele viu o momento de tirar satisfações com Tolibar. Bach balançava os pés seitado na beirada da cabine ao lado dele.
- Por quê? – Foi direto ao ponto.
Tolibar fez aquela expressão que ele odiava antes de responder e pulou lá de cima, se desequilibrou no pouso mas lgo se recuperou e fez um gesto exagerado abrindo os braços, como se fosse grande feito, ficando frente a frente do outro. Bach não saiu de onde estava.
- Essa é uma pergunta interessante. Motivos não são necessários. Mas agora que os fatos já passaram, seria interessante você abaixar os humores dessa vontade de fazer uma bala passar pela minha cabeça. Ou você tem o hábito de retribuir ajuda com violência?
- Talvez. Vai se incomodar de explicar o que aconteceu?
Todos eles sofrearam um ligeiro solavanco com o barco deixando o Porto. Tolibar novamente balançou as mãos no ar e fez muita gesticulação, enrolando para responder, e no final disse entre risadas.
- Aconteceu que eu juntei toda a minha sanidade e auto controle e tive uma conversa com a adorável senhorita que é chefe de vocês.
Knuksi deu um passo para trás e se apoiou no guarda corpo da embarcação, incrédulo.
- Você foi incomodar Comet diretamente?
- Oh sim, eu disse para ela que eu estava lá porque vocês todos são muito exagerados e pulam em conclusões. – Ele agitou a cabeça positivamente de forma enfática enquanto dizia isso - Eu só posso responder pelas coisas que eu fiz, não pelas que voc6es acham que eu fiz. E sabe o que ela me respondeu?
- Não. – Foi seco e passou o recado de que Tolibar deveria se apressar.
- Que era extremamente deselegante para um jovem da minha idade estar no quarto de uma senhora naquele horário e que ela ia estourar a minha cabeça. Ela também me convidou para tomar algo no dia seguinte. Eu aceitei um café, álcool não é para mim. O senhor Smile também esteve lá.
- Isso é insanidade... – Knuksi se afastou novamente e ergueu uma mão no ar enquanto cobria o rosto com a outra.
- Nem tanto. Eles estavam tremendamente curiosos sobre mim. Acho que vocês tinham feito o favor de me introduzir já. Eles são perigosos. Fazem você parecer um animalzinho domesticado. Mas eles sabem o que eu já disse para vocês, eu não sou uma excentricidade. Eu me recusei a explicar o Espaço, eles não precisam saber. Mas eu disse tudo que eu tenho conhecimento sobre os meus poderes. E u disse exatamente o que eu posso fazer, o que eu não posso fazer, o que eu fiz e o que eu não fiz. Parte do caos que envolveu a amiga de vocês definitivamente foi causado por mim, mas não tudo. Sequer a maior parte. Eu disse exatamente quando eu agi e quando não. E diferente de vocês, a sua chefe estava disposta a aceitar esse argumento?
- Comet não pode ser tão influenciável assim.
- Oh, não, zero influências. Eles saberiam. –Havia uma satisfação naquela voz -Você sabe, não sabe? E isso amplia sua raiva de mim. Eles foram bem objetivos, tinham uma tarefa a cumprir, ainda precisam fazer honrar até o fim aqueles que eles perderam e aqueles que saíram desse processo incapazes de voltar às ruas. Eles querem que eu prove que eu não fui o único a espalhar o caos. É razoável.
- E por que você iria se expor? Você não é capaz de se esconder? Isso não faz sentido.
- Existe algo que você dificilmente vai entender, mas as pessoas saberem de mim é algo bom. Elas não precisam saber do meu rosto, da minha voz, onde eu moro, mas elas saberem que eu existo é bom. Existir é bom as vezes. Saberem que eu existo é algo que vai fazer o seu amigo de óculos achar que tudo foi um sonho. Ele saiu para procurar algo, teve delírios com esse algo sob influência de uma pessoa parcialmente descontrolada que anda por esses lados. A investigação vai ser curta e triste. - ... E o que nós vimos lá é a sua resposta para esse caos? Como eu posso saber que é real e não só o seu poder?
Tolibar ficou pensativo.
