O Conto da Sweet and Dark Store

Capítulo VIII. O Demônio entre demônios

A porta se fechou com um som discreto e Tolibar seguiu com passos firmes dentro daquele lugar em que os limites físicos não se manifestavam. Tirou o chapéu de bobo da corte e ajeitou os cabelos longos e pretos, soltando o acessório em qualquer lugar, onde ele permaneceu, parado no ar, como se não fosse nada. Em seguida, soltou a capa e ficou admirando o barulho delicado dos guizos de suas pontas, com o tecido ondulando sem que houvesse brisa. Nunca se cansava disso.

Ao redor da figura alta, magra e desajeitada, o Espaço se expandia em sua lógica particular. Quando ele tinha conhecido aquele lugar, o nome já havia sido cunhado, mas era conveniente. Não haviam limites de chão, teto, ou laterais, ou mesmo uma orientação mínima de cima e baixo. Apesar de tudo ser visível como se fosse perfeitamente iluminado, tudo ao redor era infinitamente negro, exceto por manchas coloridas disformes e em constante mudança em um horizonte que Tolibar não ousaria (nem tinha vontade de) tentar alcançar.

Pelo menos era assim que ele via o lugar. Já tinha escutado mais de uma vez sobre pessoas que conseguiam distorcer a forma que o Espaço se apresentava para elas, e até mesmo para os outros. Não apenas histórias, ele conhecia aquela garota, mas ele preferia não lembrar. Haviam também histórias de pessoas que não conseguiam lidar com a falta de lógica e na falta de um chão se viam caindo eternamente. Se isso era uma questão de força da mente, da alma, ou apenas um problema pessoal, ele ainda não tinha concluído.

O território de Tolibar era extenso, mas era apenas um grande vazio, exceto pelo centro. Em seu centro haviam uma cristaleira com um jogo de chá, uma cama, e uma poltrona de formato excêntrico, com um grande assento esférico, que parecia desconfortável aos olhos, mas que se moldava ao corpo como se não fosse totalmente solida ao toque. Seu quarto, podia-se dizer. E, claro, portas. Diziam que o Espaço possuía uma porta para qualquer lugar do mundo. A informação era questionável, mas ainda não havia existido uma única porta que ele tivesse tentado usar para voltar ao Espaço e não tivesse conseguido. Exceto quando outro membro a trancava, mas isso era outra questão.

Puxou o lençol da cama sem cerimônias.

- Bach, hora de acordar!

O menino pulou sobre Tolibar abanando o rabo curto e latindo. Da base de sua nuca, duas orelhas caninas longas surgiam.

- Bom menino, bom menino!!! - Tolibar abriu a pequena bolsa retangular de couro que levava lateralmente presa em um cinto e tirou dois biscoitos, segurou um com os dentes e deu o outro a Bach, que agradeceu com outro latido. - Seus ferimentos já melhoraram? Vamos, estique o braço... Nem sinal do tiro, mais rápido do que eu esperava... Oh, não, não, sem essa cara triste, o machucado já passou...

- Será que eu deveria aproveitar essa ocasião para arrancar de você algumas respostas, Tolibar?

No topo da cristaleira, Zael estava apoiado com a delicadeza de um balão de ar, com seu corpo coberto por uma capa que fazia todo seu rosto se esconder na penumbra.

- Hahahaha, Zael, há quanto tempo!!! Faz... Semanas que não nos vemos?!?!

- Faz semanas que eu me aproximo e você foge pela porta mais próxima!

- Ora, que exagero! Apenas coincidências! Andei ocupado, sabia?!

- Os boatos estão correndo, Tolibar. O que você andou fazendo por aí?

- Apenas procurando um lugar pra dividir o quarto.

- E sua busca resultou numa reunião de conselho no centro do Espaço?

-Pfff – Tolibar se contorceu, flutuando no Espaço.- Conselho. Quem estava lá? A garotinha alada favorita de todos?

- Sim, Lamech esta vá, e também o trio das sombras e Ayla?

- Quem raios é Ayla? – Tolibar se ergueu uma sobrancelha por trás da sua máscara.

- A garota dos raios. – A voz de Zael tinha um tom monótono e didático.

- Ah, sim, ela, então ela tem um nome. Muito bom. Lembrarei.

- Tolibar, pessoas morreram?

- Uhm.... É isso que o sagrado tribunal do Espaço está julgando? – Ele se jogou na cama ao lado de Bach. – Não que eu tenha me dado ao trabalho de saber. Qual é, meu estilo é outro. Eu preciso deles vivos pra me divertir.

- Aliás, os boatos falam em Bach por aí. Bach saiu do Espaço?!?!

- Explicitamente em Bach? Estranho, ele só esteve fora quando eu precisei de um escudo. Mas saiu. - ele agiu naturalmente, mas o sorriso cínico foi inevitável.

- Como?

- Da mesma forma que ele foi criado, eu disse para você que eu tinha sido muito bem sucedido. Eu queria um cachorro de estimação, usei meus poderes e criei ele. Queria ele lá fora, investi energia e pronto. - Tolibar se esticou na cama e seus pés ficaram ligeiramente para fora. - Qualquer um no Espaço consegue fazer isso, distorcer o ambiente ao seu redor nem pode der considerado um poder, vem de brinde junto da estadia no Espaço. Vou ser julgado pela incompetência dos outros também? Estou morrendo de medo.

- Mas os outros não tem energia suficiente para sustentar uma coisa dessas, sabia? Quantas pessoas você absorveu?

Tolibar não respondeu, apenas o encarou, com o sorriso constante. De dentro do capuz, Zael suspirou. Era raro que demonstrasse emoções.

- Enfim, o que você estava fazendo? Atacando gente lá fora? Você conhece as regras, se montarem uma comissão para eliminar você, não me responsabilizo.

- Não existem leis, pela Aliança! Existem outros membros, só isso, e eles acham que podem fazer regras, não sou obrigado a seguir, o contrato é com o Espaço, não com os membros dele - ele pegou outro biscoito para Bach e ficou segurando ele enquanto gesticulava teatralmente para falar, atiçando o estranho menino híbrido - Além do mais, nada disso importa mais!- ele se sentou abruptamente, quase jogando Bach para fora da cama - Eu achei o lugar ideal para morar!!!

- ...Você o que? – a voz de dentro do capuz saiu incrédula.

- Zael, Zael, não foi você que disse que eu deveria voltar a me socializar com as pessoas lá fora? Você tinha razão, faz um ano que eu estou aqui, meus poderes estão sob controle... Então eu resolvi achar um lugar para morar! Foi difícil, sabia? Todos lá fora são fracos, muito fracos...

-Estava atacando pessoas para testá-las?!?!

- E que outro jeito teria? Não posso ir lá fora e simplesmente contratar uma imobiliária, posso? Precisava achar um lugar adequado! Estive passeando por lá e vigiando, conheci alguns deles uma semana atrás!

