
Miyukashi saiu da aula e tão logo passou os portões da escola tirou da mochila um grande lenço roxo e amarrou na sua cabeça. Era contra o código de vestimentas, mas era um presente de Gurake. Já fazia ao menos um mês que as férias haviam acabado e ele tinha sido forçado à escola. Disparou pelas vielas que aos poucos se acostumou a reconhecer e logo alcançou a grande Avenida que margeava o rio que circunda a cidade nos lados em que esse não beirava nem ao Porto nem à Reserva Florestal. Geralmente alguém vinha acompanha-lo na volta da escola, mas dessa vez nem Kiieth estava por perto. O acordo tinha sido de que caso ninguém aparecesse em breve ele podia ir sozinho, mas no fundo ele ainda estava sob vigilância desde que se perdeu no Porto. Lienara sempre repetia ‘não escute as estatísticas da polícia, ainda existe perigo para alguém como você, você é lerdo’.
Não havia sido fácil convencer Gurake e Ayan de que ele podia conciliar estudos com atividades extras, mas após a intervenção de Kiieth, um pouco mais sensato, e Shiraiku, que só queria todos fora o maior tempo possível, foi determinado que Yuka poderia continuar a participar dos treinos nos fins de tarde com os dois. Ansioso para isso, ele seguiu pela calçada larga até visualizar esta se tornando a escadaria do templo. Um dia aquele lugar havia sido uma fonte de retiro espiritual, mas hoje em dia os monges que ainda cuidavam do lugar se preocupavam mais com o lugar como patrimônio histórico e as atividades que realmente ocorriam no lugar eram apenas a administração de uma biblioteca e aulas de artes marciais clássicas, dança e coisas relacionadas à cultura tradicional em geral. De tempos em tempos, movimentava a cidade em grandes festivais. O lugar ficava muito bem posicionado, entre a avenida costeira e uma boa visão do braço de mar entrando naquele rio. Atrás da edificação principal uma praça se estendia sobre a água, e era o lugar de treino de preferência de Ayan. Reservado o suficiente, e contextualizando o suficiente para Gurake não ficar perturbando a paciência dele. O garoto foi tirando de suas costas a mochila a medida que subiu a escadaria, com os olhos de íris avermelhadas varrendo toda a praça em busca do irmão, mas só encontrou Ayan com o rosto fechado sentado no chão sob uma árvore. Pela segunda vez em pouco tempo, haviam cigarros apagados ao seu redor.
-Guu está atrasado?
Ayan revirou os olhos e tamborilou os dedos impaciente. De uma forma inesperada para Yuka, ele bufou e cruzou os braços.
-Não. Ele não vem. Está ocupado organizando o sótão.
-Estão organizando o sótão? Isso é bom, não é?
Os olhos roxos de Ayan pareciam contrariados, ele abriu a boca e fechou diversas vezes sem dizer nada.
- Eu não gostei. Acho que você também não vai ficar feliz. Eu devia ter ouvido os sinais, muita gente me disse que eu iria detestar ele. mas eu perguntei para a Lienara e sabe o que ela disse? – ele imitou a voz dela – ‘Ah, Yan... Eu não queria que tivéssemos deixado Shiraiku na loja. Deixamos. Eu fui contra o pirralho. Ele ficou. Eu achei que Kiieth seria só uma tiração de sarro com o Shiraiku e agora eu estou negociando um emprego para ele. Quer saber? Dessa vez eu acho que pode sim ser interessante para nós que ele fique!’
Miyukashi fez uma expressão confusa, mas curiosa.
- Bom, isso quer dizer que.... Não vamos treinar hoje?
- Isso quer dizer que se eu sacar uma arma hoje, eu vou arrancar a cabeça de alguém fora.
Com essa declaração, o menino disse que seguiria para a loja. Queria ver de perto o caos. Ayan pensou muito e decidiu que iria junto, assim “quando você decidir que não quer ficar lá também, vamos dar uma volta juntos.” . Durante todo o trajeto, o ninja soltava o seu relógio de bolso, ornamentado com um dragão e preso em seu peito como um broche, o abria, olhava a tela como se procurasse uma desculpa para ir embora, o fecha a e repetia o processo, impaciente. Miyukashi levantava hipótese do que poderia ter acontecido. Subiram a ladeira da rua sem saída com a loja centralizada em seu topo e Ayan contou até dez antes de abrir a porta. O sino de vento soou e Shiraiku sorriu da cozinha, acenando para o garoto se aproximar.
-Yuka, bem vindo! Ah, e bom ver que você voltou, Yan, se puder ajudar com as coisas... – Ayan fechou o rosto e Shiriaku entendeu o recado.
A escada do sótão caiu no chão com um som alto, fazendo Kiieth, também na cozinha, dar um pulo na cadeira. Gurake desceu de lá e, fazendo um cafuné sobre a bandana de Miyukashi, foi acompanhar duas mulheres carregando caixas de ferramentas até a porta. Atrás dele, Lienara desceu saltitante junto de uma pessoa que Miyukashi não conhecia. Olhou esperando Shiraiku reclamar como sempre, mas para sua surpresa, por trás dos óculos redondos ele se ergueu sorrindo.
- Oh, o pequeno você ainda não conheceu, certo? Miyukashi, esse é o senhor Knuksi.
Ele se abaixou na altura de Miyukashi, sorridente e e esticou a mão, coberta por uma luva de couro sem dedos. O menino encarou seu rosto e então sua roupa, um casaco camuflado grosso, meio estranho para o clima. Em sua mente aquilo causava cócegas, mas ele ainda Não tinha certeza de onde o conhecia. O rosto parecia como o de qualquer outro estrangeiro que ele cruzasse na rua – e naquela cidade isso era normal, a exemplo da demografia da loja.
- Oh, você é um pequeno britânico como o Gurake? – Ele ergueu os ombros, indicando não ter certeza. – Oh, certamente é, esse cabelo e esses olhos tem sangue de lá, e sangue recente. Qualquer mistura apaga isso. Quantos anos você tem?
Se sentindo pressionado, Miyukashi buscou Gurake com os olhos. Este riu.
- Well, well... Uns 8, pelo menos achamos, Nuski.
Knuksi fingiu não ligar para seu nome ser pronunciado errado e continuou focado em Madileni.
- Oh, é uma ótima idade, acho que vocês vão ser bons amigos! Muito prazer meu jovem. Meu nome é Knuki, eu tenho 17, mas não por muito tempo.
Ao fundo, Kiieth cutucou Lienara. Ela confirmou com os dedos o valor daquele número. O saariano se levantou, caminhou até Knuksi e fez um sinal para Knuksi se erguer. O encarou de cima abaixo e então fez o mesmo com Gurake. Lienara cuspiu seu copo de água de rir.