- Talvez. Grandes chances. Estou perseguindo outros membros do Espaço por aqui. Eu queria uma lista, não existe. Quando eu tentei ajuda na paz pediram intermediação para uma pessoa que eu detesto. Eu só posso ir para a rua. Mas eu não posso provar que é real, apenas te reafirmar que mentir é algo que eu não consigo fazer. Knuksi suspirou longamente.
- Quando foi isso? Comet não me disse nada. Eu quero acreditar que ela nos diria isso. Ela gosta dessas coisas confusas.
- Bem recente eu diria. Eu tinha decidido voltar ao Espaço a noite e descansar sem ninguém porque aquela garota desagradável tinha se aproximado de mim, e com aquela cara bonitinha ela continuou jogando a aura dela mais e mais para cima de mim. Acho que ela acredita que eu sou burro ou incompetente para não perceber. Quando eu pisei lá, o Espaço me fez uma oferta de paz estranha. É difícil saber o que o Espaço pensa, mas eu entendi. Aceitei parte dos termos dele.
- Um lugar te fez uma oferta de paz?
- Sim. Eu entrei nele e lá estavam no meu território o Zael e um mestre desconhecido com um outro membro do Espaço. Fraco, derrotado, quase desaparecendo. Eu aceitei o presente e em vez de deixar a alma dele virar uma com o Espaço, eu absorvi ela...
O maxilar de Knuksi se moveu em vão algumas vezes até ele conseguir falar.
- Quando você diz alma... Você não quer dizer literalmente alma?
- Quem sabe? Eu tento não filosofar mais do que o suficiente. A pessoa tinha um poder ridículo. Huhuhu... Hehehehe... É geralmente esse tipo de gente que desaparece. Eu nem quis saber qual era o poder dele, eu poderia ter absorvido, tem muita gente que cresce lá roubando poderes. Mas eu não precisava aquilo, eu precisava de energia. Eu converti tudo para aumentar a energia que eu consigo ter. Isso me ajudou a ter um pouco mais de autocontrole.
- E a pessoa?
- Desapareceu no Espaço.
- Você matou alguém?
- Não. Não tente empurrar sua ética para o absurdo. Aquilo já tinha ido há muito tempo, eu só dei o passo final. Não podemos dizer o mesmo dos tiros que você já deu no passado, podemos? – ele apontou para o próprio pé – O Espaço me fez esse favor também. Isso foi novidade para mim. Óbvio que não é um preço suficiente para eu jogar o jogo, mas...
De braços cruzados e rosto emburrada, Knuksi o escutava, impaciente.
- ... Eu sou agradecido pelo que me fazem. Eu usei essa energia para retomar o controle de mim. Temporário, como tudo. Meus poderes são cansativos. O limite sempre chega. Hoje eu me sinto particularmente ótimo. Perto daquele cara pelo menos eu sou a pessoa mais sã da região.
- O que foi aquilo?
- Sou empata, não telepata nem adivinho. Vou descobrir quando o pegar.
Ele desistiu de argumentar.
- Parece uma resposta assustadoramente razoável. Mas não pense que a ajuda de hoje te tira da minha mira. Deixe a loja em paz e podemos nos acertar. Os meninos não precisam de mais pesadelos na vida deles. E com mais um pouco eu teria saído de lá sem você.
Tolibar gargalhou sinceramente, até ter de limpar lágrimas dos olhos com as luvas de couro.
- Mentir é feio, pistoleiro! Não, não teria. Você estava derrotado. Estava apavorado com a ideia de ter de atirar nele de verdade, nunca esteve tão fácil ler você. Se debatendo no dilema entre ser mais agressivo ou colocar os dois pivetes em risco. Você sabia que tinha perdido. Ele não. Ele não queria te machucar, sinceramente não queria, mas se fosse necessário, ele estava disposto a te machucar o suficiente para conseguir te prender e não se ferir por culpa dos outros dois. E além de ser claramente mais forte, ele tinha certeza de que tinha ganho a luta, ter certeza é uma coisa incrível, dá para as pessoas uma energia e um poder insuperáveis.
O outro apenas estalou a língua contra os dentes, sem argumentos, e mudou o tema.
- Vutty vai mesmo ficar bem?