- Que tipo de pessoa aceitaria você em casa?

- Bwahahahahahaha... – Ele se encolheu com os braços no abdômen de tanto rir - Não aceitaram ainda. Mas... De todas as pessoas que eu enfrentei foram as mais interessantes. Os sentimentos delas fluem leves e fáceis de ler. – ele começou a gesticular, empolgado - São sentimentos maravilhosos para mim são... Coloridos e quentes... Pessoas frágeis e feridas, mas são fortes, eu teria de ir muito mais agressivamente se quisesse chegar no fundo. - ele começou a tremer enquanto falava e pressionar o biscoito entre os dedos até ele se esmigalhar - Vamos divertir juntos, huhuhuhu... Hahaha...ha...hahaha!!!

- .... Eles nunca vão aceitar um maluco igual você.... Eu estava errado, você não está preparado para o convívio social.

- Zael... Eu sou totalmente normal – ele riu involuntariamente ao dizer isso - Eles têm um menino muito divertido lá, sabia? Muitas emoções fortes trancadas dentro dele, quase inacessíveis. Não para mim, claro. Posso liberar essas coisas com um estralo de dedos.... Não tive tempo ainda de me divertir com ele, mas isso só aumenta a ansiedade. Não acho que eu seja muito bem-vindo porque tenho encontrado muitas portas trancadas, mas.... Ah, você sabe – o sorriso dele esticou de orelha a orelha – não é qualquer um que vai me parar.

Zael escutava quieto e imóvel, com sua capa oscilando levemente, como se algo naquela sombra respirasse, mas Tolibar não sabia ao certo. Entre todos os membros do Espaço com seus poderes mais fortes ou mais fracos, ele se orgulhava de ser um empata poderoso e extremamente sensível, podia sentir as emoções alheias com clareza e precisão. Mas não Zael. Ele sequer podia afirmar que aquilo estava vivo. Lembrava a ele vagamente o que Bach o transmitia. Nada. Mas Bach era uma criação dos poderes de Tolibar, e ele tinha certeza de que não estava vivo de verdade. Com Bach, a experiência de Tolibar com esse “nada” era puramente agradável, algo que não transmitia nada não podia sensibilizar demais seus poderes, ele podia tocá-lo à vontade. Com Zael, aquilo o causava grande desconforto.

- Desista dessa ideia de morar com os outros. Não está preparado, Tolibar. Você foi lá fora alguns dias apenas e já estão pedindo para alguém te parar. Isso é um sinal de algo, não é?

- Claro que estou preparado. Eu cumpri o contrato, vendi meu coração ao Espaço. Os sentimentos ruins não me afetam mais, não tenho mais de me preocupar com isso, não vão me machucar, o que eu tenho a perder?

- Você ao menos consegue ir lá fora? Ficar entre as pessoas? Você compreende isso?

Seu sorriso ficou travado, mas não sumiu.

. Tenho de evitar multidões, quem liga... Aceito o desafio. Um ano completo aqui já é suficiente. Parece até um contrato com uma prisão.

- A questão é que os outros não estão preparados para você. Incapaz de entender a dor deles, você é um maldito sadista!!!

- Correção. – Ele pulou da cama e foi até a cristaleira, puxado uma xícara de chá - Eu entendo perfeitamente a dor deles. Sei distinguir cada um daqueles sentimentos e suas motivações. Melhor que eles próprios até. Moralmente falando eu sei o que elas significam e no que implicam. Eu só não ligo. Qual a outra sugestão?

- Muitos estão expandindo seus territórios e reunindo serviçais, criando poder e estabelecendo hierarquias. O Espaço está endo moldado ao gosto deles. Você acha que eles são idiotas e não gosta dos acordos, das leis? Você é o demônio entre os demônios aqui. Pode fazer isso também.

Tolibar fez uma cara de tédio. Bach latiu.

- Ser um rei no Espaço não me interessa, você sabe. Na verdade eu tenho muitas perguntas sobre o assunto, mas você não vai me responder. - por um momento, ele perdeu o foco do olhar em um ponto distante entre os brilhos coloridos que pontuavam o Espaço. - Sabe, quanto mais perto de você está meu coração, mais eu sei sobre você. Mas tudo bem. Eu gosto dessa brincadeira... Mas vou jogar o jogo com minhas regras.

Tolibar encarou Zael um minuto e então decidiu que já tinha tido sua cota de tolerância com o Mestre do Espaço, e apertou as bochechas do cachorro em forma de menino. Jogando no ar a xícara, que ficou parada.

- Bom, garoto, vamos comemorar que você já se regenerou o suficiente e dar uma volta! Com latidos e agitando o rabo, Bach o seguiu através de uma porta diferente da que Tolibar tinha entrado pouco antes, flutuando solitária no meio do Espaço.




Assim que a porta atrás dele se fechou (embora nunca tivesse se aberto fisicamente), Tolibar percebeu que tinha deixado seu chapéu no Espaço. Lamentável. Sua camiseta de mangas curtas não cobria toda a barriga e ele sentia o vento do inverno batendo agressivo.

Andar em ruas como aquela não agradava Tolibar. A cidade toda tinha passagens estreitas demais e durante o dia havia muito movimento, era exatamente o tipo de situação que um empata preferia evitar. Ele lidava bem com pessoas sozinhas – ao jeito dele - alvos isolados era uma coisa, aglomerações era outra. Antes de chegar ao Espaço, porque o enlouquecia, depois de chegar ao Espaço, porque o instigava e isso era perigoso para ele. Se antigamente o fluxo sensorial lhe causava extremo sofrimento e descontrole, após o contrato o prazer de ter fluindo para dentro de si toda a angústia ao redor ainda não havia superado a sua alta sensibilidade, e ele precisava ficar alerta para o rosco de uma sobrecarga sensorial.

Puxou o capuz de Bach cobrindo melhor as orelhas animais.

- Eu devia te recompensar pelo bom trabalho. Tomar um tiro não parece ter sido fácil. Eu sei, eu senti parte... Ainda não consegui cortar totalmente seus laços de dor comigo... - Bach ganiu baixinho - Mas... Foi incrível, não foi? Aquele cara... Eu nem senti ele chegando, sensacional. Uhm... Acho que o único momento em que ele saiu do controle foi quando ele colocou no campo de visão dele os pirralhos... Logo em seguida ele já estava num modo de total tranquilidade, simplesmente atirando. Sem essa fagulha de raiva acho que não teria dado tempo de te invocar. Acho que você não compreende como isso funciona, não é? – Bach acenou que não com a cabeça – Não vou perder seu tempo então. Basta saber que foi emocionante. Eu repetiria.

Tolibar gargalhou como um doente, sem se importar com os olhares das janelas térreas na viela por onde passavam. Bach apenas o encarava.

