O Conto da Sweet and Dark Store

Capítulo III. Kiieth do deserto

Após semanas de um horrível e desagradável calor, finalmente estava chovendo. Os dias anteriores tinham se resumido às discussões de sempre entre Shiraiku e os inquilinos mas agora que a chuva batia no vidro da janela do sótão, tudo parecia deprimente, excto pela visivel ansiedade do lojista, que contava as horas para ter a irmã mais nova visitando a loja. Seria o primeiro contato desde que tinha saído de casa e alugado o lugar, e estava disposto a trancar todos no sótão se isso fosse necessário para que sua irmã tivesse bons momentos, e voltasse para sua terra natal dizendo aos pais que ele estava no caminho do sucesso.

Lienara jogava xadrez contra Gurake, com o tabuleiro apoiado sobre uma das caixas do estoque. Com o cachecol vermelho no pescoço, ele esfregava as mãos de ansiedade a cada movimento que precisava fazer. A informante estava perdendo; se perguntassem o motivo, ela inventaria que estava desconcentrada e irritada porque era um daqueles dias em que o Porto recebia navios com gente que ela talvez não quisesse ver, ficar presa a irritava. A verdade era ao contrário, não estava perdendo por estar desconcentrada, estava assim por estar perdendo para um cara que ela equiparava o Q.I. ao de uma lagarta.

Miyukashi olhava os dois, sentado ao lado de Ayan, adormecido, na rede pendurada entre a estrutura do telhado, vibrando a cada peça branca que o irmão jogava em sua pilha de conquistas. Um dos cavalos de Gurake derrotou a principal torre de Lienara e ela virou o tabuleiro bufando enquanto Gurake ria e recolhia as peças do chão. Em um pulo ela se jogou na rede, fazendo Ayan abrir um olho e se virar para voltar a cochilar. O vencedor tocou em sua flauta de madeira uma melodia de provocação e Lienara ergueu o dedo médio para ele.

Yuka pulou da rede desajeitado, ainda aprendendo a fazer esse tipo de acrobacia, e pediu para jogar também, mesmo escutando que o outro não ia facilitar. De tempos em tempos um raio iluminava o céu, fazendo brilhar por trás das persianas as grandes janelas que ladeavam a porta servindo de vitrine à loja; no sotão isso quase não tinha efeito, com as janelas minusculas parcialmente encobertas. O menino aporveitava o momento raro em que todos estavam juntos quando Shiraiku subiu ao sótão praticamente embrulhado em plástico, com dua capa de chuva, galochas e outros acessórios.

- Estou fechando a loja por hoje, vou recepcionar Midnight na estação ferroviária. Vai trabalhar hoje, Yan?

Ayan bocejou.

- Vai pegar a balsa com essa chuva?

- E existe outra alternativa? Não quer que eu deixe ela na cidade do outro lado do rio plantada me esperando, quer? É perigoso para uma garotinha.

- Ouviu, Lie? É perigoso para garotinhas ficarem por aí soznhas.

- Vá se ferrar, Yan – Ela ainda estava irritada por perder – Eu preferia estar lá fora.

- Com essa chuva eu sinceramente dispenso. Eu trabalhei o suficiente para ter uma folga hoje.

Shiraiku largou os dois brigando e saiu, quase arrastado rua abaixo pela correnteza que se formava na rua. Ayan voltou a dormir, e aquela tarde seguia coroada com paz e tranquilidade. O cálculo era que a travessia de balsa para o outro lado do Porto, devidamente conectado com o resto da civilização e do continente por uma ferrovia, demorasse quarenta minutos em condições normais, com essa chuva, o tempo poderia dobrar ou mesmo ter a travessia suspensa. Para qualque rum deles faria mais sentido que Shiraiku apenas esperasse desse lado em vez de realizar o trajeto duas vezes, mas eles sabiam que o senhorio não pensaria assim, tinham escutado sobre essa visita por semanas incansáveis.

Já havia passado tempo suficiente para a chuva se acalmar e eles estourarem pipocas quando o relógio com o dragão incrustrado no peito de Ayan começou a tocar. Ele abriu a tampa e observou a tela interna, descrente.

- Quem nos dias de hoje liga de teleofnes públicos? – Ele aceitou a chamada, do outro lado da linha, Shiraiku parecia incomodado.


‘Yan, por favor, eu preciso de um… dos seus, por favor, não me faça falar você sabe.’


- Algo aconteceu de errado? Você não encontrou sua irmã?

No fundo da linha uma voz irritante de criança resmungando na língua comum indicava o contrário.