- Quanto carinho por alguém que quase quebrou seus braços.
Knuksi deu um passo para trás, um para frente, um meio para o lado. Fez que ia embora e entrar na cabine, mas voltou e enfiou as duas mãos. Tolibar achou interessantíssima a onda de desilusão que ele emitiu. Por fim ele abanou a cabeça para os lados, devagar.
- Tanto faz. Eu não acredito no que eu vou dizer, mas você tem razão. Ele me odeia. Eu odeio tudo que ele estava representando liderando aquela operação. Ele odeia a ideia de um desertor trabalhando por uma milícia. – Ele mordeu o lábio com uma força moderada e um rosto triste. – Tudo terminou aqui.
Tolibar fez uma expressão enojada e revirou os olhos.
- Ora, me poupe. Ele não sabe que você estava lá, não pode ligar você a nenhuma máfia porque nunca aconteceu. Eu te disse que tudo na mente dele é uma grande ilusão. E você não sabe o que é ódio. Ódio é uma emoção que me faz querer ficar a aproveitar o momento. As pessoas geralmente acham que amor é vermelho, amor é uma emoção chata e morna, no máximo uma coisa meio laranja. Ódio é vermelho. É quente, espontâneo, não tem forma nem limite. O que fluía por lá não era ódio. Decepção. Frustração. Impotência para mudar as circunstâncias. Angústia, ansiedade para mudar o que estava havendo. E eram bem intensos. Eu não ia passar por lá, eu mudei meu caminho porque eu achei que podia encontrar algo muito divertido. Eu não fiz isso, mas minha intenção inicial era potencializar a dor, amplificar a sensibilidade. He... hehe... – Ele fez um rosto depravado imaginando a possibilidade e então tirou a ideia dele balançando forte a cabeça até o chapéu cair. – Mas eu não podia agarrar a chance e ser burro e perder a moeda de negociação, podia?
- Seu cretino... Eu sabia que você estava tranquilo demais...
- Vou aceitar isso como um agradecimento. Eu não fiz nada do que eu queria. Pelo contrário, eu tolerei entrar nos sentimentos daquele homem e apenas tranquilizar com ele. Eu aguentei meu estomago revirando enquanto ele entrava naquela aura de romântico abandonado. Aquele homem gosta de você. Pense nisso.
O desertor fez uma expressão confusa. E Tolibar arregalou os olhos.
- Isso, continue assim, dilemas e confusões mentais são o tipo de coisa que me provém muito entretenimento.
Knuksi fez uma expressão de horror e empurrou Tolibar para fora do caminho, erguendo para ele o dedo médio das duas mãos antes de abrir a cabine e bater à porta com força. O membro do Espaço ficou rindo do lado de fora, enquanto seu nariz e orelhas ficavam vermelhos com o frio. Um bom dia para ele. Pontos provados. Nariz inteiro. Nenhuma dor no pé. Um ótimo dia na verdade.
Dentro da cabine, Hiparco ainda estava alheio do mundo.
- Cansou de congelar lá fora, Klaus? Estamos quase chegando mas eu estava ficando preocupado já.
- É. Cansei.
Ele se sentou no chão entre Madileni e Miyukashi, que em algum momento tinham desistido de ficar tentando acompanhar a dupla pelo vidro, e passou os braços ao redor dos dois.
- Que dia mais incomum, não é?
Os dois meninos acenaram com a cabeça que sim. Pouco tempo depois Knuksi percebeu que o primo estava apertando o pulso dele, repetidamente, e depois envolvendo o próprio pulso com os dedos polegar e indicador.
- O que você está fazendo, seu esquisito?
- Ah. Decidindo se seus pulsos que são finos demais ou a mão do quatro olhos que é muito grande para te segurar com uma mão só.
- ... Madie. De verdade... Vá plantar batatas.
Do lado de fora do navio, Tolibar, tentando se aquecer abraçado em Bach, teve a impressão de ver algo se mover. O cachorro em forma humana agitou a ponta do nariz, farejando, enquanto o dono tentou sentir algo. Os dois concluíram que tinha sido apenas imaginação e voltar a se concentrar no frio que a noite começava a trazer durante o resto da viagem.