- Definitivamente, vai ser o nosso novo lugar. Eu já tinha decidido que era hora de sair do Espaço. Um ano já foi tempo demais. Não é uma colônia de férias legal. Mas eu precisava disso, é inegável. E agora está aí: um lugar onde houvessem pessoas que não me entediassem e um lugar em que uma pessoa morta pro mundo pudesse ficar. Quando eu comecei a procurar eu tinha certeza que estava pedindo demais... Mas existe!

Bach puxou sua manga e o forçou a encará-lo. Mesmo sem saber falar, seu questionamento era claro.

- Eles vão me aceitar. Talvez eles me acertem o nariz antes disso. Eu tenho alguma coisa me dizendo que eles vão. O truque de ficar distorcendo a realidade para fugir de ataques funciona melhor como efeito dramático do que como defesa em si então... - houve um instante de silêncio - ... definitivamente eu vou apanhar... Mas depois eles vão me aceitar, e sabe por que?

Bach acenou a cabeça negativamente.

- Porque assim eu decidi, gostei de lá. Eles vão aprender que existe algo além do submundo que eles acham que dominam. Mesmo que eles resistam eu posso simplesmente inserir nos corações deles a ideia de que eles aceitam minha presença. Vai direto para aquela parte de mente que cuida das coisas que você não sabe explicar porque fez... Hehe.. Hehehehehe.

Bach suspirou sem entender direito seu mestre. Mas como ele desejava seria.

- Agora... - Tolibar se abaixou na altura do serviçal, sem ligar de atrapalhar o fluxo da calçada, assim que atingiram a rua principal da cidade - O que o meu mascote favorito quer de recompensa?

Bach olhou ao redor curioso e então apontou para um menino passando na outra calçada com um console portátil. Tolibar torceu o sorriso e olhou para o outro lado da rua, onde a loja de eletrônicos fervilhava em algum tipo de promoção.

- Bach... Você sabe que eu não vou conseguir entrar em um lugar lotado como aquele sem desmaiar ou fazer todo mundo ao redor cair desmaiado.

Bach esticou as mãos com as palmas estendidas.

-... Não vou te dar meu Dispositivo Pessoal. Eu tenho certeza que você não compraria apenas o jogo, e vamos lembrar, para todos os efeitos, eu sou um vagabundo desempregado.

O cão fez uma cara de decepção, o que não conseguia afetar o coração insensível de Tolibar. Ainda assim, fazia parte de seus desafios pessoais tentar agir como uma pessoa normal, e ele sabia que nesse caso deveria fingir se comover e se esforçar para corrigir o problema.

- ...Vamos andar mais e ver se existe outro lugar. Aproveitamos para você conhecer a cidade, já que passou os últimos dias se recuperando...

Desconfiado, ainda assim o outro aceitou, e os dois desceram a rua principal seguindo os trilhos do bonde, e passaram a caminhar ao longo da mureta que dividia a calçada do grande rio. Em pouco tempo, perdidos, tinham atingido, ao fim de uma rusa sem saída, o gradeado que cercava a região do Porto.

- Uhm. Vamos voltar, Bach, eu deveria ter usado o GPS. Esse lugar é perigoso e as portas aqui são péssimas para se escapar para o Espaço.

Mal ele tinha pronunciado essas palavras, uma onda de hostilidade invadiu seu peito. Se voltou para encontrar uma figura feminina há pouco mais de uma dezena de passos.

- Tolibar!

- ... oh! Ayla! - Tolibar abriu os braços como se esperasse um abraço, em um ato de puro deboche.

- Como sabe meu nome?

- Não sabia, descobri hoje, que surpresa agradável! Mas não lembro de você saber o meu!

- Lamech sabe.

- Wow – Tolibar sorriu com curiosidade – Eu realmente não sabia que ela tinha essa informação. Pequena peste com asinhas. Foi ela que te deu a dica que eu estaria aqui?

- Não tenho a obrigação de dizer quem está de monitorando, tenho?

- O menino das sombras então, vou chutar ele...

- Seu demônio... Me dê um bom motivo para não estourar sua cabeça com um raio!

Ele ajeitou a máscara sobre os olhos fingindo surpresa e indignação pela ameaça. Em seguida apoiou as costas na parede mais próxima e começou a enumerar, acompanhando com os dedos.

- Vamos ver. Razões... Seus poderes dependem do clima para serem encobertos e um raio em um dia de sol não seria discreto... Seria muito mal educado de sua parte... Ah, claro, mais importante. Eu também ataco a distância, e isso se tornaria uma disputa de agilidade... E acredite, eu não sou o cara mais atlético do Espaço, mas confio que meu poder te derruba antes... Ah, e claro, o principal motivo é... Por que você faria isso?

A garota mordeu os lábios furiosa.

- Incrível. Está para nascer ser mais cínico. Como tem coragem de aparecer aqui depois do que fez? Eu tinha certeza de que era um de nós desde o começo, mas eu não sabia quem. Após a descrição, não tiveram dúvidas... Agora posso cobrar a morte de todos.

- Acho que existe um engano aí, Ayla, eu não matei ninguém.

- Suas ações englobam as consequências delas.

- Uhm, vamos supor que sim, e daí?

- Amigas minhas morreram.

- Por minha culpa? Não tive contato com tantas garotas para você falar no plural, assim faz soar que todo mundo pra quem eu dou um tchauzinho... poof, morre. - o jovem estava legitimamente surpreso.

- Um tchauzinho...Ora seu...Eu trabalhava com elas. – Ela puxou do bolso seu Dispositivo Pessoal e abriu o mapa de ataques para ele.

Bach latiu para seu dono, que agitou a mão para que ele se calasse enquanto analisava o mapa. Reconhecia apenas parte daqueles pontos. Se aquilo era o melhor que podiam fazer para relacionar um padrão dos ataques, eles estavam muito mal. Sem se sentir na obrigação de apontar o erro dos outros, Tolibar interrompeu e ergueu as mãos teatralmente.

- Trabalhava com ela e é do Espaço e demorou mais do que um pivete esperto para me encontrar? Não tem vergonha?

- Isso vai ser irrelevante após eu levar você para ser julgado. Seja aqui, seja no Espaço.

- Ah, claro... Ouviu isso Bach, ela vai nos prender... Exceto pelo fato de que ela não consegue!

Para a satisfação do empata, faíscas de raiva surgiram aos pés da garota. Dentro dela, ele sentia faíscas menos literais atravessando seu coração.

- Hehe, calminha... Não estou afim de brigar hoje. Não se preocupe, eu e Bach terminamos o que estávamos fazendo. Não vai mais acontecer.

- Não me faça rir! – Uma faísca subiu pelas paredes fazer uma lâmpada acender – Você acha que vai ser assim?!

- Acho. - ele debochou, e a garota ouviu essa frase sussurrada em sua orelha, em um movimento que ela tinha certeza que era impossível. Uma pessoa não podia se deslocar daquele jeito.