- Aceite os fatos, Kiieth!!! Você é o mais velho da casa e só não é mais baixo do que gente que ainda nem entrou na puberdade.
Ele não precisava conhecer todas as palavras para se ofender, deu uma risada forçada de quem tinha algum desconforto com tudo. Knuksi também riu e disse que não podia fazer nada sobre isso em saariano. Ayan ainda estava emburrado no canto. Encarou Shiraiku.
- Por que mesmo essa pessoa pode ficar?! – O ruivo soltou entre os dentes.
- Oras – Knuksi riu. – Porque somos amigos?!
- Oras – disse simultaneamente Shiraiku – Porque ele está me pagando mais do que qualquer um aqui?
- Isso não é muito difícil – Lienara ergueu a mão como se pedisse a palavra – Só o Gurake paga algo aqui.
Ayan soltou um misto de gemido de dor e rangido de raiva, revirando os olhos.Miyukashi não conseguia entender porque Ayan estava tão irritado e, principalmente, ele ainda não tinha visto motivos para ele mesmo se chatear. O novato se levantou e em pouco estava sentado à mesa com Shiraiku, Lienara e Kiieth, assinando contratos digitais. Ayan se recusou a se unir a eles e Gurake parou ao lado do menino e deu um tapinha nas suas costas.
- Suba, mudamos tudo lá em cima! – Ele sorriu para Yuka e foi se sentar à mesa também.
Pirou no primeiro degrau desconfiado, encarando a mesa da cozinha, e sob o olhar de Ayan que o desafiava a subir. Passo a passo, se dirigiu ao estoque. Quando atingiu o topo, toda a confusão do sótão havia misteriosamente se ordenado. As caixas espalhadas e sem lógica haviam sido empilhadas na parede oposta a abertura da escadaria, mas sem cobrir a janela circular ou ultrapassar a rede de Lienara e Ayan, e davam a volta pela parede de forma discreta quando foi necessário.. No espaço entre as caixas e a escadaria, estava estirado o tapete em que Kiieth estava dormindo, com algumas almofadas ordenadas sobre ele.
No outro lado quarto, haviam surgido duas beliches, uma encostada em cada parede. Apenas um par de camas tinha colhões naquele momento, mas isso não reduzia a surpresa. Agora a outra janela estava claramente visível, sob ela uma cômoda, e um pouco afastada, uma mesa de centro baixa com almofadas em volta, sobre um tapete felpudo cinza. Na lateral entre uma das beliches e as caixas, formando uma divisão de cômodo improvisada mas eficiente, um biombo com estampa de bambus emoldurava um criado mudo com o suporte para a katana de Gurake. Em um canto, atrás da escada, alguém tinha conseguido enfiar um guarda roupas de duas portas com gavetas embaixo, num esforço real. As camas de cima da beliche encostavam levemente na parte inclinada do teto, muito próximas à parede, mas até disso já tinha se tirado proveito. Na estrutura do telhado, em uma delas, havia agora um suporte com ganchos em que estavam pendurados um capacete e um quepe, além de, sem constrangimento de estar inclinado, uma lousa branca e um painel magnético com um mapa preso. Ainda haviam restos da montagem espalhados pelo chão.
Considerando que Shiraiku ainda dormia em uma cama de armar no hall da loja, Miyukashi tinha a certeza de que ele não tinha pago por nada daquilo. Baseado nos lençóis da cama, ele deduziu que Gurake estava na beliche abaixo da enfeitada e jogou a mochila sobre o colchão, que continuou o mesmo, afundando com o impacto. Nem tudo era milagroso. Esticou os dedos para puxar a gaveta da cômoda e ver o que havia mais de novo, e ouviu risadinhas vindo da pilha de caixas.
- Eu não disse que meu primo era muito mais incrível que seu irmão?
Deitado de bruços meio pendurado no topo da pilha, Madileni sorria com o tapa-olho formando um conjunto medonho com a olheira funda que emoldurava o outro olho cereja. O cabelo estava todo penteado pra trás, com a franja presa na testa com uma faixa de cabelo toscamente improvisada e ele vestia um moletom muito velho.
- Você.
- Eu, coelhinho.
Miyukashi saiu correndo em direção à escadaria e Madileni desceu das caixas e o segurou pelo pé, fazendo o mais novo cair de barriga no chão. Juntou seu folêgo a fundo do pulmão.
- SENHOR AYAAAAAAAAAAAAAAN.
Lá de baixo, a voz meio menos intensa.
- Eu aviseeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeei.
Yuka livrou sua perna e se virou de frente, ainda no chão.
- O que você faz aqui?!
- Agora só tentando dormir, Knuksi mandou porque não faço isso há dois dias. Mas entre eu acordado e ele acordado eu acho mais sensato ele ter os reflexos inteiros.
- Eu não quis dizer isso, eu quis dizer o.que.você.faz.aqui ?
Madileni apenas olhou para tudo ao redor e suspirou. Não ia responder.
- E então, o que vocês fazem aqui pra se divertir?
- ... Nós jogamos.
- Video games?! – Havia alguma excitação na sua voz, mas Miyukashi se ergueu e, depois de abrir algumas gavetas e as portas do guarda roupas, puxou o tabuleiro de xadrez, e os Madileni se desanimou. – Me diz que vocês tem uma rede sem fio pelo menos?
- ... Eu acho que não, só a senhorita Lienara e o senhor Ayan tem Dispositivos Pessoais aqui, eles que devem saber.
- ... Televisão? Vocês tem uma televisão pelo menos?
O mais novo apontou, no estrado de uma das camas sem colchão, a televisão, com toda a extensão enrolada ao seu lado. Eles ainda não tinham uma tomada no sótão.
- ... Eu to usando a palavra errada ou ...?
- Não, aquilo é a televisão!
- ... Isso não é uma televisão! Televisões são coisas finais que vão em paredes como quadros. Aquilo é uma caixa com um espeto de metal enfiado em cima.
- É a antena...
Os degraus rangeram e cabeça de Knuksi começou a aparecer pela abertura no piso, Madileni correu para ele.
- Knuksi, não podemos ficar aqui, eles são bárbaros incivilizados. Knuksi riu e ergueu o primo do chão como uma criancinha. Atrás de Knuksi, Ayan estava parado na escada como se vigiasse o recém chegado.
- Já está a vontade o suficiente para ser mal agradecido, Madie? Vamos ficar aqui uns bons seis meses até termos um resultado com seu olho. - Miyukashi ergueu as sobrancelhas para Madileni lembrando que ele havia negado o assunto da última vez. Recebeu de volta um olhar feroz, mas o mais velho dos alpinos ignorou totalmente o diálogo silencioso e ergueu o tapa olho de Madie. Miyukashi torceu os lábios para não chorar. – Isso ainda está muito feio, eu estou realmente preocupado que estejamos tomando uma atitude tarde demais....