‘Não, nada disso, desviamos o caminho para evitar a Rua Quinze, você sabe, ela alaga, é horrível, e então Midnight viu uma pessoa jogava em um canto… - Yan interrompia com grunhidos indicando que ainda estava ouvindo de tmepos em tempos - Eu queria passar direto, é claramente um vagabundo, mas Mid é uma menina de bom coração e insistiu que fôsemos ver e eu vim…’


- Wow, você tentou negar quando era uma criança, você deve gostar mesmo de fazer pose para a irmãzinha.


‘Menos, Yan! Eu achei que era só um bêbado, mas ele parece bem mal, na verdade eu achei que sestava morto mas parece respirar e Mid não quer deixar ele aqui e eu não quero ficar porque se alguém passar por aqui vai achar que eu estou envolvido!’


- Ok, me passe suas coordenadas… - Ele fechou o relógio e se jogou da rede. – Lienada, você vem comigo, posso precisar de um informante. Gurake, por favor fique perto do telefone da loja, se Shiraiku não quer se envolver e prcisarmos de ajuda vai ter de ser você mesmo.

Amaldiçoou enquanto pisava nas poças d’água e puxava sua camiseta mais próxima ao rosto para se proteger do vento gelado. Caminhou mais do que gostaria em seu dia de folga.

-Definitivamente, - Lienara mantinha um tom de deboche mesmo em situações delicadas- esse bronzeado do garoto não é praia. Esse cabelinho loiro escuro e essa maquiagem nos olhos são coisa do povo dos desertos no sul do continente antigo.

Shiraiku tenatava manter a irmã de cabelos longo trançados afastada enquanto os dois observavam o jovem em roupas de tecido cru, semi transparente pela água, jogado em um canto, maquiagem preta escorrendo pelo rosto. Seus pulsos estava adornados em jóias brilhantes mas também cobertos em escoriações e hemtomas que se espalhavam pelo corpo.

-Bom, isso dá para deduzir pelas roupas. –Ayan parecia entediado – Saariano, você é informante, Lie, sabe muito bem que ele só pode ser saariano. Tinha um navio saariano aportado ontem à noite, mas era algo rápido, já deveria ter partido. Bom, vou telefonar e pedir que alguém remova ele, é meu dia de folga, que se virem.

A irmã do lojista olhou indignada.

- Como assim? Não vamos ajudar ele!

-Ahn? Não tenho nada a ver com isso. - Ayan esticou o dedo em direção à garotinha. – Já vou ajudar o suficiente telefonando.

Midnight encarava o irmão mais velho com olhar de reprovação.

-Shira-shi! Como assim não vamos ajudar?! Como podem garantir que ele vai ficar bem? Ele está ferido e fraco... Não é isso que o nosso pai ensina para a comunidade. Pouco tempo fora e já está se desviando dos ensinamentos de compaixão das escrituras... Irmão, eu tenho vergonha de você!

- Eh? Escrituras? - Lienara ergueu uma sobrancelha - Seu pai é pastor ou algo do tipo?

-E se for? – Midnight inflou o peito.

-Waah. Pastor de verdade? Isso ainda existe?

Lienara pisou no pé dela mas só arrancou risadas.

- Faz mais de 300 anos que se assinou o Acordo Internacional que separa governo e religião, garotinha, isso é realmente raro hoje em dia. Poucos lugares não tem a população totalmente seguidora da ciência. Da onde eu venho algumas das grandes catedrais viraram escolas ou bibliotecas. Uma até virou um hospital muito famoso.

As duas meninas se encararam e então o sorriso de Lienara ficou malvado.

- Pois bem, Yan, vamos ajudar ele. – Yan encarou Lienara confuso – Eu gaguejei? Vamos ajudar ele. Eu tenho certeza que Shiraiku vai adorar . - Com o tom de deboche dela a alma do lojista pode ser vista saindo um pouco do corpo enquanto ele acenava negativamente com intensidade.

Midnight só aceitou seguir para a loja com a promessa que os dois ficariam e o ajudariam. E foi assim que pouco tempo depois a campainha de Zollrien tocou. Ele encarou confuso para o saariano sendo carregado por Yan.

-… E dessa vez tem algum motivo em especial também ou você realmente está amolecendo? – A resposta foi um bufar – Ok, ok, pra dentro. Vão ter de por ele no leito mais no fundo, os da sala de sempre estão ocupados. Uma confusão, Comet acabou de sair daqui.

A informante verificou seu Dispositivo Pessoal.

- Não recebi nenhuma notícia de nada.

Zollrien ergueu o tecido que fechava uma das macas, um corpo jazia coberto em um lençol. Na outra, um jovem amarrado à maca estava dormecido.