Ficou imóvel enquanto os dois se afastavam de volta para a cidade. Alguma coisa que ela não identificava estava suprimindo toda sua vontade de atacá-los. Não. Ela sabia exatamente o que era. Era o poder do Demônio entre Demônios. Tolibar não queria lutar, e se ele não queria, ele simplesmente fazia ela não querer também. Ela simplesmente o assistiu caminhar para longe, com aquela criatura abominável o seguindo, sem conseguir reagir. Ela riu enquanto ele caminhava para longe dela.

- É isso, vai me largar aqui? Não vai me atacar como prova de que não vai mais acontecer e esperar que eu aceite?

- Não! - Ele se virou um momento – É porque eu acho que nem você nem aqueles idiotas que se acham um conselho vão conseguir entender. Eu não devo satisfações, e se eu vou ser julgado pelos meus métodos, até aceito, mas se as pessoas foram fracas e morreram por minha culpa, está muito além do que é minha responsabilidade. Passar bem! – Ele acenou com a mão de forma debochada enquanto se afastava.

Quando virou a esquina, uma onda de raiva subiu por Ayla. A lâmpada mais próxima explodiu. Refletindo brevemente sobre as explicações que teria de dar, Ayla iniciou um telefonema.




Aquela manhã na Sweet&Dark Store era mais uma tentativa de retomar suas rotinas. Shiraiku havia saído cedo, sério. Há dias que a luz do vizinho estava apagada, encarava através da janela Madileni deitado na rede que antes era de Lienara e Ayan. Ninguém tinha tido coragem de desmontá-la, seus pertences pessoais aos poucos estavam sendo recolhidos, mas ninguém jogaria fora. O enterro ocorrera sob proteção de todos os agentes de campo e informantes daquele território. Uma indignação corria o ar, de uma forma diferente de qualquer cerimônia referente aos ataques de antes. Dessa vez todos sabiam porque estavam se despedindo daquela pessoa e Lienara, apesar de mal educada, era um membro querido daquele grupo.

Madileni tentava não pensar nisso, vigiando de canto de olho se Miyukashi ainda estava sentado assistindo televisão. Ainda tremia de leve com o pensamento de ficar sozinho, mas não ia admitir. Nos últimos dias tinha seguido Knuksi para todos os cantos possíveis, o que era muito parecido com o padrão de sempre e não causava tantas perguntas. Dizia a todos que estava bem. Na ausência do primo, seguia Miyukashi, se ele perguntasse algo, erguia o dedo do meio e fingia estar normal. O vidro da janela estava levemente embaçado com o frio lá fora.

Sua concentração no momento era sua língua percorrendo sua boca. Tinha rido da cara de Miyukashi quando ele tinha perdido um dente, e o vão sequer era muito evidente. Agora, acordando com um dente de leite a menos, no topo frontal, ele havia subido na rede e estava evitando a aproximação dos outros, tentando evitar o karma. Descer seria inevitável. Ele só precisava pensar na resposta certa para quando as risadas começassem.




Sentados em uma praça observando as crianças brincarem Tolibar se questionava se Ayla teria trancado as portas para o Espaço perto da Sweet&Dark Store. Todos os seus pensamentos indicavam que não. Ela era apenas um membro fraco, o poder era visualmente chamativo, mas só isso. Só sabia quem era ela por muito acaso, a garota nem saía da área central e mais segura do Espaço, quem diria que na vida real ela fazia algo perigoso de verdade. Nem imaginava que ela era daquela região, que planeta pequeno. As lendas diziam, membros do Espaço atraem uns aos outros. É, concluía ele, aquela menina não devia sequer saber trancar uma porta.

Algumas crianças corriam com consoles em suas mãos ou aparecendo de seus bolsos.

- Quer um, Bach? Apenas escolha e eu uso meus poderes para que todos pensem que foi apenas perdido. - houve um latido de repreensão como resposta - Não seja chato. Roubar uma criança não é nem de longe a pior coisa que eu já fiz. Eu nem estou propondo encurralar ela e torcer a mente dela até não haver mais lágrimas para chorar antes de pegar o maldito jogo, só você vai brincar aqui...

Enquanto Tolibar tinha uma discussão sobre moral e ética com seu cachorro de estimação, um absurdo comum para ele, alguma coisa sem alertar seus poderes tocou seu pescoço. Primeiro um tecido de pelúcia macio. Em seguida, algo metálico e que causou um arrepio espinha abaixo. Tolibar não estava mais acostumado a ser pego de surpresa. Aquilo o empolgou.

- A munição dessa arma pode fazer um buraco no seu pescoço grande o suficiente para passar uma laranja. - a voz de Knuksi era calma e controlada - Não quero usar isso na frente de crianças... Aa custar muito caro resolver isso, a madame ficaria furiosa... Então que tal nos basearmos na lei do bom perdedor, e já que eu poupei sua vida em vez de simplesmente te estourar, você vir comigo sem reagir? Considere que eu tenho muitos motivos para te estourar. Enquanto Bach rosnava, Tolibar apenas riu baixinho.

- Duas brigas e nem é hora do almoço. Isso só pode ser praga do Zael.... Aliás, três brigas se contar ele... Estamos batendo nossas metas pessoais.

- Gostaria que você se decidisse logo. O inverno pode estar dando as graças, mas ainda é bem desagradável ficar de casaco sob esse sol em lugar aberto...

- Oh, sim, um problema seríssimo de moda. Mas ok, acho que vou aceitar seus termos. Não vou poder aproveitar o pânico coletivo se for a minha cabeça que for explodida... Além do mais, eu estava realmente querendo ver vocês de novo, obrigado por me poupar o trabalho.

Knuksi não gostou nem um pouco.




Em momento algum Knuksi abaixou a arma escondida em sua manga. Ele queria poder fazer uma ligação para a loja e preparar os outros, mas não queria dar nenhuma chance dessa vez para aquela pessoa. Ele não tivera nenhuma duvida desde o primeiro contato visual. Mesma roupa, mesma máscara. Mesmo sorriso doente. Faltava a capa e o chapéu, mas não interferia na sua certeza, na verdade era bom ter menos itens para distraí-lo. Não podia tirar os olhos também do menor. Era uma criança esquisita e que rosnava, mas ele sabia muito bem que podia ser perigoso.

O protocolo deveria ser levar os dois diretamente para Comet, mas ela seria obrigada a perdoá-lo. Aquele assunto ele precisava resolver sozinho. Haviam perguntas a fazer, a Sweet&Dark precisava ter prioridade.As palavras e os gritos de Madileni eram reprisados na sua mente. Sabia como aquela pessoa agia. Ele realmente preferia não ter de atirar antes de ter suas respostas, mas se ele começasse a se sentir estranho, qualquer coisa estranha, puxaria o gatilho. Seu corpo estava tenso, mas sua mente estava em paz e bem resolvida.