Madileni puxou o tapa olhos de volta para o lugar, bravo.
- Precisamos mesmo ficar aqui?
- Pois é, precisam?! – No fundo Ayan fez o coro.
- Sim, precisamos. – Knuksi ergueu Madileni e jogou ele na cama de cima. – Para a felicidade de alguns, eu vou dar uma volta e relaxar por hoje. Descanse por hoje, pirralho! – O menino segurou a manga dele e encarou. Knuksi sorriu de forma gentil e abaixou o tom de voz para o idioma deles. Sério, Madie. Você já fez demais nos últimos tempos. Durma.
Madileni bocejou e abriu os olhos. Ergueu a dogtag do pescoço e ligou a câmera frontal para tentar ajeitar um pouco o cabelo amassado e desistiu logo. Miyukashi estava sentado no novo tapete do chão, na mesinha, com a televisão sobre ela, e livros abertos e espalhados. A cada comercial ele puxava os cadernos e rabiscava algo.
- Quanto tempo eu dormi?
- Você tem um relógio nisso, não tem?
- Eu não sei que horas eram quando eu dormi. Faz muito tempo que eu não dormia dormia mesmo, eu sinto todos os músculos do meu corpo pedindo socorro.
Ele pulou da beliche e se sentou ao lado do outro, puxando um dos livros texto de referência para perto. Com seu cabelo para trás, Yuka teve um relance de todos os furos e piercings que ele possuía na orelha.
- Eles realmente precisam colocar o livros de história em forma de quadrinhos? Eles subestimam o Q.I. da pessoa que está prendendo isso.
- E como são os seus?
- Eu não vou para a escola desde que saí com o Knuksi. Mas agora com dez, se eu estivesse em casa eu deveria estar na Academia já. Uma base militar não deve ter quadrinhos nos livros base.
- Dez? – Miyukashi soltou o lápis um instante.
- Dez anos. Eu tenho dez anos.
- Oh. Seu aniversário já passou então? – Madileni ergueu a sombrancelha em dúvida e ele esclareceu – A última vez você disse que ainda não tinha dez.
Madileni corou e apoiou a mão no rosto emburrado.
- Isso é realmente relevante? Knuksi fará 18 em breve, ele deveria ter a maioridade dele, mas não estamos mais em casa. Que diferença faz então? – Ele passou os olhos por outra folha do livro. – Ah, isso está errado.
- O que? – Ele esticou o pescoço para ver de perto e Madileni empurrou com a mão sua bochecha para longe.
- Não houve um acordo entre o Império Oriental e a Aliança. O Império Oriental temeu perder a autonomia política dele... E eu acho que teria pedido mesmo... E então permitiu às milícias que assumissem um poder paralelo para barrar os avanços do exército sem estabelecer crise política.
Miyukashi encarou o livro e o menino com o tapa olho algumas vezes.
- E porque eu ia acreditar mais em alguém que não vai para a escola do que no livro de texto.
- Porque pessoas mentem, coelhinho, e livros são escritos por elas. E eu tive uma boa educação, sabia?
Antes que Miyukashi respondesse, Shiraiku subiu as escadas.
- O, muito bom, muito bom, vocês já ficaram mais amigos, então? Eu tenho um ingresso para o teatro, e eu gostaria de ter a loja inteira ao voltar... - Os olhos dele passaram confiantes por Miyukashi, que acenou positivamente com a cabeça, e depois por Madileni, que teve certeza que as pálpebras dele estavam vibrando involuntariamente, mesmo que ele mantivesse o rosto calmo.
- Onde estão todos? Meu primo disse quando voltava.
- Oh, eu não tenho certeza, eu... Eu evito perguntar sobre o que vocês fazem quando saem. – Ele olhou para Miyukashi.
- Meu irmão e o senhor Yan foram para a vigilía de sempre e Lienara ia apresentar Kiieth para um emprego. Não acho que eles voltem tão cedo.
Madileni se jogou no chão e se encolheu, bocejando de novo.
- Passei quarenta e oito horas acordado, eu não tenho a intenção de fazer mais nada enquanto não me for ordenado.
Shiraiku apenas respondeu forçando uma expressão de confiança e ajeitando os óculos, jogou o a avental em um gancho na parede, da onde também pegou uma bolsa em couro discreta, e saiu pela porta da frente, em um claro conflito interno com essa decisão. Voltou um instante.
- Se precisar de algo, Miyukashi, sabe que pode pedir para o nosso vizinho, ok? – Ele acenou positivamente.
Os dois meninos se entreolharam e ficaram ouvindo os passos dele se afastar e no final a porta fechar no andar de baixo.
- Esse cara, esse aí definitivamente não está no perfil que eu espero encontrar trabalhando com o nosso tipo de coisa. Ele não é uma má pessoa, mas isso vai matar ele do coração ainda.
- Ele se preocupa com coisas demais. – Miyukashi subiu pelas caixas para a janela da frente. – Ele está tocando a campainha do vizinho, vai pedir para ele ajudar se for preciso.
Madileni torceu a cara.
- Eu não preciso de uma babá, você precisa?
- Achix não é uma babá. É um cara estranho. Aliás, uns caras. Lienara diz que o vizinho deve ser uma excentricidade ou algo assim. – Ele desceu das caixas com cuidado.
- Heh. – Madileni olhou com desdém – Excentricidades não funcionam como as pessoas acham, mas vá em frente diga por que.
- Ah, na verdade são três pessoas no vizinho. As três respondem por Achix se você chamar, e é muito estranho avô, filho e neto com a mesmo novo civil. – Ele fez uma pausa e Madileni fez um grnhido para ele continuar. – E ninguém nunca viu os três juntos. É como se fosse uma pessoa só... Mas que são três...
- Huh.... – Ele soltou uma risada nasalada – Excentricidades não funcionam assim. Isso é coisa de desenhos animados, ela está te zoando e colocando coisas na sua cabeça.
Miyukashi acenou indeciso com a cabeça e ficou encarando seus papéis, sério.
- Eu deveria mudar minha resposta para o que você me disse?
- Oh, não, não – Madileni agitou as mãos negando - faz parte de ter conhecimento saber quando usar. O que você ganha contrariando os professores e os livros? Nada.
Miyukashi fechou o caderno, empurrou ele para dentro da mochila e se deixou cair sobre a mesa.
- Se você não tem de ir para a escola e sabe as coisas, por que eu tenho? - a voz dele tinha um tom magoado. - Gurake acha que eu vou me dar super bem na escola, mas é horrível!!! É lógico que eu não sei fazer essas lições, todos repetem que é só revisão e revisão e revisão e eu nem sei se um dia eu aprendi isso para revisar! Como eu vou me misturar com crianças que não tem nada a ver comigo?