- Aquele é o Franz? – Zollrien acenou com a cabeça. – E esse… - Antes que ela completasse, ele acenou novamente – Mas o que houve?!

- Franz está apenas dopado. Estava alucinando, falando que foram perseguidos por um ser maligno. Se jogou de uma escada de emergência para escapar. Pelo menos foi o que eu consegui entender, estava totalmente fora de si antes de eu entrar com as drogas. A outra... Bom, seja o que for que aconteceu, ela tentou correr pelos dutos subterrâneos, uma insanidade nessa chuva, o primeiro escape que abriu e ela foi coberto pela água, não teve chances. Comet acha que alguém drogou eles, não quer que saia daqui a notícia sem ordens dela.

- Uma pena. Não gosto de ver mulheres nesse país morrendo sem motivo.

- É só isso que você enxerga? Uma mulher morta?

- Sou realista, Lienara, não sou amigo da maioria de vocês, meus negócios acabam quando vocês pagam, porque iria fingir que sinto? Mas considerando a proporção de mulheres nesse país, eu lamento sim, em breve vamos estar importando garotas para existir. Não sei como o Exército da Aliança não viu ainda o potencial de negócio envolvido.

A jovem fez uma expressão enojada.

- Isso não faz sentido. Pessoas experientes demais para terem sido enganadas. Seres do mal? Só consigo pensar naquelas vovós dizendo que os festivais atraem essas coisas.

- Eu não trabalho com sentido, Lienara, apenas com fatos. Não vou tentar provar uma lenda urbana do mal, não muda os fatos. E... – ele fechou bruscamente a cortina – Você não viu nada e não sabe de nada, já se meteu em confusões demais por saber coisas que não devia, mocinha. Agora vamos ao amigo de vocês. – Ele apontou para a outra sala e saiu andando sem se comover.

O médico removeu com algum esforço a roupa molhada dele e examinou os ferimentos.

- Oh, seja quem for que queria acabar com o amigo de vocês, se esforçou bastante. – Ele ouviu ao fundo Ayan resmungar que eles não eram amigos - Ele teve sorte que a pessoa não tinha uma arma, teria virado uma peneira.

Lienara, sentada em um canto, tinha se apossado de um dos computadores de Zollrien e pesquisava o navio saariano aportado nos últimos dias.

- Eu acho que achei algo sobre ele.

- Era de se esperar, Lie, ninguém sai de um navio nessa cidade sem que a Comet saiba.

- Errado, Yan, acho que ele nunca saiu do navio.

- E o que devemos entender disso?

- A ficha do bonitinho existe para controle apenas. Ela não foi traduzida para a nossa língua nem para a língua comum. - Na tela holográfica do computador, a garota exibia uma ficha normal, porém preenchida com tipografia repleta de arabescos. – E eu coloco minhas fichas que o bonitinho aí não sabe nossa língua, com muita sorte a língua comum.

Ayan apenas suspirou e abriu uma das janelinhas basculantes do porão observando o clima lá fora. Abriu seu relógio e buscou o número nos contatos. Ele não ia voltar para o frio em seu dia de folga, muito menos arriscaria Lienara sozinha.

-Gurake, faça um favor. Vá até o bar do outro dia. Diga ao bartender que precisa de alguém que fale saariano ou sei lá eu o que eles falam pelos lados do deserto. Não queremos nenhum acadêmico, queremos algo barato. Pensando bem, leve o Miyukashi junto, ele é mais sensato que você.


Miyukashi mal se conteve no caminho. Não era como se a Sweet and Dark estivesse preparada para qualquer coisa, e só havia um guarda-chuva disponível naquele momento. Considerando a diferença de altura entre os dois se Gurake o segurava, Miyukashi ficava totalmente exposto a chuva. Se invertiam, era impossível para Gurake se abrigar. Por fim, Gurake carregou Miyukashi nos ombros, com o pequeno segurando o objeto, com uma mão e sua espada com a outra, e resolvendo parcialmente o problema. Saíram sob o olhar controlador de Midnight e a vontade de Shiraiku de trocar a fechadura durante esse tempo.

O menino continuava a não se senti bem ao caminhar pela zona portuária. O céu estava escuro e ele se concentrava fixamente em acompanhar os pés do irmão mais velho, evitando as paredes claustrofóbicas que delimitavam o caminho. Respirava mais tranquilo quando passavam por um canal, cheio e turbulento naquele dia, mas aberto e espaçoso. Quase não havia pessoas no caminho, era um daqueles dias em que os informantes em serviço vigiavam por janelas e somente os mercenários estritamente em seus turnos ou tarefas andavam por aí, miseravelmente molhados. De dentro de muitos galpões era possível ouvir falatório e risadas, se não estavam na rua todas aquelas pessoas estavam buscando diversão e uma bebida para se aquecer. O bar de Smile não era excessão, todas as mesas ocupadas e as cadeiras no balcão sendo disputadas. Homens e mulheres sentados no chão e recostados nas paredes brindavam.

