
Com a visão escurecendo lentamente, Lienara viu Ayan chegando na beirada do edifício. Ficou feliz de ver ele, mas desejava que ele não a visse. Não daquele jeito. Não como ele sempre teve medo que acontecesse. Sabia que era uma boa hora para se desculpar por se colocar em perigo, de novo e de novo, mas não se arrependia de nenhum momento passado ao lado dele.
Nenhum, desde aquela tarde, muito antes da Cidade do Porto.
Ayan estava deitado na cobertura de um edifício. Ele não gostava particularmente da aparência dos edifícios mais modernos, mas a idéia de uma laje plana no topo, e não telhas o agradava. Era mais fácil de procurar um lugar de repouso, era mais fácil de correr entre eles sem ter de se equilibrar nas platibandas, e era bom para ficar sentado observando a cidade. Tinha se enfiado parcialmente sob a estrutura de uma caixa d’água suspensa, em um misto de aproveitar o sol do fim de tarde e tirar um cochilo antes de iniciar seu turno de trabalho. Ele era novo naquela profissão. O irmão mais velho estava nisso há mais tempo, sem nunca lhe despertar interesse, até a morte de seus pais poucas semanas atrás. Agora ele precisava do dinheiro, e estava concluindo sozinho que não servia para aquilo.
De olhos fechados, sentiu alguma coisa tapar o sol, e resolveu esperar a suposta nuvem passar. Se irritou um pouco com a demora, e começou a sentir seu nariz coçar, como se alto fino estivesse se esfregando nele. Abriu os olhos aos poucos. Havia uma pessoa lá. Inexperiente, tentou levantar de sopetão e se colocar em uma posição de defesa, mas o outro indivíduo, sentado ao seu lado e curvado sobre ele, foi mais rápido, torceu seus braços juntos sobre a cabeça, os imobilizando com uma mão só, e enfiou o outro cotovelo em seu estomago, curvando a ponta do indicado sobre seus lábios me uma menção para que ele ficasse quieto.
Naquela posição, ele podia saber que estava sendo atacado por uma garota, que mesmo usando um cachecol, o zíper da blusa dela estava aberto e que ela estava inclinada e perto demais. Seus rostos estavam quase se tocando e ele imaginava que aquela massa estranha caindo sobre a face dele era cabelo. A menina se curvou mais e sussurrou em seu ouvido.
- Eu vou te soltar, ok? E você vai ser um bom menino, porque se eu quisesse ter feito algo, eu não ia te dar tantas brechas para se defender. Eu sou boazinha, sabe?
Ele foi solto com um pouco de brutalidade, e aos poucos tomou consciência da própria respiração acelerada e assustada. Lienara se sentou com as costas apoiadas em um pedaço da estrutura da caixa d’água e sorriu para ele. Tinha cabelos laranja como os dele, mas exageradamente longos, e olhos de um tom semelhante arroxeado, que denunciavam que eles pertenciam ao mesmo povo, o que era incomum naquela cidade. Ele ficou deitado, na posição em que fora solto, sem reagir, por tempo demais, e isso fez a menina começar a rir.
- Você é exatamente como disseram!
Ele piscou os olhos repetidamente.
- Como... Como disseram? Quem disseram?
- Os outros informantes, bobão. – Ela puxou do bolso um Dispositivo Pessoal, e foi a primeira vez que ele viu a projeção de alguém acessando o banco de dados interno dos informantes - Vamos ver, aqui, isso foi o que escreveram ... Um dos meus, indicado pelo irmão, todo atrapalhado sempre que pedem para fazer alguma coisa, com um relógio de bolso decorado com um dragão preso no peito, extremamente atrapalhado, tímido demais e puritano demais, mesmo entre quatro paredes quando foi apresentado ao informante que fez a ficha. As apostas dizem que você não dura seis meses.
Ayan escondeu o rosto entre as mãos. Se era essa a propaganda sobre seus serviços, ele preferia escavar um buraco e se esconder para sempre.
- Mas... – A menina continuou e ele não queria ouvir se ainda havia mais – Ninguém disse que você era bonitinho assim.
- Ahn?
- Sua ficha não tem foto. Parece que te consideraram em um nível baixo demais para gastar hospedagem com uma foto. – Ela riu de novo e fechou o dispositivo, estendendo a mão para ele em cumprimento – Lienara, sou informante da mesma região que você se inscreveu. Eu estava afastada no dia, não vi o desastre lendário que você foi. – Ele aceitou apertar a mão da garota relutante – Mas acontece. Você é jovem.
- Se o que você está falando é verdade é melhor eu nunca mais pisar na sua região...
- Bobão, é exatamente o que você não pode fazer. Se você se esconder, você nunca vai conseguir um trabalho bom e nunca vai provar para eles que estavam errados. – Ela se levantou dando piruetas, e esticou os dois braços para ele, em um convite de que se erguesse também. – Vamos!
- Para onde?
- Para onde mais? Procurar um trabalho interessante!
- Não sei o que você quer, mas eu não tenho dinheiro para te dar para subir minha ficha de nível.
- Ora, e eu pedi dinheiro?
- Você é uma informante e é isso que informantes querem.
- Geralmente, mas... Dessa vez eu estou afim de te ajudar. Você é um desastrado, eu sou uma desastrada, vamos ser uma grande dupla, ok? Só me prometa que você é mais competente do que diz a sua ficha, seria uma pena você morrer porque eu tentei te ajudar.
Ele riu e aceitou ser erguido por ela.
- Ok, eu prometo. Não vou morrer antes de você.
Balançando no fundo de um vagão de carga, Ayan acordou com lágrimas nos olhos. Estava tudo errado, não era aquilo que ele queria dizer no dia que se conheceram. Não tinha muita certeza de onde estava indo, só queria se afastar de tudo aquilo.
Longe de lá, informantes e agentes de campo se reuniam no cemitério da cidade, em um espaço particular. Na maioria dos lugares, eram cremados, Smile sempre insistia nisso, mas Comet gostava de lápides. Eram a prova de que ela tinha errado e precisava aprender muito ainda.
Miyukashi chorava de mãos dada a Gurake e Masachiel tocava uma música triste. Assim todos se despediram dela.
Parte I. Extra
FIM