- Ok, ok, o coelhinho é sensível, entendi. – Ele achou que Miyukashi iria chorar. Talvez fosse. - Faz sentido, realmente, faz todo o sentido, eu não pensei nesse lado. Eu não consigo me imaginar indo par a Academia hoje. Considerando sua ficha, acho surpreendente que você saiba ler, o idioma daqui é fácil de falar, mas é difícil de ler.
- Eu tenho uma ficha? – Ele só ergueu um pouco o rosto da mesa.
- É claro que tem uma. – ele tirou do pescoço o colar com a dogtag, abriu uma delas ao meio e foi clicando no ar pelas projeções holográficas e parou um instante ao encontrar uma tela de erro – Ahn? Hei, coelhinho, alguém já acessou sua ficha?
- Não sei. Nunca me disseram nada.- Parou um minuto, ainda com a bochecha esmagada contra o tampo da mesa - Talvez tenham, minhas memórias dos primeiros dias são bem confusas.
Madileni deslizou os dedos por mais umas telas e retornou mais erros.
- ...Eu tenho material bruto sobre você, mas ... Isso está bloqueado direto pela central daqui. - Analisou o menino de cima a baixo – Alguém lá gosta muito de você. Acho que é um sinal de que se quiser ver isso, vai ter de pedir para a Comet.
- E o material que você tem?
- Se ninguém pode acessar esse material, acho que eu não vou dar a mancada de sair oferecendo por aí.
O assunto entre os dois cessou por um momentos. Mesmo com a recepção ruim, comerciais coloridos saltavam na televisão, distraindo os dois. Letras passavam, animais digitais pulavam, nenhum dos dois meninos piscava. E então a televisão mudou para uma tela cinza e mal programada. Os dois juntos balançaram a cabeça saindo do transe. Miyukashi voltou para sua tarefa , Madileni escalou a beliche e foi fuçar em as mochila e na bolsa de Knuksi, largadas na cama. Yuka sentia seus neurônios fritarem e largou a lapiseira após um período curto, alongando os braços.
- Já cansou? - Madileni riu de cima da beliche.
- Vai demorar muito tempo para acostumar... - Ele perdeu a voz por um momento - O que é isso?!?
- Ahn? - Madileni fez cara de desdém - Uma pistola, duh. – Ele esfregava um pano embebido em líquido viscoso nela - É do Knuksi, herança de família. Parece que essa foi montada pelo nosso bisavô. Eu achei estranho ele largar aqui, ele gosta dela, mas ele tem mais umas cinco, deve estar com outra. A não ser... que ele esteja pelado. Knuksi nunca está desarmado. Ele dorme com os coldres das armas prontos para o combate. Ele é incrível. Mas já que ele deixou aqui, não custa dar um jeito nela, está muito maltratada.
-... Você... Sabe usar isso?
- Yep. - Seus dedos começaram a percorrer o objeto, com algumas ferramentas presas entre eles, e Yuka gelou quando ele removeu as balas - Mas não é minha área de especialidade. Só sou realmente bom na manutenção dessas coisas. - Ele apontou para o curativo no olho - Eu preciso fazer mais correções que o normal, sabe? -Madileni parou um instante e respirou fundo. – Você viu não viu?
Ele ergueu de novo o tapa olho e Miyukashi prendeu a respiração. Antes ele achava que o pior que podia acontecer era não ter um olho lá. Mas havia um olho. Um olho que mal se via a cor, corroído e lacrimejando, cercado de uma pálpebra queimada e uma ferida cicatrizando circundando ele todo.
- E é isso. Tentar mirar com um olho só é um saco, eu não tenho tanta noção de profundidade. Não afeta meu equilíbrio para andar por aí, mas está pior. Antes eu só enxergava mal, e então vieram as as manchas e foi piorando, piorando... Eu usava o tapa-olho apenas para evitar o desconforto estético, e então comecei a usar o tempo todo para não misturar a visão boa com a ruim. Knuksi percebeu e por isso estamos presos nesse fim de mundo até eu ter algum resultado de tratamento. Foi uma negociação cheia de condições de ambos os lados, ele vai tirar o melhor disso, mas não precisaria ficar tanto tempo se não fosse minha causa.
- E vai melhorar?
-... Não sei. Knuksi acha que sim. Eu não sei se ligo mais. – Ele suspirou e mudou de assunto, recolocando o tapa olho e voltando para a arma – Lienara e o irritadinho são pessoas boas. A maioria do ranking deles já não faz mais trabalhos de campo nessa frequencia, ficam sentados só esperando missões grandes e lucrativas. É perigoso, alguém tem de fazer para garantir o bem estar social, claro, mas... Eu não sei que merda eles fizeram... Mas deve ter sido grande para eles aceitarem estar num sótão sem condições nenhuma de vida. Você deveria sair disso antes de se comprometer mais.
- Eles trabalham porque a polícia não trabalha direito. – ele pensou em Gurake – E eu tenho motivos para não sair disso, seja o que for.
- Você nem sabe direito o que tem lá fora...
Madileni pareceu refletir sobre o assunto alguns minutos... Aprenda um pouco com a menininha falante e decore umas rezas. Você vai precisar quando se arrepender e for tarde demais.
Ainda no topo da mesa, a dogtag do menino começou a apitar. Ele pulou da beliche e, junto à dogtag no colar, puxou um pino pendurado e posicionou no ouvido.
- Ouvindo, Knuksi. – Ele ficou em pé no colchão de Gurake e puxou a bolsa transversal. Enfiou a mão dentro e puxou uma bolsinha com zíper, fina, em formato da cabeça de um urso de pelúcia, com olhos bordados. Madileni discutiu um pouco pelo telefone em uma língua enrolada que o mais novo não tinha muita certeza de qual era, mas pressupunha ser da Aliança Central. Desligou após um etempo e tirou da orelha o acessório, pendurando de volta ao colar. –O idiota esqueceu a carteira.
Miyukashi apontou a dogtag.
- Mas ele tem uma dessas, não tem?
– Oh, sim, ele é microchipado. Consegue sincronizar com o que precisar, mas isso não é tão prático. Ele não sabe o quão irrastreável estamos ainda, não quer usar créditos. Meu registro é novo, o dele mantém o antigo. Precisamos confiar em quem esconde nossos rastros se quisermos estar vivos amanhã, mas tudo tem limite, se pudermos evitar...
Miyukashi mudou a televisão de canal.
- E o que você pretende fazer? Ele vem buscar?
- Não, eu vou entregar. – Ele prosseguiu a se livrar do moleton velho e procurar roupas para se vestir. Após camadas de bolsas de couro presas na cintura, tirou a capa velha da bolsa e enfiou pelo pescoço aquele pedaço de pano destruído. - Quer me acompanhar?