Tolibar se divertia com aquilo. Ele tinha cogitado imitar os filmes e ir de braços erguidos fingindo estar aterrorizado, mas pensou melhor e seus braços iam doer com isso. Naquele momento porém, preferia ter feito isso, a empolgação o deixava com vontade de começar a rir e bater palmas como uma foca. Se Knuksi conseguisse ver seu rosto, veria aquele sorriso idiota tentando se controlar para não começar a emitir gargalhadas. De perto assim, ele até conseguia sentir a presença de Knuksi e ler sua alma. E agora ele entendia porque não conseguia fazer isso antes a não ser no último momento quando já não podia agir. O tiro realmente poderia ter sido nele da última vez. Os padrões dele eram bem diferentes de todos os outros, concluía Tolibar, supunha que era essa a diferença de um profissional de verdade e aqueles caras que meramente estavam trabalhando na coisa. Mas agora ele via de perto, no fundo o jovem era apenas humano. Se conseguisse fazer isso naquela noite, teria sentido ele se aproximar antes e provavelmente teria derrubado todos antes de ter de deixar Bach se ferir. Mas teria sido bem menos divertido. Não conseguiu se conter, segurou a risada, mas ar saiu das narinas dele. Em seu pescoço, o cano da arma ficou mais tenso.

- O que tem de tão engraçado?

- Bwahahaha, que pergunta horrível, eu não quero você apertando essa coisa aí, senhor justiceiro! Não é o meu tipo de diversão, não, não é mesmo.

- Então fique quieto.

-Oh, que chato, estamos indo para a sua Loja, Não é? Lugar simpático, ainda não tive a oportunidade de conhecer. Ela é longe daqui, vai ser muito chato irmos em silêncio! Vamos quebrar esse gelo, meu nome é Tolibar e... - Eu disse quieto. – Ele mordeu o lábio, ligeiramente tenso.

Knuksi questionou sua decisão por todo o trajeto, observando os dois caminharem a sua frente. A loja surgiu aos poucos no horizonte, dois andares, fim da rua sem saída, no topo da ladeira, a reserva florestal emoldurando. Tarde demais para voltar. Ele respirou fundo, e o empurrou contra a porta, que se abriu tocando o sino de vento. A aproximação do trio causou um alvoroço e Madileni e Miyukashi correram escadas abaixo. Na cozinha, Gurake, Masachiel e Kiieth se levantaram. Quando o trio passou pela abertura, Madileni arregalou os olhos e recuou um degrau. Tolibar simplesmente não resistiu e disse instintivamente Boo.

Não foi um tiro que ele levou. Mas foi arremessado, e suas costas bateram no balcão. Knuksi fechou o punho, Tolibar pensou apenas “Ah” e então veio o impacto. Dor era uma das coisas que ele não gostava muito de sentir, mas desde que tinha pisado fora do Espaço estava com aquela premonição estranha de que seu nariz não ia ficar inteiro o dia todo. Aquele soco estava no cronograma, ele supunha. Tolibar, preso contra o móvel por Knuksi que segurava gola de sua camiseta e apontava para sua cabeça a pistola, sentia seu nariz sangrar. Bach rosnou, mas não atacou sem ordens, o alpino olhou para ele questionando que tipo de experiência genética infeliz tinha sido feita naquela criança, agora que olhava de perto, sem o capuz.

As persianas da vitrine se abaixaram, um estado cada vez mais comum naquela loja. Knuksi não precisou pedir ajuda para Kiieth. Enquanto era amarrado com Bach e revistado Tolibar achou muito simpático da parte deles achar que imobilizar seus braços podia resolver algo. Estava preso da vez anterior, não tinham aprendido nada? Para Tolibar era uma festa completa. Ele abriu um sorriso de cumprimento a Madileni e Miyukashi. Assustador pela expressão maníaca, assustador pelo sangue que ainda escorria até seu lábio, os meninos deram as mãos. Muito divertido. Enquanto ele estivesse consciente, sabia que ninguém lá iria realmente oferecer perigo a sua vida.

Ao final, lá estava ele, amarrado a uma cadeira, a mesa da cozinha afastada, todos o cercando. Bach teve os pés e mão amaradas e gania baixo pedindo ajuda.

- É muito corajoso – começo Knuksi – você dar as caras por essa região com tanta naturalidade. Pessoas morreram por sua causa.

Incapaz de parar de sorrir, o suspiro de Tolibar soou como uma zombaria.

- De novo essa história? Os mortos no caminho não são minha culpa. Se alguém morreu é porque era bur... – Kiieth atirou um copo d’água na cara dele – Oh, muito obrigada, eu precisava limpar o sangue mesmo.

Knuksi sentiu vontade de dar outro murro, mas ele teve a impressão de que quebraria alguns dentes e ficaria sem respostas

- É muito cinismo. Você vai dizer que você e seus amigos não tiveram nada a ver? Levou bastante tempo para encontrar um de vocês, mas vá em frente, mantenha sua história e me dê mais motivos para cavar uma cova daqui a algumas horas.

Tolibar ergueu uma sobrancelha e olhou para Bach.

- Amig..? Ah. Amigos. Não, não, somos só nós dois, eu entendo o erro, mas eu sinto informar, eu ajo sozinho. – Antes que alguém o cortasse com uma pergunta sobre isso, ele foi enfático – E não, eu não tive nada a ver, estão fazendo acusações injustas. Emboscadas talvez. Alguns ataques que passaram do limite, porque bom, depois que eu começo é muito difícil parar. Fiquem com suas drogas, o meu vício é muito mais reconfortante... Mas não, nada de mortes. A única pessoa que quase morreu aqui por isso tudo fui eu, e por causa de um tiro seu.

- Pessoas morreram porque... – O músico tentou se posicionar.

- Morreram porque morreram, e vocês todos sabem disso, e não adianta se enganar pondo a culpa em ninguém mais. – Tolibar relaxou as costas contra o encosto da cadeira - Eu não coloquei pensamentos suicidas na cabeça de ninguém, eu não empurrei ninguém para a morte. Posso ter favorecido circunstâncias, mas de todos os títulos que eu carrego, assassino parece um errado.

Houve um momento de silêncio. Knuksi puxou uma cadeira e se sentou de frente para o assento, com os dedos entrelaçados, e fixou seu olhar. Tolibar podia sentir uma raiva descomunal saindo de dentro dele. Fazia cócegas. Knuksi respirou fundo e percorreu com os olhos avaliando com quem podia contar em um caso mais extremo, organizando na sua mente como iria agir. Masachiel. Inútil. Gurake. Inútil. Kiieth. Dúvidas. Não faria os dois meninos enfrentarem ele novamente, Ele sabia que a cada noite que Madileni dizia que estava tudo bem, ele se segurava firme em buscando certeza de que Knuksi estava lá. O ex-militar se sentiu sozinho nessa. Precisava manter a calma. Apesar de todos reunidos, era como se naquele lugar existissem apenas o interrogado, o interrogador e olhos vigiantes esperando ordens.