Gurake tomou se volta sua espada e fez Miyukashi descer de suas costas e esperar enquanto se espremia entre as pessoas tentando chegar ao bartender. Tentou não encarar muito as pessoas, instruções de Ayan e fixou os olhos na televisão que exibia uma reprise de um seriado qualquer. Uma mesa ao seu lado foi esvaziada e sem pensar ele apenas se sentou e continuou encarando a tela. Ele foi puxado de volta à realidade por um arrepio percorrendo seu estômago no momento em que uma caneca de vidro exagerada foi jogada na sua mesa com espuma sendo derramada, e a cadeira do lado oposto puxada com violência e com uma pessoa se jogando nela sem cerimônias.

-Então, o coelhinho assustado veio morrer de livre e espontânea vontade?

Com a mesma capa batida de antes, mas com as faixas que embrulhavam seu olho direito substituídas por um curativo, o garoto dos Alpes se sentou desleixado e sem postura. Yuka não pode deixar de notar que, assim como os dele, seus pés não tocavam o chão quando sentado naquela cadeira. Olhou ao redor procurando pelo jovem que estava com ele naquele banco anteriormente, mas nada, ele estava sozinho.

-E então, coelhinho, aprendeu a andar por aqui? Ou teve de ser resgatado de novo?

-...-Miyukashi bufou e apontou para Gurake no balcão- Estou com meu irmão.

O outro menino olhou ao redor e depois entre Gurake e Miyukashi. Bateu na mesa enquanto ria e sua bebida balançou dentro da caneca.

-Eeeeeh... Então aquilo é seu irmão? Não o cara que te salvou? Me faça mais um favor e se alguém te perguntar, minta, não passe essa vergonha a toa! Mas que droga, eu definitivamente devia ter acabado com você, achei que ia comprar briga a toa e meu primo pediu para eu não fazer isso, mas era só aquilo... – Ele enxugou com as pontas dos dedos as lágrimas que escorriam de sua risada.

-Escute aqui, meu irmão é incrível e o sr.Ayan que me salvou também não deixaria você fazer nada, então se me dá licença.... – o outro menino ergueu a caneca e tragou um gole - O que você pensa que esta fazendo?!?!

-Bebendo.- O líquido escorria pelo queixo dele – Eu tinha bolo antes mas acabou, me prometeram que teria mais até o fim da tarde mas o negócio está movimentado hoje. Acho que eles ganham mais vendendo batata frita do que assando bolos.

-Isso é alcoolico! Você não é mais velho do que eu, isso é errado!!!

-Dez, eu tenho quase dez, por favor, não me compare com você! E isso é sem álcool. Nem aqui me venderiam cerveja com álcool. Eu tentei, não vou negar, riram da minha cara e me deram um pirulito.

Miyukashi buscou argumentos, mas outra pessoa se apoiando na mesa o distraiu em um novo susto. Um homem de meia idade com uma gravata borboleta e um sorriso imenso estava curvado sobre os dois e Gurake em pé atrás dele. O outro menino ergueu a caneca e abaixou a cabeça em um cumprimento.

- Senhor Smile, é uma honra. Algum problema?

-Oh, não, apenas aproveitando oportunidades, mas... Ah, que adorável, já se conheceram? Gurake, esse é Madileni, de quem eu estava te falando. Me parece a pessoa ideal para o trabalho.

- Trabalho? - ele pousou a caneca e agitou a palma da mão em negação – Com o devido respeito, não tenho autorização para aceitar um trabalho enquanto meu primo não voltar, eu levei uma daquelas no último telefonema.

-Sem preocupações! É apenas um interprete que eles querem, você conhece as línguas do deserto, não conhece? - Madileni acenou a cabeça – Eu estava certo disso, você não é o orgulho do seu primo a toa. E acredite em mim, essa é uma rede de contatos que vai ser vantajosa para ele. – ele batia as pontas dos dedos enquanto falva.

Madileni terminou sua bebida, cruzou os braços e ponderou.

- Uhm, ok, então. Parece dentro das possibilidades. Mas eu quero receber em dinheiro, não quero ter de perder tempo explicando da onde vieram os créditos.