Miyukashi riu e balançou a cabeça negando e agradeceu. A última vez que tinha saído sem o conhecimento de um responsável não tinha sido divertida. O sol já tinha se posto, ele não tinha um Dispositvo Pessoal para avisar que estava saindo, não tinha motivos para arranjar problemas. Madileni abriu um sorriso sarcástico.
- Ah, o coelhinho é um covarde com medo do escuro e medo de levar bronquinha, é?
- O que? Não! Eu só sou agradecido o suficiente para aceitar regras que me dão!
- Pfff. Ok, fique aí, sozinho. E torça para o vizinho não ser uma excentricidade, vai saber o que uma excentricidade fará quando souber que tem um coelhinho fofinho e sozinho aqui ... – Havia maldade na sua voz.
Ele seguiu devagar pela escada e em direção à porta. Encostou na maçaneta e contou até três. Miyukashi veio correndo escada abaixo, com os tênis nas mãos.
- Eu vou junto! Eu vou! Me espera!
O mais velho soltou a maçaneta, pôs a mão no bolso e esticou para ele uma lâmina.
- Não quero ser responsável por você. Pegue. - Miyukashi corou e respondeu baixinho que não sabia usar aquilo, e o outro torceu o rosto e empurrou nas mãos dele. - Pois deveria, pega logo essa droga. O que estão te ensinando, hein?
A Sweet and Dark Store ficava em uma localização que qualquer empreendedor compreenderia que estava condenada ao fracasso. Não vendia nada mais interessante que qualquer armarinho da região, e se encontrava no topo de uma subida, no fim de uma sem saída tão na periferia que o lote que fazia limite com seus fundos já fazia parte da reserva Florestal da cidade. Seus vizinhos imediatos eram, de um lado, uma casa pacata com um muro baixo e um jardim frontal, a casa de Achix, o vizinho, com seu filho e seu pai. O lugar ganhou uma boa examinada visual por Madileni quando eles saíram, e lhe deu um pouco de calafrios. Do outro lado, como em muitos pontos da rua, havia um pensionato. Naquela parte da cidade simplesmente havia uma concentração irracional de hotéis baratos e pensões, herança de uma reforma urbana de habitação mal feita.
Madileni de forma leve pegou impulso e foi subindo pela parede do hotel. Parou na metade do caminho quando percebeu que não estava sendo seguido. Soltou o parapeito da janela que estava apoiando e votou ao chão. - Você não sabe nada de parkour, sabe? – Miyukashi balançou a cabeça negativamente. – Ah, que maravilha, vamos ter de andar igual homens das cavernas... Ok, princesa, eu vou ser seu guia.
Passo após passo, ele foi seguido por Yuka pelas vielas estreitas entre os edifícios. Não havia muita iluminação por lá. No centro os becos ainda eram iluminados, mas naquela parte na borda extrema da cidade apenas as ruas principais tinham luminárias. Apenas das janelas das casas saíam frestas de luz. Miyukashi odiava passar por aqueles caminhos.
- Precisamos mesmo vir por esse caminho? Não podemos apenas descer a rua?
- Não podemos também colar nas nossas testas uma sirene e ligar? Nós costumamos ir por cima por um motivo: discrição.
- Acho muito mais discreto andar igual gente normal pela rua.
- Eu também achava. Até um certo coelhinho conseguir reparar em dois agentes mistos descansando numa pracinha qualquer...
- Oh, pelo amor... – ele revirou os olhos – O quão paranoico você é?
- Não é paranoia, é aprendizado de longo prazo. Estar vivo esta em jogo. Escolher por onde ir, escolher onde dormir. Hotéis por exemplo são péssimos lugares para se estar. Um sótão num lugar desinteressante? Um pouco melhor.
- Então onde você estava antes?
-Não é óbvio? Na rua. - Miyukashi atrasou um passo e engoliu seco - É claro, Knuksi sempre dá um jeito de passar a noite em alguma casa de entretenimento, o que significa que ele consegue uma cama, e eu tenho de ficar no salão e dormir na cadeira mais próxima. Ele até me arranjou onde ficar quando estava fora, mas sinceramente, eu não consigo me sentir seguro para dormir nesses lugares.
- Você estava babando lá em casa.
- Humpf. E o que tinha para me ameaçar lá? Você?
- Eu tenho treinado, ok? Me dê mais uns meses.
A essa altura, os dois já alcançavam a ponte que cruzava o braço de rio que penetrava a cidade, trajeto obrigatório para quem ia em direção ao centro de comércio. Nas calçadas laterais, crianças brincavam sem supervisão antes do horário da janta. Escurecia mais cedo aquela época do ano. Madileni riu sinceramente.
- Meses?! Eu já nasci treinando, eu sou um Alpiniste! Faça o que quiser, quem sabe em alguns meses você aprende a pular um muro.
Miyukashi teve um pouco de ressentimento. Se perdeu um pouco nos pensamentos e se viu obrigado a acelerar o passo para alcançar Madileni atravessando a movimentada rua principal antes que a passagem do bonde elétrico deixasse ainda mais distância entre os dois. Ele passou rápido para um novo beco, e então voltou com passos curtos para a rua principal. Na frente, a vitrine iluminada de uma bomboniere, com uma placa piscante indicando que o horário de funcionamento se encerraria em breve.
- Bom, a carteira é do Knuksi, e vai estar fechada até voltarmos... É isso, vamos comprar doces! Vou considerar como uma taxa de entrega.
-Você não pode usar o dinheiro dos outros assim!
- Ahn? Não quer doces? Você é esquisito! – Ele empurrou a porta. Miyukashi o seguiu protestando.
O garoto coçou o queixo e empurrou a porta de vidro, começando a encher um saco plástico com bombons.
- Você já nasceu treinando? Andando por aí com o seu primo e sendo um saco?
- Não seja idiota. – Ele jogou o saco de doces na balança do caixa e saiu da loja – Diferente de você eu tenho pai, mãe, irmã. EU nasci num lugar totalmente normal.
- Normal... normal?
Madileni parou um instante pensativo enquanto, na sua seguinte, a passagem da linha férrea soava solicitando um tempo.
- Bom, sim, acho. Acho que era normal, mais normal do que o que fazemos hoje em dia. Eu e Knuksi nascemos na Aliança Central, Central mesmo, nós somos alpinos da família Alpiniste. – Ele encheu o peito para falar. – Nossas casas ficavam as duas na propriedade doa família principal, Mamã é irmã do pai do Knuksi, e as casas ficavam numa fazenda enorme no topo das montanhas, onde fazia bastante frio.
- Oh. E você ia para a escola normalmente?
O trem agora passava abafando um pouco a comunicação entre os dois.