- Vou tentar novamente, quantos vocês são?

- Eu já disse, um. – Ele olhou sarrista para Bach – Um e meio se você contar ele talvez...

Knuksi só moveu a mão em um movimento rápido e Tolibar trincou os dentes e arregalou os olhos. A bota de couro grosso provavelmente tinha salvado seus dedos de serem cortados fora, mas ainda havia a dor da faca que tinha sido cravada. Podia sentir o interior do sapato ficar encharcado em sangue. Bach começou a ganir de medo. Com exceção de Kiieth, todos deram um passo para trás.

- Ok, repetindo, parece que alguma coisa afeta sua audição. Quantos vocês são e o que estavam tentando? Porque atacar apenas os nossos? Como sabem quem são os nossos?

Tolibar soltou uma risada indefinida.

-Um. Se você continuar me desfigurando talvez nenhum. Todas as noites, todos os lugares. Eu era apenas um. Eu posso acreditar que o que vocês investigam tenha sido por mais gente. Na verdade, eu tenho grandes apostas. Mas o que foi feito por mim? Solo e puramente solo. Não me olhe com essa cara de quem quer tirar mais um pedaço de mim. A não ser que você resolva me cortar ao meio, vou continuar sendo um. Frustrado?

Knuksi se curvou e encarou sua faca militar fincada no pé do interrogado e soltou o ar lentamente.

- Não. Apenas com muita vontade de arrancar todas as suas unhas uma a uma. Mas eu acho que o estomago de alguns aqui não aguentaria e eu não estou disposto a te deixar com mais aberturas para fugir. Madileni, pegue o Dispositivo Pessoal dele e rastreie, quero saber para quem ele ligou, onde esteve, tudo.

Tolibar acompanhou com os olhos o menino tentar não tremer ao se aproximar. Suspirou. Bach latiu agressivamente ao ver a propriedade de seu dono sendo retirada dele.

-Podíamos ter resolvido isso tudo antes, sabia? Eu tentei começar a conversa e me apresentar. Podia ter dito a você meu nome de registro, em vez de vocês vão insistir no erro.

Todos olharam com expectativa, e Madileni confirmou com a cabeça, virando de lado ao falar, cobrindo a boca.

- O retorno disso é igual aos nossos. Foi alterado por um informante. Posso quebrar isso, mas vai levar tempo.

-... Então você é um de nós? O que o seu grupo quer? Vingança? Reduzir a concorrência?

- Hahahahahahaha, Eu já disse, não tem grupo nenhum. Podem rastrear a vontade, a pessoa que alterou isso não sabe que fez isso, não lembra. Eu precisava do meu dinheiro e eu precisava de uma identidade nova porque eu estava morto. O dia que eu entrei para o Espaço eu morri. E então eu usei aquela pessoa, e ela nunca soube o que fez, mas fez muito bem.

- Vou assumir isso uma confissão, muito bem, vou poupar seu outro pé. Vou assumir que Espaço é o nome do seu grupo. E que você drogou um pobre informante com uma droga controlada de memória para conseguir isso. Eu não consigo nem lembrar quão grande é a violação de usar uma droga dessas... O que foi...?

Tolibar tinha voltado a rir. Ele não emitia som, seu corpo apenas tremia como se tivesse tendo espasmos e a cadeira batia no chão em um ritmo descompassado. Por fim, ele jogou a cabeça para trás e depois para frente com intensidade, e deu apenas um grito.

- BURRO. Burro, burro, burro, BURRO!

Madileni abriu um arquivo no Dispositivo Pessoal de Tolibar e acessou suas localizações. Gurake encarou o mapa e franziu a sobrancelha.

- Não dá para alguém estar em um lugar e então no outro nesse tempo. Tem um monte de buracos nos horários, isso está errado.

Tolibar gargalhou. A reação coletiva foi de se preparar para se defender e atacar, mas após retomar fôlego, ele abaixou a cabeça e voltou a falar normalmente.

- Meninos burros. Só conseguem ver o que conhecem. Só conseguem imaginar o mundinho deles. Tem tanta coisa além das ruazinhas que vocês protegem... Não, não, Espaço é um lugar. Tem alguns idiotas que agem como se fosse uma associação, mas é tudo tolice. Um lugar com outros como eu, mas não poderiam ser mais diferentes de mim, ou com menos intenções em comum, não estariam juntos comigo nessa nem que eu os chamasse. Eles têm medo de qualquer coisa que esteja além do Espaço. Eles protegem esse mundinho chato e precioso de vocês de saber de gente como eu. O Espaço... Huhu... Huhuhuhu... o Espaço é muito mais, mas no momento em que eu decidi morrer, o Espaço era tudo que alguém como eu podia querer. Um lugar disposto a aceitar uma pessoa estranha como eu. Porque... – Ele enncarou Knuksi com uma expressão de simpatia que o enojou -Não fique tão descrente antes mesmo que eu termine, senhor justiceiro! Não posso ler seus pensamentos, mas sei exatamente qual seu estado mental, e você é fechado demais, sabia? Eu sei, eu posso sentir. Porque eu sou um empata do Espaço, eu posso ler emoções e sensações, manipulá-las e criá-las... E você é apenas uma pessoa normal. Ah, o sentimento da descrença. Por que voc6es todos não perguntam ao nosso amigo de tapa-olho?

Madileni apertou a mão contra o tempo e Miyukashi o puxou para junto dele. Houve uma rodada de murmúrios. Masachiel conseguia e ao mesmo tempo não conseguia acreditar naquelas palavras, e procurou alguma resposta em Kiieth, que ficou estático. Gurake considerou que aquilo merecia outro copo d’água para que parasse de gastar o tempo deles, e Madileni e Miyukashi apenas se entreolharam. Para eles que tinham enfrentado Tolibar em um ataque real, aquilo era plausível, mas ainda assim, parecia novamente aquela afirmação sobre ser um monstro. Ele não era um monstro, era apenas uma pessoa normal, imobilizada e sangrando. Não, corrigindo, era apenas uma pessoa. Não uma pessoa normal. Isso eles sabiam que não era. Por tudo que tinha ocorrido sem sequer serem tocados, por aquela noite, eles podiam aceitar que ele não era uma pessoa normal.

No meio da reflexão coletiva, uma risada encheu o ambiente. Não era de Tolibar. Knuksi encarava discretamente Bach enquanto refletia sobre aquelas palavras, parecia ter perdido a compostura e o controle, tinha até mesmo lágrimas nos olhos. Ele riu por muito tempo, e com um sorriso discreto no canto dos lábios, o jovem capturado fez uma cara de cansado.