- O que?! - Miyukashi protestou - Ele não pode ir conosco, totalmente não pode, ele é um chato!!! E é perigoso!!! E... E.. E eu não quero!

Smile riu da inocência de Yuka. Apertou a mão de Gurake e os deixou sozinho para que entrassem em acordo na situação. Em poucos minutos estavam fazendo o caminho para o consultório no porão, conforme instruções de Ayan. Miyukashi estava com as bochechas infladas, contrariado nos ombros do irmão, mas Gurake não percebia, ocupado tentando puxar assunto com o menino do tapa-olho. Madileni tinha substituído a capa de sempre por uma capa de chuva camuflada, com plástico semi transparente, arrastando um pouco no comprimento. Ele encarava a espada nas mãos de Yuka.

- Vocês seguem alguma tradição estúpida de usar só armas que estão alguns séculos fora de moda ou o que?

- Espadas são ótimas, treinar esgrima revigora a alma e disciplina o espírito! Você também deve ter algo que te inspira.

-Explosivos.

Miyukashi se encolheu nos ombros do irmão.

-Hahahaha. Well, well, eu não devia esperar que você me dissesse mesmo!

- Estou falando a verdade. Sou especialista em ações táticas com os explosivos.

-...Você não é muito pequeno para isso?

-Sou maior que a criatura nos seus ombros. - Ele andava abrindo e fechando um canivete e o girando distraído entre os dedos da mão direita, aquilo deixou Miyukashi aflito.

- Pare com isso, vai cortar os dedos e se machucar.

Madileni parou por um minuto e encarou Miyukashi.

-Eu nunca me machuco.

- Então o que é isso no seu rosto?

- Não tem nada no meu rosto, coelhinho – ele fez com a mão um sinal de que iria cortar o pescoço dele se não se calasse.

-Crianças, crianças -Gurake riu- Sem brigar!

Bateram na porta do porão e Ayan abriu, revirando os olhos e saindo batendo os pés ao ver Madileni. Lienara o viu de longe e acenou para ele enquanto, sem cerimônias, o menino despejava a capa de chuva no chapeleiro da porta. Indiscretamente, Lienara apontava para ele e Miyukashi e gesticulava. O recém-chegado ergueu uma sobrancelha e mediu o mais novo com os olhos e se voltou de novo com a garota. Ela acenou com a cabeça afirmativo e ele apontou para Yuka em confirmação. Ayan limpou a garganta.

- O vira-latas e você se conhecem de onde?

Lienara inflou as bochechas para conter o riso e Zollrien se intrometeu.

- Vira-latas? Isso é um cachorrinho de raça, aliás, de raça tão pura que eu não sei se é um cachorro domesticado. Eu sei que você trabalha um tanto isolado, mas os agentes de campo do seu nível em geral já foram apresentados à Madie ao primo dele.

Miyukashi sentiu um olhar de provocação enquanto o ego do outro menino inflava, mas estava concentrado em outro ponto. Aquele lugar dava a ele um misto de revisitação e desconhecido que o inquietava. Se grudou na perna de Gurake que ia se ajeitando e tirando a boina enquanto procurava onde deixar sua espada. Zollrien apontou para a sala onde o paciente se encontrava e se dirigiu par alá. Antes o de seguir, Madileni esticou a mão para Ayan.

- Se é amigo de Lienara acho que te devo os cumprimentos. Acho que ela, como uma boa informante, não fala muito dos assuntos de trabalho em casa, mas essa senhorita gentilmente fez as fichas minha e do meu primo e nos intermediou até o comando local quando precisamos. - Yan encarou a menina mas ela fez a expressão de ‘você que não me quer muito envolvida no trabalho’ e o garoto continuou – Antes que você se questione, eu sou um agente misto. Tanto eu quanto meu primo na verdade. Somos de fora, da Aliança Central, mas quem aqui nessa sala que é daqui, não é mesmo? As magias das cidades portuárias são essa variedade encantadora.

Ayan apertou a mão dele com alguma resistência.

-Estamos precisando de alguém que leia saariano e possivelmente fale com um estrangeiro e esclareça umas coisas. Você serve para isso?

- Diferente da média do que eu vi nesse fim de mundo, eu sou uma pessoa educada. Os principais idiomas do oriente, alguns dialetos, línguas do deserto, obviamente as línguas correntes na Aliança. Eu sei o que for necessário.

Gurake se servia de café.

- Well, você não deve ter muito tempo pra brincar aprendendo todas essas coisas.

- O dia em que o império Britânico tiver metade das taxas de sucesso da Aliança nós questionamos a minha criação.

Gurake deu com os ombros de forma sincera. Lienara transferia para Madileni a ficha que tinha conseguido enquanto o menino espionava o que paciente na sala com Zollrien.