- Ah, sim. Eu ia para a a escola, Knuksi também, mas ele passava pelo menos 6 meses ao ano na Academia militar. Nós dois tínhamos de estudar muito e treinar muito além da escola, porque é isso que significa ter sangue Alpiniste. Mamã me acordava todos os dias e então eu brincava com Minna e ela penteava meus cabelos dizendo que gostava deles compridos, passava no laboratório para cumprimentar Papá e ia para a escola. Papá trabalha principalmente de casa, mas as vezes ele ia para alguma Base e sumia meses. E então eu voltava e passava o dia estudando os livros de Papá.
- ..Papá...? – deu uma risada.
- Cala a boca ou eu encerro o assunto... Mas como eu disse tínhamos de treina rmuito então além da escola no fim da tarde o meu tio chegava e nos obrigava a passar por um circuito de treinamento físico... O pai do Knuksi é bem, bem exigente com isso. Knuksi está em forma, mas ele iria reclamar se o visse. E depois disso haviam as aulas de idiomas, e o jantar e Papá me mostrava no laboratório coisas que explodiam, toda vez que eu aprendia algo novo corretamente ele me dava um bombom de cereja... e Mamã me dava um beijo de boa noite, as vezes Minna dormia comigo.
- Parece puxado...
- Humpf, isso não é nada. E nos fins de semana quando Knuksi estava lá as vezes podíamos usar a sala de treinamento de combate, ou os alvos de tiro. Esses Mamã fazia questão de me ensinar pessoalmente mas... Eu nunca vou ser bom como o Knuksi. Eu tenho mais talento para as coisas que Papá ensinava. Era para um dia eu entrar na Academia e seguir o rumo da família mas... cá estamos.
Miyukashi escutava soltando apenas grunhidos concordando e o deixou chegar até o final. Os dois agora podiam cruzar os trilhos e continuar seu trajeto.
- Eu acho que... a maioria dessas coisas é irracionalmente excêntrica. Não tem nada de normal nisso. Se crianças normais são como aquelas da minha escola, eu garanto que nenhuma delas tem uma sala de tiro ao alvo.
Madileni fez uma cara confusa e enfiou um chocolate na boca, empurrando ele para a bochecha como um esquilo, sem constrangimento de falar de boca cheia.
- Bom, foi assim que era normal para mim. Os Alpinistes são assim, e é por isso que quando chegamos na Academia somos melhores que os outros.
O mais novo não quis debater por falta de vivência com argumentos.
- E onde está essa família agora?
- Em casa. – Ele fez uma pausa – Em casa, bem longe daqui, onde eu não tenho certeza se dá para eu voltar...
Enquanto cruzavam mais vielas estreitas entre edifícios, Miyukashi pegou sem cerimônias um chocolate no pacote e o enfiou inteiro na boca, começando a tossir e esfregar a língua imediatamente.
- Mas o que raios tem dentro disso? Faz a língua arder!
- Licor. - Ele não se abalou e continuou a enfiar um por um na boca.
- Você não tem idade para comprar isso!
- ... É um bombom recheado. Não vai te embriagar. Não é uma garrafa de bebida.
- Isso é errado.
- Você é certinho demais, precisa corrigir isso se pretende ficar vivo até a maioridade por esses meios. Aprender um pouco mais de malícia.
A discussão sobre as atitudes de Madileni em desacordo com sua idade, com Yuka parecendo um mãe paranoica, se estenderam pelo chão de paralelepípedos até que Madileni parou de repente, conferiu sua dogtag e declarou que tinham chegado. Parecia um prédio comercial normal, mais alto que a região da loja, comum para o centro, mas suas portas estavam fechadas e parecia vazio, exceto por um vigia de mau humor sentado em um banquinho no recuo das portas de entrada. Miyukashi esperou que o outro falasse com ele e alguma coisa incrível acontecesse, mas Madileni só apontou com um dedo que iriam pela lateral entre esse prédio e o seguinte, uma passagem estreita em que os dois mal conseguiam andar lado a lado.
- A parte da frente é só uma fachada, aquela porta só acessa o térreo, não se liga com os outros pavimentos, quase um cenário.
- Você não conhecia aqui, conhecia?
- Nope.
- Como adivinhou isso tudo então?
- Er... – Madileni olhou para a dogtag. Na verdade Knuksi havia avisado por mensagem - Lienara trabalha em um lugar parecido. E eu tive bastante tempo sozinho para descobrir esse tipo de coisas enquanto ele esteve no oriente.médio. É bem interessante, porque durante o dia só gente como nós entra, mas é só você dizer que é um conjunto comercial e fica tudo certo. Ninguém realmente sabe o que acontece em todos os conjuntos comerciais da cidade, então Smile tem muitos edifícios. Para acessar o cassino temos de entrar pelos fundos.
Miyukashi fechou a cara repreensivo.
- Knuksi tem idade para entrar em um cassino?
- ... Seu irmão tem idade para ficar apostando nas Docas? – O outro corou – Está encerrada a discussão então.
Os dois seguiram pelo caminho proposto. A passagem se alargou um pouco quando chegaram aos fundos, em um beco largo o suficiente para que a sua dimensão comportasse uma escada metálica de emergência nos fundos do edifício, uma caçamba de lixo e meia dúzia de caixas de madeira empilhadas. Apesar de todos os lados serem cercados de edifícios, esse era o único com janelas voltadas para aquele lado. Cobertas com cortinas pretas pesadas, elas no entanto não ajudavam na sensação de estar em um grande poço, nenhuma luz saía do prédio. Miyukashi olhou para cima e, sem iluminação pública, não tinha nenhuma noção de que distancia exatamente estavam os pontos minúsculos das estrelas no espaço de céu visível. Madileni deu um tapa de leve na dog tag e pegou a carteira de ursinho no bolso.
- Você fica aqui, eu já volto.
- Eh? Não! – Miyukashi bradou. Não queria ficar sozinho.
- Quantos anos você tem mesmo?
- Pouco a menos que você!!!
- Mas eu entendo o que vai estar acontecendo lá dentro, você não!
- Eu sei o que acontece num cassino!
- É, mas esse ugar não é só um cassino e eu não quero ser responsável por te dar aulas rápidas sobre como a vida surgiu na Terra!
- Isso sequer faz sentido!
- Você. Aqui. Eu já volto.
A primeira reação de Miyukashi foi querer segurar a manga de Madileni e pedir para ele não ir, mas antes que ele pudesse fazer isso o outro subiu entre as paredes em direção ao topo do edifício, quase ignorando as escadas. Em instantes, se viu sozinho. Começou a olhar fixamente para cima, mas era um túnel longo, escuro e sem fim. Rodou procurando a passagem por onde eles tinham entrado. Era um ponto de luz bem fraco, e não compensava o resto. Ele andou com dificuldade até a escada metálica e se sentou, encarando os próprios pés.