- Pelo visto eu sou um ótimo comediante...

- Sério mesmo? Não, não... Sério?! Eu não sei o que o seu grupo inventou, que tipo de droga em induz euforia coletiva, o que qualquer coisa vocês estão fazendo, mas essa é sua melhor desculpa? “Eu tenho um super poder”? Não, não, definitivamente, eu vou arrancar suas unhas uma por uma se for necessário para você me levar a sério. Meus mentores na Aliança nunca foram muito a favor dessa coisa de julgamento humanitário.

- Você não acredita.

- Eu... É claro que eu não acredito. Ninguém aqui acredita. – Ele olhou para os outros. Tolibar suspirou.

- As crianças acreditam. São crianças muito mais inteligentes que você.

Knuksi queria manter Madileni fora disso.

- São crianças. Mas vamos, vamos, continue, é um ótimo entretenimento. Ninguém aqui tem mais o que fazer até o fim da tarde, eu tenho muito tempo em pensar como vou sujar menos a cozinha com seu sangue, Shiraiku vai nos fazer limpar mesmo, pode continuar sua história!!!

- Waaaah, você ainda não acredita, estou ofendido! – O tom era irônico - Bom, vamos pensar, como vamos provar isso. Não vai adiantar eu falar muito, afinal, minha habilidade é muito diferente daqueles brutamontes com poderes físicos... O que eu posso dizer... Posso apontar a angústia e o ressentimento do saariano ali?... – Tolibar olhou para Kiieth como se fosse uma boneca de porcelana – Tão frágil... Tão transparente... Por que não fala a verdade? Você não queria estar aqui. Só está aqui porque tem medo de ir embora, mas você acha que depois da primeira traição só é questão de tempo para outra e mais outra e mais... Ah, esse rosto de raiva... Mas você não nega... E as duas crianças... – Ele se voltou novamente para Knuksi – Não, não precisa me mandar calar a boca ou tirar outro pedaço, eu já entendi, eu entendi a sua intenção enquanto ela ainda era uma fagulha no seu subconsciente. Mas de que adianta eu falar, não é? Você vai dizer que eu, sei lá, ando como um maníaco vigiando a vida de vocês ou arrancando informações dos soldadinhos que ocupam as ruas, e alterando as memórias deles como um cientista louco...

- Vou. Que bom que você sabe.

- Uhm... Se eu fosse um daqueles brutamontes que pode simplesmente crescer um rabo acho que tudo ficaria mais fácil de provar, mas infelizmente está no sangue da família ser um pouco mais elegante. Então, vamos começar assim... Bach, está dispensado.

Quando as palavras foram pronunciadas, a porta dos fundos da loja fez como se abrisse sozinha, um fantasma sobreposto à porta real. Em vez de visualizarem o jardim, era como se ela se abrisse ao nada. Bach, simplesmente foi arrancado do seu lugar, com cadeira e tudo, como se um elástico tensionado tivesse sido solto e o puxado para trás. Ele sumiu porta adentro, e então ela fechou, batendo com força como num dia de vento, e voltou a se abrir de leve com o ricochete, agora de verdade. O jardim estava lá.

- Oh, a cara de você diz que foi um bom começo mandar Bach de volta para o Espaço.

Madileni tinha tropeçado na própria capa ao dar um pulo para trás e caído sobre Miyukashi. De imediato, ninguém conseguiu reagir, porque ninguém conseguia pensar mais. Tinha sido muito menos impressionante que os efeitos nos filmes. Mas tinha sido real. Knuksi se ergueu num pulo da cadeira. Ele apontava um dedo para Tolibar que tinha uma expressão calma e satisfeita, o rosto ainda sujo de sangue e o pé começando a deixar uma mancha vermelha no chão. - Você, você... Foi assim que...

- Hahahahaha, não, não, não. Eu? Isso só funciona com ele porque ele, bem, ele não existe. Não de verdade, é totalmente dependente do Espaço e de mim. Não consigo fazer isso, eu teria de realmente ir até a porta, abrir ela e passar por ela para ir ao Espaço. Hahahahaha, sim, sim, eu sei o que você vai perguntar, o Espaço também está aqui. Eu disse que era um lugar, mas é porque sinceramente não tenho um vocabulário melhor para dizer. Mas se você quer saber mesmo como eu escapei naquele dia, foi mais ou menos... Assim.

Knuksi sentiu sua mente ficar leve. Seus pensamentos se esvaziaram, e então Tolibar estava sentado sobre a mesa, solto, com uma pose de vitória, mas respiração cansada, comendo um biscoito. Gostar de sangue pingavam de seu pé, a faca estava fincada no tampo da mesa ao lado dele. Haviam pegadas de sangue. Knuksi teve um instinto te atirar, mas seu corpo não reagiu, e de alguma forma, ele sabia que não era sua vontade própria o impedindo.

- Não, não, já conversamos sobre essa sua mania de tirar pedaços de mim. Vamos controlar esse temperamento, eu não posso me regenerar igual o Bach. Mas acho que agora todos vocês estão um pouco mais dispostos a acreditar em mim, não?

- Você... Parou o tempo.

Tolibar começou a rir descontroladamente, enquanto batia as mãos nas próprias coxas e agitava as pernas. Por fim apontou ao relógio da parede. Já era meio da tarde.

- Não. Esse é um poder que eu não tenho. Admiro muito quem tem, porque dá muito trabalho usar. Pessoas não param o tempo, sabia? Elas só se aproveitam da relatividade, acho, eu não fui para a faculdade... – Ele perdeu o folego um momento, ainda se recuperando das risadas. - Eu não, eu só alterei as percepções de vocês do mundo ao redor. Se eu pudesse parar o tempo, aquele dia Bach não teria levado um tiro, eu teria desviado, mas não, eu tive de fazer ele levar o tiro por mim. O tempo passou, vocês que estavam desconectados com o mundo e... Bwaha... Hahahahahaha... Bom, alguém devia ter filmado. Vocês todos olhando rumo ao nada e eu pulando com a cadeira amarrada, e gritando quando tive de andar com o pé da faca presa, e ai descobrindo que não conseguia ficar em pé nele, e então atravessando tudo amarrado a cadeira e pulando em um pé só até conseguir cortar as cordas... Eu nunca fui muito atlético... – Knuksi encarou a trilha já não tão fresca de sangue pelo piso –Pensando agora eu devia ter deixado Bach aqui para me ajudar. Foi tudo muito mais ridículo que o outro dia. Muito mesmo.

Gurake abaixou a guarda e se jogou sentado no chão. Aquela altura até ele compreendia que a Loja já tinha perdido há muito tempo, e que não havia motivo para ficar alerta, o outro não estava lá para lutar. Knuksi desviou os olhos pela primeira vez. Escondido atrás de Kiieth, Masachiel fez a pergunta que Tolibar queria ouvir.