- Pela Aliança, Zollrien, você vai mumificar ele se colocar mais curativos! Unhas pintadas de vermelho, ele tem algum estilo mesmo arrebentado – Madileni olhou a ficha que tinha acabado de receber e pareceu ter uma súbita compreensão do que se passava. - ... Hei, qual exatamente é a ligação de vocês com o cara? Ele é da Loja de vocês?

Ayan, de braços cruzados no canto, desedenhou.

- Não somos uma Loja.

Gurake questionou.

- Somos sim, o Shiraiku é ruim nisso, mas somos!

- Não esse tipo de loja, Guu, ele fala de um grupo de trabalho dos nossos. – Lienara interveio - Somos apenas gente dividindo o aluguel. Bom, eu e o Yan não pagamos, mas quase isso. Nosso plano era na verdade apenas provocar o Shiraiku? É só um estrangeiro perdido, o navio dele saiu sem ele embarcar, levar esse aí até a polícia ou talvez pra embaixada dele e então fazer ele ficar uns dias na loja hospedado enquanto ele se resolve?

- ... Vocês pegaram alguém aleatório no meio do caminho pra incomodar um amigo...? - Todos os outros apenas apontaram para Lienara. – Vocês são muito toscos. Ok, notícias, esse cara não caiu do navio dele. Se vocês colocarem ele nas mãos da embaixada, é a mesma coisa que colocar ele nas mãos da Aliança da Salvação. Se ele cair nas mãos do Exército da Aliança, ele é um cara morto provavelmente.

Lienara olhou para o saariano e para Madileni.

- Ok, Madie, fontes? Não que eu não confie em você, mas não pode estar escrito isso na ficha dele, concordamos? Você é bom, mas não faz mágica bonitinho.

Madileni tirou de dentro da camisa a dogtag e a abriu em duas, uma tela em cada face, buscou um mapa holográfico e ampliou ele.

- Aqui, esse ponto. Esse reino no deserto está passando por um golpe. Esperem os jornais dos próximos dias, a imprensa comum vai trazer alguma versão fantasiosa dos fatos. Eu sei porque meu primo está lá. Ele foi ver de perto o Exército da Aliança da Salvação trabalhando. É meio que pessoal, ele não pode simplesmente acompanhar todas as operações do Exército, mas essa ele quis ver de perto. Eu insisti em ir junto, mas ele tinha motivos para eu ficar.

Ayan bufou.

- E por coincidências mágicas você sabe exatamente o que está havendo com o cara que achamos, aqui, a pelo menos um mês de viagem?

- Não é um mês de viagem se você for de zeppelin em vez de trem, mas acho que isso não te importa. O meu ponto é, o Exército nunca causa golpes, se você me entende, ele só resolve e pacifica regiões de golpe. Alguém precisa levar a culpa. Mais de um alguém geralmente. Você não vai me convencer que alguém com a ficha que nunca nem saiu do país antes viajou até aqui em uma época de golpe e está numa maca sem ser uma queima de arquivo fracassada.

- Well, então ele é alguém importante lá?

- Nope. – Madileni tirou do bolso um pacote de balas e se serviu de algumas – Provavelmente pagaram gente muito ignorante no navio pra se livrar de meia dúzia que iam incomodar se voltassem. Deve ter acontecido em muito lugar, o governo novo sempre assume com uma lista de gente considerada perigosa e fatalidades da rebelião. As vezes escolhem um aleatório pra ser considerado líder. Os jornais compram a história, o Exército compra o silêncio, a Aliança compra os recursos do novo governo. A República Oriental tem sorte, eles nunca conseguiriam fazer algo assim por aqui.

- Bom – Lienara bateu as mãos para chamar atenção. – Nesse caso, a gente pega ele e joga de volta onde achou, queríamos apenas um pouco de diversão, não problemas para nós.

- Tarde demais – Zollrien estava apoiado no batente da porta. – O amigo de vocês acordou já.

Madileni fez barulho mascando as balas e entrou na sala erguendo a mão em um cumprimento tosco. O paciente olhou para ele furiosamente enquanto era questionado se falava a língua comum. Nenhuma resposta e então ele mudou de tom e tentou na língua saariana. Dessa vez houve resposta.

- O que você está fazendo?! – Ayan interveio.

- O que eu fui contratado para fazer, não é?

- Acabamos de decidir que não queremos mais.

- Sinto muito – Ele puxou uma cadeira – não trabalho com devoluções sem a etiqueta. E meu primo vai achar isso divertido.