Cada ruído de vento se propagava e fazia seu coração disparar de ansiedade, forçava a os olhos para ver o que estava à sua frente, mas não conseguiu mais definir os limites dos prédios, que pareciam ir em sua direção cada vez mais, tentando prensá-lo.
Não conseguia respirar e levou as mãos à garganta, puxando a gola da camiseta, mas não ajudou, sua cabeça começou a ficar pesada e girar e então sentiu seu corpo cair para frente lentamente, sem conseguir reagir. Antes que atingisse o chão, alguma coisa amparou seus ombros bruscamente e o chacoalhou.
- Oi, OI! O que houve?!
Se sentiu puxado de volta à realidade de repente, mas precisou de algum esforço para focar a silhueta do outro.
- Você foi atacado? Calmantes? Soníferos? – Madileni olhava para todos os lados desconfiado, já levando aos bolsos as mãos procurando armas e tentando encontrar um culpado.
- Não, eu... Acho que foi só uma queda de pressão... Não me dou bem com ambientes assim... –Ele cravou as mãos na capa de Madileni e deixou o corpo cair pra frente.
Lienara fechou a porta de Comet depois de acariciar de leve o rosto de Ayan, que ficou parado, em guarda, do lado de fora. Aquela era uma conversa entre informantes, ele não deveria participar.
- Oh, minha menina. Como vai nessa cidade de loucos? – Sobre sua mesa, monitores físicos e holográficos se misturavam na luz dimerizada.
- Muito produtivo, Senhora Comet. Tivemos gente nova na loja hoje, as coisas estão mais animadas.
- Oh, hohoho. Knuksi é um bom menino, trabalhou muito para conquistar um lugar nessa associação. Tratem bem ele enquanto ele estiver por aqui.
- Foi você que indicou a loja para ele, não foi?
- Ora, e por que não? O menino ia ter companhia, o maior foi fichado por você então não haveriam perguntas adicionais para ele... Você sabe, eu gosto muito de todos vocês, vocês são os filhos que eu não tenho, acho que eu tenho o direito de juntar bons meninos num lugar seguro se eles precisam. Anote aí, vou mandar mais gente ainda se eu achar que devo.
- Vai matar Ayan e Shiraiku do coração, senhora. – Ela andou devagar até uma mesa do canto e se serviu de chá antes de se sentar.
- Ayan não morre do coração coisa alguma. Ele tem de entender que eu os acolhi, espero confiança em retorno, não vou mandar até o ninho de vocês um perigo iminente. Agora Shiraiku... Ele parece hilário, devo conhecer ele pessoalmente algum dia. Um civil não costuma passar tanto tempo entre nós sem se manchar ou fugir. Como ele reagiu com Knuksi, eu disse a ele que podia ser um fator complicado.
- Bom, ele já conhecia o Madileni, Knuksi simplesmente ofereceu mais dinheiro, garantiu que era uma estadia temporária, alguns meses no máximo, e ainda trouxe móveis para o sótão. Ele tem espaço para alugar mais e mais caro agora se quiser. Vale mais que a loja! Ele até sorriu ao aceitar.
Comet sorriu também ao ouvir.
- Menino esperto. Os dois.
- É, mas hoje ele já aumentou a dose de remédio dele. A cada um que chega,, um calmante a mais.
- Bom, e do que se trata a sua visita? Veio apenas me dar as boas notícias de uma mudança bem sucedida?
Lienara respirou fundo. Comet largou todas as suas telas e cruzou os dedos, aguadando.
- O Zollrien me mostrou o que houve semanas atrás...
- Ah, Zollrien... Ele se acha acima de tudo porque sabe que não vamos achar um médico tão fácil...
- ... Pessoas morreram e não foi só essa vez. Nem só aqui. Tem algo lá fora. Eu vi os relatos. Em regiões de grupos diferentes.
- Lie, Lie... Estamos trabalhando nisso, eu juro. Gosto de acreditar que tenho olhos sobre toda a cidade, esse tipo de coisa fere meu orgulho. Smile está possesso.
- Eu sei, e eu quero ajudar. Não quero ficar em trabalhos restritos, me deixe ir a campo também. É onde um informante deve estar. Andando por aí e descobrindo coisas enquanto os agentes de campo vigiam e patrulham.
- Lie... Eu te entendo mas... você é uma boa informante. É o tipo de gente que eu quero dentro dos edifícios, é o tipo de ouvido que eu preciso atrás das paredes disponível para correr para onde eu precisar...
- Posso fazer as duas coisas. Não preciso de dedicação integral.
Comet se afastou na sua cadeira e fez uma expressão tensa.
- Você é jovem. Você não entende o quanto eu sofro de colocar uma menina em perigo. Eu já evito aceitar mulheres, minhas garotas tem de ser tremendamente fortes e mostrar para mim que não preferem uma vida de paz. Eu sou velha. Eu estive aqui quando quase estourou uma guerra na Aliança da Salvação, antes do exército crescer e virar o que virou. Eu vi as primeiras bombas de teste ao norte, que você só conheceu em livros escolares. Gelo milenar foi derretido, vírus foram ressuscitados, meninas morreram muito mais do que homens, principalmente no Império Oriental.... Éramos mais frágeis como povo e como mulheres... A Aliança se salvou até nos quesitos ambientais, quase nada do que fizeram foi carregado para eles... – Sua expressão tinha um misto de tristeza e raiva. – Bastardos ainda tentaram se expandir para cá enquanto ofereciam ajuda... Desculpe, Lie, você ainda é um caso pior, você tem gente que gostaria de te ver morta. Eu já disse mais de uma vez, eu posso te proteger aqui, mas eu não posso intervir caso te encontrem... Eu não vou te colocar nas ruas. Mas caso isso não se resolva logo, todo mundo vai acabar sabendo, informantes e agentes de campo igualmente. Todos vão estar no mesmo foco.
Lienara abaixou a cabeça e colocou a xícara de chá sobre a mesa. Não quis responder.
- Bom, Lie, minha menina, se tem algo mais que eu possa ajudar...
- Ah, sim! – Ela recuperou a compostura – Kiieth. Você recebeu a ficha dele.
Comet arrastou um mouse e abriu pastas à sua esquerda.
- Ah, sim, sim, o saariano que vocês adotaram. O que tem ele?
- Estive pensando que ele precisa de um emprego, ele já está há meses na loja. Ele ainda não se comunica totalmente, mas não é totalmente alheio, estive pensando em introduzir ele em algum dos estabelecimentos.
- Defina que tipo de estabelecimento, saarianos são orgulhosos.
- Pensei apenas como host. Se ele quiser ir além disso, que vá pelas próprias pernas, ele é dono do próprio corpo agora. Ele vai interagir, se comunicar e aprender mais... E ele tem um visual diferente mesmo para essa cidade, estamos cheios de estrangeiros, mas ainda não conheci outro saariano como ele.