- Por quê? Apenas... Você podia ter simplesmente saído e ...

- Bingo. Eu podia simplesmente ter pulado em um pé só e saído daqui, eu podia... Eu podia ter tirado a arma do nosso amigo camuflado e bang. Mas por que eu não fiz isso? Senhores, senhores... Eu não espero que vocês compreendam o Espaço e... Para falar a verdade os outros certamente acham que deve ser algum tabu falar abertamente nele como eu estou fazendo, mas eu sinceramente não gosto de mentiras, sendo mais exato eu sou incapaz de mentir e eu passei por muito transtorno para encontrar um lugar em que eu pudesse falar dessas coisas com alguma esperança de que me escutassem. Eu não acho, ou melhor, eu sei que nenhum de vocês tem medo real de mim. Todos vocês tem plena capacidade de se defender, melhor que todos os outros que eu testei incessantemente. Eu não queria uma pessoa normal. Eu queria gente que já tivesse uma predisposição a saber que existe algo além... E aí existem vocês. Se você quer saber um simples por que, é porque eu preciso de um lugar para ficar. Alguém escreveu um roteiro para minha vida e eu estou disposto a não seguir ele então... Eu decidi que precisava de um lugar para ficar. Parabéns, vocês foram os eleitos.

Ele abriu os braços amigavelmente, enquanto os outros se encaravam. Knuksi piscou repetidamente.

- Não, não, não, ficar? Ficar aqui? Oh, não, não, eu não sei o que você está pensando, mas não, não somos uma hospedaria. Você vai sair daqui direto para o escritório de Comet, só isso.

- Não, não são. Mas qual o problema? Dinheiro? Eu tenho. O sigilo da profissão de vocês? Eu certamente não poderia ligar menos, e se eu ligar, eu posso adicionar todo um mundo novo de conhecimento. Acho que vocês não entenderam. Vocês foram os felizardos escolhidos. Não é uma opção, não é um prêmio que vocês podem recusar. Não me olhem com esses rostos agressivos, esse estado de humor me faz cócegas nas costelas. Eu não ligo para o que vocês acham, eu podia simplesmente entrar aqui e convencer todos vocês de que vocês me amam e pronto, ficar. Seria de virar o estômago, mas estou crente de que consigo. Mas assim como eu não atirei em ninguém, eu não fiz isso. – Ele levantou da mesa e saiu mancando coletando os itens retirados dele na revista. – Eu vou dar um tempo para vocês se acostumarem, apenas porque eu sou incrivelmente bondoso. – Ele parou para rir da própria piada – Reparem que eu disse acostumar, não decidir, a decisão já foi tomada. Volto em breve. – Ele mandou um beijinho no ar, e sumiu pela porta dos fundos da mesma forma que Bach.




A porta se fechou e todos olharam um para os outros, sem dizer nada.

Comet encarava o jovem com óculos de lentes pequenas e redondas enquanto batia repetidamente a ponta da caneta contra o tampo da escrivaninha. Shiraiku apertava as mãos contra os joelhos das calças, uma embalagem de comprimido amassada entre seus dedos, tentando parecer firme.

- Você quer tornar seu local oficialmente parte do grupo?

- Eu quero impedir novos transtornos.

- Até onde me consta você sequer gosta da presença deles, meu jovem. Isso me trás muitas dúvidas sobre como agir...

- V-você tem razão. Eles são barulhentos, eles afastam meus clientes, são insensíveis, acham que a comida deve estar pronta quando eles chegam, e eu nem sei quando eles chegam nem sou empregado deles... Mas eu não posso fazer eles irem embora.

- Por que não? Achei que a loja era sua.

- Ayan e Lienara não foram quando eu tentei.

- Ayan e Lienara não estão mais aqui Já tentou de novo.

Shiraiku ficou em silêncio um tempo.

- Eles são pessoas estranhas envolvidas com negócios que eu não gosto, mas meninos puros como Miyukashi e idiotas como Gurake precisam de um lugar. Eu nunca desejei o mal para nenhum deles. Não é como eu gostaria que eles sumissem.

Comet deixou o corpo tocar o encosto da cadeira.

- E você acha que se você pudesse ter gerenciado o que estava acontecendo, poderia ter impedido os fatos?

- Talvez, eu nunca saberei, mas eu posso tentar amenizar os danos no futuro, não posso?

- Knuksi está na cidade temporariamente. Gurake é apenas um aprendiz que agora não tem mais um tutor. Kiieth é um homem livre. O que te faz pensar que eles vão te seguir.

- Não precisam me seguir. Apenas ter um senso de unidade entre eles, de forma oficial, eu aceitaria isso. Como vai acontecer eu deixo em suas mãos.

- Não pode ser tão inocente a ponto de estar pedindo por isso.

- Não sou inocente. Estou apenas tentar transformar o caos fora de controle em algo mais... Tolerável? Talvez seja essa a palavra.

- Estou em dúvida se você está agindo por eles ou sendo egoísta e tentando apenas salvar sua consciência... Mas tudo bem, vamos dar uma chance... – Ela esticou uma caneta e um contrato par ele - E por favor, decida-se se vai deixar a cor natural do seu cabelo ou esse verde desbotado. Está horrível assim.




Shiraiku deixou aquele local no Porto tremendo, e sabia que não era devido ao frio. Tinha sido uma semana difícil e ele não deixava de se sentir culpado. Não sabia ao certo pelo que. Talvez por não ter se afastado disso antes de se envolver demais. Talvez por ter fingido que os problemas deles não eram seus. Não queria pensar muito sobre onde teria chegado se tivesse entendido errado as instruções de Miyukashi para aquele lugar. Bom menino, não tinha feito perguntas. Pegou o bonde para subir a avenida e caminhou em passos lentos para a loja. Suspirou conformado ao ver as persianas abaixadas, mas estranhou as luzes apagadas no térreo ao entrar. Subiu devagar para o sótão apenas para encontrar todos sentados ao redor da mesa de centro. Miyukashi estava no colo de Gurake, Knuksi e Madileni sentados no chão assim como Kiieth, Masachiel com seu gato, encolhido. Shiraiku parou por um tempo esperando respostas, mas todos apenas o olharam de volta. Precisou falar.

- Aconteceu algo na minha ausência?

- Bom. – Masachiel sorriu – Acho melhor você se sentar e julgar por si mesmo.

Uma narração dos fatos se seguiu com todos os outros em completo silêncio.



Noites depois, como um poltergeist Tolibar voltou. Ninguém olhava nos olhos dele, e todos tentavam se convencer de que estavam influenciados para serem impotentes no caso. Nenhum deles conseguia colocar na prática uma intenção agressiva. Shiraiku parecia anestesiado e fora de si quando cruzava com ele. O Demônio entre os Demônios do Espaço simplesmente ficou.









Parte I - Da fundação da Loja

FIM