Sem pensar nem gaguejar ele prosseguiu se apresentando para o estrangeiro. Que olhava de fora via claramente que havia indisposição nas respostas que ele recebia, mas Madileni não alterava sua postura. Miyukashi acreditava que em parte ele estava apenas se exibindo.

- Nosso amigo aqui está me dizendo que chama Kiieth, isso eu já sabia, estava escrito na ficha dele, mas eu não sabia se eles preenchiam essas coisas com nomes civis ou de registro por lá. E ele era guarda no palácio de um dos filhos do rei local, o que não quer dizer muita coisa, eu já vi ninhadas de hamster que não chegavam na metade dos príncipes desses reinos. Mas isso não estava na ficha dele, dizia apenas escravo liberto, mas me parece indelicadeza questionar. Ou não, sei lá. – Ele comeu outra bala e voltou para a língua meio cantada.

As vezes ele gesticulava e por vezes Kiieth se recusava a responder em uma conversa que se estendeu por quase uma hora ignorando os espectadores. O menino se munia de mapas e acessava rapidamente páginas na rede, apontando com firmeza quando parecia ser questionado. De repente ele riu.

- Ele ainda acredita que os amigos dele vão voltar e resgatar ele. Ainda bem que eu vim com vocês em vez de ficar no bar, essa merda é hilária.

Miyukashi fez um resmungo com a garganta repreendendo o palavrão e o outro menino fingiu não ouvir. O estrangeiro proferia palavras curtas e secas contra Madileni, possivelmente defendendo sua certeza de resgate. Ele respondeu abrindo simultaneamente vários documentos na língua de Kiieth, entre arquivos de jornais, postagens em fóruns, fotos. Pronunciou apenas três palavras enquanto apontava e abanava as mãos indicando o fim de algo.

O saariano gritou e tentou se levantar da cama, caíndo de dor logo em seguida e ficando em profundo silêncio encarando os hologramas antes de, com um gesto, todos voltarem para o colar de Madileni, que saiu da sala e ignorando os olhares se sentou no sofá de espera ao lado de Miyukashi, ainda agarrado ao irmão.

- Quando ele quiser ser razoável eu volto a conversar.

- O que você disse para ele?

- Te interessa, coelhinho? Eu só disse a verdade.

- A sua verdade. Você pode estar errado.

- Não estou. Podia estar antes de falar com ele, mas agora não estou. O país que ele conhecia não existe, os amigos dele não existem, ele não existe. Acabou. Ele pode recomeçar ou não.

Ayan resmungou algo e Gurake fez uma expressão de dor e sem medir consequências deu um peteleco na orelha de Madileni que se virou surpreso, indignado e com um pouco de instinto assassino.

- Well, well, considere isso um castigo. Parece um pouco duro dizer para alguém que não pode voltar, você ainda é muito pequeno para entender o quanto machucou ele.

- Eu sou pequeno mas eu sei muito bem o que é não poder voltar, obrigado, passar bem.

- Well, você pode saber sem entender.

O médico acenou com a cabeça concordando.

- Oficialmente, exceto pela dor no corpo que ele vai ter intensamente, eu não tenho motivos para manter ele aqui. Não tem nenhum osso quebrado, nenhuma hemorragia. O que pretender fazer com ele?

Lienara ergueu os ombros.

- Cobre dele como achar que deve e deixei que se vire. Se ele não pode ser achado por aí, não vai muito longe sem te pagar. Essas pulseiras dele são como rotina na terra dele mas devem valer fortunas aqui.

Ayan discordou com a cabeça.

- Não podemos simplificar. Se ele não tem para onde voltar, solto por aí sem saber nossa língua ou a língua comum não vai ter chances. Não dou uma semana para uma alma bem-intencionada levar ele pra embaixada. Se ficar longe disso algum dos nossos vai achar bizarro alguém não fichado vagando por territórios restritos.

- Nesse caso, Yan, quem encontrar que decida se vai ajudar ou se vai empalhar e botar de decoração na sala. Por mim a piada acabou.

- Foi você quem começou a piada, Lie, eu só queria voltar para casa e curtir meu dia de folga.

- Well, levamos ele para casa então, era o plano original de vocês, não era? O que muda?

- Muda o tamanho do problema, é obvio. – Madileni estava no seu segundo pacote de balas e encarou Miyukashi – Mas parece que vocês já tem experiência em adotar animaizinhos perdidos.

Ayan riu pelas narinas da própria piada antes mesmo e fazer.

- Não se preocupe, não estamos interessados em um bicho de estimação da sua espécie, pode ficar e esperar seu tão incrível primo.