Comet ampliou as fotos da ficha e refletiu um instante.
. Uhm... Que seja, leve ele para o centro, vamos ver como ele se sai. Ele tem algo contra homens?
- Nunca disse nada sobre nenhuma preferência dele.
- Deixemos ele se descobrir então. Agora vá, minha menina... E não preocupe muito o Ayan, ele só quer você bem... E eu também, ainda aguardo vocês oficializarem, tenho certeza que vocês ainda vão ter um monte de filhotinhos para eu apertar as bochechas.
Lienara riu.
- Ainda há muito tempo no futuro para decidir isso!
- Oras, eu não sou mais tão jovem assim para ficar esperando!
Miyukashi abriu os olhos abruptamente e tossiu de forma intensa. Estava sentado no saguão as loja, apoiado no balcão e Madileni segurava um copo vazio na sua frente. O menino mais velho caiu de joelhos quando Miyukashi acordou, e logo trocou o alívio por fúria.
- Por que você não me disse?!?!?!
- Disse o que...? – Ainda se sentia mole. Ele começou a perceber que estava molhado. Suas mãos tremiam de leve.
- Que você passava mal de repente?! Eu tive de te carregar até aqui! E você tinha razão, o vizinho é assustador, ele veio ver o que estava havendo enquanto eu procurava as suas chaves, ele me deu calafrios!
- Eu... Eu Não sei... As vezes eu me sinto estranho com Gurake e o senhor Ayan mas eu nunca desmaiei... Tudo... Tudo começou a me apertar.... Eu me senti sozinho, muito sozinho... Não faz sentido mas...
Madileni fez uma expressão pensativa e preocupada.
- Hei, coelhinho. Você não se lembra de nada mesmo? De antes de estar aqui? – Miyukashi negou com a cabeça - ... Ok, ok. Só perguntando mesmo. Eu vou colocar uma roupa mais confortável. Você vai precisar de um banho depois do tanto que eu te arrastei e ainda joguei água por cima.
Miyukashi segurou a capa dele quando ele tentou se levantar.
- Não me deixe sozinho ainda. Você pode me chamar de fracote depois.
- Ok. - Miyukashi se surpreendeu com a resposta. – Vamos juntos. Eu vou ligar aquela coisa que vocês chamam de televisão também. Ruído de fundo deve ajudar. Mas eu não vou tomar banho com você, considera companhia do lado de fora mais do que minha obrigação.
Ele ajudou o mais novo a se levantar e a subir as escadas.
- É sempre assim aqui? Você fica sozinho?
- ... Não, as pessoas tem horários malucos, mas quase sempre tem alguém aqui. Kiieth, senhor Shiraiku lá embaixo...
- Entendo...
Os dois aumentaram o volume da televisão ao máximo e ainda podiam ouvir algo quando desceram para o banheiro. Madileni sentou do lado de fora. Miyukashi levou um tempo para voltar a se sentir comunicativo.
- ... Hei, Madileni.
- Madie, pode chamar de Madie.
- Ok, hei, Madie. Normal ou não, por que você largaria uma mãe que te acorda todos os dias pra dormir na rua?
Madileni deu uma risadinha cínica.
- Você quer a versão bonita ou a realista da história?
- A que você achar que deve dizer, é estranho você sendo legal.
- Bom, Knuksi estava saindo de casa, eu amo minha irmã, mas ele era quase um irmão mais velho. Isso faz pouco mais de um ano e meio, quase dois. Ele não disse pra ninguém, ele desertou durante a noite, eu... Eu ainda não sei direito o que motivou ele. Eu sei o que ele quer fazer, mas não porque ele levantou e decidiu fazer naquela noite. A outra opção era ficar e ser um bom menino, fingir que estava tudo bem, até que um dia me enfiariam um uniforme, me dariam uma arma na mão, uma patente alta, talvez um cargo público e me convenceriam de que eu estava certo e pronto. Bom, Knuksi estava indo embora, e a última coisa que eu queria era me tornar só mais uma peça inerte no que ele sempre me contou que estava errado.
- Essa é a versão bonita?
- Sim...
- E a realista?
- Você disse que eu podia contar a que eu quisesse. – Miyukashi ia dizer que estava tudo ok, mas ele continuou. – A versão realista é que... Eu acho que eu também não gosto da idéia de ficar sozinho. E alguém tem de tomar conta do Knuksi, claro.
- Você se arrepende?
- Você não pode se arrepender de nada, coelhinho, a não ser que você tenha uma máquina do tempo. Nesse caso, você volta e arruma as coisas. Se não tiver, você tira o melhor e lida com isso.
Na manhã seguinte, Miyukashi acordou com Madileni jogado sobre ele, no tapete do quarto, a televisão ainda ligada. Haviam pacotes de salgadinhos abertos em volta deles, muitos papéis de chocolate espalhados e alguém tinha colocado um cobertor sobre a dupla. Empurrou Madileni para o lado, e esse apenas rolou para o lado e coçou a barriga. As duas beliches estavam bagunçadas, alguém tinha dormido alí, mas isso Não tinha despertado os dois meninos, que tinha adentrado a noite. Desceu as escadas, seguindo o barulho mais alto que o normal.
A cama de armar de Shiraiku ainda estava armada no meio do salão da loja, e o café da manhã seguia mais agitado que o normal. Lienara estava sentada do lado de Kiieth, vestido em roupas pretas justas com muito couro e fivelas e trocava piadas que o menino não entendia com Knuksi e os três riam, sendo cortados eventualmente por Ayan, satírico, com olhos que ainda estavam descontentes.. Gurake limpava o chão repleto de cacos cerâmicos, sob gritos de Shiraiku. De alguma forma, aquela bagunça lhe parecia reconfortante.
Gurake insistiu em compensar o dia anterior de treino em uma sessão intensiva e Ayan aceitou em parte apenas para não passar o dia preocupado com Lienara, que se recusava a comentar o que estava pensando, e para desgrudar Knuksi dele. Dessa vez as aulas passaram rápido, e Gurake estava no portão para busca-lo. Ayan e Miyukashi se sentaram no muro do Templo, e ficaram assistindo Gurake apanhar de Madileni, que tinha se oferecido como dupla de treino. Após algum tempo, Ayan percebeu os olhos do menino acompanhando com mais atenção que o normal cada movimento da dupla e seus dedos se deslocando devagar os imitando.
- Senhor Yan.
- ...Diga. O que o terrorista em miniatura enfiou na sua mente.
- Quanto tempo eu vou demorar para lutar assim?
- Vai depender de você só. Treinar alguém dá trabalho e eu já me arrependi de ter aceitado o Gurake. Ele não é de todo ruim, mas é um idiota. Você é forte. Vai ser melhor que esse demônio encarnado em dois tempos.
Miyukashi apenas deu um sorriso como resposta.