Madileni não ligou para a provocação. Kiieth olhava para o teto meio sem vida, absorvendo sua fúria e acreditando que a situação era uma mentira.

- Telefonem para a Comet – Madileni agora pegava, de uma das bolsas de couro presas em sua perna, um pedaço de chocolate embrulhado em papel alumínio – e mandem ela enviar alguém para cuidar disso. Vai acabar mais rápido.

A essa altura, Zollrien já tinha desistido de ficar na sala e se retirado para seu escritório. Lienara e Ayan recusaram a proposta imediatamente. Ela porque sabia que a líder dos informantes devia estar ocupada com coisas menos triviais. Ele porque já tinham recebido ajuda com o caso de Miyukashi poucas semanas antes, e não ia tirar dinheiro do bolso por isso, não em seu dia de folga. Se Kiieth já conhecesse a língua local e não estivesse debilitado, teria mandado todos ao fogo do inferno por discutirem como se ele fosse uma nova toalha de mesa.

Lienara a Yan concordavam em não leva-lo para casa, mas discordavam enormemente no ponto de prestar ou não alguma assistência. Ele considerava desonesto da parte de Lienara atrair o problema e depois jogar fora quando o humor acabava. Ela achava que Yan estava sendo sentimental demais e que era o direito deles simplesmente pular fora, não era nenhuma missão oficial. O tom de voz começou a subir e Gurake se ergueu entre eles alternando entre concordar com os argumentos dos dois, sem muita ajuda e espiar se o saariano estava reparando. Ele obviamente estava.

Madileni revirou os bolsos e cartucheiras atrás de mais doces mas ao não encontrar nada bufou e puxou do pescoço a dogtag, abrindo ela e procurando algum jogo enquanto escorregava no sofá, ao lado de Miyukashi. Este tentou alguma aproximação tirando do próprio bolso um caramelo. Madileni fez cara de desdém, mas aceitou. O mais novo sorriu.

- Achei que ia embora assim que acabasse sua tarefa.

- Pfff. Fiquei porque não me pagaram ainda. – Ele encarou Miyukashi no fundo dos olhos vermelhos, fechou o jogo e abriu uma pasta de arquivos na tela da dogtag. Digitou uma senha e comparou o conteúdo com o menino – Achei que Lienara estava louca quando eu cheguei, mas a informação bate. Nunca nem pensei em reabrir essa ficha de trabalho, mas agora que eu abri eu sinceramente estou decepcionado com você.

- ... Nos conhecemos de algum outro lugar?

- Eu estava lá quando te resgataram.

Miyukashi ficou incrédulo , esticou o pescoço para ler mas o outro fechou rapidamente a dogtag e se aoiou no braço do sofá com cara de tédio.

- Lá? Com meu irmão?

- Não idiota. Mas está escrito aqui que você não lembra então não é problema meu. E diga pro seu irmão que a próxima vez que ele tentar me disciplinar igual uma criancinha de internato eu corto os dedos dele fora. Coitada da Lienara, anda com um grupo que está destruindo a boa primeira impressão que eu tive dela.

Miyukashi desistiu de conversar. Os três mais velhos pareciam ter se decidido de algo. Ayan apontou para o menino com o tapa-olho.

- Baixinho, diga para nosso amigo bronzeado que ele vai ser nosso hóspede por alguns dias. E nos acompanhe até a loja, ele pode ter mais perguntas.

- Porque eu iria com vocês até a toca de rato em que vocês moram?

- Porque você quer receber em dinheiro parece um bom começo.

Madileni ponderou.

Enquanto se despediam, Zollrien ignorou totalmente o saariano sendo carregado por Gurake e Ayan e se concentrou em passar à Madileni horários de consultas enquanto apontava ao seu olho. Antes que Miyukashi comentasse algo, levou uma cotovelada entre as costelas.

Já não chovia mas garoava fino, a estranha comitiva subia as ruelas sob o olhar de julgamento de Madileni, que as vezes trocava frases agressivas com Kiieth, sem se dar ao trabalho de traduzir, mas não era necessário para que todos soubessem que ele não se dava ao trabalho de ser educado.

Quando abriu a porta, Shiraiku fez uma expressão de quem tinha esperanças de que voltassem sozinhos. A irmã mais nova dele os encheu de agradecimentos e se assegurou de acolher o recém-chegado. Gurake apenas tirou a boina e subiu para o sótão, Ayan e Lienara deram os ombros. Ninguém deu ao lojista uma explicação.

Após receber, Madileni se demorou observando a fachada da loja. Por fim abanou a cabeça e seguiu espalhando as poças d’agua em seu caminho de volta pensando onde poderia dormir aquela noite.